X Congresso Brasileiro de Psicoterapia Existencial

A ANSIEDADE DO TERAPEUTA DIANTE DO DESESPERO DO PACIENTE:

Conferencista: Denis Eduardo Batista Rosolen

O momento da psicoterapia   é um encontro entre duas subjetividades, com suas respectivas historicidades, é aquilo que acontece no entre. O diálogo daí decorrente diz das  pessoas presentes no contexto e diz obviamente do contexto em si. O terapeuta está na sua atuação apoiado sob o nada que é inerente à própria condição humana, não pode num instante saber se aquilo que parece ser é o que realmente é, ou se é disfarce, ilusão perceptiva ou distração. O terapeuta se norteia por uma abordagem que pouco lhe serve para certificar-se da efetividade de sua ação pois não podemos prever os rumos escolhidos pelo outro nem tampouco lembrar da abordagem sem perder a afinação na relação,  mas, apesar disso é convocado, na ética que perpassa  esta relação, a pensar, sentir e agir no instante em que é chamado, pois, do outro lado da sala, no olhar falante daquele que convoca,  há pedidos, uns diretos e outros  meio perdidos, de qualquer forma eles nos chegam de uma forma que é  própria deste indivíduo, eles são,  conscientes ou não, expressões do desespero humano.

Quando falo da posição do terapeuta ante a impossibilidade de se ter certeza e na convocação à ação que a responsabilização resultante da escolha de ser psicólogo clínico supõe é que  intento ressaltar a condição da ansiedade no terapeuta, que se expressa na forma de:  desamparo, impotência em solucionar, procura incessante por um porque ou por uma consciência de culpa no processo, se manifesta no não saber para que lado ir quando diante de possibilidades,  mas, por extensão estou falando também de coragem sempre possível para ir além das determinações que  enfraquecem ou fixam, dos medos pseudo-auto-protetores, das culpas onipotentes, e, apesar de tudo ou do nada, fazer o que a situação no momento pareça pedir para uma consciência interessada.

Quando me refiro ao desespero do paciente em questão quero dizer de um  apelo emudecido pela desesperança, mas ainda assim um  apelo para a compreensão e atuação do terapeuta que compreende que pior que o desespero são as manobras para manter-se inconsciente dele. O desespero pode se dar em alguém num nível elevado de consciência com sua dor concomitante  ou na inconsciência de um “tanto” faz hedonista e anestesiado. Esta conferência tem o objetivo de falar das vicissitudes de uma situação que vivenciei no transcurso de um  tratamento psicoterápico que realizei, onde será focado a questão da ansiedade minha enquanto teraputa  num dos encontros com o  desespero humano que tive na minha atividade clinica.

Intento com isso trazer à luz de uma vivência uma reflexão sobre a  prevalência e importância  do fenômeno da  ansiedade no transcurso tanto do processo psicoterápico quanto de uma sessão de psicoterapia, bem como através disso favorecer a ampliação do horizonte de compreensão tanto da ansiedade quanto do desespero seguindo as reflexões de Kierkegaard e Tillich, uma vez que dês-espero (que é a não esperança) e esperança são palavras que remetem ao futuro, assim como a ansiedade também remete ao futuro só que  em formas diversas, por exemplo:   medo de “o pior acontecer se…” ,” medo de não dar conta caso…” , “ medo de estar errado se…”, “medo de perder o prestígio quando…”. A ansiedade assim entendida é uma tentativa penosa de fugir do desespero e o desespero uma ausência momentânea de ansiedade pois neste caso já não há nada a temer perder, quando nada resta ou se espera ganhar. Tanto um quanto outro são momentos na consciência da finitude humana.

Cabe, portanto ao terapeuta refletir sobre como lida com a espera na sua vida,  ter consciência sobre o que espera, uma espécie de fé, porém uma fé advinda da sua experiência de ser e deixar de ser, estar e deixar de estar, perder-se e encontrar-se (não me refiro à fé dogmática), só com esta vivência conscientizada é que podemos suportar a espera, o desespero e a ansiedade. Enfim, é importante experimentar ansiedade, desespero e coragem em si  para poder compreender e não se perder no desespero do outro, situar-se percebendo-se e optando ante  os términos evitáveis e inevitáveis da vida.

 

 

 

 

 

 

A ATUAÇÃO INTERDISCIPLINAR EM GRUPO DE APOIO À ADOÇÃO DE TOLEDO/PR -  GAAT

 

Adriana Dias Basseto [1],

 

 

INTRODUÇÃO

 

A psicologia jurídica surgiu da unção entre a psicologia e o direito, com a finalidade de um completar o outro através dos conhecimentos de cada área. Pois o direito em sua maioria traz à psicologia conhecimentos referentes às leis e conseqüências judiciárias. E a psicologia, de acordo com Jesus (2001), traz em seus pressupostos conhecimentos referentes à conduta humana sendo que esta é variável conforme as regras e padrões sociais de comportamentos adquiridos por um sujeito, em sua interação com o meio.

O objetivo da Psicologia Jurídica é o da reintegração social, ligada a novas formas de lidar com a vida social. Nota-se a importância de cursos ligados à área social para a formação de psicólogos que atuem na área jurídica. Há uma exigência ao psicólogo de não trabalhar somente com a pessoa em questão de forma isolada, mas promover intervenções no contexto social daquele sujeito, proporcionando um momento de escuta, acolhimento e um suporte emocional.

O trabalho do psicólogo jurídico apesar de estar sendo cada vez mais requisitado no direito confronta-se com uma grande dificuldade em relacionar-se com a obrigatoriedade da definição de questões que, em Psicologia, não são definidas. Há uma exigência por parte dos juizes de um parecer definitivo. Desta forma, o psicólogo jurídico que atua nesta área, fica sendo responsável por oferecer uma certeza, o que é muito criticado na Psicologia. (JESUS, 2001).

Este trabalho refere-se ao Projeto de extensão “Grupo de apoio a Adoção de Toledo/PR – GAAT”, um dos trabalhos de extensão realizados no ano de 2010, vinculados a PUC/PR – Toledo, o curso de Serviço Social da UNIOESTE/PR e o Fórum de Toledo/PR.

O grupo de trabalho é constituído por uma equipe interdisciplinar, de estagiários de psicologia e de serviço social, equipe técnica do SAI (Atendimento a Infância), promotores e juiz da Vara da Infância e da Juventude e os candidatos a adoção. As oficinas são realizadas em forma de grupo de apoio aos casais e pessoas interessados em adotar. O modo instrumental em trabalhar a oficina tem como base o aconselhamento psicológico na visão Fenomenológico-Existencial.  De acordo com Feijoo (2000) o processo de escuta e fala equipara condições de perceber expressões autênticas e inautênticas do individuo e deste modo permitir que os mesmos tenham condições de reconhecer-se.

As oficinas foram organizadas e estruturadas de modo a trabalhar as expectativas dos adotantes, seus medos, expectativas, desejos, receios, mitos em relação a adoção tanto de bebês quanto de crianças maiores.

O Estatuto da Criança e do Adolescente no que se refere ao atendimento à crianças e adolescentes, tem como base a Doutrina da Proteção Integral que, por sua vez, tem por norte a Convenção das Nações Unidas, que qualifica as crianças e adolescentes como sujeitos de direito e de obrigações para o exercício pleno da cidadania.

 

OBJETIVO

 

O presente projeto teve como principal objetivo acolher, acompanhar e manter um espaço de discussão, de escuta e reflexão exclusiva para os casais e candidatos a adoção, buscando, minimizar suas angustias e ansiedades.

 

REFERENCIAL TEÓRICO

 

A Psicologia Jurídica é um que ainda no momento vem sendo reconhecida sua importância apenas por parte de alguns poucos juizes dentro da jurisdição. Atualmente os psicólogos que trabalhavam na jurisdição não abrangiam este título, a não ser nas penitenciárias, ou seja, os psicólogos eram chamados de técnicos. Os psicólogos então, prestavam concurso para ser comissários ou técnicos, onde uma de suas funções era a de resgatar a criança abandonada na rua e providenciar o encontro com sua família (não sendo um trabalho psicológico e sim social). (BRITO, 1993)

Segundo Brito (1993), a história nos mostra que a primeira aproximação da Psicologia com o Direito ocorreu no final do século XIX e fez surgir o que se denominou “psicologia do testemunho”. Esta tinha como objetivo verificar, através do estudo experimental dos processos psicológicos, a fidedignidade do relato do sujeito envolvido em um processo jurídico. Desta história inicial decorreu uma prática do profissional de psicologia voltada quase que exclusivamente para a realização de perícia, exame criminológico e parecer psicológico baseado no psicodiagnóstico, feitos a partir de algumas entrevistas e nos resultados dos testes psicológicos aplicados.

O escopo da Psicologia neste campo de atuação, na área jurídica, é o da reintegração social, ligada a novas formas de lidar com a vida social, para explicitar o trabalho apresentamos alguns exemplos como, os objetivos daqueles que trabalham na Vara da Infância e Juventude que é o de recolocar crianças e adolescentes em uma nova família, na escola, proporcionando possibilidades para que estes possam atingir uma educação e formação e, ainda cuidar pelos Direitos e Deveres destes, fazendo com que seus direitos sejam respeitados, bem como assisti-los ao que se refere às condições familiares e também de trabalho, dentre outras situações que envolvam crianças e adolescentes[2].

Conforme Brito (1999), o papel do psicólogo jurídico é o de confrontar a discussão acerca da prática do psicólogo em diferentes campos de atuação da psicologia jurídica: o Direito de Família, a Justiça da Infância e Juventude e Sistema Penal.  Atua no âmbito da Justiça, colaborando no planejamento e execução de políticas de cidadania, direitos humanos e prevenção da violência, centrando sua atuação na orientação do dado psicológico repassado não só para os juristas como também aos sujeitos que carecem de tal intervenção, para possibilitar a avaliação das características de personalidade e fornecer subsídios ao processo judicial, além de contribuir para a formulação, revisão e interpretação das leis.

Avalia as condições intelectuais e emocionais de crianças, adolescentes e adultos em conexão com processos jurídicos, seja por deficiência mental e insanidade, testamentos contestados, aceitação em lares adotivos, posse e guarda de crianças.

Segundo Caires (2003), todas as tarefas do psicólogo exercidas nas instituições de Direito é de grande valia, à medida que podem, com sistematização, não apenas somar entendimentos e subsídios extraídos da prática psicológica, como também promover, a partir de reflexões e debates, novas diretrizes para reformar o complexo Sistema Judiciário.

O interesse da criança é um critério jurídico sempre que a situação requer a intervenção do magistrado e que assegure os Direitos e Deveres da criança ou do adolescente. (BRANDÃO, 2005).

Deste modo o interesse da criança e do adolescente se pauta na condição de sujeitos de direitos[3] de acordo com Brandão (2005) a partir da oitiva dos mesmos os laudos ou pareceres se tornam um aparato de porta-voz da criança, adolescente e dos próprios candidatos a adoção.

 

CONCLUSÃO

 

A dedicação à saúde mental dos indivíduos deve ser uma constante em qualquer esfera em que atue o psicólogo. Nesse sentido, Brito (1999, apub SILVA, 2004) sugere que se promova uma reflexão crítica dos impasses interrogantes constantemente dirigidos aos que atuam na área. Partindo dessa premissa, conseguimos identificar a importância de identificar nos participantes as necessidades que apresentavam naquele determinado momento.

Segundo Jesus (2001) esta interação dá-se no momento em que há à aplicação da Psicologia no mundo jurídico, de forma clara e objetiva. E a junção de um equipe interdisciplinar colabora nos aspectos teóricos, explicativos, como também na aplicação de um trabalho capaz de auxiliar no crescimento, reflexões e esclarecimentos relativos as preocupações e expectativas a adoção.

Na execução das oficinas foram observados os meandros peculiares à natureza humana: fidelidade a sua intenção, sinceridade, preocupações. E durante a fala pautada na escuta e na fala dos integrantes buscou-se compreender e sentir a emoção, os medos, receios em adotar implicado no que sustentam o desejo em ser pais e que dão veracidade aos seus argumentos.

Durante as oficinas ainda fez se necessário expressar que as melhores condições ressaltadas não se devem somente as condições econômicas, mas ao bem-estar e proteção da criança e do adolescente, bem como resguardar os Direitos e Deveres dos mesmos.  Os Direitos que são expressos para a criança e ao adolescente de acordo com o BRASIL art. 17  “(…) respeito [que] consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, idéias e crenças, dos espaços e objetos pessoais”.

Já os Deveres é “dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor”. (BRASIL, art. 18).

Observou-se uma também uma boa receptividade a metodologia do trabalho. Pode se perceber que trabalhar com candidatos a adoção é muito importante, pois a presença de um filho seja ele biológico ou adotivo provoca modificações na estrutura/ dinâmica familiar. Por isso, notou-se que os maiores ganhos na execução do trabalho foram de possibilitar as trocas, escutas de expectativas, experiências entre os participantes. Além disso, o grupo possibilitou um espaço de discussão a respeito dos anseios, receios, medos, angustias, inseguranças, proporcionando o alivio destas. Ainda, notou-se, em muitos casos, o grupo se constituiu num espaço de referência e esclarecimento de dúvidas, responsabilidades, direitos e deveres, oferecendo orientações acerca das necessidades dos candidatos.

Salienta-se, também que os estudos realizados por ambos os campos do conhecimento vêm valorizando a comunicação existente entre Psicologia e Direito e as demais áreas de atuação como um amplo processo de complementaridade e mútua influência, sem que nesse processo, como aponta Martins (1999, apud SILVA, 2004), cada uma das ciências abandone seus limites e especificidades.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Estatuto da criança e do adolescente comentado: comentários jurídicos e sociais. São Paulo: Malheiros, 2002.

BRITO L. M. T. “SEPARANDO”: “um estudo sobre a atuação do psicólogo nas Varas da Família” , RJ, Relumbre, 1993

 

_____________ Temas de Psicologia Jurídica.Editora. Relume Dumará, RJ. 1999.

 

CAIRES, M. A.– Psicologia Jurídica: Implicações conceituais e aplicações praticas, Vetor, São Paulo,  2003

FEIJOO, A.M.L.C. de. A Escuta e a fala em psicoterapia: uma proposta fenomenológico-existencial. São Paulo, Vetor: 2000.

JESUS, F. de. Psicologia Aplicada à Justiça. Editora AB, Goiânia, 2001

SILVA, D. M. A perícia psicológica no processo civil brasileiro. Campo Mourão – PR: 2004.

SILVA, E. Z M. Psicologia Judiciária: Um Caminho em Evolução, 2004. Disponível em < http://www.apmbr.com.br/revista2/psicolo.htm>. Acesso em: 02 jun. 2008.

BRANDÃO, E. P. A interlocução com o Direito à luz das práticas psicológicas em Varas de Família. IN: BRANDÃO, E. P., GONÇALVES, H. S.(org.). Psicologia Jurídica no Brasil. Rio de Janeiro: NAU. Ed., 2004. 2ª. Ed.

 

 

 

 

 

 

[1] Coordenadora  e docente do Curso de Psicologia da PUC/Toledo. Professora supervisora do Projeto de Extensão. E-mail: adriana.basseto@pucpr.br/ fone: (45) 8403-1852

[2] De acordo com Estatuto da Criança e do adolescente (2002),  criança é a pessoa até doze anos de idade incompleto, e adolescente entre doze e dezoito anos de idade.

[3] Novo olhar em relação a criança a partir da implementação do Estatuto da Criança e do Adolescente baseado na doutrina da proteção integral.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

RESUMO EXPANDIDO

SENTIMENTO DE INADEQUAÇÃO, PRÁTICA PSICOLÓGICA E CONTEMPORANEIDADE

André Roberto Ribeiro Torres[1]

INTRODUÇÃO

Costumeiramente citado nos meios científicos e populares como um conceito subentendido, o Sentimento de Inadequação (SI) traz fenômenos e desdobramentos importantes a serem abordados e que proporcionam um ponto-de-vista abrangente na compreensão psicológica. O SI caracteriza-se pelo sentimento de desigualdade ou diferença em relação a outras pessoas ou situações diversas, situando-se na relação entre a pessoa – denominada aqui ser-em-situação (Carmo, 2002; Merleau-Ponty, 1999) – e seu mundo vivencial.

O interesse pelo tema iniciou-se na observação pessoal ao constatar pessoas que, apesar de viverem uma pressão social, não conseguiam identificá-la, atribuindo ao próprio desempenho o insucesso de situações particulares. A clínica particular trouxe uma contribuição significativa diante de um caso em que o cliente, com a finalidade de se entrosar com determinados amigos, obrigava-se a ouvir músicas das quais não gostava para ver se passava a apreciá-las com a exposição frequente.

OBJETIVOS

O objetivo principal da pesquisa é compreender o fenômeno de sentir-se inadequado em relação às pessoas ou situações que habitam o contexto sociocultural dos sujeitos e como se configuram os possíveis desdobramentos provenientes dessa situação. Também se pretende proporcionar reflexões e possíveis aplicações aos psicólogos e outros profissionais em seu trabalho ou pesquisas.

REFERENCIAL

A base teórica do trabalho tem como principal referência uma abordagem qualitativa embasada na fenomenologia de Merleau-Ponty (1999; 2000; 2004), cuja característica é, a partir da percepção, reconhecer a impossibilidade da neutralidade científica e propor a construção de uma ciência mundana originada na própria existência (Merleau-Ponty, 1999).

Os autores que influenciaram maciçamente a filosofia existencial, acentuadamente Nietzsche e Heidegger, observam criticamente o desenrolar do pensamento ocidental e sua tendência a compreender a realidade de forma dualista (Heidegger, 2002; Michelazzo, 1999; Nietzsche, 2004), geralmente traduzido à ciência psiquiátrica/psicológica como relação entre mente e corpo. Autores da psiquiatria que se inspiraram nas filosofias fenomenológicas e existenciais, como Berg, Binswanger e Laing, transpuseram os desdobramentos do pensamento dualista na vivência psicológica humana (Berg, 2000; Binswanger, 1977; Laing, 1963).

Levar em consideração a tendência ocidental de dualizar a realidade é fundamental para a compreensão do SI e as posturas derivadas das reações a esse sentimento.

METODOLOGIA

Conforme esclarecido, o método foi construído com base na fenomenologia de Merleau-Ponty (1999; 2000; 2004), sendo proposto um método descritivo-especulativo, sem impedir o caráter mundano do entrevistador/pesquisador em todo o processo, mas principalmente em relação à análise das entrevistas (Moreira, 2004).

A primeira etapa do trabalho se deu de forma teórica através da análise de literatura popular, manuais diagnósticos e bibliografia científica. A segunda etapa foi realizada a partir de entrevistas participativas abertas realizadas com três adultos na forma de um convite temático (Drummond apud Laurini, 2006). Os três participantes foram convidados a falar sobre a presença do SI em suas vidas. Durante as entrevistas, a intervenção do pesquisador foi permitida sempre que visasse o auxílio à expressão do participante em busca de sua fala autêntica (Amatuzzi, 1989).

RESULTADOS

Os principais resultados foram:

  • a ampliação da compreensão do SI, em geral, citado de forma subentendida ou como sinônimo de sentimento de inferioridade;
  • o esboço de uma breve contextualização histórica sobre a compreensão do SI até a atualidade;
  • a constatação do SI como um fenômeno vivido por todos, desde que não compreendido como Sentimento de Inferioridade – como costuma fazer a literatura popular e científica – mas como constatação da diferença;
  • o levantamento de três posturas básicas que desdobram como reações ao SI, que são: 1) o Aplainamento da Subjetividade (AS) ou Nivelamento da Subjetividade cuja característica principal é a autoagressão do sujeito em função de uma possível adequação ao outro e ao mundo; 2) o Aplainamento da Objetividade (AO) ou Nivelamento da Objetividade cuja característica principal é a agressão ao outro e ao mundo com a finalidade de igualá-los ao sujeito em questão; 3) o Senso de Inadequação (SsI) cujas características principais são a reflexão sobre a diferença como uma referência existencial, a criatividade e a frequente presença de um caráter lúdico, manifestado, muitas vezes, como uma brincadeira com a diferença.

DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

A definição de SI foi descrita como “a percepção de uma diferença de natureza visível ou invisível em relação ao contexto em que vive ou ao outro e que seja relevante ao ser-em-situação a ponto de mobilizá-lo” (Torres, 2008, p. 118), sendo que os termos visível e invisível referem-se à compreensão ontológica proposta por Merleau-Ponty (2000).

Foi constatada a presença do SI e todas as três reações (AS, AO e SsI) na vida de todos os entrevistados, demonstrando que, mesmo havendo uma postura predominante, todas elas podem surgir em diferentes situações. Mais especificamente, identificou-se que, enquanto a vivência do SI não encontra maior envolvimento com os momentos autênticos da existência, é comum que haja um trânsito entre as posturas de AS e AO ao inverter o foco do nivelamento sem que se desenvolvam necessariamente reflexões significativas.

Foram levantadas áreas de possível aplicação para o conteúdo trabalhado sobre o SI, sendo elas: pesquisa; psicoterapia; social, comunidade e cultura; pedagogia; drogadicção; religiosidade e espiritualidade; turismo; criatividade e arte. Embora tenham sido levantadas essas opções, obviamente, que o SI não se restringe a essas áreas, podendo ser estudado ou aplicado em outros campos não previstos neste trabalho.

CONCLUSÃO

Quanto aos desdobramentos, foi encontrada uma relação com as colocações de Heidegger (apud Torres, 2008) que, diante do esquecimento do ser, há três reações possíveis: resignar-se, revoltar-se ou pensar. É possível fazer, respectivamente, uma analogia com as posturas levantadas no trabalho de Torres (2008) como reação ao SI: AS, AO e SsI.

Concluiu-se que o SI traz uma relevância até então ignorada nas abordagens psicológicas, visto que costuma ser compreendido como sinônimo de inferioridade. Retomar esse conceito e levantar seus desdobramentos e aplicações traz uma nova e vasta perspectiva para o campo da psicologia/psiquiatria. A abordagem do tema pode ser tematizada ou especificado em campos de pesquisa e atuação, como diferentes estágios da vida, populações específicas, patologias e psicopatologias, entre outras possibilidades.

REFERÊNCIAS

Amatuzzi, M. M. O resgate da fala autêntica: filosofia da psicoterapia e da educação. Campinas: Papirus, 1989.

Berg, J. H. van den (1966). O paciente psiquiátrico: esboço de uma psicopatologia fenomenológica. Campinas: Livro Pleno, 2000.

Binswanger, L. Três formas da existência malograda (1956). Rio de Janeiro: Zahar, 1977.

Carmo, P. S. do. Merleau-Ponty: uma introdução. São Paulo: EDUC, 2002. (Série Trilhas).

Heidegger, M. (1927) Ser e tempo. Petrópolis: Vozes, 2002. v. I e II.

Laing, R. D. O eu dividido: estudo sobre a loucura e a sanidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1963.

Laurini, M. A. O dever do prazer segundo a experiência dos jovens: um estudo fenomenológico. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – PUC-Campinas: Campinas, 2006.

Merleau-Ponty, M. (1945) Fenomenologia da percepção. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

___________. (1964) O visível e o invisível. 4ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2000.

___________. (1961) O olho e o espírito. São Paulo: Cosac & Naify, 2004.

Michelazzo, J. C. Do um como princípio ao dois como unidade: Heidegger e a reconstrução ontológica do real. São Paulo: FAPESP/Annablume: 1999.

Nietzsche, F. W. (1881). Aurora. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

Moreira, V. O método fenomenológico de Merleau-Ponty como ferramenta crítica na pesquisa em psicopatologia. Psicologia: reflexão e crítica, 17 (3), 447-456, 2004.

Torres, A. R. R. Sentimento de inadequação: estudo fenomenológico-existencial. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – PUC-Campinas, Campinas, 2008.

 

[1] Psicólogo, Psicoterapeuta existencial, Mestre em Psicologia como ciência e profissão pela PUC-Campinas, Professor do Centro de Psicoterapia Existencial, da Faculdade Anhanguera de Campinas e da Pós-Graduação em Psicologia Fenomenológico-Existencial da UNIPAR em Umuarama – PR. E-mail: andre@torres.psc.br. F: (19) 3325-9065. Endereço: Av. Ayrton Senna da Silva, 341 – Sala 7, Jd. Proença / Campinas – SP / CEP: 13026-305.

 

 

 

 

 

 

 

Autor: Luiz José Veríssimo.  Psicólogo clínico (PUC-RJ).  Doutor em Filosofia (UERJ).  Professor de Psicologia Existencial-Humanista e de Ética e membro do Laboratório Social do Mestrado Profissional em Psicanálise, Saúde e Sociedade da Universidade Veiga de Almeida.

Título: O Cuidado e sua implicação com a perspectiva dialógica da existência: diálogo entre Leonardo Boff e Martin Buber

Resumo:

Nosso trabalho tratará da articulação entre a ética do cuidado proposta por Leonardo Boffe as análises das relações humanas à luz de Martin Buber.

Martin Buber nos indica uma ética pautada na reciprocidade e no diálogo.  Por sua vez, Leonardo Boff ressalta a importância imprescindível do cuidado para fundar o sentido do humano e sua relação com seus pares, o cosmo e a natureza.

 

 

 

 

 

RESUMO DA CONFERÊNCIA DE ABERTURA“História da Psicoterapia Existencial no Brasil”Walmir Monteiro    O lugar da psicologia existencial e da fenomenologia no universo da psicoterapia, do ensino e da pesquisa psicológica no Brasil. O itinerário histórico de um saber revolucionário.Exposição sobre o percurso da psicologia e da psicoterapia existencial em terras brasileiras.Pessoas e instituições que ao longo dos anos, nos diversos estados e regiões, através de centros de estudos, produções bibliográficas, cursos de formação e ensino da psicologia em universidades brasileiras, vêm contribuindo à difusão da fenomenologia, do existencialismo e da psicologia e psicoterapia existencial. A conferência promoverá justas homenagens, registros históricos e reconhecimentos pontuais, dirigidos a pesquisadores, psicólogos, filósofos, professores e demais empreendedores que tanto no passado quanto no presente de diversas maneiras se dedicam ao desenvolvimento da psicoterapia existencial em nosso país.

 

 

 

 

 

 

 

O Sentimento de Uma Nova Concepção de Corporeidade – A Experiência do Vitiligo.

 

Luiz Henrique Birck

 

A intenção em discorrer sobre a percepção e a emoção da doença vitiligo se dá a partir da carência de materiais envolvendo a subjetividade do portador; a dificuldade de lidar com uma doença que se caracteriza como incurável; a dificuldade de lidar com o vasto número de informações e tratamentos; e os conflitos vivenciados pelo autor do trabalho.

As primeiras referencias sobre o vitiligo foram encontradas na antiguidade. Relatos de doenças da pele referentes à falta de pigmentação foram traduzidos como vitiligo (Müller, 2005). No Sagrado Livro do Budismo, Vinay Pitak (apud Nakano & Yamamura, 2005, p. 103) encontrou relatos que pessoas com manifestações da doença de kilas (em sânscrito deriva da palavra branco) eram incapazes de serem ordenadas. Por mais que tenhamos referencias sobre o vitiligo, encontramos ainda muitas controvérsias perante suas origens. Nakano & Yamamura (2005) apontam que a palavra Vitiligo possivelmente vem do Latim vitilium, no qual significa imperfeição, e também deriva da palavra vitelius, cujo faz referencia as manchas brancas de pele de bezerros. Kopera (apud Müller 2005) coloca que independente das origens do vitiligo, o mesmo passou a ser utilizado como nomenclatura científica, sendo relatado pela primeira vez por Aulo Corneliu Celso no Clássico da Medicina chamado “De Medicina”. O vitiligo é uma doença que esta no meio de nós há muito tempo, no entanto devido sua complexidade e a falta de uma etiologia definida demonstra nos dias de hoje uma gama de estigmas (Müller, 2005).

Ainda desconhecido, suas origens e seus conceitos são distintos e confusos. Devido às implicações de natureza estética, emocional e os problemas terapêuticos, o vitiligo se torna a mais relevante das afecções discrômicas (Guimarães apud Cucé & Neto, 2001). Segundo o Portal da Sociedade Brasileira de Dermatologia (2011) o vitiligo caracteriza-se por uma doença que destrói as células responsáveis pela pigmentação da pele, ocasionando assim o aparecimento de manchas brancas no local das lesões. O vitiligo não e contagioso e pode aparecer em qualquer local do corpo, porém os locais frequentemente mais afetados são as mãos, pés, punhos, cotovelos, joelhos, rosto e região genital. Existindo o aparecimento de ocorrências familiares, o vitiligo não é considerado uma doença hereditária.

O Referencial teórico proposto para a compreensão da temática é a Fenomenologia da Percepção de ¹Maurice Merleau-Ponty, estabelecendo uma análise além do fisiológico. Lidar com situações que não temos controle pode nos levar ao retraimento. Compreender as manifestações da doença no corpo, no outro e na cotidianidade se torna um desafio árduo para o portador e os que estão em sua volta, uma vez que o psicológico e o fisiológico do portador do vitiligo são afetados com muita frequência. ¹Ponty nos ensina que o mundo é o que eu sinto, percebo e vejo. No qual a percepção se torna o instrumento de acesso à subjetividade.

Referencias

Cucé, L. C. & Neto, C. F. Manual de Dermatologia. São Paulo, Editora Atheneu, 2001.

Müller, M. C. PSICOSSOMÁTICA uma visão simbólica do vitiligo. São Paulo, Vetor: 2005.

Nakano, M. A. Y. & Yamamura, Y. Acupuntura em Dermatologia e Medicina Estética. A pele sob o ponto de vista energético, espiritual, funcional e orgânico. São Paulo, Livraria Médica Paulista Editora, 2005.

¹Ponty, M. M. Fenomenologia da Percepção. 3ª ed. – São Paulo: Martins Fontes, 2006

Portal da Sociedade Brasileira de Dermatologia. Disponível em <http://www.sbd.org.br/doenca/manchas.aspx> Acesso em 28 de janeiro de 2011.

 

 

 

 

REDUÇÃO FENOMENOLÓGICA E VISIBILIDADE EM PSICOTERAPIA: ENSAIOS PARA UMA ESCUTA EXISTENCIAL. Thiago Gomes de Castro (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)

O trabalho elaborado em forma de ensaio teórico discorre sobre a relação entre o conceito de redução fenomenológica e a prática psicoterapêutica existencial. Inicialmente aborda a definição do conceito de redução em Husserl, evoluindo para as críticas de Paul Natorp e finalizando com a defesa reformista de Heidegger na década de 1920. As transições do conceito entre a fenomenologia transcendental / reflexiva e a fenomenologia hermenêutica são enfatizadas para o decurso da construção de uma possível escuta existencial. Na via à psicoterapia, despontam no ensaio a Virada Hermenêutica e a díade visibilidade / invisibilidade de Merleau-Ponty como tradutores da lógica reflexiva suspensiva da redução para a análise sistemática das pregnâncias e implicâncias existenciais no direcionamento da escuta. É também realizado um aporte aos conceitos de signo, sentido e sinal traçados pelo humanista Mauro Amatuzzi como eventual pragmática da posição de escuta terapêutica.

Palavras-Chave: Psicoterapia, Redução Fenomenológica, Ensaio.