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A Fé Inquebrantável do Psicoterapeuta em Si Mesmo

A fé inquebrantável do psicoterapeuta em si mesmo.

 

Sônia Andrade

 

A reflexão que apresento a seguir surgiu a partir de uma experiência pessoal como psicoterapeuta e pretendo apresentá-la de forma entrelaçada com minhas construções e desconstruções teóricas.

Diante do telefonema de um novo paciente que se dizia estar em crise de pânico e da complexidade que eu atribuía a este sofrimento, passei a pensar no caso, no pânico e na gravidade da situação que se apresentava. Fiquei preocupada se conseguiria atendê-lo, se saberia o que fazer, se teria intervenções corretas que poderia tirá-lo daquela situação de sofrimento que eu considerava tão difícil e cruel, e entrei eu também em estado de “pânico”. Onde estava minha segurança? Foram tantas as teorias que estudei e tantas que desconstrui ao longo do caminho, que me questionei se algo restava? Que instrumentos eram estes que eu aprendia e utilizava, mas que não conseguia colocar em palavras, objetivar, nomear? Que não acreditava ser capaz de dar suporte e aliviar tão grande sofrimento? Estava me sentindo desamparada, insegura e percebi que na verdade não confiava em mim.

Procurei por uma verdade, alguma teoria ou técnica que pudesse me assegurar que não falharia, que, independente de quem fosse aquele que se apresentasse diante de mim, eu saberia o que fazer. Buscava algo que me preparasse para estar diante do paciente. Não encontrava respostas, mas também não havia percebido que ainda não sabia qual era “A pergunta”. Eu havia me encontrado com meu pânico, com meus medos, mas quais seriam os medos do paciente?

Segundo Forghieri1, o psicólogo inicialmente pode ser tocado pelos sofrimentos de seu paciente, sentir o que é estar envolvido com as necessidades e ansiedades de alguém e perceber-se aflito e frustrado porque seus conhecimentos científicos não são suficientes para atender, de imediato, o apelo de seu paciente. Diante desta afirmação, alguns pontos merecem destaque, pois sustentam grande parte das ilusões do psicoterapeuta: o conhecimento científico suficiente; e atender de imediato.

O conhecimento científico, segundo Forghieri1, pode dar ao terapeuta alguma segurança para impedir que o paciente o “contamine” com seus sintomas, pelo distanciamento que se insere entre eles. Já Boris2, enfatiza que o psicoterapeuta iniciante pode correr o risco de utilizar a teoria como uma defesa contra suas próprias dúvidas, adotando uma atitude formal, intelectual ou perfeccionista.

O que seria um conhecimento científico suficiente? Algo capaz de responder a todas as questões, de explicar como “é” cada ser humano na sua singularidade? E mesmo que viesse a explicar, teria o poder de dar sentido ao existir de cada homem?

Se o homem é um dasein, um ser-aí, sempre a “fazer-se”, aberto a construção do seu ser, não seria possível encerrar em um conhecimento teórico todas as possibilidades deste existir humano. Então, o que seria um conhecimento suficiente? Ou melhor, suficiente o bastante para compreender a priori qualquer dor e sofrimento? Para certificar que nossas atitudes e ações sejam eficazes na “salvação” do outro? Se esta segurança se fundamentasse apenas nos conceitos teóricos, não seria antes porque ela se sustenta na cegueira diante das particularidades humanas, que provocam lacunas nas grandes generalizações?

A ciência psicológica é necessária, mas é preciso cuidar para que ela não minimize a sua sensibilidade, tornando-lhe alheio ao apelo do paciente. É exigido do terapeuta sair deste lugar de superioridade conquistado pela ciência, como afirma Forghieri1, e colocar-se ao lado, próximo àquele que o procura. Deixar o conhecimento teórico como fundo e colocar-se com o primordial, sua humanidade. Para se encontrar com o paciente é preciso que a teoria não se coloque à sua frente, como obstáculo entre eles, mas que ela esteja assimilada, fazendo parte de seu modo de ser, pensar e sentir.

Para Boris2, a literatura teórica é um ponto de apoio e de referência ao psicoterapeuta, mas não basta por si mesma, devendo sempre ser adotada com flexibilidade, fundamentando e sendo fundamentada pela prática profissional, pelas experiências pessoais, pela supervisão e pela psicoterapia do próprio psicoterapeuta. São as atitudes e posturas do psicoterapeuta que transformam esta teoria em algo vivo, sendo estas atitudes sua fé, confiança, aceitação e respeito.

Outra reflexão anteriormente proposta é sobre a ânsia do psicoterapeuta em PODER atender de imediato o apelo de seu paciente. Em diversas situações o paciente ainda nem se mostrou, não revelou qual é realmente seu apelo, sua angústia, entretanto, o terapeuta já está a interagir com ele de maneira “virtual”, imaginando seu sofrimento, para então se antecipar e encontrar algo que lhe assegure um bom atendimento, correspondendo assim a idealizações do paciente e suas próprias auto-idealizações. Que poder fantástico! Seria este um psicoterapeuta ou um adivinha, um vidente, ou alguém que julga conhecer o outro melhor do que este mesmo poderia fazê-lo? Seria, então, a psicoterapia algum tipo de arte de adivinhação que cura, independente daquele que se coloca do outro lado da sala?

Segundo Forghieri1, a psicoterapia é um processo interpessoal, que requer a presença genuína do psicólogo, como instrumento, como colaborador, mas não como único autor da arte que se desenrola nesta relação. Sendo co-autor, como sustentar a fé no poder de curar alguém, de retirá-lo do sofrimento, de libertá-lo das amarras que o prendem? Sem um conhecimento capaz de assegurar sua infalibilidade e sem a ilusão de seu poder curador ou libertador, a fé do psicoterapeuta só encontra um repouso, um lugar, em si mesmo, em sua humanidade, suas fragilidades e impotências. Como afirma Ribeiro (1986 apud BORIS, 2008), o psicoterapeuta não é um deus onipotente, é um homem consciente de suas fragilidades.

Ter fé é conviver com sua impotência, com sua co-autoria, sua plena dependência do outro que está a sua frente. Ter fé é saber caminhar ao lado, acompanhar seus passos e quedas, sem a ânsia de colocar-se à frente como aquele que já conhece o caminho, mas ser presente, ajudá-lo a refletir sobre as escolhas realizadas e evitadas, sobre as possibilidades que se despontam em seu horizonte, acreditando que permitir que ele dê seus próprios passos é o melhor que tem a oferecer. Como afirma Boris2, muitas vezes, o psicoterapeuta iniciante busca suporte externo para seus dilemas, esquecendo-se de que sua própria pessoa é seu principal instrumento de trabalho, para além das técnicas e mesmo das teorias.

Segundo Angerami-camon3, nesta arte de caminhar ao lado do paciente, o instrumento do psicólogo é ele mesmo, sua percepção. O modo como ele apreende o que o paciente está lhe trazendo, seus sentimentos em suas variações e misturas, e transforma estes elementos para levá-lo a reflexões que possam abrir-lhe novas perspectivas existenciais.

Como afirma Moreira (2001 apud BORIS, 2008), no momento da sessão o psicólogo estará só, apesar de estar acompanhado de sua bagagem teórica e vivências pessoais, mas contará somente consigo mesmo, com mais ninguém, tendo sua sensopercepção para apreender a realidade emocional daquele que está a sua frente. Assim, sua fé não pode estar fora de si, pois neste momento também ela o abandonaria. Neste instante não há como se perder nas teorias ou devagar buscando lembranças ou conhecimentos que o protejam. Se assim o fizesse não estaria presente, e não poderia apreender o fenômeno da relação terapêutica, no momento em que este se mostra.

É preciso que o psicoterapeuta esteja atendo para perceber o paciente em sua totalidade, em seus gestos, fala, silêncios, para apreender os sentimentos ali envolvidos e, como diz Angerami-camon3, disponibilizá-los para uma reflexão abrangente e libertária. É necessário confiar em si mesmo, em sua capacidade de estar presente, de perceber o outro e a si mesmo, de apreender os sentimentos que se descortinam em seu relato, e assim sentir-se seguro para apresentar a ele reflexões que possam abrir seu campo perceptivo e ampliar suas possibilidades existenciais. Segundo Forghieri1, o processo terapêutico constitui-se de dois momentos complementares: o envolvimento existencial, em que predomina a sensibilidade do terapeuta; e o distanciamento reflexivo, no qual prevalece sua racionalidade. Nesta dualidade se o psicoterapeuta não se aprofundar no mergulho, talvez não possa captar todos os elementos desvelados na relação e sua reflexão pode se tornar vazia de sentido, distante da realidade do paciente. Por isso, é preciso dar-se na relação e confiar no que foi apreendido, para que neste distanciamento seja possível pensar as intervenções. O entrelaçamento destes dois momentos pode ser percebido pelo psicoterapeuta quando este mergulha, mas em sua humanidade permanece içado por suas preocupações, não consegue se aprofundar com o paciente em seu universo e sente dificuldade para apreender e devolver a este intervenção capaz de fazê-lo refletir.

Por outro lado, se a percepção é o principal instrumento do psicoterapeuta, é também sua limitação, e de duas maneiras relevantes: a “não-neutralidade” de sua apreensão; e a possibilidade de se perceber apenas a face que se mostra.

O psicoterapeuta deve estar atento ao fenômeno em sua totalidade, apreendendo o paciente e também suas próprias reações diante deste. Ciente de que não existe neutralidade, que sua visão estará sempre afetada por suas ideologias, valores, história de vida, precisa conhecer-se e cuidar para não fazer uso de intervenções distantes da realidade do próprio paciente. Para Merleau-Ponty, (1999 apud ANGERAMI-CAMON, 2005), ver é entrar em um universo de seres que se mostram, é vir habitá-lo e dali apreender todas as coisas segundo a face que elas voltam para ele. E é desta perspectiva que todo o trabalho do psicoterapeuta se desenvolve, na importante limitação de apreender somente a face que é mostrada pelo paciente. Se buscasse outras versões da realidade se tornaria um investigador, e mesmo que fosse possível ver outras faces, estas não fariam sentido para o paciente. No fenômeno sempre haverá uma face oculta, enquanto se vê um lado, o outro se esconde. Assim esta importante limitação mantém o psicólogo mais próximo da realidade do paciente e da forma como este apreende seu universo.

Percebe-se então que todo o trabalho do psicoterapeuta tem como alicerce seu próprio ser, suas capacidades, vivências, humanidade, fragilidades e limitações. Nesta esteira retomo meu relato. Em meio ao desamparo e as reflexões que fazia em relação a minha atuação, consegui me colocar presente na relação com meu paciente e me aproximar de seu sofrimento, de seu mundo e seus medos. Foram encontros intensos e percebi que crescíamos juntos, ele construindo a possibilidade de se desprender de seus medos, clareando a maneira como pensava sua vida, e eu crescendo em confiança em mim mesma.

Então, se fé é acreditar em uma verdade ou algo sólido capaz de sustentar sua confiança e segurança, é preciso repensar esta definição, pois as verdades podem ser muitas ou mudar e a solidez talvez não possa ser encontrada em nós mesmos, já que somos um terreno mutável, flexível, aberto. Pode-se pensar a fé como a crença na própria capacidade de tocar e ser tocado.  E assim relata Guedes (1985 apud BORIS, 2008), "ser terapeuta é um privilégio. [...] [Sua]... arte é 'tocar' as pessoas. 'Tocar' pela palavra, gesto, afeto, expressão, olhar, movimentos, etc, nos seus pontos sensíveis, adormecidos, cristalizados, encantados. Eu consigo 'tocar' quando fui ou estou sendo tocado por essa mesma pessoa" (Guedes, 1985: 15 apud BORIS, 2008).


1. FORGHIERI, Yolanda Cintrão. Aconselhamento terapêutico. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2007.

2. BORIS, Georges Daniel Janja Bloc. Versões de sentido: um instrumento fenomenológico-existencial para a supervisão de psicoterapeutas iniciantes. Psicol. clin. [online]. 2008, vol.20, n.1, pp. 165-180.

3. ANGERAMI-CAMON, Valdemar Augusto (org). As várias faces da psicologia fenomenológico-existencial. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2005.


 
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