Anais de Congressos
 
IX Congresso de Psicoterapia Existencial

IX CONGRESSO BRASILEIRO DE PSICOTERAPIA EXISTENCIAL

 

ANAIS DE CONGRESSO

 

 

CURSOS PRÉ-CONGRESSO

 

 

 

A Psicoterapia Fenomenológico-Existencial Frente às Novas Propostas de Intervenção Social

Prof. Ms. André Roberto Ribeiro Torres

O curso pretende situar as propostas atuais de intervenção social ao pensamento fenomenológico-existencial, caracterizando-o como como uma proposta de filosofia do cotidiano, derivando uma forma de psicoterapia engajada e com possibilidades de maior amplitude das ações. A partir das atividades de uma Organização Não-Governamental (ONG) atuante na cidade de Campinas – SP, é possível compreender situações cotidianas sob o ponto de vista de autores estudados na fenomenologia e na filosofia existencial. O trabalho baseia-se nos programas das políticas públicas contemporâneas voltadas às diversas proteções sociais – básica e especial de média complexidade. Diante de tais propostas, os fundamentos da fenomenologia existencial precisam ser repensados e atualizados, focando a concretização de ações práticas e eficazes na execução dos projetos.

Endereço eletrônico do autor: andre@torres.psc.com.br

 

 

  

 

 

InTRODUÇÃO AO PENSAMENTO EXISTENCIAL.

 

Thiago Gomes de Castro

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Centro de Psicoterapia Existencial

 

Márcio Melo Guimarães de Souza

Universidade Paulista / Faculdade de Americana

 

Embora marcado por discursos polimorfos, o pensamento existencial converge na eleição da existência como foco de suas digressões. Nesse sentido, a história do existencialismo pode ser descrita em torno de temas que tangenciam os diversos filósofos aí identificados. O presente curso, organizado em três encontros de uma hora, procura oferecer uma introdução a alguns dos temas existenciais. Nesse escopo, estão previstos três momentos de reflexão, a saber: 1) princípio existencial – ironia, angústia e dimensões da existência em Kierkegaard; 2) existencialismo e humanismo – antropologia Sartreana; 3) fenomenologia e existencialismo – caminhos para a escuta em psicoterapia. A partir dessa organização, almeja-se desenhar um esboço de argumentação que seja capaz de conectar o pensamento filosófico existencial, a psicologia e a prática da psicoterapia. 

 

Palavras-chave: existencialismo, psicologia, fenomenologia.

 

Endereço eletrônico dos autores:

tgomesdecastro@yahoo.com.br

melogs@gmail.com

 

 

 

CONFERÊNCIA – SÁBADO, 10 DE OUTUBRO DE 2009 – 09h00

 

 

FENOMENOLOGIA DA DOENÇA

 

Leandra Rossi

 

Psicóloga do Serviço de Oncologia Pediátrica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – HCFMRP-USP e do Grupo de Apoio à Criança com Câncer – GACC/RP, mestre e doutoranda em Psicologia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto – FFCLRP-USP e docente dos cursos de Psicologia e de Enfermagem do Centro Universitário de Araraquara – UNIARA.

 

Empreender uma compreensão fenomenológica da doença representa, em última análise, uma mudança paradigmática quanto à maneira de conceber não só o adoecimento e suas especificidades, mas também e, mais amplamente, o homem enquanto existente. Amparada em uma concepção naturalista da existência humana, as ciências da saúde se apropriaram do método experimental para conhecer o homem, fragmentando-o em partes distintas – mente e corpo – com vistas a alcançar a desejável objetividade, tão valorizada pelo saber científico. Nesse contexto, a fenomenologia, definida como estudo dos fenômenos (aquilo que se mostra à consciência do sujeito cognoscente), emerge como movimento filosófico, inaugurando uma forma inovadora de acessar o conhecimento. Ao considerar a consciência humana como intencional, já que carregada de direção ao visar os objetos da realidade e a si mesmo, Husserl reconhece o retorno “às coisas mesmas” ou à vivência imediata do homem em sua presença atrelada à realidade, como um caminho legítimo para se alcançar o conhecimento. Apresentadas ao pensamento fenomenológico, as ciências dirigidas ao estudo do homem se deparam com as limitações do modelo anterior para compreender a complexidade de seu objeto. A fenomenologia resgata a relação indissociável estabelecida entre homem e mundo e contrapõe a suposta neutralidade assumida pelo homem ao visar algum objeto buscando conhecê-lo: o homem participa do que vê, pois intenciona o objeto e lhe atribui significados, a partir de sua bagagem vivencial e subjetiva. Sendo assim, se nos propomos a compreender fenomenologicamente a doença, não devemos tentar objetivá-la e universalizá-la como um evento externo e isolado do próprio indivíduo que a carrega em sua morada corporal, sob pena de forjamos o seu real significado para aquele que vivencia, imediata e concretamente, o próprio adoecimento. Minimiza-se a ênfase na doença, resgatando-se o ser que adoece, protagonista de sua própria história. Contrapondo a compreensão biomédica de doença como um agente externo, descolado da participação humana, que desorganiza o funcionamento orgânico e é passível de reparação terapêutica, a fenomenologia concebe a doença como uma facticidade própria do modo constitutivo do homem de existir. Ao incidir sobre o homem, alterando bruscamente sua relação com o mundo, com os outros e consigo mesmo, a doença o confronta com a fluidez e imprevisibilidade de sua condição existencial, atualizando continuamente as restrições e as possibilidades para a continuidade de sua trajetória de vida. Sendo assim, o ser que adoece participa genuína e ativamente de seu modo de existir com a doença que ameaça sua integridade. A liberdade que o ser doente assumirá frente à sua nova condição existencial dependerá diretamente de sua maneira de se relacionar com ela, bem como dos significados e sentidos que lhes atribui ao vivenciar a enfermidade. Nessa direção, cuidar fenomenologicamente do ser doente significa iluminar o seu atrelamento à doença, expresso em seu modo de existir. As práticas de saúde pautadas na concepção fenomenológica de cuidado prescindem de ações paternalistas e buscam favorecer o exercício da liberdade existencial, já que proporcionam ao ser doente o reconhecimento de sua singularidade vivencial, bem como das possibilidades existenciais passíveis de auto-realização, a partir da construção de novos sentidos à experiência do adoecer.

 

Endereço eletrônico do autor: leandrarossi@ig.com.br

 

 

 

A Ilusão dos Treinamentos Motivacionais: Uma Análise ExistencialISTA

 

Sylvia Mara Pires de Freitas

 

Universidade Estadual de Maringá (UEM/Maringá/PR/BR)

Universidade Paranaense (UNIPAR/Umuarama/PR/BR)

 

No início da história da Psicologia no contexto do trabalho, as concepções de motivação dividiam-se entre os incentivos salariais (maior produção = maior ganho) e as necessidades sociais, ambas relacionadas, respectivamente, a visao taylorista de homem, que o concebe como um ser preguiçoso e a de Elton Mayo, como um ser social.

Surgiram, a partir de Mayo, diversas teorias motivacionais fundamentadas nas mais diversas concepções de homem, mas que, convergem ao fenômeno comum de se descobrir o que estimula os trabalhadores a empregarem sua força de trabalho a favor da produção, seja visando o lucro e/ou a qualidade de vida do trabalhador. No entanto, o que não podemos desconsiderar é a questão do capital permeando todo o contexto do trabalho.

Da invenção da recompensa e da punição, passando pela satisfação das necessidades sociais dos trabalhadores, pelos fatores higiênicos, pela participação desses em processos decisórios, pela sua participação de lucros, enfim, os diversos empreendimentos que sustentam a crença de que os fatores motivacionais estão fora do indivíduo, são determinantes e passíveis de serem utilizados por terceiros para o aumento da produtividade.

Podemos apontar uma contradição no projeto de muitos teóricos da motivação, que comungam com tais crenças: os investimentos em recursos para motivar os trabalhadores mostram, aparentemente, uma valorização destes últimos, no entanto, são meios para se atingir a produção, o consumo, logo, o lucro. Observamos neste caso o que Sartre (2005) denomina de reciprocidade negativa. Esta é um artifício que lançamos mão quando desejamos que, através do outro, nossos projetos sejam alcançados. Melhor dizendo: quando usamos o outro com fins em interesses próprios.

Mesmo o mais ingênuo teórico da motivação que justifica suas idéias em prol do trabalhador, está compactuando com o olhar que o reifica. Fundamento tal afirmativa justificando que não temos capacidade de motivar alguém. Vejamos.

Na concepção existencialista, mais precisamente a sartreana, a existência do indivíduo parte do nada. A máxima de Sartre (2005) de que a existência precede a essência, coloca o homem como não tendo uma natureza humana, algo que o defina antes de sua existência, assim, é a partir desta que criará sua essência, através das relações dialéticas entre o individual e o coletivo. Sua consciência é translúcida, livre para escapar de si e, através da intencionalidade, captar algo no mundo. Sendo uma falta, haverá a necessidade de o indivíduo fazer escolhas, a todo momento, de algo que a preencha. A consciência se lança ao futuro como um projeto, vislumbrando com o que deseja se preencher, e atuando também no mundo. Esta relação dialética de interiorização do exterior e exteriorização do interior é a sua condição existencial do vir-a-ser, uma totalização-em-curso. Uma vez findado o projeto, haverá sempre a necessidade de um novo ser criado.

Mesmo que a intenção seja a de conquistar sempre a mesma coisa, esta coisa para ser conteúdo da consciência será sempre algo a ser almejado. E assim será, por não ser capaz de transformar a consciência (pura negatividade) em eterna positividade (em-si). Se pudesse, a consciência deixaria de ser o que é (negatividade) para ser o que não é (positividade).

Sendo impossível a mesma coisa preencher a consciência ininterruptamente, verificamos que o que motiva o trabalhador não é o objeto, a coisa que está no mundo, como, p.e., o dinheiro, mas sim a necessidade de se livrar do estado angustiante que a negatividade da consciência provoca. O que ele procurará no mundo, enquanto coisa a ser perseguida, será o que pode aliviá-lo, momentaneamente, da angústia existencial e/ou temporal, preenchendo o nada, mas não será o objeto motivador.

Se a consciência é translúcida, partindo da negatividade (daí sua liberdade), não podemos falar de causas, haja vista que antes desse vazio nada existe. Por isso que também não podemos falar que existe algo fora de nós que age como causa à nossa motivação. O movimento para o futuro, nosso motivo maior por mantermo-nos vivos, deve-se somente à busca do Ser, paradoxalmente, pela negação do não-Ser.

Então, qualquer coisa externa que o Outro nos apresente como algo que considere ser capaz de nos motivar, na verdade não é o motivo, mas o que o indivíduo identifica como algo que poderá preencher seu vazio e que elege como aquilo que poderá proporcionar-lhe alívio diante a negatividade e prazer pela ilusão desta estar preenchida. Desta maneira, é do próprio indivíduo que vem a necessidade (falta/motivo) e é ele quem elege o que mais pode lhe ser prazeroso (objeto).

No entanto, muitas vezes o objeto pode ser escolhido em estado de alienação que se encontra o indivíduo. Sem que o trabalhador reflita sobre sua necessidade ou desejo, ele escolhe o que escolhem para ele. As tentativas de alguém adivinhar o que é (ou que deve ser) melhor para o trabalhador, pode dar certo quando este último se identifica com o que lhe é oferecido, sendo algo que faz sentido por ser o que pode resolver, de imediato, sua angústia, sem passar pelo seu crivo de que é por este motivo que está escolhendo e não por ser o oferecido algo motivador.

Neste caso, os treinamentos de motivação podem ter sucesso momentâneo. A “embriaguez” do trabalhador, ao acatar o que lhe oferecem como solução, não persistirá por muito tempo, sendo que haverá a necessidade de se realizar novos projetos. Por isso o equívoco, a ineficácia e a ilusão desses tipos de treinamento, que na verdade, somente servem como manobras para o controle da liberdade alheia. A motivação não é treinável, exceto se o intento é o de treinar (melhor dizendo, alienar) o tipo de eleição a ser feita, e que seja apreendida (irreflexivamente) como fonte motivadora. Eleição essa, já escolhida anteriormente pelos treinadores.

Para Sartre (2002) o fazer, o ter e o ser são maneiras que o indivíduo busca para completar-se como Em-Si-Para-Si. O desejo de fazer, tal qual o de ter são projetos que buscam a posse de algo, que, por sua vez, passa a pertencer ao indivíduo. Estes dois desejos resumem-se no desejo de Ser, que seria a apropriação por excelência, como coloca este autor.

Vivemos em num mundo cujas práxis capitalistas privilegiam o capital em detrimento ao humano. Sem lucro, o capitalismo não sobrevive. Sempre haverá a necessidade da produção através da gestão e da operacionalização (ação/fazer), que por sua vez se dão através da apropriação do conhecimento (ter) sobre tudo o que envolve a produção. Posteriormente há a necessidade da compra e do lucro (ter os objetos).

À produção e à compra são agregados valores que servem como meios para que se atinja o projeto de Ser. Este último pode ser construído a partir das práxis capitalistas, que também agregam valores para o Ser. Através deste mecanismo de controle, o Ser parece se tornar o revés da afirmativa sartreana, pois através deste propósito, a essência antecede a existência. Para que este círculo sobreviva, há a necessidade das pessoas agirem pela sua manutenção. Na busca pelo Ser construído pelas práxis capitalistas, mantém-se o seu projeto, alienadamente.

Sendo esta a lógica do capital, quaisquer outras escolhas feitas pelos trabalhadores que não a corroborem, torna-se uma situação ameaçadora para aqueles cujos projetos comunguem com o lucro. Não é sem propósito que muitos psicólogos, que direcionam seus esforços ao contexto do trabalho, recebem solicitações de gestores para motivarem os trabalhadores. Impotentes por não conseguirem motivar e/ou manter as escolhas, dos trabalhadores, coerentes com as que precisam, os gestores consideram que a Psicologia teria a posse do “segredo da motivação”. Na mesma situação que os líderes, o psicólogo não tem condições de saber, a priori, o que é melhor para o Outro, se não for a partir do próprio Outro e, que mesmo assim, elege um motivo para sua necessidade. Digo elege porque, o mundo é escolhido pela fuga do não-ser. Esta relação dialética entre as duas regiões ontológicas – o Ser e o Nada – faz com que a negação pelo não-ser (que pode ser causa e/ou motivo), busque no mundo seu Ser (que pode ser motivo e/ou fim) para se preencher (causa/motivo/fim).

Vemos então, que não há distinção entre causa, motivo e fim (ERTHAL, 2004). Com isso, tanto o trabalhador quanto o gestor podem eleger quaisquer objetos motivadores, mas que não terão a eficácia pretendida, pois esses deverão ser substituídos por outros, depois por outros e assim num eterno movimento de totalização-em-curso, uma vez que a consciência sempre será livre e por isso obrigada a eleger o mundo, a cada instante, incessantemente, a fim de fugir de sua própria condição.

Diante o exposto, podemos considerar que qualquer intenção por motivar outra pessoa é uma atitude de má-fé. Um auto-engano que visa negar um ideal onipotente. Ideal este fundamentado na crença de que se é capaz de escolher pelo outro e dar-lhe algo que será suficiente a ele.

Cada um elegerá o seu motivo para justificar sua recusa pelo não-ser, ao buscar Ser. Para isto, há a necessidade incessante de se realizar projetos. E, paradoxalmente, as diversas ações impressas pelos trabalhadores na busca de humanizar o trabalho (exteriorização do interior) chamam a atenção dos teóricos que, fundamentando-se nessas ações (interiorização do exterior), criam as mais diversas teorias sobre motivação humana no trabalho. Haverá a possibilidade de se criar tantas teorias de motivação, quanto as escolhas que o homem for capaz de realizar para inventar-se. À toda ação no mundo subjaz a causa, o motivo e o fim.

Falamos no início que as teorias sobre motivação fundamentam-se, também, nas respectivas concepções de homem. Na concepção existencialista de um homem livre, autônomo para se escolher e escolher o mundo, acredito que, se algo externo puder ser eleito como fator motivador, este deveria ser o respeito por esta sua condição. No entanto, temos que considerar a dificuldade de se respeitar a liberdade alheia em contextos onde há relações de poder e cujo controle fundamental é pela ameaça do desemprego.  Sendo assim, o psicólogo no contexto do trabalho depara-se com um grande desafio: se é ontológica a liberdade do homem e se a existência também se constrói por condicionamentos, como transcender esta contradição? Eis o que considero a grande empreitada desse profissional, que baliza suas intervenções motivado pela tentativa de ajudar os trabalhadores em prol de mudança na maneira pela qual vivem suas relações com e no trabalho.

 

Endereço eletrônico do autor: sylviamara@gmail.com

 

 

 

A FENOMENOLOGIA DA MORTE NA MÚSICA BRASILEIRA

 

Arlinda Moreno

 

RESUMO

O trabalho apresenta uma compreensão da experiência da morte sob a Ótica fenomenológico-existencial, tendo como unidades de análise letras musicais brasileiras. O método fenomenológico é utilizado na análise compreensiva das temáticas emergentes (essências), tal como preconizado por Lanigan, que baseia seus estudos em Husserl e Merleau-Ponty. Os escritos de Kierkegaard, Heidegger e Sartre norteiam a apreensão da experiência de morte. Vinte letras musicais brasileiras foram utilizadas e, destas, as seguintes temáticas emergentes foram extraí­das: crueldade, desamparo, heroí­smo, imprevisibilidade, moto-perpétuo, mutilação e vulnerabilidade. O cotejamento das temáticas emergentes, bem como o paradoxo da morte em visadas de autenticidade e inautenticidade são a coluna vertebral deste escrito, o que faz com que essa "morte imorredoura" permaneça, como vida em nossas histórias."

 

Endereço Eletrônico do autor: morenoar@uol.com.br

 

 

MESA REDONDA – SÁBADO, 10 DE OUTUBRO DE 2009 – 10h00

 

O FENÔMENO DO SUICÍDIO DIANTE DE DIFERENTES COMPREENSÕES

 

 

PESQUISA EM SUICIDOLOGIA

 

Karla Cristina Gaspar

 

Psicóloga hospitalar. Mestrado em Ciências Médicas na área de Saúde Mental – UNICAMP

 

 

A ocorrência de uma tentativa de suicídio é um forte preditor de que um suicídio possa acontecer. O suicídio é considerado um problema de saúde pública. A relevância de estudar esta temática deve-se tanto às vidas que se perdem, como também aos efeitos que produz em pessoas próximas de quem comete tal ato. A suicidologia é um ramo da ciência que objetiva compreender e prevenir comportamentos suicidas em indivíduos em sofrimento psíquico, para auxiliá-los na obtenção de alívio, que não seja por pensamentos, gestos ou planejamento de morte, nem pela cessação irreversível da consciência. Nesse campo do conhecimento, a investigação científica é vital, acreditando-se ser este um dos caminhos mais adequado para se conhecer a realidade. Para prevenir é necessário compreender. Estratégias de prevenção, tanto em saúde pública, quanto individualmente, só são eficazes quando organizadas a partir de sólidos conhecimentos sobre o que se propõe prevenir. O comportamento suicida é um movimento expressivo de experiências de desprazer que tem intensidade e duração variáveis. A compreensão, identificação e prevenção   desses comportamentos são objeto de estudo da suicidologia. O comportamento suicida apresenta características multifatoriais que exige pesquisas em todas as dimensões: biológicas, psicológicas e sociais.

 

Endereço Eletrônico do autor: carlacg@hc.unicamp.com.br

 

 

PSICOTERAPIA FENOMENOLÓGICO-EXISTENCAL E

CONTEMPORANEIDADE

 

 

Liderança Soberana X Liderança Mediada: de quem é o projeto?

 

Sylvia Mara Pires de Freitas

 

Universidade Estadual de Maringá (UEM/Maringá/PR/BR)

Universidade Paranaense (UNIPAR/Umuarama/PR/BR)

 

 

Na sua teoria da sociabilidade, Sartre (2002) traça a genealogia dos grupos através da relação dialética entre série e grupos. Estar, o indivíduo, junto com outros não significa que o ajuntamento seja definido como um grupo. Para que o segundo seja compreendido como tal, é imprescindível haver projetos em comuns.

O projeto em comum diferencia-se do projeto comum pela maneira como as pessoas buscam atingir seus objetivos. No primeiro, todos os membros do grupo juntam suas forças de trabalho, destituindo-se de alguns de seus projetos individuais para compactuarem com os outros do mesmo projeto; no segundo o projeto de um indivíduo pode ser igual ao do outro, mas a busca se dá individualmente.

Sartre (2002) menciona que o grupo-em-fusão é o grupo mais genuíno, haja vista que sua formação se dá a partir da decisão de todos seus membros, quando se deparam com algum perigo externo a eles. O problema de sua continuidade é após atingirem seus projetos. Como uma totalização-em-curso, todo grupo tende a se dissolver quando atinge seu fim, ocorrendo desta forma, o retorno à série.

No entanto, para a manutenção do grupo, Sartre (2002) coloca que há várias estratégias: o juramento de seus membros em permanecerem unidos, que, através da fraternidade-terror, cada um vigia os demais para não traírem o juramento, e a divisão de tarefas, a fim de manterem um objetivo (aparentemente) em comum. Até este ponto, cada membro é mediador dos demais, porém, a cada estratégia que se lança mão para a manutenção do grupo, mais oportuniza o distanciamento deles e a proximidade com a série.

Quando chega ao ponto de que muitos de seus membros não percebem, espontaneamente, sentido da manutenção do grupo, há a necessidade, para aqueles que ainda desejam o contrário, lançar mão de nova estratégia. Os membros, no grupo-em-fusão, que antes eram unidos por eles mesmos através do objetivo em comum, e depois com as tarefas, agora precisam ser unidos através de outro método. Neste momento é que surge o soberano.

Sendo o projeto da manutenção do grupo, somente do soberano e, precisando dos outros para que seu projeto seja atingido, através da reciprocidade negativa o soberano faz com que os demais cumpram um projeto que não são seus. Há várias maneiras de fazê-los cumprir: a coerção, a sedução, o assédio moral e chantagens, por exemplos. Sartre (2002) chama este tipo de grupo de Institucional, uma vez que sua formação é instituída por alguém e não espontaneamente por seus membros.

Estilos de grupos organizacionais/institucionais são os que mais encontramos no mundo do trabalho. E por serem grupos instituídos, não considerando que seus membros possam mantê-lo por si próprios, as organizações formais ou informais, vêem a necessidade de instituir a figura do líder. Liderança e grupos são interdependentes.

A tarefa básica do líder, independente de como agirá para consegui-la, no uso de suas competências, será sempre de conduzir seus liderados à conquista dos objetivos traçados, geralmente pela organização/instituição que faz parte.  E é justamente esta condução que encontra-se seu desafio.

Concebendo a consciência como intencional e livre para fazer escolhas, nem todos os seus funcionários/liderados coincidem seus projetos particulares com os da organização/instituição. De início, podemos pensar que se optam por permanecer na que fazem parte, devem aderir as suas metas, mas na prática esta ideologia nem sempre acontece.

Os motivos que permeiam a opção por estarem nessa e não em outra organização/instituição, bem como seus projetos para com ela, podem ser os mais diversos, por advirem do próprio indivíduo e relacionarem-se a atender a(s) necessidade(s) do preenchimento de suas necessidades básicas e do vazio de sua consciência, não advindo de fora, do Outro, como também nem sempre são considerados e reconhecidos pelos membros hegemônicos da organização/instituição.

As práxis capitalistas, as quais se fundamentam no trabalho assalariado, bem como na desigualdade entre oferta e procura, sendo a procura muito mais abundante do que a oferta, decorrente da livre negociação do mercado, suscitam vivência de limitação no trabalhador, cujas possibilidades de escolha do local e tipo de trabalho não são vivenciadas com liberdade. Muitas vezes, ocorre uma certeza por parte dos empregadores, de que estes estão fazendo um favor aos seus empregados, de dar-lhes emprego, não significando a relação como de troca.

No entanto, a restrição da liberdade do trabalhador, não o destitui de sua condição  ontológica de um ser livre. O mesmo pode não querer arriscar-se em algumas situações, colocando-se abertamente contra ao que está imposto por outros, mas muitas vezes, sua liberdade é percebida através de outros movimentos de transcendência do prático-inerte, como p.e., quando do início da era taylorista, os artesãos, possuidores do conhecimento sobre o sistema de produção, trabalhavam a seu tempo, o que incitou Taylor a administrar o trabalho dividindo-o entre aqueles que pensam e aqueles que executam, retirando o conhecimento das mãos dos artesões, atribuindo ao gerentes esta função: a de pensar.

Ao deparar-se com a liberdade de escolha do Outro, parece haver a necessidade de se criar novas estratégias para seu controle. O papel do líder não foge deste projeto. A ele também são feitas novas exigências para que consiga sucesso nesse intento. Podemos observar as mudanças de exigências através do que coloca Torres (2008) sobre os tipos de lideranças criados pelas teorias durante a história. Elas correspondem as:

(1) Liderança Transacional (até 1960): líder vinculado ao cargo, utilizando-se do poder e autoridade para atribuição de tarefas, sem questionamento por parte dos subalternos e sempre impondo o poder como forma de liderança. (2) Liderança Transformacional (1960 a 1980): evolução da liderança transacional, onde os lideres começam a repensar o seu estilo de gestão. (3) Liderando Mudanças (1980 a 1990): É o grande catalisador de mudanças, onde se desenvolve a Teoria das Contingências em que se enfatiza que não há nada definitivo nas organizações, tudo é relativo. (4) Liderando de dentro para fora: Requer uma visão holística de desenvolvimento que envolve uma disciplina pessoal e autodomínio em todas as áreas, espiritual, físico, intelectual e psicológica. (4) Líderes do Futuro (2003 a 2010 [Previsão com base em estudos)]: Exige do lideres competências específicas, e comportamento que se adaptam as necessidades e a cultura organizacional, bem como à suas estratégias. (TORRES, 2008, s/p)

            Vemos que no início, o controle da liberdade alheia era mais explícito, o que no decorrer do tempo foi aperfeiçoado, mas cuja essência permanece a mesma: a necessidade de conduzir os liderados às metas impostas pela organização/instituição.

Mesmo aperfeiçoando as técnicas de liderança, haverá sempre a necessidade de controle da liberdade alheia, uma vez que, quando necessita que o outro realize um projeto que não é seu, a figura do soberano se fará necessária. Aperfeiçoar os líderes para que se apresentem mais éticos e humanos na relação com seus subordinados, pode ser uma maneira de minimizar a possibilidade o surgimento de uma contracultura em uma organização/instituição, através de grupos-e-fusão, muito mais eficazes do que os organizados e os institucionais, como vem ocorrendo com o enfraquecimento dos sindicatos de classe.

            Motivar, agregar pessoas não depende somente do líder, pois a este foge o poder para controle total da liberdade alheia. E é esta questão que devemos desvelar: ter consciência do potencial de liberdade do Outro, uma vez que é ela própria que, paradoxalmente, exige a criação de novos métodos de controle.

            Interessante observar as contradições das classes hegemônicas. Por um lado, a liberdade é negada por esta, quando instituem a figura do líder, através do qual acreditam na sua capacidade de controle das liberdades alheias. Perversas, pois delegam ao líder, principalmente, a responsabilidade pelo fracasso deste intento e, por fim, ingênuas, por não terem consciência de que a necessidade de transcendência das exigências dos tipos de liderança se dão, inclusive, pela própria liberdade de cada um, que tanto insistem em negar.

            Por fim, sugere-nos que o potencial criativo do líder, para transcender as adversidades, a sua competência para agregar pessoas e conduzi-las ao atingimento das metas sem que estas sintam-se coagidas, desfoca-se a consciência de seus liderados do principal objetivo do papel do líder: controlar a liberdade alheia para que, alienadamente, incorporem como seu, o projeto do Outro.             

 

Endereço eletrônico do autor: sylviamara@gmail.com

 

 

A NOÇÃO DE ENCONTRO AFETIVO EM PSICOTERAPIA

FENOMENOLÓGICO-EXISTENCIAL

 

Jadir Machado Lessa

 

 

A proposta desse trabalho é destacar a importância do encontro nas práticas psicoterápicas, mostrando que a experiência clínica é, necessariamente, uma experiência do encontro. Um encontro não apenas de pessoas, mas de afetos.

Primeiro, destacamos o modo como Deleuze construiu o agenciamento com os estóicos e com Spinoza no desenvolvimento do conceito de ética. Com os estóicos trabalhamos principalmente as noções de destino, liberdade e acontecimento; com Spinoza os conceitos de Deus, de essência, de razão, de moral e de encontro afetivo, indicando a relação que estabelece do encontro afetivo com um ethos e sua luta no sentido de afirmar uma prática ética em contraposição ao racionalismo moral. Desse modo apresentamos sua concepção de ética, dando ênfase ao modo como os corpos se relacionam e se afetam com alegria ou tristeza, aumentando ou diminuindo sua potência de agir e colocando em evidência a distinção entre os conceitos de ética e moral.

Depois apresentamos o movimento existencial e sua contribuição para a noção de encontro afetivo, demonstrando que o encontro é o eixo fundamental para o trabalho clínico, particularmente na psicoterapia existencial.

Na conclusão, desenvolvemos o processo de deslocamento da clínica do plano da moral para o plano da ética com a ajuda das intercessões entre as filosofias dos estóicos e de Spinoza e a proposta clínica da psicoterapia existencial.

Palavras-chave: ética; moral; encontro; psicoterapia existencial.

 

Endereço eletrônico do autor: jadir.lessa@yahoo.com.br

 

 

SERVIÇO DE PLANTÃO PSICOLÓGICO: ENRIQUECIMENTO CURRICULAR OU APERFEIÇOAMENTO PESSOAL?

 

Profª. Ms. Edilaine Helena Scabello

 

Viviane da Silva Ferrari

Maria Rita Lerri

Mara Aparecida Tavares Galvão

 

Departamento de Psicologia do Instituto Taquaritinguense de Ensino Superior “Dr. Aristides de Carvalho Schlobach” (ITES)

Taquaritinga, SP, Brasil.

 

 

Objetivos. O Aconselhamento Psicológico Centrado na Pessoa teve início na década de 1940, nos EUA, quando Rogers iniciou uma prática de realizar diagnósticos, seguidos de entrevistas de aconselhamento, e instituiu uma mudança de foco no trabalho terapêutico: do problema para a pessoa do cliente; da avaliação para a relação cliente-conselheiro e; do resultado para o processo terapêutico. Desenvolveu uma proposta de intervenção psicológica fundamentada no aperfeiçoamento das atitudes do conselheiro, bem como no pressuposto de que o cliente é capaz de viver e elaborar suas experiências de forma integradora, quando o terapeuta é um facilitador do processo de crescimento humano. Atualmente, a práxis do Aconselhamento Psicológico expandiu-se e existem diversas concepções e diferentes perspectivas teóricas capazes de definirem a função e os procedimentos realizados nesse tipo de intervenção. E a prática do Plantão Psicológico enquanto um modo de fazer o Aconselhamento Psicológico tem emergido nas clínicas-escola. Esse trabalho objetiva descrever o Serviço de Plantão Psicológico realizado no Centro de Psicologia e Pedagogia (CIPP) do Instituto Taquaritinguense de Ensino Superior “Dr. Aristides de Carvalho Schlobach” (ITES), em Taquaritinga, SP, possibilitando reflexões acerca do diálogo entre dois aportes teóricos: a Abordagem Centrada no Cliente e a Fenomenologia, bem como acerca da formação profissional.

Método. Descrição do Serviço de Plantão Psicológico do CIPP e dos referenciais teóricos utilizados, com base nas perspectivas de Carl Rogers e Yolanda Cintrão Forghieri.

Resultados. O Serviço de Plantão Psicológico do CIPP foi inaugurado em março de 2008, com o objetivo de oferecer ajuda emergencial e situacional aos usuários da clínica-escola, reduzindo o tempo em que esses permaneciam na fila de espera para o atendimento psicológico convencional. Constitui-se como um apêndice da disciplina Aconselhamento Psicológico, oferecida aos alunos dos 9º e 10º termos do Curso de Psicologia do ITES, enquantoum estágio extracurricular supervisionado. O plantão psicológico consiste em uma ajuda como um tipo de atuação breve que tem como objetivo acolher o cliente que procura ajuda, ouvi-lo, tentar compreender seu estado emocional no mesmo momento em que ele é experimentado e vivido (BELAS, 1999). O Serviço de Plantão Psicológico do ITES acolhe a pessoa no momento exato de sua necessidade, possibilitando que ela se reorganize internamente, lidando com seus próprios recursos psicológicos e, encontrando soluções para as questões que a aflige, em um determinado momento existencial. Caracteriza-se pela urgência do cliente para ser ouvido, independente de sua problemática. Cada plantonista permanece no serviço por duas horas semanais, em horários pré-determinados e fixos, por um período de dois meses e cada cliente tem direito a três sessões consecutivas. O serviço é oferecido gratuitamente a jovens e adultos, de ambos os sexos, que podem procurá-lo por demanda espontânea ou serem encaminhados por algum órgão de saúde do município. É a partir do terceiro atendimento que o plantonista encaminha ou não o cliente para outros tipos de intervenção psicológica no CIPP ou para outros atendimentos em saúde. A urgência do atendimento é avaliada pelo plantonista e supervisora, embora o encaminhamento seja discutido com o cliente e definido de acordo com sua motivação. O referencial teórico é embasado nas perspectivas rogeriana e forghieriana, seguindo uma visão mais global e otimista da natureza e da potencialidade humana, compreendendo o homem como um ser autodeterminado e capaz de ser responsável pelas suas escolhas. Carl Rogers encontrou três condições básicas e simultâneas que devem existir no relacionamento entre conselheiro e cliente para que ocorra a descoberta desse núcleo essencialmente positivo em cada ser humano: a consideração positiva incondicional, a empatia e a congruência. Para Forghieri (2001), o ser e o mundo; o sujeito e o objeto não são seres independentes, mas ligados em uma relação recíproca de cognoscibilidade. Nesse sentido, é por meio de um encontro intersubjetivo, que o plantonista é capaz de possibilitar ao cliente conceder novos sentidos a sua existência, deixando-o livre para escolher sobre os assuntos que quer abordar e que rumos trilhar. Ao assumir atitudes rogerianas, o plantonista torna-se capaz de aceitar a pessoa como ela e de se colocar em seu lugar, expressando seus sentimentos e percepções e, possibilitando com que o outro exerça a sua liberdade experiencial e desenvolva suas potencialidades. Ademais, é percebendo seu próprio mundo interno que o plantonista torna-se capaz de respeitar o momento e as experiências do outro, ao mesmo tempo em que se aperfeiçoa.

Conclusões. A atuação em plantão psicológico é terapêutica, pois na maioria das vezes ela possibilita o resgatar da saúde existencial do cliente, isto é, lhe própria bem-estar ao vivenciar de modo global a sua liberdade, o acolhimento e a sintonia em relação a si, aos seus semelhantes e ao mundo. Ao refletir acerca de sua condição, torna-se capaz de ampliar suas possibilidades e esperanças em relação à vida e obter soluções para suas aflições. É num espaço e tempo significativos que a dor é acolhida, a aflição aliviada e a demanda reconfigurada.

Implicações Clínicas. Mais que promover o desenvolvimento da postura ética e da competência técnico-metodológica do aluno, o Serviço de Plantão Psicológico possibilita, em um tempo inédito, a experiência singular de lidar com demandas imprevistas e urgentes. Engendra novas formas de ouvir, agir e ver o mundo; afina a escuta do outro e possibilita ao aluno lidar com a própria ansiedade e liberdade, podendo tanto afligir-se diante dos infortúnios da existência, quanto maravilhar-se diante da essência humana, num exercício constante de autoconhecimento e de aperfeiçoamento profissional e enquanto ser humano.

 

Endereço eletrônico do autor:

viviane_ferrari@hotmail.com

mrlerri@yahoo.com.br

ehelena@usp.br

maratavares57@yahoo.com.br

 

 

A DEPENDÊNCIA QUÍMICA E O ESQUECIMENTO DE SI NA LEITURA FENOMENOLÓGICO-EXISTENCIAL

 

ANA CLÁUDIA PINHEIRO

FUNDAÇÃO INSTITUTO DE ENFERMAGEM DE RIBEIRÃO PRETO-SÃO PAULO

 

Objetivo: Melhor compreensão da abordagem focalizando um caso clínico que relata o uso abusivo de álcool de uma residente em uma clínica de recuperação. Alcoolismo é uma doença crônica e progressiva; se caracteriza pelo consumo regular e contínuo de bebidas alcoólicas. Começa-se por experimentar a beber, depois bebe-se pontualmente e daí passa-se a beber com regularidade, até criar dependência. Para algumas pessoas é um processo relativamente rápido (PORTAL DA SAÚDE). A fenomenologia Existencial vai trabalhar visando compreender a vida cotidiana do homem, seu experienciar e o significado que atribui a esse vivenciar. É a existência, o vivenciar que revela a essência do homem. A questão crucial do homem será o fato de existir neste dado momento no tempo e no espaço e o seu problema é como se manter consciente deste fato e o que deve ser feito quanto a isso. Autoconhecimento revela que ele é finito e tem um tempo limite para existir, que tem possibilidade e que só existindo pode realizá-la; que tem que realizar escolhas, que é um ser sozinho e que ao mesmo tempo se relaciona com os outros. Quanto mais tiver consciência dessas condições mais é livre, pois aumenta sua liberdade de escolha.

Metodologia: Foi descrito o caso de Maria (nome fictício), resumindo sua história de vida e suas queixas. Foi feito pesquisa bibliográfica da abordagem e sobre a dependência de álcool.

Resultado: A cliente tem 52 anos de idade, é divorciada e tem duas filhas, uma de 24 anos e outra de 28 anos de idade. Esta é de classe econômica média.  Atualmente encontra-se residente numa clínica de recuperação para dependentes químicos. Conta que o marido desconfiava que sua filha mais nova fosse filha de um amigo dele, mas não se relacionou com ele, mas seu marido não acreditava e chegou ameaçar a matar ela e a filha com um revolver. Diz que a filha não é independente, diz que tem que fazer tudo por ela. Diz que para ficar longe da filha mais velha está sendo muito difícil, porque ela dependia muito da mãe. Maria diz que faz de tudo para as filhas, dá dinheiro a elas, mas está tentando não ter essa atitude mais. Conta que não se sente mãe das meninas, pois elas não a “consideram”, não a respeitam, se aproximam apenas para pedir dinheiro, quando Maria nega, sofre agressões verbais e até ameaças das filhas. Com a análise e com as considerações trazidas no discurso da cliente verificou-se que a cliente era dependente do outro e dos ressentimentos do passado, viveu a culpa dos acontecimentos, com isso mostrou não ter controle do álcool e da sua vida. Não era cuidada pelas filhas e também não se cuidava, cedia aos caprichos destas e não exercia sua autoridade. Escolheu durante dez anos suportar as agressões físicas e verbais do ex-marido. Maria agarrava-se ás filhas e à bebida, como se agarrasse a vida.  A cliente significava o álcool como algo “bom”, que era capaz de aplacar a dor de existir. Ela fazia uso para aliviar sua dor. O álcool lhe servia como forma de não enfrentamento da sua realidade. Como muletas para suportar a dor, Maria utiliza das “substâncias embriagadoras”, embriagando sua vida e deixando de assumir a responsabilidade de deu existir. Assim, o uso repetido faz com que Maria altere sua relação com o tempo, aliviando-se constantemente da necessidade de cuidar de seu futuro e do seu próprio eu. Sua existência não é autentica, pois escolhe não cuidar de seu destino. Maria foge e não assume a si mesmo, sua dor, seu sofrimento, pois não dá conta de bancar isto. Percebeu-se que a temporalidade do efeito do álcool tranqüiliza o ser, impedindo-a de pensar na própria morte e na vida. A fuga para o álcool consistia no afastamento de si mesma, e buscava subterfúgios que a tirasse da situação de confronto com suas emoções, mas esta fuga apenas lhe trouxe desespero e angústia. A cliente ainda não conseguiu sair da posição de vítima do mundo para perceber-se como um ser de escolhas e lançada no mundo. Ao psicoterapeuta cabe acolher e compreender a singularidade da cliente. Para Forghieri (2004), o ser-doente existencialmente não reconhece, não aceita e não consegue enfrentar as limitações do seu existir, assim como Maria. Os conflitos aumentam, e desse modo, dificultam a significação dos seus sofrimentos e abertura de outras possibilidades.

Considerações Finais: Possibilitar à cliente a conscientização do caminho em que está escolhendo para a sua vida e decidir o que quer para si mesmo. O cliente precisa de alguém que se preocupe com. Cliente é alguém que precisa ser ouvido e compreendido em sua singularidade. O analista deve “calcar os sapatos do outro, sem, no entanto ficar com eles para si.” (Pokladek,2004). O terapeuta deve ser-com-o-cliente.

Implicações Clínicas: Á Maria cabe com a ajuda do terapeuta, olhar para sua única e restrita forma dependente-de-ser, podendo ou não decidir construir novos sentidos para a história de sua vida, tornando possível aproximar-se na autenticidade da Presença de Ser. Merece ser conscientizada do caminho em que está escolhendo para sua vida. Feijóo (1998) expõe que o terapeuta não deve ter a ilusão de modificar o cliente, mas deve fazer com que olhe para a realidade do mundo e de si próprio.

 

Endereço eletrônico do autor: anaclaudia_pinheiro@yahoo.com.br

 

 

POSSIBILIDADES DE INTERVENÇÃO A PARTIR DA PESQUISA FENOMENOLÓGICA

 

 

Mauro Martins Amatuzzi)[1]

Bruna Fenocchi Guedes Campos[2]

Henri Karam Amorim[3]

Karine Cambuy[4]

Thais de Assis Antunes Baungart[5]

 

 

O objetivo desta mesa redonda é refletir sobre a possibilidade de intervenção que pode acontecer em pesquisas fenomenológicas. Para isto apresentaremos três estudos em andamento do grupo de pesquisa “Processos psicológicos: Abordagens Qualitativas” que exemplificam graus diferentes de intervenção. Entendemos que um dos compromissos éticos da pesquisa qualitativa é poder contribuir de alguma forma para que os colaboradores de pesquisa possam obter algum benefício no sentido de crescimento pessoal, ainda que o procedimento da pesquisa seja centrado apenas em entrevistas individuais. Entende-se que a pesquisa fenomenológica, ao lidar com a experiência e significados vividos é capaz de trazer mobilização pessoal tanto para o pesquisador como para o pesquisado o que equivale a dizer que ela será sempre, em algum grau, interventiva. Além disso, tal pesquisa pressupõe: 1) o caráter construtivo-interativo de seu delineamento, 2) e a não separação entre teoria e prática. Todas as pesquisas aqui consideradas trabalham com uma proposta interventiva; estudam o fenômeno atuando sobre ele juntamente com pessoas envolvidas. A pesquisa de Antunes Baungart constrói-se a partir de uma intervenção concreta através de um grupo de crescimento, constituindo-se como a dimensão reflexiva dessa intervenção. Amorim propõe a realização de um grupo concebido como um espaço a mais dentro da própria comunidade religiosa no sentido de ajudar as pessoas a ampliar suas perspectivas de crescimento pessoal a partir da consideração de suas experiências de vida. A pesquisa de Cambuy está estreitamente ligada ao contexto de sua prática profissional; a reflexão sobre sua própria experiência e sobre a vivência dos participantes permite gerar mobilização no meio em que ambos atuam. A pesquisa de Campos desenvolve-se a partir de entrevistas reflexivas que são momentos de interação humana e que possibilitam aos envolvidos reorganizar idéias, construir conhecimentos e ressignificar crenças e vivências.  

 

Palavras-chave: pesquisa-intervenção, pesquisa fenomenológica, pesquisa qualitativa.

 

 

A intervenção na pesquisa fenomenológica: um exemplo com grupo de crescimento.

 

Thais de Assis Antunes Baungart – PUC-Campinas

Mauro Martins Amatuzzi – PUC-Campinas

 

 

A pesquisa de doutorado (em fase de conclusão) intitulada: “Grupo de Crescimento psicológico na formação sacerdotal: pertinência e possibilidades”  é um exemplo concreto de pesquisa qualitativa- interventiva junto a um grupo. Este estudo tem como objetivo descrever e compreender o processo de desenvolvimento psicológico e formativo de pré-seminaristas católicos com a prática do grupo de crescimento. Para esta pesquisa são realizados quinzenalmente encontros com pré-seminaristas católicos a fim de promover reflexões acerca das experiências de vida cotidiana do grupo. A pesquisadora atua como facilitadora dos encontros e procura, junto com os participantes, construir novos significados a cada reflexão trazida pelo grupo. Isso para que, através da descrição e re-significação das experiências relatadas se possa elaborar, junto com os participantes, uma pesquisa que faça sentido para a população estudada. Os resultados parciais dessa pesquisa mostram que a realização (intervenção) de um grupo de crescimento com pré-seminaristas contribui de maneira significativa para o crescimento pessoal e, conseqüentemente, para o desenvolvimento psicológico desta população. Isso porque durante a realização dos encontros, os participantes experimentam falar sobre suas vivências, seus sentimentos, suas incertezas e ansiedades frente ao desafio que pretendem enfrentar ao ingressar para o seminário. Ao compartilhar tais sentimentos com o grupo e a pesquisadora, o participante tem a oportunidade de refletir sobre aquilo que esta falando. Além disso, a ação conjunta do grupo tende a proporcionar um acolhimento que por si só gera no participante uma força interior capaz de promover mudanças de comportamento e algumas vezes até de sentimentos que resultam no crescimento pessoal.

 

Palavras-chave: grupo de crescimento, pesquisa qualitativa, religião.

 

 

Vivência comunitária católica e crescimento pessoal: um estudo qualitativo

 

Henri Karam Amorim – PUC-Campinas

Mauro Martins Amatuzzi -  PUC- Campinas

 

 

A pesquisa de mestrado intitulada “Vivência comunitária católica e crescimento pessoal: um estudo qualitativo” tem como objetivo compreenderos sentidos da experiência de fé vivida em uma comunidade católica como crescimento pessoal daqueles que dela participam. O estudo está na fase inicial. Dentro de uma perspectiva interventiva, será proposta, em uma paróquia católica da região de Campinas, a realização de um grupo concebido como um espaço a mais dentro da própria comunidade no sentido de ajudar as pessoas a ampliar suas perspectivas de crescimento pessoal a partir da consideração de suas experiências de vida. Os participantes, em torno de oito, serão convidados dentre pessoas adultas comprometidas com o trabalho voluntário dentro de uma comunidade católica.  Após cada encontro grupal será feita, pelos membros do grupo e pelo pesquisador, por escrito, uma “versão de sentido”, entendida, conforme Amatuzzi, como a fala expressiva da experiência imediata de seu autor, face a um encontro recém-terminado. Será feita também pelo pesquisador uma narrativa registrando os momentos mais significativos do grupo bem como seu movimento como um todo. Pretende-se fazer uma análise qualitativa desse conjunto de narrativas, reunindo por eixos de significado tudo o que foi vivido e falado pelos participantes. Espera-se que o grupo realizado e sua análise permitam um esclarecimento acerca das relações entre vivências de comunidade de fé e mobilização em vista de crescimento pessoal de seus participantes.

 

Palavras-chave: psicologia comunitária, experiência religiosa, crescimento pessoal, pesquisa qualitativa.

 

 

Experiências Comunitárias em Saúde Mental: A pesquisa mobilizando o fazer profissional.

 

Karine Cambuy – PUC-Campinas

Mauro Martins Amatuzzi – PUC-Campinas

 

 

A pesquisa de doutorado intitulada “Experiências Comunitárias em Saúde Mental: Repensando a Clínica Psicológica na Saúde Pública” tem como objetivo compreender como vivências comunitárias de psicólogos clínicos podem contribuir para a ampliação do conceito de clínica psicológica em Saúde Pública. Foram realizadas entrevistas individuais com psicólogos clínicos contratados para trabalhar na Rede Pública de Saúde de Campinas-SP e que estão envolvidos com projetos ligados à Centros de Convivência ou Oficinas de Geração de Renda. A pesquisadora também utilizou registros de acontecimentos significativos a partir do próprio espaço comunitário onde ela atua como profissional. O estudo está na fase de conclusão e o que se pode afirmar até o momento, além da potencialidade das práticas comunitárias de convivência e geração de renda na vida das pessoas e a ampliação do conceito de clínica a partir destas práticas, é o quanto o processo de pesquisar permitiu ir além da descrição e reflexão sobre este tipo de proposta, gerando mobilizações que enriqueceram a própria prática profissional tanto da pesquisadora como dos participantes. No caso da pesquisadora, esta mobilização permitiu com ela repensasse seu próprio conceito de clínica, fortalecendo nela a idéia de que é possível exercer uma prática clínica mais ampliada a partir de projetos comunitários. Percebe-se que os participantes também obtiveram ganhos na medida que se posicionaram sobre o quanto falar sobre suas experiências, permitiu com que refletissem sobre alguns aspectos de suas práticas que precisavam ser melhor esclarecidos. Finalmente, deve-se acrescentar que as entrevistas representaram uma parte de um processo de reflexão que se iniciou muito antes da proposta deste estudo, porém sem uma sistematização teórica. Isto vem mostrar a inseparabilidade e retroalimentação constante entre pesquisa e intervenção.

 

Palavras-chave: trabalho comunitário, clínica ampliada, pesquisa fenomenológica e intervenção.

 

 

O Ser Voluntário

 

Bruna Fenocchi Guedes Campos (PUC-Campinas).

Mauro Martins Amatuzzi (PUC-Campinas).

 

 

A pesquisa de doutorado “O ser voluntário”, que está em andamento, pretende conhecer e compreender a vivência que pessoas têm de suas experiências de prática de voluntariado; busca por um caminho fenomenológico, ir além das primeiras declarações fornecidas; refletir sobre as diversas possibilidades de atuação voluntária; e discutir o significado do voluntariado no contexto social contemporâneo. Para tanto, a pesquisadora parte do pressuposto de que os sentidos da prática não se reduzem ao que é imediatamente expresso nos discursos das pessoas; e que outros sentidos podem ser encontrados se for facultada a tais voluntários a possibilidade de se aprofundarem em suas vivências no contexto de uma entrevista facilitadora, não diretiva e reflexiva. Tal entrevista é um encontro interpessoal, uma situação de interação humana, que inclui a intencionalidade dos protagonistas e se constitui num momento de organização de idéias, de construção de conhecimento e de ressignificação de vivências.  Assim, pode-se afirmar que a intervenção que acontece nesta pesquisa fenomenológica, por meio das entrevistas, possibilita aos envolvidos rever e repensar seus conceitos e crenças no voluntariado; reorganizar idéias, construir saberes e ressignificar convicções e vivências.  

 

Palavras-chave: pesquisa fenomenológica; entrevista reflexiva; voluntariado.

 

 

 

MESA REDONDA – SÁBADO, 10 DE OUTUBRO DE 2009 – 13h00

 

A FORMAÇÃO EM PSICOTERAPIA FENOMENOLÓGICO-EXISTENCIAL

 

 

O SER PSICOTERAPEUTA EXISTENCIAL

Prof. Ms. André Roberto Ribeiro Torres

 

Pensar o “ser” é um dos temas centrais de se pensar a existência. Ser psicoterapeuta existencial é buscar construir um estilo de Ciência que resgata a união entre Filosofia  e Psicologia. Não é uma proposta nova. Vários autores já realizaram propostas nesse sentido. Tais ideias foram tidas em determinados momentos como revolucionária e, em outros momentos, considerada um modismo ultrapassado. Surge, assim, uma necessidade de contextualização da psicoterapia existencial com a contemporaneidade. Busca-se estabelecer alguns direcionamentos mais concretos e contemporâneos para a prática da psicoterapia existencial, focando o aprofundamento das zonas de sentido presentes no discurso do cliente e a busca de relações com outras zonas de sentido de forma ampla e dialética. São apresentados alguns itens derivados do pensamento existencial e adaptados aos fenômenos contemporâneos. Os itens são: 1) Divisão Ontológica; 2) Necessidade de Ontologia; 3) Conflito entre Mudança e Controle; 4) Crise de Valores e Referências Existenciais; 5) Relação Sujeito-Objeto; 6) Corpo,  espacialidade e sexualidade; 7) Tendência à subjetivação; 8) Relação Expressão-Percepção; 9) Impacto do fenômeno; 10) Angústia, Morte, Temporalidade e Temas Existenciais; 11) Solidão; 12) Sentimento de Inadequação; 13) Atmosfera; 14) Sociedade e pertencimento; 15) Rebeldia Permitida e Mercado; 16) Assumir a Existência.

 

Palavras-chave: Psicologia Existencial, Psicologia Fenomenológica, Psicoterapia Contemporânea, Contemporaneidade.

 

Endereço eletrônico do autor: andre@torres.psc.br

 

 

 

O subsídio fenomenológico na formação do psicoterapeuta

 

Thiago Gomes de Castro

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Centro de Psicoterapia Existencial

 

 

A formação em psicoterapia caracteriza-se, em linhas gerais, pela discussão de atendimentos e a interface entre subsídio teórico e direcionamento ético na escuta clínica. No caso da fenomenologia-existencial, a reflexão sobre uma uniformidade teórica e mesmo técnica é tarefa complexa. Isto porque decorrem desta tradição diferentes olhares sobre a própria natureza do fazer humano (ontologia). Essa pluralidade mostra-se presente, por exemplo, quando observadas as teses de oposicionismo da consciência entre ser-para-si e ser-em-si (Sartre), em contraste com o monismo corporificado e inclusivo da dimensão visível-invisível (Merleau-Ponty). Todavia, a direção da clínica deve estar respaldada em uma orientação ética que prescinda as diferenças conceituais de leitura do fazer humano. Nessa medida, os contrastes, por vezes vislumbrados, podem ser contemplados, sem prejuízo, em um contexto primeiro da posição fenomenológica sobre o desenrolar das regiões ônticas na psicoterapia. Ou seja, o espaço para o conflito explicativo sobre o conteúdo das vivências deve ser substituído por uma mudança primordial de atitude para com o fenômeno da fala. Será, portanto, subsídio desta ética clínica uma disposição pré-pessoal que se ampare na orientação de abertura ao intuitivo, sem fins de explicação do conteúdo da fala, e, sobretudo, reconhecimento do fluxo inapreensível e eterno de significações da experiência.        

Palavras-chave: formação, clínica, fenomenologia.

 

Endereço eletrônico do autor: tgomesdecastro@yahoo.com.br.

 

 

O ATENDIMENTO INFANTIL NA ÓTICA FENOMENOLÓGICO-EXISTENCIAL

 

 

O AUTOCONHECIMENTO EM PSICOTERAPIA INFANTIL NA OTICA FENOMENOLÓGICO-EXISTENCIAL

 

Vânia Midori Brunelli

 

 

O presente trabalho é resultado do curso de formação em psicoterapia fenomenológico-existencial. Quando pensei sobre o que escrever no meu trabalho de conclusão de curso, logo me veio a idéia de escrever sobre meu trabalho com crianças. Assim que me formei e comecei a atuar na clínica, um dos meus primeiros grandes desafios foi atender “crianças-problema”, segundo seus pais. O atendimento psicoterápico infantil foi se tornando inevitável, sendo a maior demanda que eu tinha na época (março de 2006) e, embora eu considerasse muita responsabilidade atendê-las, resolvi encarar e aceitar esse desafio pessoal e profissional.

No momento em que meus primeiros pacientes crianças apareceram, senti insegurança, pois, na maioria dos casos elas vinham acompanhadas de pedidos de avaliação psicológica solicitadas por parte da escola ou de médicos e também com uma grande cobrança dos pais, que sempre demonstravam querer efeitos mágicos e rápidos para ajudar seu filho.

Assim, como todo profissional recém-formado tem que começar de alguma forma atuar, comecei. Aceitei esse desafio e comecei a dar meus primeiros passos como psicóloga clínica e também na psicoterapia infantil. Logo de início, dediquei-me muito ao meu trabalho (e os poucos pacientes que tinha me propiciaram isso). Comecei a atender e, ao mesmo tempo, estudar as possibilidades do meu existir enquanto psicóloga de crianças. Algo que me ajudou de maneira importantíssima neste início foi a leitura de alguns textos da área de psicoterapia infantil, em especial textos escritos por Vanessa Maichin, Débora Azevedo e o livro de Violet Oaklander (meu livro de cabeceira durante alguns meses)[6].

Com a leitura dos textos citados e com os conhecimentos adquiridos nos cinco anos de faculdade, fui dando forma a minha maneira de trabalhar na clínica. Comecei a atender meus “pacientinhos”, desenvolvi muitas atividades com eles, atendi seus pais, desenhamos, brincamos, realizei o psicodiagnóstico, a entrevista devolutiva aos pais e percebi que, aos poucos, tanto as crianças como eu, crescíamos. Feitos esses primeiros trabalhos, algo me intrigou: passava a maior parte do tempo com as crianças e, na hora da devolutiva do processo terapêutico, eram os pais que recebiam um relatório (verbal ou escrito) com linguagem própria para eles (o qual dificilmente a criança entende). Questionei-me: “Onde fica a criança nesse processo de devolutiva?” Também realizo devolutivas parciais no decorrer do processo para as crianças, repassando percepções e observações, visando torná-las participantes, mas ainda assim não me parecia suficiente.

Queria ajudar mais aquela pessoa pequena, que se tornou tão especial para mim, a entender melhor o sentido do estar em terapia; o sentido de ficar todo aquele tempo comigo e depois deixar de me encontrar. Queria ajudá-la entender o que aconteceu com ela durante esse tempo que caminhamos juntas. Foi a partir de então que decidi escrever um livro sobre a criança: sobre sua vida, sobre a queixa inicial, sobre o processo psicoterapêutico, sobre a avaliação feita e sobre os resultados. Tudo isso junto com ela e falando dela. Para que, assim, ela realmente pudesse entender a si mesmo e o seu existir, e também me ajudar a desvendar ainda mais o seu modo de ser-no-mundo. Aqui está o objetivo do meu trabalho: mostrar a minha maneira de cuidar e olhar a criança no processo devolutivo (e, muitas vezes, final) da psicoterapia.

Vale lembrar que a primeira vez que entrei em contato com este tipo de trabalho de devolutiva para criança foi no texto de Débora Azevedo (2002)[7], no qual ela cita Elizabeth Becker e Mary Santiago. Segundo Azevedo (2002),

“Trata-se de realizar a devolutiva final com a criança através de livros infantis, os quais são confeccionados pelo próprio psicólogo. É um livro com a história da criança. Escolhe-se um personagem principal, que pode representá-la, pode ser humano, animal ou inanimado, um personagem já conhecido ou até inventado. A história da criança é reescrita e ilustrada desde o seu nascimento. Dá-se um enfoque ao modo de ser dela e dos que a rodeiam. A trama gira em torno dos acontecimentos presentes, revelando as dificuldades que a trouxeram ao psicólogo e propondo alternativas” (p. 119)

A partir da idéia que as autoras trouxeram, tentei visualizar um trabalho pensando nas crianças que atendia. Foi então que comecei a desenvolver e a criar o livro de devolutiva para a criança sobre ela própria, sendo ela a personagem principal e autora colaboradora do livro.

Busco e buscarei neste trabalho apenas mostrar uma maneira de ajudar a criança a se conhecer melhor após o processo de psicodiagnóstico ou mesmo depois de algum tempo de psicoterapia. Não tenho a pretensão de trazer algo conclusivo nem algo estanque sobre a devolutiva nos processos de avaliação psicológica. O que pretendo é ampliar as possibilidades na hora da devolutiva para as crianças, dividindo com os leitores a minha maneira de atuar e a pequena experiência na clínica com meus “pacientinhos”.

 

Endereço Eletrônico do autor: vaniamidori@yahoo.com.br

 

 

O BRINCAR E A EXPRESSÃO DO VIVIDO: A BRINQUEDOTECA A PARTIR DE UMA PERSPECTIVA FENOMENOLÓGICO-EXISTENCIAL

 

Marcelo Borges

Daniella Arruga

 

GRAACC – Grupo de apoio à criança e ao adolescente com câncer – São Paulo – São Paulo – Brasil

Fundação Dorina Nowill para cegos – São Paulo – São Paulo – Brasil

 

 

Este trabalho apresenta a nossa experiência com a brinquedoteca em diferentes contextos. Inicialmente conhecemos o trabalho desenvolvido com crianças com câncer e posteriormente criamos uma brinquedoteca para crianças portadoras de deficiência visual. Partindo de uma perspectiva fenomenológico-existencial a brinquedoteca, visa proporcionar um espaço para o brincar, bem como beneficiar as crianças com momentos de recreação e lazer, além de uma ampliação do contato afetivo e de aprendizagem, estimulando a autonomia, a criatividade e a fantasia. Oferece oportunidade para que as crianças expressem seus sentimentos através dos brinquedos e do brincar, valorizando a atividade criativa e possibilitando o acesso à vivência afetiva da criança acerca de sua deficiência e de sua maneira de apreender o mundo e a si mesma. Cria um espaço onde ela criança pode se relacionar com o adulto de maneira espontânea, prazerosa e livre, distante das formalidades estruturadas de outros ambientes. Permiti, ainda, que a criança faça escolhas a partir de seus sentimentos, apropriando-se de um espaço permanentemente disponível para sua expressão.

A brinquedoteca é uma contribuição inegável para o desenvolvimento da criança, considerando um ambiente de atendimento médico, psicológico ou social, pois não é apenas uma sala de espera, mas um local onde as crianças podem expor seus medos, socializar-se com outras crianças e tomar contato com seus sentimentos. Na brinquedoteca é possível compreender o processo vivido pela criança e também a necessidade que os pais têm de se sentirem apoiados. É possível criar uma atmosfera familiar estimulando os pais a participarem de atividades junto com o filho. A brinquedoteca tem a função de encorajar a criança, a fantasiar e a brincar ao máximo, pois é no espaço do brincar que pode acontecer a expressão de uma realidade. É um meio pelo qual pode-se auxiliar a criança a trazer o que está oculto, ou o que evita, mostrando o que ela sente a partir de suas perspectivas de estar-no-mundo, abrindo espaço para a atribuição de sentidos do momento vivido, podendo dessa forma explorar e descobrir alternativas em sua vida.

O espaço físico deve ser adaptado para que a criança possa permanecer autônoma no seu brincar, a fim de que, seja preservada sua maneira e seu ritmo de vivenciar seus sentimentos.

O aspecto fundamental é que o espaço da brinquedoteca e as atividades nela desenvolvidas sejam promotores de tais vivências, tanto para as crianças quanto para os pais ou seus acompanhantes.

 

Endereço eletrônico do autor: borges@gestaltsp.com.br

 

NAS FRONTEIRAS DO EXISTIR: VIVÊNCIAS DE UM MÉDICO NO CUIDADO PALIATIVO DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES COM CÂNCER.

Nichollas Martins Areco

Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto

Universidade de São Paulo

Ribeirão Preto – SP, Brasil

Objetivo. Este estudo visa compreender como profissional da área médica, pertencente a uma equipe multidisciplinar de oncologia pediátrica de um hospital-escola, vivencia o cuidado paliativo de crianças e adolescentes fora de possibilidade de cura.

Método. Para apreender os significados e sentidos atribuídos pelo médico à convivência e assistência de pacientes pediátricos próximos de sua finitude, será utilizada como marco metodológico a psicologia orientada pela fenomenologia-existencial. Mediante ao consentimento livre e esclarecido do participante, a entrevista foi estruturada a partir da questão norteadora “em sua experiência como profissional de uma unidade de oncologia pediátrica, como você vivencia a prática dos cuidados paliativos?”. O depoimento foi audiogravado e transcrito na íntegra. Posteriormente foi realizada análise buscando identificar unidades de sentidos e a articulação das mesmas, permitindo compreender a descrição do mundo-vivido do depoente, sendo possível desvelar e compreender a sua experiência.

Resultados. Emergem do relato do profissional de saúde três pontos fundamentais que compõem o fenômeno: autenticidade no cuidado, relação com a família e atitude frente à morte. Para o médico participante é fundamental que haja autenticidade no cuidado, desde o diagnóstico até os últimos momentos de vida da criança. Esta postura se traduz em deixar claro quais as possibilidades do tratamento e suas limitações, buscando oferecer tranqüilidade e bem-estar através dos recursos terapêuticos disponíveis e de relação acolhedora, mesmo quando a remissão da enfermidade não é mais possível. Destaca-se, ainda, a importância de estender os cuidados aos familiares como forma de promover maior integração na assistência, oferecendo espaço de escuta e apoio mesmo após a morte da criança ou adolescente. Esta atitude é mantida pelo profissional sem esperar gratidão ou algum tipo de manifestação amistosa dos pais, uma vez que compreende a dor da perda de um filho. Desvela-se, também, que suas concepções referentes à morte são perpassadas por experiências de perdas pessoais, bem como da vivência profissional. No inicio de sua carreira, seu contato com a morte na oncologia pediátrica provocava em si impactos emocionais negativos, derivados do desenlace precoce do paciente e pelo sentimento de impotência, derivado da escassez de recursos técnicos. Contudo, o amadurecimento pessoal e o constante contato e aprendizado com este contexto, possibilitaram que o profissional passasse a se mobilizar mais com a dor do paciente e dos familiares, abrindo espaço para o compartilhamento de sentimentos e a humanização de seu ofício, mesmo que isso cause intenso desgaste emocional.

Conclusões. Ao se deparar com o ser-para-a-morte em sua cotidianidade, o médico é atingido em sua dimensão íntima e pessoal, experimentando repercussões emocionais que o levam a refletir sobre suas concepções de vida e morte. Lidando com a finitude de forma autêntica, o profissional consegue perceber os limites do existir e, a partir deste liame, tem a chance de voltar seus olhos não só para a decadência e para a falta, mas elabora modos de percorrer os últimos momentos da existência através do preenchimento da vida que ainda existe, através da relação significativa com os jovens pacientes e seus familiares. Esta postura se reitera na importância que o entrevistado confere ao não-abandono, respeito e honestidade no diálogo, e na tentativa de oferecer qualidade de vida até o fim, pontos angulares da assistência paliativa. Assim, ao se tornar sensível à dor e ao sofrimento, também se torna sensível às condições necessárias para que haja vida digna.

Implicações Clínicas. Ao nos acercarmos da vivência de um profissional de uma equipe de oncologia pediátrica nos deparamos com a vulnerabilidade que o cuidador experimenta em seu dia-a-dia e com os efeitos, por vezes nocivos, à sua saúde existencial. A partir deste reconhecimento é possível balizar intervenções, seja no campo da formação e capacitação profissional, de aconselhamento ou intervenções psicológicas grupais/individuais, que auxiliem na mobilização de recursos pessoais para a elaboração desta experiência em favor do crescimento humano e laboral deste profissional. (CNPq)

Endereço eletrônico do autor: martinsareco@gmail.com

 

PSICOTERAPIA FENOMENOLÓGICO-EXISTENCIAL E

CONTEMPORANEIDADE

 

 

O IMAGINÁRIO NA CONCEPÇÃO FENOMENOLÓGICO-EXISTENCIAL

 

Flávia Augusta Vetter Ferri

 

O homem é um eterno vir-a-ser, como descreveu Sartre. É com esse movimento que a existência flui constantemente. Acreditando nessa perspectiva, o presente trabalho apresenta um novo olhar acerca de um atendimento clínico realizado no ano de 2006. Para isso, foi realizada a leitura das gravações transcritas para não perder o foco dos atendimentos. Em um segundo momento, buscou-se um embasamento teórico, enfocado nos pensamentos de Sartre e Merleau-Ponty. Considerando que a psicoterapia no enfoque fenomenológico-existencial está focada nas percepções e sentimentos que o cliente instiga no terapeuta, não poderia deixar de conter relatos da experiência da relação vivenciada naquele momento. No decorrer dos atendimentos, percebeu-se que a queixa inicial, relatada pela cliente ao procurar ajuda, tratava-se apenas de um aspecto de algo que não estava tão aparente. O que havia sido relatado como “dificuldade de concentração” foi percebida, com o passar dos atendimentos, como uma predominância do imaginário na sua vida. Segundo o pensamento de Sartre, o homem é livre para imaginar, sendo a imaginação um ato intencional da consciência. É a consciência de alguma coisa que está ausente em determinado momento, porém, que fora anteriormente percebido por essa consciência. Outro ponto relevante a ser descrito é a espontaneidade, que significa dizer que é uma produção livre, que foge de qualquer forma de determinismo. Segundo Merleau-Ponty, nossa vida é inteira calcada no imaginário e a idealização está diretamente ligada a ele. Embora a idealização seja algo tão presente na vida, é perigoso quando predomina sobre o real. Isso podia ser percebido no caso relatado e, uma vez que geralmente a vida não dá conta de cumprir essas expectativas idealizadas, surge a decepção. É importante ressaltar que o imaginário nada tem de surpreendente. Enquanto os objetos “reais” podem ter possibilidades inesgotáveis de descoberta a seu respeito, os objetos da imaginação nada podem ensinar ou conter de novo, uma vez que só é possível imaginar o que se conhece. Pode-se dizer então, que a imaginação não é mais rica que a realidade, ao contrário, é apenas um pálido esboço dela. Com o passar das sessões, a cliente foi percebendo como isso acontecia em sua vida e mostrou-se aberta a possibilidades de mudança e a correr os riscos da própria existência.

 

Endereço eletrônico do autor: fmailto:flavinha_ferri@hotmail.com

 

 

Afastamento Reflexivo e o Envolvimento Existencial na Cotidianeidade


Márcia Chicareli Costa

Universidade São Marcos

 

 

Objetivos: Este trabalho pretende tratar a dificuldade que alunos de Psicologia apresentam em compreender teoricamente os casos atendidos em Comprometimento Pessoal e Saúde Mental, uma modalidade clínica oferecida para a formação do profissional psicólogo na Universidade São Marcos, em São Paulo, esta modalidade é a “porta de entrada” dos serviços oferecidos pela clínica e usada pelo cliente.

Métodos: Todo caso atendido possibilita ao estudante um entendimento posterior, o que isso quer dizer, que os alunos atendem os casos e após o encerramento dos mesmos afastam-se reflexivamente para envolver-se existencialmente e então fazer o exercício em ir até os dados colhidos durante atendimento e depois explicitá-los em trabalhos acadêmicos.

Resultados: Observou-se que a baixa reflexão usada para a compreensão dos casos pode ser uma ruína para o entendimento dos mesmos, proponho neste texto que os alunos possam parar, pensar, refletir e contemplar a possibilidade de colocar os atendimentos em forma de estudo de caso sem se prender somente a teoria mas jamais se prendendo apenas a prática.

Conclusões: São duas vertentes que precisam caminhar paralelamente para que o trabalho seja complementar e não falte dados nem para a prática e nem para a teoria. Entende-se que cada caso merece uma leitura diferente, dependendo se sua demanda, isto posto, cada caso também demandará uma postura prática única e que acontecerá a partir do encontro. Encontro este que possibilitará o aluno a compreender, colher dados através de técnicas sugeridas em supervisão, o que precisa ser melhorado nos encontros práticos é o alívio do uso da “camisa de força” adota por muitos alunos e ao mesmo tempo usar recursos adequados para uma melhor compreensão teórica que se dará após o encerramento do caso.

 

Implicações Clínicas: Em minha experiência como docente na graduação em psicologia, ministrando disciplina que teoriza a prática, tenho notado um conflito nos alunos, conflito este que enrijece a possibilidade de olhar o fenômeno pelo fenômeno e com o afastamento reflexivo adequado e a luz do envolvimento emocional, perceber que existe possibilidade de estudar um caso sem reproduzir relatórios clínicos. As possibilidades de compreensão de um mesmo caso são muitas, as teorias que podem ser utilizadas também, no entanto, a tentativa em relacionar com uma teoria que faça sentido para o aluno é de fundamental importância para que ele possa fazer um melhor reconhecimento de si mesmo e do estudo feito.

Palavras Chave: Formação do Psicólogo, Afastamento Reflexivo, Envolvimento Existencial

 

Endereço eletrônico do autor: m_chicareli@uol.com.br

 

 

A VIVÊNCIA DO APOIO FAMILIAR NA ÓTICA DE UMA MULHER COM CÂNCER DE MAMA: UMA COMPREENSÃO FENOMENOLÓGICA

 

Daniela Cristina Mucinhato Ambrósio

 

Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto

Universidade de São Paulo.

Ribeirão Preto, SP, Brasil.

 

 

Objetivo. Compreender como uma mulher que se encontra em processo de reabilitação do câncer de mama vivencia o cuidado que lhe é oferecido por seus familiares, particularmente em relação ao apoio percebido.

            Método. Foi adotado o referencial teórico-metodológico da Fenomenologia com o intuito de aproximar-se do ser-no-mundo-com-câncer-de-mama, interrogá-lo e descrevê-lo em sua essência. Para alcançar o objetivo proposto foi entrevistada uma mulher de 43 anos de idade, submetida à quadrantectomia direita há um ano e um mês, contatada em um núcleo público de reabilitação de mulheres mastectomizadas da cidade de Ribeirão Preto, SP. A entrevista individual transcorreu em um único encontro, foi audiogravada mediante o consentimento da colaboradora e desenvolvida a partir da seguinte questão norteadora: Eu gostaria que você me contasse como você tem vivenciado o apoio familiar desde que soube que estava com câncer de mama e o que isso significa para você. Posteriormente, a entrevista foi transcrita na íntegra e literalmente, e analisada segundo o referencial metodológico adotado, com o propósito de extrair as unidades de significado, que permitiram a redução fenomenológica e o conseqüente desvelamento do fenômeno do apoio familiar.        

Resultados. Da análise fenomenológica da entrevista emergiram reflexões que retratam como a colaboradora vivencia o cuidado que lhe é oferecido pelos membros de sua família, principalmente durante os momentos de maior dificuldade de enfrentamento da doença. O cuidado autêntico é vivenciado por essa mulher por meio da preocupação de sua mãe a respeito da gravidade da doença, no momento do diagnóstico, e do suporte prático que lhe é prestado por uma tia nos momentos que se seguem à cirurgia e durante a quimioterapia, para a realização de atividades rotineiras, como tomar banho, cuidar de suas filhas pequenas e organizar a casa. Por outro lado, um cuidado inautêntico e impessoal é experimentado pela entrevistada quando se sente sozinha ao não receber de pessoas de sua convivência palavras que a incentivem a continuar na luta contra o câncer de mama. E ainda, em momentos em que percebe que não recebe compreensão por parte de seu marido a respeito da complexidade do tratamento. Assim, a colaboradora vivencia de um modo deficiente o ser-com experimentado por ela no mundo humano, referindo a falta que sente de ter alguém pronto a ajudá-la, independentemente de seu pedido explícito. Porém, frente à condição deficitária de cuidado em que essa mulher se percebe, ela busca em si própria possibilidades de enfrentar as restrições que sua existência lhe impõe e encontra apoio, sobretudo, em pessoas de fora de seu círculo familiar, em Deus e nos profissionais da saúde.

            Conclusões. Ao deparar-se com uma enfermidade emocionalmente desestruturante como o câncer de mama, a mulher se percebe diante da necessidade de contar com o apoio de sua família como condição indispensável ao enfrentamento da doença, seja para lidar com alterações práticas da rotina diária ou para experienciar um ser-com de modo pleno. Todavia, em casos em que a mulher vivencia um cuidado inautêntico por parte de membros de sua família, ela pode utilizar-se de sua capacidade de escolha e buscar em pessoas de fora de seu círculo familiar um modo autêntico de ser cuidada, que lhe possibilite constituir-se enquanto um ser saudável do ponto de vista existencial. 

            Implicações clínicas. Espera-se que o conhecimento resultante desse estudo possa sensibilizar os profissionais de saúde para as questões subjetivas da mulher com câncer de mama, de modo a colaborar com o penoso processo de enfrentamento da situação de adoecimento, direcionando ações que incluam aspectos relacionados à família e suas necessidades psicossociais. Além disso, que possam potencializar seus próprios recursos e instrumentalizar suas práticas junto a mulheres mastectomizadas, de modo a lhes oferecer suporte autêntico no momento em que a experiência de apoio vivenciado junto ao cuidador familiar se mostra insuficiente ou insatisfatória. (FAPESP).

 

Endereço eletrônico do autor: dani_mucinhato@hotmail.com

 

 

 

CONFERÊNCIA – SÁBADO, 10 DE OUTUBRO DE 2009 – 15h00

 

 

A Somatização na Compreensão Fenomenológico-

Existencial

 

A VIDA COMO FARSA

 

Valdemar Augusto Angerami

 

Se você o tempo todo mostra ao mundo

que tudo, absolutamente tudo, sempre está bem...

que as coisas nunca te abalam ou te preocupam...

Saiba que o corpo irá te desmentir...

As enxaquecas, gastrites, inflamações

na garganta, entre outras manifestações,

são severos sinas da farsa

que você está fazendo da própria vida.

 

Não adianta tentar colocar um sorriso no

rosto se o coração está sangrando.. a alma

não tolera essa farsa... o corpo irá gritar com

os mais variados sintomas... o mioma, o cálculo

renal, a taquicardia, infecção urinária

sempre são sinais de alerta... 

 

Escute o teu coração e veja sua palpitação..

De nada adianta tentar sorrir se não houver

alegria na alma... tente resgatar o que te magoa,

tente superar os percalços, mas não faça da

vida uma farsa... as conseqüências sempre são severas...

não veja nas complicações cardio vasculares

e nas diversas formas de bronquite apenas

meros sintomas físicos... elas também

mostram nossa fragilidade

diante dos mais diferentes enfrentamentos...

 

Não adianta calar se o coração quer gritar...

O grito contido irá doer nas entranhas da alma e irá

machucar as partes do corpo mais sensíveis a tais

agressões... e também não grite quando o

coração quer silêncio... o espírito se desestrutura

diante de barulhos indesejáveis...

não engula dissabores em nome de que

apenas grandes questões

devem te preocupar...

 

Não são apenas os grandes dissabores

que envenenam a alma e dilaceram o corpo e

o coração... também são as pequenas coisinhas que

se somam e tornam insuportável o fardo da

própria vida...

não faça da tua vida uma farsa...

 

É fatal negar os desígnios do corpo... a enxaqueca

é sinal de que a tua tensão excedeu os limites...

A gastrite, esofagite, e a sinusite mostram que a

tua estrutura emocional sucumbiu diante da razão...

Deixe a emoção se mostrar... diante da depressão

assuma estar deprimido... diante da angústia, viva

intensamente o estar angustiado...tente reverter

esse quadro agindo em sentido contrário...

mas não com falso sorriso e titubeios..

 

Diante das lágrimas assuma a intensidade do

teu choro... nunca tente negar o que te faz

sucumbir... a paz e a serenidade são dádivas

do espírito tranqüilo... nunca

faça da própria vida uma farsa.

 

Somos humanos e podemos aceitar o fato de

que sucumbimos diante

dos problemas que afetam nossa humanidade

As tuas disfunções hormonais e de tiróide

são indícios de que você está indo além dos

padecimentos que o corpo e a alma suportam...

 

A vida não tolera farsas... podemos enganar

todos, mas nunca a nós mesmos... a vida

quando se torna uma farsa se torna um fardo

insuportável... não deixe sua vida se transformar

em uma grande farsa.. recolha tua dor e sorria

apenas quando o coração estiver em festa....

Não faça da tua vida uma farsa...

 

Endereço Eletrônico do autor: angerami@angerami.com.br

 

 

 

Intervenções Breves

 

Silvia Ancona-Lopez

Universidade Paulista- UNIP

 

 

A expressão Intervenções  Breves (IB) designa  diferentes modalidades de atendimento breve, incluindo as psicoterapias. Nesta comunicação utilizo esta expressão  para discutir uma forma  de atuar na clínica psicológica que não se caracteriza como psicoterapia, embora apresente momentos terapêuticos. Dispor-se a um atendimento em IB é colocar-se como psicólogo clínico geral permanecendo disponível às diferentes demandas que se apresentarem, sem enquadrá-las em procedimentos  tradicionalmente consagrados e sem a obrigatoriedade de percorrer determinados passos  para prosseguir no atendimento. A atuação caracteriza-se mais por ser uma disposição mais do que uma técnica ou, melhor ainda, uma pré-disposição par a abertura e recepção do que se apresentar. Em termos práticos: quando o cliente vem à procura de amparo psicológico ele quer ser atendido em sus necessidades, pouco importando sob que nome este atendimento se realize.

 

Endereço eletrônico do autor: s.anconalopez@gmail.com

 

 

 

CONFERÊNCIA – SÁBADO, 10 DE OUTUBRO DE 2009 – 16h00

 

 

Os Conceitos de Pensamento e Verdade em Martin Heidegger

 

Jadir Machado Lessa

 

 

A proposta desse trabalho é problematizar a clínica existencial enquanto exercício dialógico que aparece num contexto cultural atravessado por duas concepções diferentes do ato de pensar: pensamento enquanto representação da vida e pensamento enquanto experiência viva. Destacamos a contribuição de Martin Heidegger no processo de desconstrução da concepção tradicional de verdade como representação adequada, que vigorava no pensamento metafísico desde Aristóteles. Aristóteles e outros autores clássicos entendem que existe um mundo dado, substancializado ou essencializado, e que o pensamento corresponde a uma representação desse mundo. Para eles pensar é sinônimo de saber e saber é adquirir informação ou conhecimento acerca do mundo. Heidegger utilizou o método fenomenológico em sua analítica existencial, tendo como problema fundamental o ser, seu sentido e sua verdade. Questionou o modelo de constituição da metafísica por considerar que o fundamento de toda ontologia era teológico. Heidegger pensa a ontologia desnaturalizando a conceitualidade metafísica e examinando o campo de constituição histórica. Com isso abre novas possibilidades de pensar o ser que foram excluídas pelas decisões do modelo metafísico. Com Heidegger entendemos a clínica, não como elaboração de representações mentais, mas como experiência viva. A clínica existencialista, inspirada nas idéias de Heidegger, problematiza a vida enquanto processo de experimentação e não como uma representação daquilo que foi experimentado. Nosso objetivo principal é pensar o modo como o clínico lida com as diferentes concepções do ato de pensar que atravessam o plano da clínica existencial, visando dar visibilidade tanto a sua concepção teórica quanto ao exercício efetivo de sua prática. Especificamente pretendemos identificar em que a clínica existencial se diferencia da clínica que se restringe à representação, destacando, assim, os elementos que propriamente constituem o modo existencial de pensar a clínica. Nosso principal procedimento metodológico é a pesquisa bibliográfica das obras de Heidegger, seguida de uma elaboração fenomenológica da dinâmica do acontecimento clínico.

 

Palavras-chave: pensamento; sentido; verdade; psicoterapia existencial.

 

Endereço eletrônico do autor: jadir.lessa@yahoo.com.br

 

 

 

O VALOR DO OUTRO NO PROCESSO DE LUTO

 

Karina Okajima Fukumitsu

 

Psicóloga, psicoterapeuta, professora do Curso de Psicologia das disciplinas: Introdução à Psicologia Fenomenológica e Teorias Psicológicas de Orientação Fenomenológica e Existencial (Centro de Ciências Biológicas e da Saúde) da Universidade Presbiteriana Mackenzie e professora-convidada pelo Departamento de Gestalt-terapia do Instituto Sedes Sapientiae. Doutoranda em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano (Universidade São Paulo – USP/SP). Mestre em Psicologia Clínica (Michigan School of Professional Psychology – Center for Humanistic Studies – EUA). Especialista em Psicopedagogia (PUC-SP) e em Gestalt-terapia (Sedes Sapientiae-SP).

 

Autora dos livros: Uma visão fenomenológica do luto: um estudo sobre as perdas no desenvolvimento humano e Suicídio e psicoterapia: uma visão gestáltica (Editora Livro Pleno).

 

 

O outro morre...

O outro não apenas morre, mas morre o outro em mim...

O sentido da morte do outro em mim convoca a necessidade de utilizar diversas variantes para a reflexão sobre alteridade e papel do outro na constituição de minha existência. Melhor dizendo: o que acontece com o eu quando o outro morre? Deve-se pensar na morte como um processo de mudanças que demanda energia psíquica para lidar com aspectos nela envolvidos. Vivenciamos de uma maneira diferente todas as experiências. No entanto, assim como somos lançados no mundo sem escolhas, a morte também nos é apresentada sem escolha; é a impossibilidade de novas aberturas para o mundo e de possibilidades. Somos nossos acontecimentos e precisamos aceitar que aquilo que nos acontece tem um sentido, e a maneira como lidamos com as feridas existenciais nos fazem e refazem o tempo inteiro, ou seja, a morte do outro provoca uma reflexão profunda sobre o meu sentido de vida e sobre as relações que estabeleço. O presente trabalho tem como proposta estabelecer correlações entre o valor do outro no processo de luto. O tema deste trabalho teve seu início em 20 de maio de 2008, data da primeira vez que minha mãe foi para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Pela sétima vez, vivemos – minha família e eu – uma sensação de despedida, luto antecipatório e uma avalanche provocada por uma diversidade de sentimentos e pensamentos. Na quarta vez que ela passou mal e retornou direto para a UTI, eu estava em período de provas na universidade em que leciono e meus dois filhos estavam doentes, sendo que um deles também estava internado. Em um dia, estava tão atordoada que saí com o avental da UTI na rua e somente quando um dos familiares de outro paciente chamou minha atenção sobre o avental percebi que não estava realmente bem. Conclusão: o outro me faz perceber lugares vazios, lacunas e espaços intrapsíquicos que devem ser revistos e reencontrados por mim. O outro serve para confortar, confrontar, alinhar e para nos contar como nos comportamos. O sentido verdadeiro da existência e de suas relações é de ser tocado, ser chamado para a responsabilidade de existir, com suas alegrias e tristezas. O desamparo só pode ser acolhido pelo amparo. As relações nos servem para estar-com, para garantir a abertura da existência, para cuidar e confiar na vida e nas vivências, ou seja, o outro não somente me auxilia na percepção da minha condição mortal, mas me recupera da solidão existencial. O ser não é algo definido; ele é um vir-a-ser, pois existe a diferença ontológica que significa que não somos uma coisa, mas, sim, existência. O homem não existe como um sujeito em relação ao mundo externo, tampouco uma coisa ou um objeto que apenas interage com as outras coisas que fazem o mundo. Sendo assim, somos nosso próprio tempo, disponibilidade e abertura para continuar na roda-viva.

Palavras-chave: Morte. Processo de Luto. Outro.

 

 

Endereço eletrônico do autor: karinafukumitsu@gmail.com

 

 

Discussão de Um Episódio do Filme "Sonhos"

do Diretor Akira Kurosawa

 

Adriano Alonso Pereira da Cunha

 

Flávia Augusta Vetter Ferri

 

 

Akira Kurosawa é considerado por muitos, um dos maiores cineastas de todos os tempos, foi quem mostrou a cultura japonesa ao mundo através de seus filmes e, paradoxalmente, foi influenciado pela cultura ocidental, já que alguns de seus filmes usaram textos de Shakespeare e Dostoievski. Uma de suas obras, “Sonhos” (Yume, 1990) apresenta oito histórias do imaginário japonês e, claro, do diretor. A bomba atômica, a cultura e guerra são exemplos de alguns temas. Será feita a análise do último sonho, a partir de conceitos fenomenológico-existenciais e de alguns de seus principais autores, como Heidegger, Sartre e Merleau-Ponty. O diretor nos faz refletir sobre alguns temas: a morte, o tempo, o sentido de vida e o dualismo cartesiano. Assim como em um processo psicoterápico, o diretor nos faz perceber que nossas escolhas estão diretamente relacionadas e influenciando a todo o momento o nosso estilo de vida e, principalmente, levanta reflexões acerca de novas possibilidades de se olhar para o mundo.

Endereço eletrônico dos autores:

alonsoapc@gmail.com

flavinha_ferri@hotmail.com

 

 

 

OFICINA – SÁBADO, 10 DE OUTUBRO DE 2009 – 17h00

 

 

APRENDENDO A FAZER TSURU (ORIGAMI): UM CAMINHO DE ENCONTROS

 

Karina Okajima Fukumitsu

Marcelo Borges

Flaviana Cavalcante

 

 

O presente trabalho teve sua origem em um momento em que Karina expressou sua vontade em ensinar o origami (dobradura de papel) do tsuru e fez o convite que foi aceito prontamente por Flaviana e Marcelo para a oficina “TSURU: UM CAMINHO DE ENCONTROS“ que aconteceu na VI Jornada Paulista de Gestalt-terapia, nos dias 17, 18 e 19 de outubro de 2008. Karina compartilhava sua percepção do fato de ter encontrado um sentido para o estar junto. Compartilhou também o modo de percorrer seu caminho, nas idas e vindas de sua mãe à UTI em 2008 – por sete vezes –, e do processo de luto que vivenciou fazendo origami de tsuru. A cada visita, ou enquanto aguardava o boletim médico de sua mãe, fazia dobraduras – a princípio para passar o tempo, mas que depois se tornou recurso para aproximações, relações e encontros. O tsuru tem relação direta com a bomba atômica lançada em Hiroshima e é uma ave que frequenta as lagoas do Japão e está relacionada à longevidade, pois vive supostamente mil anos. Aquele que fizer mil tsurus – com o pensamento positivo – alcançará bons resultados ou, se estiver doente, será curado. Se existencialmente somos nossas escolhas, cada dobradura que fazemos, cada passo escolhido significa um caminho constituinte da existência. Lembremos que as escolhas são a essência da liberdade e contrariando o determinismo, Jean-Paul Sartre nos ensina que somos aquilo que fazemos com o que fazem de nós. Dessa maneira, devemos considerar que nem só porque o origami do tsuru requer dobraduras específicas e previamente conhecidas, deixamos de ser livres, principalmente por vivenciar o novo mesmo no conhecido. Dobrando e desdobrando vivências, pretendemos proporcionar ao participante um processo de integração entre pensar, sentir e fazer. Integração requer cuidado, o que será expresso pela preocupacão em ensinar o passo a passo das dobraduras.

 

Palavras-chave: Recursos terapêuticos. Origami. Tsuru

 

Endereço eletrônico dos autores:

karinafukumitsu@gmail.com

Borges@gestaltsp.com.br

flavianacav@uol.com.br

 

 

 

CONFERÊNCIA – DOMINGO, 11 DE OUTUBRO DE 2009 – 09h00

 

 

Mapeamento Da aplicação da redução fenomenológica em pesquisas empíricas de psicologia no Brasil

Thiago Gomes de Castro

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Centro de Psicoterapia Existencial

De maneira geral observa-se na literatura empírica em fenomenologia um objetivo constante de investigação que é proceder, com clareza e precisão, descrições ampliadoras de um aspecto particular da experiência humana. Trata-se de analisar a vivência de um sujeito em determinadas situações do cotidiano, tais como na aprendizagem, na dor, na contrariedade, etc. É, portanto, uma forma de pesquisa orientada para a descoberta dos significados construídos por um sujeito sobre sua experiência. No entanto, a forma de condução dessa modalidade de pesquisa pode ser variada, a depender das bases epistemológica que a investigação se assenta. O objetivo desse estudo foi analisar descritivamente as aplicações do método fenomenológico na psicologia, em especial na esfera da pesquisa empírica. Foi realizado um levantamento de publicações junto a revistas de psicologia com circulação nacional entre os anos de 1996 e 2007. O periódico norte-americano Journal of Phenomenological Psychology – JPP, especializado na temática, também foi  analisado entre os anos 2000 e 2007. Os resultados evidenciaram a publicação de 34 artigos de cunho empírico para o período pesquisado no Brasil. As principais áreas de concentração dessas publicações forma a psicologia da saúde / hospitalar, relações familiares e estados emocionais intensos, sendo 57% dos artigos encontrados publicados por apenas três grupos de pesquisa no país. Os instrumentos mais utilizados para a coleta dos depoimentos foram as entrevistas semi-estruturadas e as entrevistas abertas. O recurso lógico de análise denominado redução fenomenológica, quando descrito, apareceu genericamente como ferramenta interpretativa de especificação das temáticas essenciais nas falas dos participantes das pesquisas. Ou seja, assume o sentido de redução eidética proposto na literatura filosófica, mas exclui os preceitos de suspensão judicativa – redução psicológica – e descrição do fluxo intencional – redução transcendental. Em relação ao periódico norte-americano, foram catalogados 21 artigos de orientação empírica, nos quais a descrição dos procedimentos lógicos e técnicos da análise dos dados apareceram mais bem detalhados, mas ainda sem uma padronização do que se entenda por redução fenomenológica.  

Palavras-chave: redução fenomenológica; levantamento descritivo; identidade analítica.

Endereço eletrônico do autor:  tgomesdecastro@yahoo.com.br

 

 

A Filosofia Aplicada ao Universo Infantil

 

Paula Angerami

Mestre em Educação, Monclair State University. Montclair- New Jersey. U.S.A.

 

 

 O Papel da filosofia na educação

A filosofia exerce um papel muito importante na educação e no desenvolvimento do ser humano. Ela contribui para a formação crítica do cidadão, aspecto este que justificou a retirada da filosofia e da sociologia do ensino durante a ditadura militar no Brasil, já que neste período o governo não queria cidadãos pensantes e questionadores do poder vigente. E seguramente os questionamentos trazidos à baila pela filosofia causam incomodo àqueles que desejam cidadão sem qualquer consciência crítica e sem questionamentos sobre o arbítrio do autoritarismo.

A filosofia é um dos mais eficazes instrumentos para o ser humano desenvolver suas habilidades de pensamento e organizar melhor o seu raciocínio por caracterizar-se pela rigorosidade, clareza, profundidade e abrangência. 

Existe uma corrente educacional defensora de que o objetivo principal da educação deve ser o desenvolvimento e fortalecimento das habilidades de pensamento. A educação deve focar-se no ensino e desenvolvimento do pensar reflexivo, crítico, criativo e autônomo.

 

O Programa de Filosofia para Crianças

Baseado nesta linha educacional que se foca no desenvolvimento do pensar o filósofo Mathew Lipman idealizou o programa de “Filosofia para Crianças”. Este programa tem três objetivos básicos: 1) iniciação filosófica; 2)desenvolvimento de habilidades de pensamento e 3) preparação para a cidadania responsável. Os adeptos deste programa afirmam que a criança, ao ser iniciada nos conceitos filosóficos e habilidades de pensamento através do diálogo, pode melhorar suas habilidades e disposições de pensamento e emitir melhores juízos de valores em sua vida.

O programa é formado por um currículo e uma metodologia. O currículo é composto por novelas filosóficas e manuais instrucional para o professor. As novelas escritas por Mathew Lipman são histórias que investigam conceitos e procedimentos filosóficos em uma linguagem adequada às crianças e servem de modelo para o pensar crítico, criativo e cuidadoso. Nessas novelas o narrador é alguém que participa da história e com quem os leitores se identificam. Os personagens possuem as habilidades e disposições necessárias para o pensar crítico, cuidadoso e criativo, ou seja, eles dialogam entre si, buscam argumentos, fundamentações, procuram identificar as contradições daquilo que é dito e estão constantemente se auto-corrigindo e revendo suas idéias, afirmações e atitudes. 

A metodologia chama-se comunidade de investigação filosófica. Os participantes sentam em círculo, inclusive o professor, para que todos possam se olhar estando na mesma posição hierárquica.  A comunidade investigativa (nome dado ao grupo) lê conjuntamente um episódio da novela filosófica, depois problematizam o que foi lido através do levantamento de questões ou temas que os instigaram e que sejam polêmicos, contestadores e que não apresentem uma resposta única e fechada. Após ter sido elegido o tema inicia-se a investigação filosófica.  Esta investigação filosófica é feita através do diálogo. Um assunto é colocado em pauta e os participantes irão juntos investigá-lo. Para esta investigação é necessário aos participantes ouvir o outro, questionar, pedir critérios, razões e apontar as suposições, construir a partir da idéia do outro, oferecer contra-exemplos, questionar as inferências dos outros, sugerir novos ângulos de analise, criticar as analogias dos outros, serem capaz de entender a visão de mundo dos outros, construírem novos significados e novas relações. E também seguir o fluxo da investigação. O diálogo é de extrema importância para o desenvolvimento da comunidade investigativa, pois irá moldar e desenvolver o pensar crítico, criativo e cuidadoso.

Esta metodologia da investigação filosófica mediada pelo diálogo é realizada, muitas  vezes com currículos alternativos. Isso em razão de  alguns filósofos e educadores criticarem o uso das novelas filosóficas escritas por  Lipman por acreditarem que as mesmas fogem da realidade brasileira. Estes educadores defendem como Lipman, o desenvolvimento do pensar através da filosofia, mas realizam esta metodologia com atividades alternativas, como por exemplo, livros de literatura, poesias, contos, multimídia e etc.

O instrumento para realizar o método investigativo pode variar e é inclusive interessante fazê-lo, o imprescindível é possibilitar às crianças o contato com o pensar filosófico. É fundamental na atualidade desenvolver a capacidade de refletir.

 

Endereço eletrônico do autor: paula@angerami.com.br

 

 

Diálogo com Martin Buber: ressonâncias clínicas e relações amorosas.

                                                                               

Prof. Luiz José Veríssimo (Universidade Veiga de Almeida, Instituto Metodista Bennett)

Profa. Marilda Alves Bassi (Universidade Santa Úrsula).

      

 

      Nosso trabalho pretende abordar, a partir da Filosofia Existencial de Martin Buber, as implicações clínicas dos princípios básicos propostos por seu pensamento, tais como os modos existenciais Eu e Tu e Eu – Isso, a lógica dialógica, a subjetividade construída através da intersubjetividade, a relação entre alteridade e subjetividade, o sentido da existência fundado no diálogo, o significado da construção da Pessoa na existência.

Gostaríamos de trabalhar os aspectos supracitados para entrarmos no estudo da abordagem clínica inspirada na perspectiva de Martin Buber porque acreditamos que ela contempla tanto a constituição do cliente como pessoa quanto à relação terapêutica.

Finalmente, pensaremos a vivência amorosa como uma forma importante para a abertura do ser-próprio ao Tu, para a descoberta de si mesmo a partir do apelo à relação e ao reconhecimento e estima pela alteridade.

 

Endereço eletrônico do autor: filosjverissimo@yahoo.com.br

 

 

 

Conferência – DOMINGO, 11 de outubro de 2009 – 10H00

 

 

a relação orientador-estagiário em psicoterapia existencialista: NA BUSCA PELA SUPERAÇÃO DE PRECONCEITOS INTELECTUAIS

 

Marivania Cristina Bocca (Universidade Paranaense – UNIPAR – Cascavel/PR/BR)

Sylvia Mara Pires de Freitas (Universidade Paranaense – UNIPAR – Umuarama/PR/BR e Universidade Estadual de Maringá – Maringá/PR/BR)

 

 

Através deste trabalho abordaremos aspectos da psicoterapia existencialista enquanto disciplina, especificamente a relação orientador-estagiário, uma vez que o exercício do processo ensino/aprendizagem se inicia através da relação entre esses dois atores.

Sartre (2009), em concordância com Husserl (1986) sobre a intencionalidade da consciência, ratifica sua liberdade. A relação dialética entre as duas regiões ontológicas – o Ser e o Nada (mundo e consciência) – configura-se na interdependência de ambas, desta maneira, a consciência precisa do mundo para ser preenchida e o mundo, da consciência, para ser significado. No entanto, as relações humanas passam a apresentar outra configuração, tendo em vista que não são mais a consciência e a coisa a se relacionarem, mas duas consciências que intencionam o mundo de acordo com seus projetos particulares.

É neste contexto que se dá a relação entre orientador-estagiário. Nesta intersubjetividade, encontram-se, a princípio, duas pessoas que ocupam lugares diferenciados na relação ensino/aprendizagem, de um lado, aquele que deve ensinar, do outro o que deve aprender. Se embasarmo-nos nesta premissa, teríamos o orientador como o possuidor do conhecimento e o estagiário como o “desprovido” deste. No entanto, ao contrário do que possamos supor, a condição nadificada do estagiário oferece-lhe um lugar privilegiado na relação, sendo que o coloca na possibilidade de transcendência, enquanto, o orientador, pensar-se detentor do conhecimento, o situa diante a completude.

De início, pode parecer óbvia esta colocação, bem como pouco provável, ambos os atores, assim se colocarem na relação. No entanto, a perspectiva de compreensão muda de foco quando fundamentada no que Sartre chama de preconceitos intelectuais (conforme menciona Morris, 2009).

Para Sartre o ponto de partida da fenomenologia é “a descrição não preconceituosa dos fenômenos familiares” (p.62). Sartre e Merleau-Ponty recomendam que façamos a redução do não-espanto com o que nos é familiar (MORRIS, 2009) e não do “juízo acerca da verdade das pretensões de existência feitas pelos objetos percebidos” (p. 58), concepção esta, fundamentada em Husserl que seria a própria realidade humana.

Tomando a relação orientador-estagiário, a não redução do preconceito seria pensar que esta não se daria em termos de relações de poder pelo lugar institucional que cada um ocupa. Acreditar na afirmativa desta negação é um padrão de “preconceito intelectual a favor do conhecimento e contra a certeza”, como define Morris (2009, p.72). As teorias pedagógicas contemporâneas refutam as práticas punitivas de algumas teorias pedagógicas tradicionais. Por outro lado, o conhecimento das teorias contemporâneas não destitui a certeza de alguns sobre a importância das práticas punitivas.

Sendo assim, podemos, enquanto orientadores, conhecer as teorias pedagógicas contemporâneas, apresentar um discurso a favor delas, mas, de maneira irreflexiva, acessar o mundo, p.e, através do medo de que o estagiário descubra alguma limitação do nosso saber. Diante desse medo, podemos agir na relação inibindo qualquer expressão autônoma do estagiário.

De maneira irreflexiva, não fazemos a redução do que nos é familiar, ou seja, do conhecimento da prática contrária a que imprimimos no mundo. Sem esta redução, estamos impossibilitados de ter consciência de nossa convicção (certeza) de que diante a possibilidade de uma ameaça, o ataque é a melhor defesa.

Trouxemos um exemplo de preconceito intelectual que dificulta a redução do que nos é familiar na relação de ensino-aprendizagem para a prática da psicoterapia. Colocamos um exemplo do que pode ocorrer com o orientador, mas esse e demais preconceitos podem também advir do estagiário, quanto do cliente, quando de sua prática psicoterápica.

Diante do exposto, consideramos mister trazer à discussão a necessidade dessa redução, seja do orientador, seja do estagiário, e para que possamos desvelá-las no estagiário, é imprescindível que as nossas (como orientadores) sejam também refletidas.

Enfim, m estar facilitando ou dificulaificulatando a relana prática como orientadores, devemos a cada momento re-examinarmos e re-avaliarmos nossas escolhas

enquanto profissionais que têm o compromisso de instigar no aluno-terapeuta-iniciante a constante análise sobre sua atuação, assim, nosso compromisso é o de maximizar a consciência do aluno, de forma que este venha desenvolver habilidades para uma prática mais consciente e ética. (BOCCA e FREITAS, 2008)

O orientador que exerce sua função apoiado nos pressupostos da Psicologia Existencialista, busca cumprir a difícil tarefa de ensinar-aprendendo. Na relação dialética com o mundo e seu orientando, o pré-requisito para superar os preconceitos, conforme coloca Sartre (mencionado por MORRIS, 2009), é o de colocar-se sensível perante as dúvidas que, por um lado, negam o que sua experiência lhe revela como certo e assim, poder também questionar sobre que/qual preconceito impede o estagiário de reconhecer o que reconhece como verdade, e desta maneira poderem superar tais preconceitos que, segundo Morris (2009), empobrecem a experiência perceptual.

 

Endereço eletrônico do autor: maricris@unipar.br

 

 

 

O sentimento de inadequação na compreensão fenomenológico-existencial

 

Prof. Ms. André Roberto Ribeiro Torres

 

 

É possível identificar fenômenos importantes a serem abordados no que diz respeito ao Sentimento de Inadequação (SI), caracterizado pelo sentimento de desigualdade ou diferença em relação a outras pessoas ou situações diversas. Para isso, o presente trabalho mantém sua atenção voltada para a relação entre sujeito e contexto sociocultural, com o objetivo de compreender o fenômeno de sentir-se inadequado e de como se configuram os possíveis desdobramentos psicológicos dessa situação. A pesquisa, de caráter qualitativo, se embasa no método fenomenológico segundo o estilo de Merleau-Ponty. O trabalho se iniciou de forma teórica, através da análise de literatura popular, manuais diagnósticos e bibliografia científica indexada. A segunda etapa ocorreu a partir da análise descritivo-especulativa de entrevistas participativas abertas realizadas com três adultos. Todos descreveram ao seu modo a presença do SI em suas vidas. Além de detalhes sobre o fenômeno, foram identificados três desdobramentos psicológicos básicos: 1) o Aplainamento da Subjetividade (AS), caracterizado pelo autoquestionamento, isolamento, solidão e, principalmente, pela tentativa de o sujeito de se modificar em função do contexto sociocultural; 2) o Aplainamento da Objetividade (AO), no qual se identificam níveis de agressividade, questionamento do contexto sociocultural e a possível tentativa de modificá-lo, dificultando, por outro lado, o contato com aspectos subjetivos; 3) o Senso de Inadequação (SsI), postura na qual o sujeito assimila o SI de forma reflexiva e criativa, evidenciando a importância do caráter lúdico da existência. Percebeu-se a possibilidade de trânsito entre o AS e o AO, invertendo o foco do aplainamento sem que necessariamente se desenvolvam reflexões significativas.

Palavras-Chave: sentimento de inadequação, psicologia fenomenológica, psicologia existencial, subjetividade, contexto sociocultural, Merleau-Ponty.

 

Endereço eletrônico do autor: andre@torres.psc.com.br

 

 

 

ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL EM UMA ABORDAGEM EXISTENCIAL

 

Márcio Melo Guimarães de Souza

Psicólogo, Psicoterapeuta

Orientador Profissional

Mestre em Psicologia Escolar pela PUC-Campinas

 

 

Professor da Universidade Paulista e da Faculdade de Americana.

A preocupação sobre a relação entre o homem e sua ocupação tem um passado mais longínquo do que imaginamos. Platão, em A República, já estabelecia uma discussão acerca das relações entre classe social, educação e profissão. Também há registros de textos datados da Idade Média que discutem a vocação para o sacerdócio e para profissões comuns. No entanto, com o advento da Revolução Industrial, a orientação profissional passa a exercer um papel central na produção econômica, pois, aos olhos do capitalismo, o homem adaptado ao seu trabalho produz melhor.

Desde então, várias possibilidades de compreender teoricamente a orientação profissional foram desenvolvidas nos campos da psicologia, educação, economia e administração. Atendo-nos ao campo do conhecimento psicológico, praticamente em todas as abordagens foram produzidas respostas para a atuação em orientação profissional. Contudo, apesar da abordagem existencial-fenomenológica contar com um vasto conjunto teórico e conceitual para fundamentar a discussão da prática em orientação profissional, poucas iniciativas foram tomadas neste sentido.

Esta conferência tem o objetivo de apontar possíveis caminhos para a discussão da prática em orientação profissional a partir do enquadre teórico existencial fenomenológico. O recorte escolhido é o do pensamento sartreano. De seu pensamento, serão abordados conceitos úteis para a compreensão da orientação profissional, tais como temporalidade, gratuidade da existência, liberdade, angústia e engajamento.


Endereço eletrônico do autor: melogs@gmail.com

 

 

CONFERÊNCIA – 11 DE OUTUBRO DE 2009 – 11h00

 

 

ENSAIO FENOMENOLÓGICO SOBRE O SIGNIFICADO

 

Mauro Martins Amatuzzi

PUC-Campinas, 2009

 

 

Este percurso reflexivo, de estilo fenomenológico, tem como objeto de consideração o significado e visa mostrar a dinâmica de sua vivência. O ponto de partida é como vivenciamos o significado das palavras. Isso permite compreender a evolução das línguas. Em seguida a reflexão se volta para o significado de objetos, fenômenos, acontecimentos. Eles adquirem significado para nós tacitamente pela vida de relações que com eles mantemos. Mas esse significado pode não ser reflexivamente conhecido. Se o for, podemos falar de descoberta de um significado anteriormente implícito, o que nos confere um aumento em nossa autonomia ou liberdade. Coisa parecida acontece com o significado de vida e a ressignificação possível da vida. O horizonte de significados se amplia quando há uma ressignificação. Nessa dinâmica de ampliações de horizontes é que pode surgir um significado visualizado como último, o que nesse contexto equivale à conscientização de um valor último. É possível porém distinguir o plano das formulações teóricas, sempre relativas a uma necessidade historicamente situada, do plano propriamente experiencial. É o que se passa nesse plano experiencial que pode trazer vida às formulações. Sem isso caímos na irrelevância.

 

Endereço eletrônico do autor: amatuzzi2m2@yahoo.com.br

 

 

CONFERÊNCIA – DOMINGO, 11 DE OUTUBRO DE 2009 – 13h00

 

 

AS DIFICULDADES NO ATENDIMENTO DE CRIANÇAS FRENTE À DISPUTA DE GUARDA

 

Lucyenne Rosas

Professora e Supervisora em Clínica da Universidade Estácio de Sá – Campos dos Goytacazes.

 

 

A escolha de especificar um tema dentro do atendimento de criança se deu com a intenção de chamar a atenção de nós terapeutas para alguns pontos importantes relacionados a atuação com a criança e sua família.

O atendimento de crianças geralmente traz diversas questões sobre uma atuação que siga os princípios da psicoterapia existencial. Considerando a criança como ser-no-mundo é preciso dar ênfase a família como seu referencial básico de mundo.

Em um primeiro momento, ampliar o contato com os pais pode parecer uma ameaça para a relação terapeuta-criança. No entanto, não podemos esquecer o papel da família no processo da criança. Conhecendo a família da criança temos uma maior possibilidade de conhecer a criança e seu modo de estar no mundo.

A freqüência no contato com os pais nos ajuda a tornar mais claras as relações que eles estabelecem entre si. Essa forma de atuação pode se tornar mais complicada quando se trata de uma família onde os pais estão se separando e ainda mais, brigando pela guarda dos filhos.

Geralmente a criança chega ao processo terapêutico levado por algum membro de sua família por apresentar algum sintoma de que alguma coisa não está indo bem. Esses sintomas não podem ser vistos de forma isolada, com o risco de ser reduzido a apenas alguns de seus aspectos. Desse modo, é necessário perguntar diante de que situação relacional específica acontece tais sintomas. Portanto, a criança precisa ser considerada em seu meio relacional.

Para podermos compreender o que está acontecendo com a criança é importante a escuta dos pais mesmo que eles estejam em conflito. Se não pudermos fazer encontros com toda a família, podemos fazer com parte dela. Esses encontros são importantes para

a elaboração de temas familiares e a compreensão das dificuldades da criança ou da família como um todo.

A separação é quase sempre extremamente difícil e muito sofrida, não só para a criança. Mas, a criança por amar o pai e a mãe quer naturalmente que eles fiquem juntos e nutre essa expectativa por muito tempo.

É praticamente inevitável que a criança entre em contato com os conflitos dos pais e não raro se vê como em um cabo de guerra, sendo puxada de um lado e de outro. Nesse período é comum a criança se mostrar triste, com um olhar perdido, agitada, nervosa, algumas vezes demonstrando uma agressividade excessiva, medo ao dormir, crise de choro e outros comportamentos diferentes daqueles que a criança geralmente apresentava.

Cada um dos pais, que quer a criança consigo, acredita que estão buscando o melhor para seu filho, que os ama, e em nome desse amor muitas vezes esquecem os interesses da criança fazendo prevalecer os seus. E para conseguir seu intento, na maioria das vezes, acabam por tentar denegrir a imagem do outro progenitor, incentivando situações ou idéias que coloquem a criança contra a figura materna ou paterna.

Hoje em dia, há uma grande discussão sobre a SAP (Síndrome da Alienação Parental) que refere-se a pais ou mães que incentivam os filhos a romper os laços com a outra figura parental.

No âmbito jurídico, existe a proposta de que a Alienação parental se torne crime. Independente desse aspecto, nós psicólogos não podemos nos omitir nesses casos, que já acontecem há muito tempo, mas que só agora vem ganhando repercussão.

Sabemos que esse comportamento ocorre quando um dos genitores não consegue aceitar o processo de separação e manifesta uma tendência vingativa contra o outro, gerando uma sequência de destruição, desmoralização e descrédito contra este. Neste processo de destruição, a criança é o instrumento, ou melhor: a arma. E as conseqüências advindas dessa atitude geralmente são vivenciadas por muito tempo, ou até mesmo por todo o tempo. Podendo gerar até mesmo alguns distúrbios como depressão, sentimento de culpa, isolamento, comportamento hostil, baixa autoestima, entre outros.

Esse processo de alienação parental revela-se de um modo mais concreto no dificultar o contato da criança com o outro genitor, dificultando a visita, omitindo informações importantes sobre a criança para o outro genitor, por exemplo, festas ou reuniões na escola, alguma apresentação que a criança participe; ou mudança de domicílio para locais distantes com o claro intuito de dificultar a convivência do outro genitor.

Nossa tarefa, como psicólogos é buscar intervir preventivamente antes que esse processo se instale, pois quando o vínculo entre criança e o progenitor alienado se rompe, se torna difícil e muito mais complexo restaurar a relação.

No conflito de guarda precisamos manter em contato criança e pais, principalmente o progenitor mais afastado da criança para que se restabeleça e não se perca esse contato. E que o outro progenitor perceba a necessidade da criança em ter contato com os dois para uma vida saudável e feliz.

 

Endereço eletrônico do autor: lucyenne.rosas@ig.com.br

 

 

 

VERDADE, LIBERDADE E PSICOTERAPIA: REFLEXÕES FENOMENOLÓGICAS

 

Prof. Roberto Novaes de Sá

PPG Psicologia – UFF

 

 

A concepção de verdade predominante na tradição filosófica do Ocidente é a de adequação entre o juízo e a coisa a que se refere. A verdade estaria assim na certeza da representação adequada. Heidegger, influenciado pela noção husserliana de fenômeno, resgata uma outra concepção de verdade presente no pensamento grego e, segundo ele, mais originária que aquela de verdade como adequação: a verdade como desvelamento. Para que uma proposição sobre algo possa ser avaliada segundo o critério de suposta adequação à coisa, é necessário que esta coisa já se encontre de antemão aberta à experiência, desvelada na abertura do mundo. Este desvelamento dos entes no aberto do mundo é um traço ontológico do ser-aí humano. A existência, como modo de ser do homem, caracteriza-se por ser originariamente apropriada pela verdade como desvelamento. Esta compreensão da verdade, como correspondência desveladora do que nos vem ao encontro no mundo, encontra-se, assim, em íntima conexão com a liberdade. O quanto uma existência pode deixar vir à luz em sua abertura de mundo, nunca depende apenas da investigação de fatos e de raciocínios lógicos, mas, essencialmente, do quanto é livre. Nas práticas psicoterapêuticas de inspiração fenomenológico-existencial, estas concepções de verdade e liberdade trazem conseqüências fundamentais. Todos os fenômenos abordados pelo campo da psicopatologia interessam à clínica fenomenológica enquanto restrições do livre âmbito de poder-ser que caracteriza ontologicamente o ser-aí. A verdade em jogo na relação clínica não é a verdade impessoal da representação correta, mas os modos de desvelamento de sentido que a existência realiza enquanto abertura e suas restrições. As estruturas de sentido que geram sofrimento não são corrigidas através de concepções mais adequadas à realidade. O que produz sofrimento não é a sua incorreção lógica ou factual e, sim, a redução de possibilidades de sentido que impõem ao campo existencial, isto é, a restrição da liberdade.

 

Endereço eletrônico do autor: roberto_novaes@terra.com.br

 

 

 

PÂNICO – MODOS DE PANICAR

 

Débora Cândido de Azevedo

 

Psicóloga clínica com 20 anos de experiência e formação em Análise Existencial. Mestre em Educação há 10 anos. Professora universitária nas disciplinas de Teorias e Técnicas Psicoterápicas com ênfase em fenomenologia existencial, Psicodiagnóstico, Psicoterapia de crianças, adolescentes e adultos. Supervisora de estágio clínico.

 

 

A idéia deste trabalho nasce de minha participação no FENPEC, grupo de Pesquisa em Fenomenologia da Universidade Metodista, onde todos os membros trabalham em Ciências Humanas com pesquisas qualitativas, para tanto se faz necessário que cada pesquisador busque na sua experiência pessoal o seu tema, conforme Husserl nos ensinou “o conhecimento nasce do mundo da vida”.

Por isso este trabalho organiza-se historicamente, conforme indicam os títulos dos capítulos:

1. História De Um Começo

2. História De Lis

3. Pergunta Norteadora

4. História Do Método

5. História Do Tema

6. História De Hortênsia

7. História Do Procedimento

8. Bibliografia

No capítulo um, faço a introdução trazendo os motivos do pesquisador, a origem da inquietação que justifica a pesquisa. O mundo da clínica, o mundo do encontro terapêutico como o mundo da vida do pesquisador, de onde nascem as demandas por compreensão e conhecimento. Assim o pânico, ou as ditas “síndromes de pânico”, aparece como uma demanda muito atual que pede por uma compreensão mais existencial e menos nosográfica.

No capítulo dois, conto a história de Lis, uma paciente que recebi no auge dos ataques de pânico, de onde nasce uma possibilidade hermenêutica de entender a síndrome de pânico através da metáfora do descarrilamento existencial.

No capítulo três, faço o encaminhamento da pergunta norteadora seguindo o modelo proposto por Heidegger em “Ser e Tempo”, e chego a:

O que é isto: o trajeto existencial da vivência panicante

No capítulo quatro, falo sobre o método que será usado para a pesquisa, a saber, o fenomenológico nos moldes propostos por Joel Martins.

No capítulo cinco, desenvolvo melhor o tema e discorro sobre minha metáfora do “descarrilamento existencial”, entendendo a existência como uma viagem de trem com um destino escolhido por nós, só que, ás vezes, por algum motivo muitas vezes ininteligível nos encontramos no vagão errado, indo para um rumo diferente daquele que nosso projeto existencial escolheu, e não sabemos como parar o trem que vai a alta velocidade.

No capítulo seis, começo a contar a história de Hortênsia, uma nova paciente que chega com queixa de síndrome do pânico, mas desta vez já podemos considerar o caso como uma descrição fenomenológica, pois já segue os procedimentos adotados para esta pesquisa.

No capítulo sete, faço a descrição do procedimento:

-gravar todas as sessões

-registrar todas as impressões logo ao término da sessão

-transcrever as sessões gravadas

-organizar o material em forma de descrição fenomenológica

-análise (leitura, unidades de significado, linguagem psicológica, síntese).

Atualmente estou na fase de transcrição das entrevistas.

 

Endereço eletrônico do autor: deborac.azevedo@gmail.com

 

 

 

CONFERÊNCIA – DOMINGO, 11 DE OUTUBRO DE 2009 – 14h00

 

 

A VISÃO FENOMENOLOGICO-EXISTENCIAL DA DROGADICÇÃO.

(Drogadicçao: um mergulho na condição em-si?)

 

Walmir Monteiro

 

Apresentação de material audiovisual que discute a drogadicção à luz das dimensões da existência segundo o fundamento fenomenologico-existencial, com aporte teórico sobre as concepções fundamentais da filosofia existencial.

O mundo dos homens e o mundo das coisas. O ser da consciência e o ser do fenômeno. O para-si e a ansiedade da falta.

O drogadicto em terapia: exlicar ou compreender? A hermenêutica compreensiva na clínica da dependência química.

A questão do sentido e a drogadicção como modo de existir.

A dimensão do existir, a dimensão valorativa, a dimensão do corpo e a dimensão da temporalidade.

 

Endereço eletrônico do autor: monteiro.walmir@gmail.com

 

 

 

A Condição existencial do adolescente em conflito com a lei.

 “... o ser humano só pode ser compreendido a partir de si mesmo”. (ERTHAL,1989, p. 73)

 

Adriana Dias Basseto

 

Psicóloga.

Diretora e Docente do Curso de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná – Toledo/PR. 

Especialista em Psicologia Jurídica pela PUC/PR.

Mestranda em Saúde Coletiva UERJ/UNIPAR.

 

Na pesquisa indagou-se que motivos os adolescentes alegam para estarem em conflito com a lei, uma vez que se busca compreender e analisar os motivos alegados por estes para estarem nesta condição existencial. A presente pesquisa teve como objetivo compreender e analisar, sob a ótica da Fenomenologia-Existencial, os motivos alegados pelos adolescentes a estarem em conflito com a lei, e compreender e analisar os motivos idiossincráticos, ou seja, aqueles que aparecem na fala somente de um adolescente, e compreender e analisar as vivências convergentes e divergentes entre os adolescentes.

Pesquisas como as de Levisky (1998; 2000) e Gomide (1990) dizem que o comportamento anti-social, ato delinqüêncial, delinqüência dos menores podem ser resultantes de uma construção social, familiar (lares desfeitos, violência, álcool, drogas, negligência e etc.), escolar (um complemento do lar para a socialização e oferecer noções de cidadania) e econômica (desemprego, miséria). Porém, os próprios adolescentes são esquecidos de serem questionados sobre os motivos para agirem de tal modo (comportamento anti-social, ato delinqüêncial), visto que os comportamentos de cada indivíduo não é resultante de uma mesma condição. Uma vez que os adolescentes são seres únicos, com histórias singulares e projetos de vida diferentes.

Mesmo considerando que o meio social, a família e as questões econômicas, influenciam a delinqüência, não se pode reduzir o problema a essas questões somente. Pensar dessa forma, também seria desconsiderar os motivos alegados pelos adolescentes para estarem em conflito com a lei. Sendo assim, há a necessidade de compreender-se o sentido que os próprios adolescentes dão para estarem no mundo nesta condição.

Para uma melhor compreensão, buscou-se o sentido do fenômeno vivido por estes adolescentes, a partir da ótica Fenomenológico-Existencial e não através dos conceitos das teorias que reduzem o fenômeno a fatos.

A pesquisa possibilitou conhecimentos para o estudo da desfamiliarização e da ampliação de conhecimentos sobre as atitudes dos adolescentes em conflito com a lei, bem como para compreendê-los através de si mesmos. É o próprio indivíduo que tem consciência de sua própria vivência, ou experiência vivida, e é ele quem atribui o significado aos acontecimentos de sua existência.

A propósito da compreensão das atitudes dos adolescentes em conflito com a lei, Xaud (1999, p. 93) afirma que é preciso:

... ampliar a permissividade pessoal para rever crenças e valores, [isto] significa adotar postura coerente e mais, abandonar definitivamente o caráter moralista, preconceituoso, preconcebido e discriminativo de velhas práticas. Abrir-se para o entendimento de que a sociedade vai construindo seus delitos ao longo do tempo e que a cultura potencializa determinadas predisposições do ser individual, dando uma dimensão social para a conduta delitiva.

Para compreender o ser humano como um conjunto de experiências, foi utilizado a abordagem Fenomenológica-Existencial[10].

A metodologia utilizada para a pesquisa fundamenta-se no método fenomenológico que visa investigar e compreender o fenômeno deste existir humano, tal qual se mostra no próprio existir de cada indivíduo, visto que cada ser possui seu modo singular de significar a própria realidade em que vive sua existência no mundo.

Segundo Forghieri (1984), a fenomenologia amplia a maneira de visualizar o indivíduo no sentido de captá-lo de forma básica e global, não somente em termos de comportamento, mas do seu existir, de modo que se desprenda do reducionismo e da identificação do sentido apresentado a uma de suas ações, comportamentos e atitudes, mas que se compreenda o indivíduo não como algo pronto e acabado como um projeto básico para todos, ou seja, uma essência definidora do homem, uma vez que cada um se define a si mesmo e é uma verdade para si próprio.

            No decorrer da revisão de literatura para a presente pesquisa abordaram-se temas concernentes à fenomenologia-existencial que fundamentaram a compreensão de como os adolescentes significam seus motivos para estarem em conflito com a lei. Também foram abordados temas referentes ao histórico da criança e do adolescente, os aspectos jurídicos; as mudanças no olhar da criança e do adolescente e a condição existencial da criança e do adolescente, o que ajudou a realizar a análise compreensiva dos significados dos adolescentes entrevistados.

            Para compreender o sentido ou o significado dado pelos adolescentes, partiu-se da experiência vivida pelos adolescentes, ou seja, da experiência própria e completa.

As correntes de pensamento fenomenológico permitem compreender e analisar os motivos alegados pelos adolescentes, a partir de suas próprias vivencia. Os motivos alegados pelos adolescentes foram à falta de dinheiro e/ou necessidade de ajudar a família; “destino”; falta de emprego; pressão de amigos; a lei e o olhar excludente da sociedade. (BASSETO, 2007).

 

Endereço eletrônico do autor: adrianabasseto@hotmail.com

 

 

Corpo e canção no desvelamento existencial - uma proposta didática em análise do discurso para estudantes de psicologia.

 

Prof. Dr. Marcos A. T. Cipullo

Professor adjunto da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP

 

O presente trabalho tem como objetivo discutir a experiência e o desenvolvimento  de  uma metodologia   daseinsanalítica  didática na análise "clínica" do discurso. tal proposta,  voltada para estudantes de psicologia, estrutura-se a partir de conceitos ´teórico-técnicos e de laboratório vivencial, no qual serão utilizadas letras de canções como elementos disparadores do processo.


Endereço eletrônico do autor: matcipullo@gmail.com

 

 

 

CONFERÊNCIA – DOMINGO, 11 DE OUTUBRO DE 2009 – 15h00

 

 

A LITERATURA COMO TERAPÊUTICA DE HUMANIZAÇÃO E SOERGUIMENTO EXISTENCIAL

 

Lucélia Elizabeth Paiva

 

 

A literatura é um recurso para entretenimento, também utilizada no processo ensino-aprendizagem, mas pode servir para falar de assuntos existenciais.

Desde criança, o indivíduo constrói o seu mundo a partir de sua imaginação e, nele, deposita todas as suas ansiedades e angústias também. Por meio da história, é possível descobrir outros lugares, outros tempos, outras maneiras de ser e de agir.

É possível abordarmos quaisquer temas de nossa existência, inclusive a morte e o luto, mesmo com crianças, a partir da literatura infantil.

Aliás, cabe lembrar que a criança tem uma forma própria de se comunicar, não muito familiar aos adultos, que costumam utilizar a linguagem cotidiana, do pensamento. Porém, para compreendê-la é necessário que se esteja disposto e aberto para verificar o que está além das palavras.

Assim, a linguagem metafórica encontrada na literatura infantil é uma importante forma de abordar temas existenciais. Para isso, contamos com uma vasta literatura, além dos contos tradicionais, que pode ser utilizada em vários contextos: na educação, na saúde (clínica e hospital) e na família.

Dessa forma, é essencial refletir sobre as histórias, pois através delas, compartilhamos experiências, sentimentos e emoções. Com elas, podemos abrir as portas da imaginação, transitar por um universo mágico, com prazer e alegria, descobrindo novos mundos, vencendo dificuldades psicológicas bastante complexas. Pode também permitir a auto-identificação, favorecendo a aceitação de situações desagradáveis, ajudando a resolver conflitos e oferecendo esperança.

Em um contexto grupal, pode-se criar um espaço para compartilhamento de experiências e sentimentos, o que pode minimizar a solidão.

 

Endereço eletrônico do autor: lucelia_paiva@uol.com.br

 

 

 

Eu preciso aprender a ser só: Prática Clínica com mulheres viúvas e separadas

 

Ana Lucia Ribeiro de Oliveira

(Universidade Federal de Uberlândia-MG)

 

 

Pior do que viver só é sentir-se sozinha e não saber lidar com isso. Esta é uma questão enfrentada pela maioria das mulheres que atendo em psicoterapia. São mulheres viúvas ou descasadas, com idade entre 40 e 60 anos, urbanas, as quais trazem experiências de solidão que incomodam e machucam. Seus relatos revelam que a solidão é vivida como desolação, rejeição e abandono. Muitas interpretam a sua solidão como algo totalmente ruim e negativo. Não há prazer em estar só, cansam-se e fogem de si mesmas, evitam o silêncio. Outras, no entanto, vivem ensimesmadas, fogem da presença dos outros, não se dispõem a sair de si para ir ao outro. Em ambos os casos o que se vê é a inabilidade em lidar com as situações de isolamento e com os sentimentos de solidão. As primeiras não são capazes de visitarem-se, de serem si-mesmas, de estarem consigo. As últimas encastelam-se e, das janelas de suas torres, olham o mundo lá fora, mas sem ousar sair para estar com outrem. A solidão de todas elas é polarizada e, assim, não realizam o movimento de ir e vir entre o Eu e o Tu. Não há pulsação de entradas e saídas de si-mesmas. Acompanhar estas mulheres em psicoterapia requer um exercício de espera até que se decidam a oscilar como pêndulos num ziguezaguear dialogal, ora consigo e ora com o outro. Entendo que este seja o grande cuidado terapêutico que tenho de cultivar em minha prática clínica: para cada pessoa um caminho a ser percorrido. Em cada pessoa há um jeito único de administrar as suas questões. Em cada uma destas mulheres há um modo diferente de constituir e significar a sua solidão. A mim como terapeuta, me cabe a doce e amarga tarefa de servir de alteridade para que cada uma aprenda a entrar e sair da solidão sem sofrimentos desnecessários.

 

Endereço eletrônico do autor: ana.ribeiro54@hotmail.com

 

 

 

COLÓQUIO – DOMINGO, 11 DE OUTUBRO DE 2009 – 16h00

 

 

A Poesia como Expressão Existencial

           

Liliane Borges

 

 

Uma breve estória.

            Conta-se uma lenda que um dia a vida se encontrou com a poesia.

            Foi um encontro por acaso, porque a poesia só se encontra no acaso da existência.

            A vida vinha de muitas formas, ora com um vestido esvoaçante solto no vento, ora com casacos pesados tremendo de frio, ora sorrindo mesmo na chuva, ora chorando mesmo na primavera. Parecia velha, mas corria como uma criança. Era bonita, mas só refletia quem olhava.Era a vida e por isso mesmo não poderia se adequar numa forma.

            A poesia, no entanto, era a mesma, se vestia ainda que com tecidos diferentes, com as roupas do espanto, trazia nos olhos uma imensidão inteira, quando sorria revelava uma timidez escandalosa, quando chorava escorria um rio inteiro de saudades...

            A vida vinha por caminhos já conhecidos, por estradas já desbravadas, por trilhos já caminhados, trazia o pó de um tempo longínquo, a renovação de cada dia e sabia de coisas que sequer poderiam ser contadas.

            A poesia vinha pelo inédito, por precipícios profundos, por abismos emergidos, de lugares inusitados e trazia em si a leveza do inalcançável, além do trânsito pela rotina dos sentimentos.

            A vida tinha uma palidez quase etérea e deixava pelo caminho rastros independentes de quem faz seu próprio rumo e apesar da certeza do destino, caminha.

            A poesia tinha cor, ainda que usasse a palidez, ia se transformando a cada pronúncia das profundezas de si, e assim tinha uma tez de reconhecimento que se mostrava nas faces, tinha as cores da universalidade de quem se expõe a intensidade de sentir.

            A vida.

            A poesia.

            A poesia da vida e a vida na poesia.

            Se encontraram em um caminho qualquer, e em qualquer caminho se reconheceram...E foi assim que  descobriram as possibilidades intermináveis de ser essência na vida e de se descobrir vivo em suas essências.

            Como se a poesia fosse o parte do sentido da vida, aquela parte em que valia a pena viver!  

            Ao falar de existência é possível que cada palavra diga apenas do indizível. Ainda que precisemos nos recorrer as letras para tentar expor algo inteiro, impenetrável e profundamente denso.

            A existência caudalosa de quem escreve sobre o que sente, apenas se aproxima do que é possível, do que é vivido e sentido, mas são essas letras que unidas em palavras se condensam na tentativa frustrada, mas nem por isso menos bela, de se aconchegarem perto de lugares que ninguém nunca pisou, esse seria o legado da poesia: tentar a todo custo romper as barreiras da impossibilidade.

            A poesia existe pela ativação dos sentidos, e cotidianamente, como se de forma repentina tudo acontecesse pela primeira vez.Ou a primeira vez que se atribuísse um sentido.

            Como se fosse estranho a capacidade que a beleza possui em te lembrar do estranho que é o viver. Assim como a necessidade de transcender,  e em um mundo inóspito, a capacidade de se encantar com a mais simples das vivências.

            A poesia é por ela mesma, em essência em forma, em estranheza...é com ela se vive os amores, as saudades, os protestos, dissabores e seja lá o que faz parte da condição existencial e humana...

            Assim a poesia como manifestação existencial é possível na medida em que se tem a vida como possibilidade do encanto e a poesia como a certeza incerta da transcendência na existência.

           

Endereço eletrônico do autor: liliane.borges@terra.com.br

 

 

A Poesia como Expressão Existencial

 

Prof. Ms. André Roberto Ribeiro Torres

 

Compreender a poesia como expressão existencial, implica em não priorizar a análise literária a partir de suas características formais. Elegendo a existência como foco de partida, é possível encontrar semelhanças entre os fenômenos vislumbrados e descritos por poetas que apresentam diferenças berrantes, como, por exemplo, Fernando Pessoa e Patativa do Assaré. Através das noções de poiesis e techné apresentadas por Heidegger, estende-se a linguagem poética à linguagem de forma geral e sua capacidade criativa. A poesia entendida como expressão existencial demonstra não apenas uma ferramenta expressiva, mas uma forma de perceber a intencionalidade e a consequente relação com o mundo.

 

Endereço eletrônico do autor: andre@torres.psc.com.br

 

 

 

CONFERÊNCIA – SEGUNDA, 12 DE OUTUBRO DE 2009 – 09h00

 

 

Atendimentos breves na área da saúde na perspectiva Fenomenológico-Existencial

 

Juliana Vendruscolo

UNIP; UNAERP (Ribeirão Preto)

 

 

Objetivo: esse artigo tem como objetivo direcionar a atenção para o atendimento clínico na Psicologia da Saúde, envolvendo uma sucinta conceituação deste campo de saber, seus setores primordiais de atuação e algumas técnicas terapêuticas que podem ser utilizadas nesse contexto.

Método: a Psicologia em toda sua abrangência necessita de uma vasta gama de recursos técnicos para instrumentalizar sua prática. Em cada área específica a atuação demanda aspectos singulares no processo de intervenção. A partir de estudos encontrados na literatura e da minha vivência com psicóloga hospitalar e supervisora de estágio nesse mesmo contexto serão apresentadas as seguintes modalidades de atendimentos breves em psicologia na área da saúde: Plantão Psicológico, Aconselhamento Terapêutico e Psicoterapia Breve. É preciso ressaltar que os aspectos acima mencionados serão construídos, ao longo desse trabalho, a partir da perspectiva fenomenológico-existencial.

Resultados: em sintonia com as modalidades citadas anteriormente, torna-se necessário configurar como ocorre, nesse contexto, a relação de ajuda. Dessa maneira o cuidado do psicólogo está vinculado à possibilidade de fornecer ao outro as condições necessárias para o seu desenvolvimento, ou seja, possibilitar ao outro ser ele mesmo assumir seus próprios caminhos, crescer, amadurecer, encontrar-se consigo mesmo.

Conclusão: as intervenções, nas diferentes modalidades, deverão, portanto levar o paciente integrar de fato ao seu tratamento, recebendo informações claras, participando das decisões, expressando suas dúvidas e temores e assumindo a responsabilidade perante si próprio.

Implicações clínicas: segundo a organização Mundial da Saúde (OMS): Saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença.” (VALLE; FRANÇOSO,1981). A partir dessa forma de compreender sáude, como um estado, caracteriza-se também a necessidade de buscar atingir tal estágio, pressupondo-se até mesmo a obtenção de certa estabilidade. O mundo atual, nos parâmetros da modarnidade, constitui-se a partir do modelo de pensamento científico. A medicina  e até mesmo a psicologia moderna compartilham, em muitos momentos tal visão acerca da saúde.  A visão fenomenológico-existencial na área da psicologia da saúde visa, portanto, ampliar a concepção sobre o processo saúde-doença, promovendo uma nova forma de cuidar.

 

Endereço eletrônico do autor: jvendruscolo@yahoo.com.br

 

 

PSICOPATOLOGIA, ESPIRITUALIDADE E FENOMENOLOGIA

 

Adriano Holanda

(Universidade Federal do Paraná)

 

 

A proposta deste trabalho é de discutir aspectos relativos à psicopatologia e à espiritualidade, na direção de um entrelaçamento destas duas perspectivas. Muitas vivências espirituais e religiosas têm sido historicamente associadas aos fenômenos psicopatológicos, enquanto que algumas manifestações psicopatológicas têm sido consideradas à luz da religiosidade, bem como acolhidas em contexto religioso com significativos resultados. Neste sentido propõe-se uma discussão em torno da questão, no sentido de se estabelecer relações entre psicopatologia e espiritualidade na seguinte direção: a) espiritualidade como manifestação de psicopatologia; b) espiritualidade como terapêutica e; c) espiritualidade e psicopatologia como correlatos. Relaciona-se o tema em questão, a leituras diversas, envolvendo um campo de interdisciplinaridade, abrangendo diferentes “olhares”. O trabalho ora apresentado encontra-se em andamento no Nedhu (Núcleo de Estudos do Desenvolvimento Humano), vinculado ao Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Paraná. Num primeiro momento, passou-se por estudos de literatura específica na área, através da leitura e discussão de textos de Psiquiatria, Psicologia da Religião, Antropologia, Sociologia das Religiões e Fenomenologia da Religião. Entendemos que falar de religião é, fundamentalmente, falar de experiência religiosa, dado que a religião só existe porque há sujeitos que a manifestam de uma forma intencional, ou seja, a religião não se dá como uma manifestação pura e sim como uma manifestação de um sujeito que a acolhe e a manifesta. Nas palavras de Oswaldo Piazza: “Não há religião sem experiência religiosa, isto é, sem que o homem tenha experimentado pessoalmente, com maior ou menor intensidade, a realidade de um poder superior ou de forças superiores que fundam e mantêm a existência do mundo e do próprio homem”. Deste modo, entende-se a fenomenologia como o método mais adequado para a compreensão do fenômeno religioso, por tomar o “fato religioso” em sua múltipla dimensão: a) através de uma pesquisa histórica; b) de uma interpretação existencial; c) situada no campo da objetividade; e, d) como enraizada na relação entre o indivíduo e a sociedade. Assim, partindo-se de um olhar fenomenológico – como fundamentação metodológica e como leitura do fenômeno da espiritualidade – estaremos apresentando nosso projeto de pesquisa em desenvolvimento, que visa delimitar o campo de avaliação, bem como a representação subjetiva, que as diferentes religiosidades têm das psicopatologias, além das possibilidades de complementariedade entre religião e os diversos tratamentos. Observou-se, em estudo preliminar, que há critérios diagnósticos implícitos nas diversas instituições religiosas em relação às síndromes psicopatológicas, bem como uma procura significativa de religiosos por formações e/ou esclarecimentos com respeito às ciências psicológica e psiquiátrica, como forma de melhor atender às demandas de seus serviços. Observa-se uma abertura prolongada aos diversos saberes externos à doutrina religiosa, ainda em caráter limitado, mas denotando uma significativa aproximação entre os diferentes contextos humanos. O segundo momento da pesquisa será desenvolvido em parceria com o Hospital Espírita de Psiquiatria do Bom Retiro, em Curitiba (Paraná).

 

Endereço eletrônico do autor: aholanda@yahoo.com

 

 

 

MESA REDONDA – SEGUNDA, 12 DE OUTUBRO DE 2009 – 10h00

 

ESPIRITUALIDADE, RELIGIOSIDADE E PSICONEUROIMUNOLOGIA

 

 

OS DIFERENTES CAMINHOS DA RELIGIOSIDADE

 

Profa. Dra. Ronilda Iyakemi Ribeiro

 

 

Todos sabemos que a noção de religiosidade difere das noções de religião e de sistema religioso: Enquanto a religião supõe a possibilidade de uma relação entre o humano e o inefável, expressa por meio de emoções, conceitos e ações, e os sistemas religiosos reúnem elementos religiosos - livros sagrados, marcos históricos, personagens históricos, objetos sagrados, a religiosidade, qualidade pessoal, caracteriza-se pela disposição ou tendência a aproximar-se e mesmo integrar-se ao que é sagrado. Desse modo, a religiosidade, enquanto característica pessoal, independe da adesão a esta ou aquela religião e do ingresso neste ou naquele sistema religioso.

Muitos e distintos são os caminhos de busca e de manifestação de religiosidade. Porém, todos partem dos mesmos princípios embora mudem os discursos, dependendo das religiões e dos sistemas religiosos. Um referencial na busca de caminho para o desenvolvimento da religiosidade é, sem dúvida, o quadro ético-moral que norteia a educação de atitudes e de comportamentos.

O recurso eleito para a abordagem deste tema, no presente contexto, é o de buscar exemplos de religiosidade no âmbito da literatura oral e escrita. Das quase infinitas possibilidades, escolhi, no âmbito da literatura oral africana (iorubá), uma narrativa do corpus literário de Ifá, que tem por tema a relação de um homem com Ori, sua divindade pessoal e no âmbito da literatura escrita, um conto japonês Sennin, de Ryunosuke Agutagawa. A escolha se justifica pela importância para a religiosidade, do reconhecimento da Presença Divina no humano e do esforço pessoal na busca de auto-transcendência. No itan de Ifá o homem perdido busca reencontrar seu caminho, enquanto no conto Sennin, Gonsuké, o herói da narrativa, busca a transcendência. Gonsuké, palavra que significa “servente para qualquer trabalho”, também pode significar “O servidor”.

Endereço eletrônico do autor: iyakemi@usp.br

 

 

Psicossíntese e Espiritualidade

 

Profa. Dra. Marina Pereira Rojas Boccalandro

 

A conferência refere-se ao conceito de Espiritualidade para a Psicossíntese,uma abordagem humanista, de autoria de Roberto Assagioli, nascido em Veneza, na Itália, em 1888 e falecido em 1974.   Médico com  especialização em neurologia e psiquiatria , que fez o seu doutorado na Sociedade de Psicanálise, nessa época dirigida por Freud  e que tinha Jung como seu membro.  Ao voltar para a Itália, afastou-se da psicanálise por considerar que essa lidava apenas com o “porão” do ser humano.  Na sua concepção, o ser humano encontra-se em constante processo de  crescimento pessoal, buscando realizar  todo o seu potencial não manifesto.   Considera que o homem é  o seu Self, seu Eu Superior, que tem como instrumentos  o corpo físico, emocional e mental para se realizar no mundo.

Para a Psicossíntese espiritualidade  e religião são termos distintos.   A espiritualidade refere-se não somente às experiências tradicionalmente consideradas religiosas, como também a todos os estados  de consciência e a todas as funções e atividades humanas, que tem como denominador comum a posse de valores superiores aos comuns, como por exemplo: valores éticos,estéticos, heróicos, humanitários e altruístas.

Além dessa introdução a autora relata  algumas pesquisas que estão sendo realizadas atualmente sobre o tema da espiritualidade, inclusive uma de Iniciação Científica ,que está em andamento na PUCSP, sob a sua orientação, intitulada “ A espiritualidade em jovens estudantes de psicologia em uma Universidade de São Paulo”.

Refere-se a várias Universidades  do país, que já  têm em seus currículos  o tema Espiritualidade

. Para  finalizar coloca que  através da compreensão dos estudos que estão sendo realizados  pode-se argumentar sobre a  importância  da teoria assagioliana  que compreende a Espiritualidade  como parte integrante do indivíduo e busca uma prática  não somente voltada aos aspectos patológicos do indivíduo, mas que considera de extrema importância a mobilização por parte do mesmo de sentimentos como esperança , vontade e o otimismo na busca de uma melhor qualidade de vida e de uma capacidade de superação de dificuldades.

 

Endereço eletrônico do autor: boccalandro@terra.com.br

 

 

 

  ESPIRITUALIDADE E CONTEMPORANEIDADE

 

Valdemar Augusto Angerami (Camom)

 

 

De há muito observamos a total intolerância quando da evocação de temáticas religiosas no âmbito acadêmico. Isso é notório em todas as áreas acadêmicas, mas parece ganhar contornos ainda maiores de tons irascíveis principalmente na psicologia. Talvez se deva ao fato de a psicologia, ao menos no Brasil, ainda tartamudear suas primeiras palavras em busca do reconhecimento científico e acadêmico, e ao se confrontar com questões de religiosidade a primeira postura de seus doutores é de total rechaço a tais questões.

É fato que os principais eventos promovidos pelos conselhos de psicologia investem na questão de “ciência” e “profissão”, em clara tentativa de posicionamento em sua busca de reconhecimento e identidade social. E, no entanto, psicologia literalmente significa “estudo da psique”, e como “psique” é a expressão grega que define alma, temos, então, que os psicólogos são os profissionais que estudam a alma e tentam compreende-la das mais diferentes maneiras. E se somos profissionais que estudam e tentam compreender a alma a questão é mais complexa na mera e vã tentativa de compreensão da irritabilidade provocada quando da evocação de questões envolvendo religiosidade no meio acadêmico.

Ao definirmos a psicologia como uma área do saber que se enquadra em um constitutivo metafísico em sua tentativa de compreensão da condição humana, tem, então, questões que envolvem aspectos de uma epistemologia que não apenas vai além das questões meramente genéticas como também de aspectos de nossa condição senso perceptiva. A própria definição do que é definível pela psicologia em seus aspectos de busca científica e que não caiam em mero reducionismo teórico é desafio que os aspectos envolvendo tais questionamentos ainda não conseguiram balizar.

A psicologia em seu constitutivo metafísico, e isso independentemente das abordagens teóricas utilizadas, mostra que o alcance de sua abrangência igualmente depende de uma fé inquebrantável em suas asserções, ao contrário estaremos diante de aspectos meramente digressivos e que sequer alcançam seu objeto de análise. Esse estudo tem a pretensão ousada e irreverente de abordar tais temáticas sem qualquer preocupação de amarras teóricas nem tampouco de incongruência com alguns ponteamentos buscados pela psicologia em sua tentativa de compreensão da condição humana.

Ao trazermos para o campo das discussões contemporâneas a temática da religião e seu enfeixamento com a psicologia, estamos igualmente assumindo um posicionamento em que os aspectos de nossas buscas teóricas façam parte de significados de totalização do homem contemporâneo sem essa fragmentação presente em nossa realidade acadêmica. A religião está presente na quase totalidade das manifestações humanas, e, no entanto, quando trazida para o universo acadêmico sempre esbarra em dificuldades que impedem sua implantação e devida valorização. Esse trabalho tem essa preocupação, a de regatar algo tão precioso na condição humana que é a busca da religiosidade e que está ausente do universo acadêmico. É fato que inúmeras universidades ao longo do país implantam disciplinas e programas que contemplam aspectos da religiosidade, mas igualmente, essas tentativas necessitam de esforços hercúleos para se perpetuarem no enfrentamento das diferentes adversidades que se colocam de modo antagônico a esses princípios. E mais do que uma simples e mera publicação acadêmica esse trabalho certamente será mais um dos tentáculos a embasar tais conquistas e a mostrar as novas perspectivas do nosso desenvolvimento teórico-filosófico.

 

Endereço eletrônico do autor: angerami@angerami.com.br

 

 

PSICOTERAPIA FENOMENOLÓGICO-EXISTENCIAL E

CONTEMPORANEIDADE

 

 

MANIFESTAÇÃO DA AUTENTICIDADE NA PSICOPATOLOGIA: CONTRIBUIÇÕES DE ROLLO MAY E RONALD LAING

 

Achilles Gonçalves Coelho Júnior 

Juliana Pádua

Juliana Mafia Queiroz 

 

Faculdades Integradas Pitágoras de Montes Claros

Montes Claros / MG

 

 

Objetivos: Fundamentando na teoria da Psicologia Existencial, o adoecimento mental ora é entendido como uma manifestação de inautenticidade da pessoa, ora de uma afirmação de autenticidade. O trabalho visa discutir uma compreensão dos conceitos de autenticidade e inautenticidade, presentes no processo de adoecimento mental, explicitando os sinais de afirmação autêntica e da manifestação de uma experiência inautêntica da pessoa neste contexto.

Métodos: O procedimento metodológico utilizado para produção deste trabalho foi a pesquisa bibliográfica dos autores da psicologia existencial Rollo May e Ronald Laing, que constituem a base de sustentação desta discussão. Utilizamos a análise fenomenológica como método para compreensão dos textos, onde destacamos os argumentos essenciais dos autores, no que se refere aos objetivos visados.

Resultados: Rollo May apresenta como caminho essencial para compreensão do ser humano em seu processo de autenticidade, o autoconhecimento e a experiência de uma liberdade que leve em conta os significados pessoais que a realidade lhe comunica. A discussão sobre a existência humana deve ser realizada levando em conta as relações que a pessoa estabelece em seu mundo. Para Ronald Laing, a autenticidade traduz-se em uma experiência em que o homem é verdadeiro consigo mesmo. Quando sentimos o que queremos dizer, ou dizemos o que queremos, a autenticidade acontece. As palavras e outros meios de expressão constituem verdadeiras manifestações de sua experiência e de intenções reais.

Conclusões: Rollo May e Ronald Laing definem a psicopatologia como uma forma que o sujeito encontra de lidar com a realidade. Na tentativa de preservar a própria autenticidade, a pessoa pode acabar manifestando uma inautenticidade ao afastar-se da realidade, podendo gerar um processo de adoecimento mental.

Implicações Clínicas: Essa reflexão é importante para os profissionais da área da saúde que lidam diretamente com as pessoas perturbadas diante de sua própria vida, contribuindo com uma mudança da concepção de loucura, na medida em que apreende neste processo uma dinâmica pessoal de busca de autenticidade. Assim, novas ontribuindo na ampliando a concepçe gerar um processo de adoecimento mentalefere condutas éticas, voltadas para a essência e autenticidade do sujeito, podem ser assumidas. A consciência de que o próprio relacionamento profissional pode se tornar um recurso terapêutico importante no apoio da construção da autenticidade da existência humana, bem como a promoção dos relacionamentos significativos, de uma implicação efetiva dos membros da família no processo de saúde, pode contribuir para uma maior efetividade da busca de autenticidade.

 

Endereço eletrônico dos autores:

achillescoelho@yahoo.com.br

julianacpadua@yahoo.com.br

ju_mafi@hotmail.com

 

 

 

PSICOTERAPEUTA EXISTENCIAL, UM FACILITADOR

Nazareth Ribeiro

Rio de Janeiro, Brasil

 

 

Objetivos:

O objetivo deste trabalho é apresentar a possibilidade de um atendimento mais dinâmico e interativo em Psicoterapia, direcionado para as necessidades do cliente, usufruindo da Liberdade que a Abordagem Existencial nos reserva, e acompanhando os modernos recursos tecnológicos e os aproveitando de forma a facilitar a interação Terapeuta/Cliente, visando um resultado mais efetivo não só em suas questões existenciais, como também em suas funções executivas, tornando-o mais competente na resolução de seus projetos e em suas escolhas a curto, médio e longo prazo.

Nesta apresentação o foco será no Facilitador ao portador de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), seja ele o Facilitador Psicoterapeuta, Educador e/ou o responsável que lida no dia a dia com o TDAH, apresentando dicas práticas e objetivas de como cada um destes facilitadores  pode desenvolver o seu papel no convívio com o TDAH no sentido de facilitar e otimizar sua vida.

Isto porque o Portador de TDAH tem um perfil de cliente que necessita de reforço e orientação constante devido à sua tríade de sintomas: Desatenção, Inquietude e Impulsividade.

O objetivo maior desta apresentação é mostrar que a interação do terapeuta com este cliente, trabalhando a partir da dificuldade de cada um como ser único, focando em seus objetivos e interagindo com seu modus vivendum de forma mais atuante, prática, objetiva e realística, ajudando-o a ir além.

Métodos:

Esta modalidade de trabalho exige do Psicoterapeuta comprometimento com a responsabilidade aos critérios éticos, além de extensa prática terapêutica para lidar com os recursos atualmente disponíveis, e para estabelecer um clima confortável para seu cliente, reconstruindo uma nova visão de setting terapêutico, onde a relação será mais interativa e a palavra será apenas mais um recurso, dentre tantos outros.

Durante a apresentação darei exemplos práticos de atividades utilizadas durante a sessão e de outras que são propostas ao cliente para execução em seu ambiente cotidiano, tornando o trabalho cada vez mais vivencial.

Dicas serão apresentadas de como ser um Facilitador como Psicoterapeuta, como Educador, como familiar, enfim, são sugestões simples que podem abordar várias áreas da vida do cliente.

Além dos jogos e tarefas, estabelecimento de metas e objetivos claros e reais para a realização de projetos, o que será apresentado na ocasião da palestra. Além de pesquisas sérias que demonstram como as atividades para reabilitação cognitiva podem realmente melhorar a performance do cliente.

Resultados:

Os resultados positivos obtidos através deste trabalho em minha prática clínica serviram de estímulo para continuar e aprimorar este tipo de recurso e para dividir esta experiência com outros profissionais neste Congresso.

Hoje utilizo técnicas de reabilitação cognitiva, reforço e motivação, com todos os clientes que desejam este tipo de atendimento, funcionando como um coaching (treinador), um facilitador. Esta abordagem de trabalho vem sendo desenvolvida por mim em meu consultório desde 1999 quando passei a me aprofundar no estudo e atendimento clínico ao TDAH e venho desde então me correspondendo periódicamente com as mais sérias Instituições Internacionais dedicados ao estudo e ao atendimento a estes clientes.

Conclusões:

É possível estabelecer o vínculo terapêutico, estabelecer uma Relação Terapeuta/Cliente empática, responsabilizando ambas as partes para o melhor desempenho do seu papel nesta relação e obter resultados desejáveis tanto no atendimento no consultório quanto quando o cliente se propõe a realizar as tarefas em seu ambiente e percebe os resultados positivos, minimizando seus sintomas, sua dor biopsicossocial e como conseqüência melhorando sua qualidade de vida, seu relacionamento interpessoal e acadêmico/profissional.

Como neste trabalho o contrato terapêutico é feito com o comprometimento do cliente com o cumprimento das tarefas, é feita uma reavaliação periódica das tarefas cumpridas e dos objetivos alcançados e se necessário uma reavaliação no Projeto inicial.

Implicações clínicas:

Ser um Facilitador, além de Terapeuta, viabiliza ao seu cliente a adquirir competências, a refazer-se no dia a dia, a desenvolver uma relação de maior interação e responsabilidade mútua no seu processo terapêutico, levando-o a tornar-se mais seguro e independente, minimizando suas dificuldades, tanto em sintomas clínicos como em características pessoais, que interferem no bom andamento na execução e conclusão de suas tarefas.

Utilizando este recurso facilitador junto à Abordagem Existencial em minha práxis terapêutica venho vivenciando o crescimento do meu cliente, com gradual aumento em sua auto-estima, alcançando satisfação pessoal acadêmica e profissional.

Para obter este resultado é necessário acompanhar os periódicos e pesquisas mais recentes sobre o assunto no mundo a fora.

Nesta apresentação pretendo apresentar um gráfico de pesquisa séria que confirma a eficácia do treinamento do cérebro através das atividades, aumentando significativamente sua capacidade cognitiva.

Palavras-chave: Facilitador, TDAH, reabilitação cognitiva, funções executivas

 

Endereço eletrônico do autor: nazarethribeiro@nazarethribeiro.com

 

 

Página pessoal: www.nazarethribeiro.com

 

 

 

SARTRE E A PSICANÁLISE EXISTENCIAL: UMA PROPOSTA ALTERNATIVA ÀS PSICOLOGIAS EMPÍRICO-CIENTÍFICAS E SUA POSSÍVEL APLICAÇÃO NO ÂMBITO CLÍNICO.

Luci Aparecida Tossato Fossa

Centro Universitário Padre Anchieta

Jundiaí-SP.

 

Para Jean-Paul Sartre (2007) o fundamento dado pela fenomenologia possibilitou-lhe criar um tipo de psicanálise que rompe sobremaneira com as teses racionalistas e idealistas para a ciência; o fundamento epistemológico não é dado mais pelo geral e abstrato, mas pela vida concreta do indivíduo, com todas as suas incertezas e dúvidas, de modo que a existência não é mais uma conseqüência das atitudes tomadas a partir de pressupostos, mas a existência é aquilo que o indivíduo faz de si próprio.

Objetivos: a) apresentar os pontos centrais da Psicanálise Existencial de Sartre como uma proposta de Psicologia, e os pontos que a distinguem da psicanálise tradicional de Freud sendo fundamental a compreensão da filosofia existencial de Sartre na obra O ser e o nada.

b) Verificar a questão da possibilidade de aplicação da psicanálise existencial sartreana.

Método: o método utilizado foi o da leitura da obra O ser e o nada de Sartre, especificamente o capítulo sobre “A Psicanálise Existencial” e vários artigos que tratam dessa questão.

Através de uma síntese de “A Psicanálise Existencial” podemos entender esse método com seu fundamento: “a existência precede a essência”. Em busca do irredutível é possível desvelar o “projeto de ser”.

Foram analisados três artigos de psicólogos brasileiros, que nos encaminham para três obras fundamentais de Sartre, necessárias para a construção de uma Psicologia Existencial, a saber: “Estudo da fenomenologia e da imaginação em Sartre” (Leone 2000), onde analisa os aspectos metodológicos na elaboração da psicologia da existência; “A teoria da personalidade em Sartre” (Ehrlich, 2000), onde mostra que a consciência visa unificar as experiências, originando um ego transcendente; e “Homem, mundo e emoções em Sartre” (Castro 2000), onde procura mostrar em que consiste o fenômeno da Emoção.

Resultados: Para demonstrar uma possibilidade de atuação clínica foi realizada a descrição e análise de um caso a partir dos princípios da Psicanálise Existencial, que será exposto neste congresso.

Conclusões: A Psicanálise Existencial é “uma psicanálise que busca não as causas do comportamento de uma pessoa, mas o seu sentido” busca aquilo que o sujeito expressa como escolha.

O processo psicoterápico de Sartre possibilita ao paciente converter-se em sujeito de sua própria história. Além disso busca, a partir das peculiaridades do sujeito, desvelar a escolha original de ser.

Implicações clínicas: A teoria e metodologia de Sartre servem de embasamento para propostas de intervenção clínica em psicologia, ensinando aos psicoterapeutas a permanecerem com os fatos e fenômenos, deixando-os contarem seu significado. A Psicanálise Existencial proporciona ao analisando o máximo de desenvolvimento em relação às suas possibilidades e potencialidades. Espero que esse trabalho possa ajudar a todos os interessados no tema aqui abordado.

Endereço eletrônico do autor: luci.tossato@yahoo.com.br

 

 

Fenomenologia Existêncial uma contribuição teórica para a prática em clínicas escolas em Universidades de Psicologia do Estado de São Paulo

 

Márcia Chicareli Costa

  

Este estudo pretende convidar profissionais da área da Psicologia (Professores e Supervisores Clínicos) e também os Estudantes de Psicologia, que já se encontram em estágios clínico nas Universidades a fazer reflexões mais profundas sobre a importância de um olhar Fenomenológico Existencial em atendimentos clínicos nas Clínicas Escola das Universidades. Nota-se que o estagiário/supervisionando, enfrenta um paradoxo, teoria e prática, que de paradoxal não tem nada, mas é assim que o estudante relata sentir-se, e que tem é reconhecido por eles como gerador de ansiedade e angústias para os primeiros atendimentos. No entanto, a abordagem Fenomenológica Existência, que pretende observar o fenômeno pelo fenômeno e o sujeito como ele se apresenta e também faz um convite ao estagiário em ir para o atendimento com o sujeito “despido” de teorizações. Isto tem levado esta reflexão mais adiante do que propostas feitas anteriormente nesta mesma situação. Uma vez desocupados da ansiedade em lembrar-se das teorias, dos preenchimentos de documentação burocrática institucional, o estagiário tende a diminuir suas tensões e consegue efetuar o encontro para uma entrevista inicial com seu olhar e escuta clínica totalmente voltada para o sujeito. Importante ressaltar, que o psicólogo Winnicott, citado por Merleau-Ponty, mostra, por exemplo, que a “separação entre o não-eu e o eu se efetua, e o ritmo da separação varia de acordo com o bebê e com o meio ambiente”. (Winnicott, 1971, p.111). Posto isto, podemos entender que a partir do momento que o sujeito em atendimento se percebe em si e para que isso aconteça ele precisa do Psicólogo como espelho, o trabalho de intervenções será possível, quando se perceber em si, reconhecerá o outro (Psicólogo) na relação interpessoal. A autora Ancona-Lopez, diz que o psicólogo não deve teorizar o atendimento clínico, deixando uma pré-disposição para compreender o sujeito como ele se apresenta e compreendendo que suas dificuldades são, para ele, reais e vivenciadas e com isso, um dos objetivos do encontro é traduzir o sentido daquilo que o sujeito traz como conflito interno ou externo. Embora saibamos a importância da teoria para fundamentar os atendimentos clínicos nas clínicas escola das Universidades, vale ressaltar que no atendimento deve-se seguir o modelo Fenomenológico Existencial, teoria esta que possibilita uma prática sem obstáculos no encontro e na relação Psicólogo/Paciente e isso possibilitará o estagiário a ter mais disponibilidade interna para uma melhor atuação clínica. Em supervisões dadas numa conceituada Universidade em São Paulo este tema está em voga, como dificuldade do estagiário em livrar-se da teoria para o atendimento e a falta de compreensão que o encontro em si poderá ser mais terapêutico que qualquer teoria posta entre pessoas que se encontram para decifrar a queixa e acolher o sofrimento. Logo temos dois sujeitos em dificuldade, aquele que procura a clínica para ser ajudado e o estagiário que em sua extrema insegurança, se ocupa dele mesmo para diminuir sua angústia.

Palavras Chave: Fenomenologia Existencial, Atendimento Clínico, Formação do Psicólogo

Endereço eletrônico do autor: m_chicareli@uol.com.br

 

 

PSICOTERAPIA FENOMENOLÓGICO-EXISTENCIAL E

CONTEMPORANEIDADE

 

 

 

CONTRIBUIÇÕES DA PSICOTERAPIA FENOMENOLÓGICA-EXISTENCIAL NA REABILITAÇÃO DE MULHERES MASTECTOMIZADAS: UM ESTUDO DE CASO

Daniela Cristina Mucinhato Ambrósio;

Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto

Universidade de São Paulo

Ribeirão Preto, SP, Brasil

Objetivo. Refletir sobre a aplicação da psicoterapia fenomenológica-existencial no tratamento e reabilitação de mulheres com câncer de mama.

Método. Foram analisadas sessões de psicoterapia de abordagem fenomenológica-existencial conduzidas junto a uma cliente com histórico de depressão, diagnosticada com câncer de mama. A cliente possuía no início do processo 42 anos, era casada havia 22 anos e tinha duas filhas adolescentes. Fazia acompanhamento psiquiátrico há cinco anos – portanto, antes da descoberta do câncer – e já havia realizado acompanhamento psicológico anteriormente, por dois anos, em outra abordagem. Na época do tratamento por câncer de mama havia sido submetida à mastectomia radical esquerda, seguida de reconstrução mamária imediata, quimioterapia e radioterapia. Recebia ainda atendimento fisioterápico na tentativa de recuperação da mobilidade do braço homolateral à cirurgia e em prevenção ao linfedema, uma das possíveis complicações da mastectomia. O atendimento psicoterápico, pautado na abordagem fenomenológica-existencial, foi realizado em um núcleo público de reabilitação de mastectomizadas da cidade de Ribeirão Preto, SP, durante um período de três anos e meio por uma psicóloga voluntária da equipe multiprofissional de assistência da instituição. As sessões de 50 minutos de duração e frequência semanal aconteceram em uma sala reservada do serviço. Os diálogos estabelecidos, bem como as atitudes, impressões e sentimentos que emergiram nos encontros foram transcritos pela psicoterapeuta em notas de campo e analisados no decorrer da evolução do processo terapêutico, com auxílio de uma supervisora. A partir da análise dos registros das sessões buscou-se destacar unidades de significado que indicassem os momentos marcantes (definidos como os momentos que mobilizaram maior carga emocional) elegidos pela cliente para serem trabalhados durante os atendimentos. Na análise compreensiva dessas vivências procurou-se identificar o modo como tais momentos puderam ser desenvolvidos empaticamente na díade cliente-terapeuta, da perspectiva fenomenológica-existencial.

Resultados. Os momentos considerados significativos na vivência do enfrentamento do câncer de mama da cliente referem-se às dificuldades encontradas por ela ao se perceber enquanto ser-no-mundo-com-câncer-de-mama, à angústia experimentada ao deparar-se com sua condição de ser-para-a-morte, deflagrada a partir do diagnóstico de uma doença estigmatizada como fatal e de ser-mulher-feminina-esposa-sem-mama. Além disso, tais momentos foram permeados pelo adoecimento existencial da cliente, ao vivenciar fases de impossibilidade de reconhecer em si condições para enfrentar limitações e conflitos que acabaram lhe impostos por sua existência. Desvela-se um sofrimento frente às atividades que a cliente realizava antes do adoecimento e que não poderia mais realizar após a mastectomia, em função da limitação de força e amplitude de movimento de seu braço, o que lhe causava a percepção de estar vivenciando uma existência inutilizada, inautêntica e que, consequentemente, agravava seu quadro depressivo. Esses temas destacados foram trabalhados a partir do encontro existencial entre cliente e terapeuta, no qual a profissional buscou manter uma postura fenomenológica, o mais livre possível de preconceitos e pressupostos, de modo a favorecer a abertura existencial e o mergulho no mundo-vida de sua cliente. Essa postura exigiu a oferta de uma escuta sensível, atenta e compreensiva, assim como um movimento de constante retorno e revisão dos conteúdos trabalhados, a fim de aproximar-se da perspectiva da cliente em relação ao seu universo vivencial. Ao auxiliar a cliente a compreender sua intencionalidade e atitude natural frente o mundo, a terapeuta favorecia com que a mesma entrasse em contato com seu modo de ser-no-mundo, com seu mundo circundante, próprio e humano, com sua condição de ser-para-a-morte, com o propósito de transcender sua condição atual e re-significar sua existência. Além disso, possibilitava à cliente reconhecer em si própria sua liberdade de escolher e responsabilizar-se pelas escolhas que fizesse. Ao fim de três anos e meio de acompanhamento psicoterápico percebeu-se a vivência de uma cliente consciente das limitações de sua existência, de sua angústia frente à sua condição de ser-no-mundo-com-câncer-de-mama e de ser-para-a-morte, porém aberta às suas possibilidades de escolha e ciente de sua capacidade de construir e se responsabilizar por seus projetos existenciais, assumindo uma forma autêntica e existencialmente saudável de viver.

Conclusões. A aplicação de psicoterapia de orientação fenomenológica-existencial mostra-se uma abordagem apropriada para o trabalho junto a essa mulher com câncer de mama, na medida em que possibilitou, entre outros benefícios, auxiliá-la a reconhecer em si mesma a capacidade que possui de significar os acontecimentos de sua existência, incluindo o adoecimento por câncer, e de encontrar a possibilidade de experienciar um modo de ser existencialmente saudável e uma vida autêntica – não “apesar” do câncer de mama, mas convivendo com a facticidade do câncer de mama.

Implicações clínicas. Ressalta-se a importância de que profissionais de saúde adotem posturas de abertura ao cliente oncológico e que se disponham e se sensibilizem para o trabalho com questões existenciais no encontro com essa clientela, mesmo que não utilizem uma abordagem fenomenológica-existencial, apesar de a mesma ter se mostrado bastante adequada ao acompanhamento psicológico da mulher com câncer de mama.

Endereço eletrônico do autor: dani_mucinhato@hotmail.com

 

 

A FÉ INQUEBRANTÁVEL DO PSICOTERAPEUTA EM SI MESMO

Sônia Cristina de Andrade

 

Apresento esta reflexão a partir de uma experiência como psicoterapeuta, de forma entrelaçada com construções e desconstruções teóricas. Pretendo discutir sobre o sentimento de desamparo e insegurança, gerados na falta de confiança do psicoterapeuta em si mesmo. O psicólogo inicialmente pode ser tocado pelos sofrimentos de seu paciente e perceber-se aflito e frustrado porque seus conhecimentos científicos não são suficientes para atender, de imediato, o apelo de seu paciente. O psicoterapeuta iniciante busca suporte externo para seus dilemas, esquecendo-se de que sua própria pessoa é seu principal instrumento de trabalho, para além das técnicas e mesmo das teorias. Será abordado como todo o trabalho do psicoterapeuta tem como alicerce seu próprio ser, suas capacidades, vivências, humanidade, fragilidades e limitações. Apresentando a fé como a possibilidade de conviver com sua impotência, sua humanidade e com sua co-autoria. A fé como a crença na própria capacidade de tocar e ser tocado.  

Endereço eletrônico do autor: soandrade@gmail.com

 

 

Arteterapia e Oncologia: Encontros na Sala de Espera

Mauro Lana Vieira

Universidade São Marcos

Paulínia / SP- Brasil

 

Objetivos: O trabalho a seguir tem como objetivo apresentar uma forma diferenciada de efetivar um atendimento psicológico com pacientes e acompanhantes de um ambulatório de oncologia. Com a utilização da Arteterapia de fundamentação fenomenológica, e materiais expressivos de natureza artística, possibilitar uma maior compreensão dos atendimentos, bem como diferentes formas de intervenção e possibilidades de proporcionar um momento de resignificação, e através da produção possibilitar o desvelar do ‘ser’ reconhecendo-se e tornando-se um só, autor e obra.

Métodos: Esta pesquisa foi realizada na sala de espera do Ambulatório de Oncologia do Hospital Municipal Dr. Mario Gatti, localizado na cidade de Campinas – São Paulo – Brasil. Todos os presentes poderiam participar, sem pré-julgamentos estéticos ou direcionamentos sobre o que fazer. Com os materiais em uma mesa no centro da sala de espera, e após a apresentação, do pesquisador e do trabalho, os pacientes ou acompanhantes poderiam se dirigir e utilizar os materiais desejados para a realização das produções. Das conversas surgidas durante as produções foram realizadas intervenções verbais relacionando-as com as produções, buscando viabilizar o reconhecimento de si na obra e uma apropriação dos sentidos contidos nela.

Resultados: Com 3 meses de duração, a pesquisa contou com a participação de 30 individuos, sendo que, segundo os participantes, os recursos utilizados proporcionaram um momento de reflexão, bem estar e possibilidades para rever valores. A utilização da arteterapia e materiais plásticos expressivos proporcionaram uma nova maneira de explorar conteúdos que a princípio podem parecer inacessíveis, mas que após a realização das atividades, o se “reconhecer” na obra, proporcionam o desvelamento do ser entre os participantes.

Conclusões: A possibilidade de realizar um atendimento psicológico ao paciente oncológico, ou seu acompanhante, com a utilização da arteterapia, possibilitou uma nova via de acesso a conteúdos que muitas vezes não são possíveis serem trabalhados em atendimentos tradicionais.

Uma vez que é apresentado o material plástico para o participante, este pode, sem intenção, realizar uma produção que traga conteúdos e significados relacionados à sua experiência, sentimentos, frustrações, desejos, dentre outros, podendo assim serem trabalhados.

Implicações Clínicas: Há algumas implicações que possibilitem maior atenção ao tratamento dos pacientes oncológico: a dificuldade relacionada ao enfrentamento da doença, juntamente com a limitação dos atendimentos psicológicos realizados nos moldes tradicionais. A utilização de recursos expressivos e em sala de espera, pode possibilitar um momento acolhedor em um local familiar. Incentivar as pesquisas com a utilização de recursos expressivos e formas diferenciadas de atuação do psicólogo junto a esse público poderá expandir as perspectivas desta prática.

Acredita-se que a arteterapia em um atendimento psicoterápico realizada em sala de espera, proporcionará ao participante uma melhora no seu quadro clínico, psicológico e existencial, na certeza de que, a realização da obra poderá possibilitar um maior auto-conhecimento e percepção dos sentimentos, medos, angustias, alegrias, sonhos e abrindo assim novas possibilidades de significações para o participante.

 

 

Endereço eletrônico do autor: maurolv@yahoo.com.br


 
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