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O Psicólogo em Abrigo - Uma Compreensão Fenomenológico-Existencial

INTRODUÇÃO

 

Leticia Batistella e Silva

"Aquilo que se faz por amor, parece ir sempre além dos limites do bem e do mal”.

"É necessário ter o caos aqui dentro para gerar uma estrela."

            Friedrich Nietzsche

            O trabalho do psicólogo em abrigo é uma das formas de atuação na área da Psicologia Social e Comunitária, as quais são recentes e estão interligadas à área da Assistência Social.

            Este é um campo vasto e pouco explorado, pelo fato do psicólogo ainda estar conquistando seu lugar e se apropriando desta demanda.

            Há muita literatura científica a respeito de abrigos, explorando seus objetivos e funcionamento. Porém, poucos autores abordam a atuação do psicólogo e como deve ser norteado seu trabalho.

            Além disso, a formação do profissional de Psicologia contempla muito a prática clínica. Atualmente, isto tem sido muito questionado e reformulado após a inserção da Psicologia Comunitária como campo de atuação. Muitos profissionais ainda sentem-se despreparados e encontram muitas dificuldades para atuar no campo social, devido a essa “defasagem” durante a formação profissional.

            O presente estudo surgiu exatamente destes questionamentos e percepções a respeito do despreparo do psicólogo frente a esse campo profissional, visto que eu também enfrentei e continuo enfrentando diversas dificuldades e desafios em minha recente atuação como psicóloga em abrigo.

Por isso, resolvi compartilhar minha experiência e meus questionamentos com meus colegas de profissão e a todos aqueles que se interessam pelo tema, esperando contribuir para o enriquecimento e o aperfeiçoamento de nosso trabalho.

Essa tem sido minha primeira experiência como psicóloga em abrigo durante meus quatro anos de formada. Minha experiência anterior resume-se à área da saúde mental, mais especificamente à dependência química, e à psicologia clínica.

            O trabalho em abrigo é muito desafiador e é preciso ter muita sensibilidade para compreender o fenômeno que se mostra. Muitas vezes não conseguimos ver além do simples comportamento ou das palavras que são ditas. É o olhar além daquilo que se mostra pura e simplesmente. E esse é o desafio.

Além disso, há muitas limitações e barreiras que exigem flexibilidade, trabalho em equipe com outros profissionais e até mesmo com outros serviços, e muita perseverança. Acredito que estes são fatores imprescindíveis para o trabalho nesta área. Esta é uma atuação que suscita questionamentos constantes e os desafios enfrentados são diversos. 

Trabalho em um abrigo municipal como psicóloga, localizado em uma cidade do interior de São Paulo. Por questões éticas, não mencionarei o nome da cidade, para poder preservar o sigilo do abrigo e também porque acredito que tal informação não prejudicará o conteúdo da pesquisa.

Este abrigo faz parte de um dos programas do Departamento de Assistência Social do município, que é subsidiado pela prefeitura. Sou funcionária pública e fui lotada para o Departamento de Assistência Social, apesar de atuar exclusivamente no abrigo.

A problemática da minha pesquisa serão meus questionamentos acerca da minha prática como psicóloga neste abrigo. Enfrentei algumas dificuldades iniciais de adaptação, para descobrir quais as minhas funções como psicóloga em abrigo. E houve um momento de transição, em que ocorreu a saída de duas outras profissionais que atuavam neste abrigo, mas que continuaram indo lá pelo período de um mês após a minha chegada.

Essa fase de transição foi um pouco confusa para todos: equipe, crianças e adolescentes e para mim. Elas iam lá apenas para realizar dois grupos com as crianças e adolescentes, com duração de 1h e 30 min cada, enquanto eu ficava lá o tempo todo. Além disso, a equipe esperava que fosse dada continuidade ao trabalho que elas desempenhavam e, para tal, sentia que tinha que desempenhar minhas funções como elas faziam. Contudo, meu jeito de atuar era diferente do delas, uma vez que eu tenho um jeito próprio de “ser psicóloga” e estar diante dos fenômenos que se mostram para mim.

Todos estes questionamentos foram apenas meus. Em nenhum momento, algum membro da equipe me disse isso claramente. Este foi o modo como eu percebi a minha vivência e como eu senti tudo isso.

Não há um jeito “certo” e único de atuar em abrigo, porém o trabalho deve ser norteado pelos princípios da Psicologia Social e Comunitária, em que o foco é o contexto grupal. O ECA também estipula alguns princípios que deverão nortear o trabalho em abrigo e sua estrutura de funcionamento. Porém, cada instituição tem suas especificidades que nortearão o trabalho. São estas nuances e características da instituição que permearão as questões trabalhadas pelo psicólogo em seu trabalho na instituição. Seu trabalho envolve tanto as crianças e adolescentes quanto a equipe. O psicólogo deve ter sensibilidade para sentir o “clima institucional” e ver além do fenômeno que se mostra.

O fenômeno pode se mostrar através da sua aparência, porém, ele nunca se mostra por completo. A aparência é, a um só tempo, o modo da presença e da dissimulação. As coisas, que são chamadas de entes, por Heidegger, estão sempre amalgamadas com sombra e ocultamento, de tal forma que o desvelar inclui também o dissimular. As coisas ora se revelam, ora se desvelam.  É um movimento duplo, que engloba tanto o movimento de mostrar (sair do velamento) que vela, como no movimento de velar (sair do desvelamento) que mostra. Portanto, a verdade engloba uma dimensão oculta e dissimulada , pois ele será sempre parcial. O homem também apresenta tal modo de ser (MICHELAZZO,1999).

Segundo Merlaeu-Ponty (2007), a verdade muda de acordo com a nossa percepção do fenômeno, pois a verdade é vista de acordo com o que cada um enxerga a partir do seu corpo. Quando percebido de um outro modo, a verdade e a relação com o mundo e o outro também muda. Além disso, o homem atribui um sentido a este mundo percebido e experienciado.

Foi tudo muito novo. Além disso, também estava me adaptando à cidade, pois saí de São Paulo e fui morar nesta cidade logo que assumi o cargo do concurso. Não conhecia nada nem ninguém. Esta minha nova vivência também me permitiu compreender como é a vida dessas crianças e adolescentes que estão longe da família e das pessoas que amam, por piores que possam ser as condições em que viviam anteriormente ao abrigamento.

            Parto do referencial fenomenológico-existencial para embasar o meu olhar nesta minha prática, principalmente dos seguintes autores: Yolanda Cintrão Forghieri, Maurice Merleau-Ponty, Martin Heidegger, José Carlos Michelazzo.

Destaco ainda Zygmunt Baumann, com seus apontamentos e reflexões a respeito da comunidade.

            No primeiro capítulo, foi abordada a área da Assistência Social para poder contextualizar o lugar ocupado pelo abrigo.

            O segundo capítulo abordou o abrigo em si, seus objetivos e modo de funcionamento. Além disso, foi realizado um breve histórico a respeito da mudança de concepção do termo abrigo ao longo da história da sociedade.

            O terceiro capítulo abordou a atuação do psicólogo em abrigo e a importância deste profissional dentro deste contexto institucional.

            A metodologia utilizada foi o método fenomenológico-existencial, que englobou dois momentos distintos e interligados: o envolvimento existencial e o distanciamento reflexivo. O envolvimento existencial consistiu na penetração da vivência tal como ela é percebida, sentida e vivenciada pelo pesquisador.Já o distanciamento reflexivo consistiu no olhar para a vivência, com um certo distanciamento, compreendendo-a e tentando captar e enunciar, descritivamente, o(s) seu(s) significado(s) para o pesquisador. Pretendeu-se chegar à essência da minha experiência como psicóloga em abrigo e dos meus questionamentos que nortearam esta vivência. Estes serão abordados e analisados no capítulo dos Resultados, com base no referencial fenomenológico-existencial.

            Nas Considerações Finais, foi realizada uma recapitulação sintética dos resultados da pesquisa, ressaltando seu alcance e as conseqüências de suas contribuições, ou seja, uma discussão dos resultados obtidos na pesquisa.

Nas Referências, constam as referências consultadas que embasaram meu olhar e respaldaram este estudo.

A ASSISTÊNCIA SOCIAL[1]

"Constatar o absurdo da vida não pode ser um fim, mas apenas um começo..."

"A grandeza do homem consiste na sua decisão de ser mais forte que a condição humana."

Albert Camus

A Assistência Social foi mudando sua concepção de atuação e suas diretrizes, após a Constituição Federal de 1988. Passa a ser inserida no âmbito da Seguridade Social, regulamentada pela Lei Orgânica da Assistência Social – a LOAS, em dezembro de 2003, como política pública que atua no campo dos direitos, da universalização do acessos e da responsabilidade social. Tal inserção no âmbito da Seguridade Social aponta seu caráter de política de Proteção Social articulada a outras políticas do campo social, voltadas à garantia de direitos e condições dignas de vida.

A Política Pública de Assistência Social (2004) realiza-se de forma integrada às políticas setoriais, considerando as desigualdades socioterritoriais, visando seu enfrentamento, à garantia dos mínimos sociais, ao provimento de condições para atender contingências sociais e à universalização dos direitos sociais.

A proteção social deve garantir as seguintes seguranças: segurança de sobrevivência (de rendimento e de autonomia); de acolhida; de convívio ou vivência familiar.

·        Segurança de sobrevivência de rendimentos e de autonomia: é a garantia de que todos tenham uma forma monetária de garantir sua sobrevivência, independentemente de suas limitações para o trabalho ou do desemprego. Está relacionada à segurança de acolhida, pois refere-se à conquista desta.

·        Segurança de acolhida, que é uma das seguranças primordiais da política de assistência social, opera com a provisão de necessidades humanas, incluindo o direito à alimentação, ao vestuário e ao abrigo.

·        Segurança de convívio ou vivência familiar refere-se à não aceitação de situações de reclusão, de situações de perdas das relações, uma vez que é na relação que o ser humano cria sua identidade e reconhece a sua subjetividade. E é vivendo em sociedade que desenvolvemos nossas potencialidades, subjetividades coletivas, construções culturais, políticas e nossos processos civilizatórios.

Princípios

I – Supremacia do atendimento às necessidades sociais sobre as exigências de rentabilidade econômica;

II – Universalização dos direitos sociais, a fim de tornar o destinatário da ação assistencial alcançável pelas demais políticas públicas;

III – Respeito à dignidade do cidadão, à sua autonomia e ao seu direito a benefícios e serviços de qualidade, bem como à convivência familiar e comunitária, vedando-se qualquer comprovação vexatória de necessidade;

IV – Igualdade de direitos no acesso ao atendimento, sem discriminação de qualquer natureza, garantindo-se equivalência às populações urbanas e rurais;

V – Divulgação ampla dos benefícios, serviços, programas e projetos assistenciais, bem como dos recursos oferecidos pelo Poder Público e dos critérios para sua concessão.

Diretrizes

I - Descentralização político-administrativa, cabendo a coordenação e as normas gerais à esfera federal e a coordenação e execução dos respectivos programas às esferas estadual e municipal, bem como a entidades beneficentes e de assistência social, garantindo o comando único das ações em cada esfera de governo, respeitando-se as diferenças e as características socioterritoriais locais;

II – Participação da população, por meio de organizações representativas, na formulação das políticas e no controle das ações em todos os níveis;

III – Primazia da responsabilidade do Estado na condução da Política de Assistência Social em cada esfera de governo;

IV – Centralidade na família para concepção e implementação dos benefícios, serviços, programas e projetos.

Objetivos

• Prover serviços, programas, projetos e benefícios de proteção social básica e, ou, especial para famílias, indivíduos e grupos que deles necessitarem.

• Contribuir com a inclusão e a eqüidade dos usuários e grupos específicos, ampliando o acesso aos bens e serviços socioassistenciais básicos e especiais, em áreas urbana e rural.

• Assegurar que as ações no âmbito da assistência social tenham centralidade na família, e que garantam a convivência familiar e comunitária.

Usuários

São os cidadãos e grupos que se encontram em situações de vulnerabilidade e riscos, tais como: famílias e indivíduos com perda ou fragilidade de vínculos de afetividade, pertencimento e sociabilidade; ciclos de vida; identidades estigmatizadas em termos étnico, cultural e sexual; desvantagem pessoal resultante de deficiências; exclusão pela pobreza e, ou, no acesso às demais políticas públicas; uso de substâncias psicoativas; diferentes formas de violência advinda do núcleo familiar, grupos e indivíduos; inserção precária ou não inserção no mercado de trabalho formal e informal; estratégias e alternativas diferenciadas de sobrevivência que podem representar risco pessoal e social.

Proteção social

Há dois tipos de proteção social: a proteção social básica e a proteção social especial.

Proteção social básica

Tem como objetivos prevenir situações de risco por meio do desenvolvimento de potencialidades e aquisições, e o fortalecimento de vínculos familiares e comunitários. Destina-se à população que vive em situação de vulnerabilidade social decorrente da pobreza, privação (ausência de renda, precário ou nulo acesso aos serviços públicos, dentre outros) e/ou fragilização de vínculos afetivos-relacionais e de pertencimento social (discriminações etárias, étnicas, de gênero ou por deficiências, dentre outras). Prevê o desenvolvimento de serviços, programas e projetos locais de acolhimento, convivência e socialização de famílias e de indivíduos, conforme identificação da situação de vulnerabilidade apresentada.

Proteção social especial

É a modalidade de atendimento assistencial destinada a famílias e indivíduos que se encontram em situação de risco pessoal e social, por ocorrência de abandono, maus tratos físicos e/ou psíquicos, abuso sexual, uso de substâncias psicoativas, cumprimento de medidas socioeducativas, situação de rua, situação de trabalho infantil, entre outras.

São serviços que requerem acompanhamento individual e maior flexibilidade nas soluções protetivas. Da mesma forma, comportam encaminhamentos monitorados, apoios e processos que assegurem qualidade na atenção protetiva e efetividade na reinserção almejada.

Seus serviços têm estreita interface com o sistema de garantia de direito exigindo, muitas vezes, uma gestão mais complexa e compartilhada com o Poder Judiciário, Ministério Público e outros órgãos e ações do Executivo.

Possui serviços de média e alta complexidade. A proteção social especial de alta complexidade engloba os serviços que garantem proteção integral – moradia, alimentação, higienização e trabalho protegido para famílias e indivíduos que se encontram sem referência e/ou em situação de ameaça, necessitando ser retirados de seu núcleo familiar e/ou comunitário. Tais como:

• Atendimento Integral Institucional

• Casa Lar/ Abrigo

• República

• Casa de Passagem

• Albergue

• Família Substituta

• Família Acolhedora

• Medidas socioeducativas restritivas e privativas de liberdade

• Trabalho protegido

O ABRIGO

"O homem tem de se inventar todos os dias".

Sartre

Histórico

Segundo o Ferreira (1995) , o termo abrigo é definido como: 1- lugar que abriga; refúgio; moradia; abrigada; abrigadouro. 2- cobertura, teto. 3. casa de assistência social onde se recolhem pobres, velhos, órfãos ou desamparados.4- local que oferece proteção contra os rigores do sol, da chuva, do mar ou do vento. 5- túnel, caverna ou construção subterrânea usada como refúgio e para proteção durante ataques aéreos. 6- agasalho, em geral, impermeável, usado em ocasião de mau tempo. 7- asilo, amparo, socorro, proteção. Nessas definições, se faz presente a noção de recolhimento, confinamento e isolamento social.

O termo “abrigo” nasceu na década de 80 com o início das discussões e formulações do Estatuto da Criança e do Adolescente. Nessa época, o termo comumente utilizado era “instituição”, em que ocorria o processo de “institucionalização” das crianças e adolescentes em situação de risco pessoal ou social (PRADA.; WILLIAMS; WEBER,2007).

Historicamente, os abrigos eram instituições que tinham como objetivo afastar do poder público aquilo que atentava contra a ordem social e a dignidade humana, ou seja,  o abandono de crianças e os maus-tratos na família.

Durante séculos, essa idéia influenciou a formulação das políticas de atenção à infância desvalida – sobretudo pobres, órfãos e abandonados. Contribuiu para manter viva a crença de que o acolhimento de crianças em instituições é a medida social mais adequada em situações reconhecidas como de risco ao desenvolvimento infantil – estilo parental permissivo, indiferente ou autoritário acontecimentos estressantes especiais na família, ausência de rede social de apoio à família.

Maricondi (1997) aponta que o termo “abrigo” significa uma ruptura com as antigas práticas do “internato”. Há variações com relação às formas de organização dos abrigos, que podem ser grandes instituições de cunho religioso ou pequenas instituições que reproduzem um ambiente familiar(apud PRADA; WILIANS; WEBER, 2007).

Funções, objetivos e modo de funcionamento

A partir da década de 90, o abrigo surge, enquanto determinação do ECA, como uma medida de proteção e um modo de atendimento diferenciado das grandes instituições destinadas ao acolhimento de crianças e adolescentes que se fazia antigamente. É um serviço de proteção social especial de alta complexidade, segundo o Sistema Único da Assistência Social, pois garante proteção integral, incluindo moradia e alimentação, higienização e trabalho para famílias e indivíduos que se encontram sem referência e/ou em situação de ameaça, necessitando ser retirados de seu núcleo familiar e/ou comunitário. É uma modalidade de atendimento assistencial destinado a indivíduos que se encontram em situação de vulnerabilidade e risco pessoal e social, por ocorrência de abandono, maus tratos físicos e/ou psíquicos, abuso sexual, uso de substâncias psicoativas, dentre outras. É um serviço que funciona 24 horas por dia.

O ECA sugere uma série de programas visando atender as diferentes demandas e problemáticas das crianças e dos adolescentes em situação de risco pessoal e social. Neste sentido contempla as medidas de proteção e as medidas socioeducativas.

 Em seu art. 92, o ECA postula os princípios que deverão ser adotados pelas entidades que desenvolvem programas de abrigo, os quais são:

I. Preservação dos vínculos familiares;

II. Integração em família substituta, quando esgotados os recursos de manutenção na própria família de origem;

III. Atendimento personalizado e em pequenos grupos;

IV. Desenvolvimento de atividades em regime de co-educação;

V. Não desmembramento de grupos de irmãos;

VI. Evitar, sempre que possível a transferência para outras entidades de crianças e adolescentes abrigados;

VII. Participação na vida da comunidade local;

VIII. Preparação gradativa para o desligamento;

IX. Participação de pessoas da comunidade no processo educativo.

Portanto, estes princípios deverão nortear o trabalho dos profissionais em abrigo, assim como seu funcionamento.

O abrigo tem como missão acolher, proteger e garantir os direitos das crianças e adolescentes abrigados, oferecendo atendimento especializado e proporcionando qualidade de vida e saúde mental pelo período em que necessitarem, até que sejam reintegrados ao lar ou colocados em família substituta por determinação judicial.

Funciona como instrumento da política social, quando oferece assistência à criança que se encontra sem os meios necessários à sobrevivência (moradia, alimentação, atenção à saúde e educação), ou mesmo diante da incapacidade dos pais e/ou responsáveis para cumprir com as obrigações de guarda e sustento dos filhos, por um tempo determinado ou de maneira definitiva.

A permanência da criança em instituição de abrigo, ainda que de modo provisório, é recomendada somente em situações reconhecidas como de abandono material (precárias condições de moradia, alimentação, higiene e saúde da criança) e abandono moral (processos de socialização sem qualquer forma de orientação e apoio responsivo dos pais e outros familiares).

            Como dito anteriormente, o abrigo deve ser o último recurso a ser procurado, quando as crianças e/ ou adolescentes não tiverem familiares ou alguém que possa cuidar deles nas situações descritas acima. O ideal é que a família possa se reestruturar para que possa receber novamente a criança e/ou adolescente, ou que ele possam ir para uma família substituta, quando for o caso.

Nas situações em que for constatado o abandono e/ou os maus-tratos, o acolhimento institucional deve oferecer, então, formas de atenção e apoio que poderão ser decisivas para a criança privada do convívio familiar. Desse modo, por sua abrangência e complexidade, entende-se que o abrigo deve ser visto como parte integrante da chamada Política de Atendimento dos Direitos da Criança e do Adolescente, por reunir um conjunto ações e serviços especialmente destinados à infância em contextos de privação material e emocional.

Segundo Prada; Williams & Weber (2007) a violência doméstica é o principal motivo de abrigamento de crianças e adolescentes. Inserem-se nesta categoria duas das principais causas de abrigamento: o abandono (43%) e a negligência (40%), seguidos pela violência física (13%) em terceiro lugar.

Por situação de risco pessoal ou social entende-se a violência sofrida pela criança ou adolescente no âmbito familiar, ou seja, quando um membro da família é o autor do ato violento contra a criança. A violência doméstica pode ser definida como:

(...) violência que pode se dar por ação ou omissão, mas sempre é capaz de causar dano físico, sexual e/ou psicológico à vítima, criança ou adolescente. O agressor é sempre mais velho que a criança ou o adolescente e compartilha a mesma moradia destes. (PRADA,WILLIAMS & WEBER,2007)

Arola (2000), Carvalho (2002) e Lordelo (2002) consideram que os abrigos para crianças e adolescentes, assim como todos os outros contextos de desenvolvimento na infância, são construções humanas e sociais, produto das relações sociais que se constroem em diferentes espaços e nas dinâmicas interativas que se estabelecem no tempo. (apud PRADA; WILLIAMS & WEBER,2007).

O abrigo, além de oferecer cuidados físicos adequados, que incluem alimentação, higiene, prevenção de doenças e lazer, também devem proporcionar um ambiente de interação afetiva entre as crianças e adolescentes e os profissionais atuantes na instituição.

Quanto ao modo de funcionamento, há abrigos do tipo convencional e os de casa lar. Os abrigos do tipo convencional abrigam crianças e adolescentes em situação de risco pessoal ou social, nas quais eles moram e são cuidados por funcionários que exercem a função de monitores ou educadores, sendo responsáveis por suprir as necessidades básicas de alimentação, higiene, saúde, afeto e organização da rotina diária. Os monitores ou educadores trabalham em sistema de turno, havendo trocas de funcionários ao longo do dia. O número de crianças e adolescentes é superior ao da casa lar, podendo chegar a duzentas ou mais, dependendo da capacidade da instituição. Porém, podem haver instituições deste gênero em que há um menor número de crianças abrigadas. Com relação ao espaço físico, os dormitórios são coletivos, comportando de dez até cinqüenta crianças, dependendo da capacidade da instituição. Os demais espaços também são coletivos: como banheiros, salas, refeitório, área livre e espaço administrativo.

A casa lar abriga crianças e adolescentes em situação de risco pessoal social ou abandono. Sua estrutura está organizada de modo a garantir o direito da criança às necessidades básicas de educação, saúde, lazer e afeto por meio do convívio familiar substituto, a “família social”. Ela é composta, geralmente, por um casal social ou apenas uma “mãe social”, que mora na casa com as crianças abrigadas. Essa casa é preparada para uma família, gerenciada financeiramente por uma organização pública ou privada. O casal ou a mãe social terá como tarefa agregar afetivamente as crianças em situação de risco pessoal ou social. O número de crianças varia de oito a dez em cada casa, contando com os possíveis filhos do casal ou mãe social. O espaço físico assemelha-se ao de uma casa convencional, com quartos, banheiros, quarto do casal, cozinha, sala e área livre.

Segundo Garcia (2006), a maior parte dos abrigos pertence a instituições filantrópicas, religiosas que se sustentam com doações. Sobrevivem de forma instável, dependendo da boa vontade e de sobras de comida e de roupas, etc. A maior parte dos abrigos não têm nenhum convênio com órgãos públicos para recebimento de verbas.

Cada instituição apresenta suas especificidades com relação ao modo de coordenação e composição dos membros da equipe. Porém, é necessário que, apesar das dificuldades financeiras, haja uma equipe técnica composta por uma psicóloga e uma assistente social, no mínimo. Pode haver apóio de profissionais voluntários.

Além desta equipe técnica, podem haver monitores ou cuidadores, servente e  cozinheira.

Segundo o Plano Nacional de Convivência Familiar e Comunitária (1999), as crianças e adolescentes abrigados devem ter direito a participar da comunidade, para que não se sintam excluídos. O abrigo deve proporcionar atividades fora das suas dependências.

O PSICÓLOGO EM ABRIGO

"Não há nada que esteja menos sob o nosso domínio que o coração, e, longe de podermos comandá-lo, somos forçados a obedecer-lhe."

Jean Paul Sartre

Há pouca literatura a respeito do papel do psicólogo em abrigo. Encontrei diversos artigos e textos em livros a respeito do abrigo e do processo de institucionalização, porém, poucos focavam a atuação do psicólogo.

             De acordo com a literatura pesquisada, não há um modo de atuação específico do psicólogo em abrigo. Podem ser realizados tanto atendimentos grupais quanto clínicos/institucionais. (ROTONDARO, 2004 ; HOEPFNER, 2002)

            Os atendimentos grupais com as crianças e adolescentes têm enfoque socioeducativo, a fim de trabalhar as questões referentes à integração, cooperação, auto-estima, adoção, ou seja, todas as questões que permeiam a vivência em abrigo. Além das questões referentes à institucionalização, os grupos também podem ser de orientação ou grupos lúdicos.

            Os atendimentos clínicos/ institucionais, com fins de psicodiagnóstico e psicoterapêutico, proporcionam um “espaço” de interlocução formativa para as crianças que apresentam sofrimento emocional e que não têm estrutura para dar conta deste.

            Acredito que o trabalho do psicólogo deva ser permeado pelos princípios da Psicologia Comunitária e Social. O homem está em intrínseca relação com o mundo e ambos influenciam-se mutuamente. O mundo só existe para o homem, que o percebe com o seu corpo.

Para Merleau-Ponty (1999, p. 273), “o próprio corpo está no mundo assim como o coração no organismo; ele mantém o espetáculo visível continuamente da vida, anima-o e alimenta-o interiormente, forma com ele um sistema”.

            O abrigo é uma nova realidade que faz parte da vida dessas crianças e adolescentes, é o mundo deles. Por isso, papel do psicólogo é ajudá-los a lidar com o processo de abrigamento e seus desdobramentos, através da realização de grupos para que ocorra um compartilhamento das suas vivências. Ajudá-los a compreender e vivenciar este “novo mundo”.

            Contudo, eles também precisam ter acesso à comunidade, através de atividades externas para que a vida deles não se restrinja apenas ao abrigo. Além disso, há programas, como o Projeto de Apadrinhamento Social, que permite que pessoas da comunidade sejam madrinhas ou padrinhos sociais das crianças e adolescentes e os levem para passear e passar momentos em suas casas. Tal iniciativa permite que eles entrem em contato com diferentes modelos de configuração familiar, diferente daquele que vivenciaram com suas famílias de origem e também para que possam conviver com a comunidade (PLANO NACIONAL DE PROMOÇÃO, PROTEÇÃO E DEFESA DO DIREITO DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES À CONVIVÊNCIA FAMILIAR E COMUNITÁRIA,1999).

 Bauman (2003) postula que a idéia que temos de comunidade é a de um lugar de acolhida e aconchego, em que temos proteção e segurança. Porém, essa idéia é apenas ilusória, pois quando estamos vivendo em comunidade abrimos mão da nossa liberdade, para podermos nos refugiar nessa “suposta” segurança da comunidade. O mundo atual está cada vez mais individualista e as pessoas têm medo de confiar umas nas outras. Por isso, essa idéia de comunidade é idealizada, é apenas uma fantasia bem diferente da comunidade real e da ideal, que gostaríamos que de fato existisse.

Segundo Hoepfner (2002), a prática do psicólogo no trabalho social e comunitário insere-se na crença de que é possível contribuir para uma melhoria na qualidade de vida das pessoas e grupos, propiciando a conscientização de sua identidade psicossocial.

A autora postula que o trabalho em instituições é constantemente ameaçado por movimentos que podem ser armadilhas ao profissional: temores, seduções, tentativas de alianças e boicotes. É importante que o profissional saiba de todas estas armadilhas para não perder de vista seus objetivos.

A instituição deve ver a criança e o adolescente como seres em desenvolvimento, com recursos a serem desenvolvidos para poderem apossar-se de suas existências. Esta é apenas uma parte do trabalho em uma instituição.

Farbeni (2005), ressalta a importância do desenvolvimento psíquico das crianças institucionalizadas, haja visto que o abrigo deve propiciar um ambiente afetivo e acolhedor, assemelhando-se a de uma casa familiar. Mas nem sempre isto é possível, devido a uma série de variáveis, tais como, uma equipe em que os cuidadores trabalham em escalas de plantões e cada um adota uma postura diferente no trato com as crianças e adolescentes.

A autora ainda ressalta o quanto a institucionalização propicia o surgimento de infecções e doenças orgânicas, além das constantes mudanças comportamentais e emocionais que cada criança e adolescente sofre a cada mudança ocorrida entre os membros da equipe, incluindo mudança de profissionais, trocas de horários, entre outros.

A rotatividade dos profissionais é uma característica marcante na área social, devido às dificuldades pertinentes à área. Geralmente, os profissionais são mal remunerados e pouco reconhecidos pelo seu trabalho e dedicação. Além disso, há baixa expectativa de ascensão na carreira neste tipo de área. A rotatividade é uma característica vivenciada pelas crianças e adolescentes.

No abrigo, é comum a constante entrada e saída de crianças e adolescentes. Além das trocas constantes de profissionais. Acredito que o trabalho dos profissionais está muito relacionado às especificidades da instituição e ao seu público-alvo, no sentido de que a atuação dos primeiros reproduz as características institucionais.

O psicólogo deve propiciar um espaço de acolhimento e de preservação da individualidade das crianças e adolescentes. Tal processo só se dará se lhes for permitido fazer escolhas, vivenciar múltiplas experiências, testar suas habilidades, descobrir suas preferências, ou seja, viver com um certo nível de autonomia.

Além de atuar com as crianças e adolescentes , o psicólogo é responsável pelo treinamento e capacitação da equipe de cuidadores ou monitores. Estes desempenham um papel fundamental no cuidado das crianças e adolescentes, por estarem próximos destes em seu dia-a-dia. É fundamental que os cuidadores, além de oferecer os cuidados básicos às crianças e adolescentes, também lhes proporcionem afeto e demonstrem interesse.

Portanto, o trabalho do psicólogo será permeado por todas estas questões institucionais, que envolvem tanto o âmbito micro quanto o macro institucional. Por âmbito micro institucional, considero a relação das crianças e adolescentes entre si e entre a equipe como um todo. O âmbito macro institucional envolve a relação deles com a comunidade e com suas famílias de origem ou substitutas.

           

METODOLOGIA

"A filosofia implica uma mobilidade livre no pensamento, é um ato criador que dissolve as ideologias."

Martin Heidegger

Essa pesquisa é qualitativa com base no referencial fenomenológico-existencial, uma vez que ela parte da experiência vivida para obter uma “essência” da vivência, que é o fenômeno vivenciado . Para Amatuzzi (2001 apud Bruns & Holanda,2001), existem dois tipos de pesquisa: a de extensão, que é quantitativa e a de natureza, que é qualitativa. A pesquisa fenomenológica é designada como uma pesquisa de natureza, pois ela pretende compreender o fenômeno de maneira qualitativa através do levantamento do vivido. O relato é tomado na sua intencionalidade própria e constitutiva, visto que é tomado pelo que ele é. O pesquisador busca, portanto, a experiência intencional, vivida, tal como esta ocorre.

Concordando com esta mesma concepção, Martins (1994) acrescenta que a pesquisa qualitativa é uma pesquisa empírica, que apresenta como recurso básico inicial a descrição, que possibilita a busca da compreensão do fenômeno. Essa não apresenta foco em generalizações e sim no específico, no peculiar e no individual, ou seja, seu foco é a essência do fenômeno.

Por esse motivo, esta pesquisa será qualitativa, visto que a investigação fenomenológica trabalha sempre com o qualitativo, com o que faz sentido para o sujeito, com o fenômeno posto em suspensão, como percebido e manifesto pela linguagem. Segundo Bicudo & Martins (1989) a pesquisa fenomenológica não busca uma compreensão prévia do fenômeno, pois essa começa interrogando o fenômeno a fim de descobrir sua essência. A situação da pesquisa é, portanto, definida pelo sujeito, visto que partimos deste.

...o pesquisador que trabalha fenomenologicamente, orienta-se por um sentido, isto é, pelo conhecimento imediato, intuitivo que tem do fenômeno a ser investigado, e por critérios científicos, como é orientado o pesquisador que procede de acordo com os critérios das ciências naturais (BICUDO & MARTINS,1999,p.74).

O método fenomenológico, apresentado por Husserl, está liberto de pressuposições, sendo sua primeira e fundamental regra “voltar às coisas” mesmas. Ele propõe que compreendamos o fenômeno que se manifesta na consciência, a fim de chegarmos à sua essência.

A fenomenologia, segundo Reale & Antiseri (1991) ,surgiu com Edmund Husserl, tendo como objetivo principal “voltar às coisas mesmas”, ou seja, ir diretamente ao fenômeno até chegar à sua essência. Isso se dá através da descrição dos fenômenos que se apresentam à consciência, ou seja, depois de realizada a epoché, que é a suspensão dos juízos de valor acerca destes. Essa visão de ser humano é considerada como a ciência das essências, voltada à análise e descrição dessas. Uma de suas idéias fundamentais é a intencionalidade da consciência, ou seja, a idéia de que toda consciência se remete a algo, sendo consciência de alguma coisa. O ponto principal da fenomenologia será abordado como método neste trabalho é a sua preocupação em descrever o vivido.

 Amatuzzi (2001) caracteriza a fenomenologia pela importância dada ao vivido, que é a reação interior imediata àquilo que nos acontece, ou seja, é uma reação psicológica, espiritual e mental. Este está num plano da consciência, no qual não há distinção entre o agir e o pensar.

A pesquisa fenomenológica pretende voltar ao vivido, não negando as elaborações que se fazem dele, mas colocando-as provisoriamente entre parêntesis, para revê-las depois, à luz daquela fonte primeira. Daí as coisas podem ficar  mais claras  (AMATUZZI, 2001, p.55).

Segundo Martins (1994), uma das maiores contribuições da fenomenologia é a possibilidade de ver o acontecimento como um fenômeno por si mesmo, com sua própria estrutura e significação, além de permitir o resgate das experiências através da descrição e conseqüentemente a compreensão do fenômeno como este é experienciado. Por isso, a escolha por tal método.

A pesquisa fenomenológica, segundo Forghieri (2004), é composta por dois momentos paradoxais e que se inter-relacionam : o envolvimento existencial e o distanciamento reflexivo.

O envolvimento existencial consiste do contato do pesquisador com sua vivência e a sua penetração na mesma, procurando emergir nela para vivê-la de modo intenso e deixando surgir a intuição, percepção, sentimentos e sensações que brotam numa totalidade, a fim de lhe proporcionar uma compreensão global, intuitiva e pré-reflexiva dessa vivência.

O distanciamento reflexivo consiste num certo distanciamento da vivência para que o pesquisador possa refletir sobre sua compreensão da vivência e tentar captar, e enunciar, descritivamente, o seu sentido ou significado daquela vivência em seu existir.

Para Forghieri (2004, pp. 60-61):

(...) o distanciamento não chega a ser completo; ele deve sempre manter um elo de ligação com a vivência, a ela voltando a cada instante, para que a enunciação descritiva da mesma seja a mais próxima possível da própria vivência. Tal enunciação, portanto, não deve ser feita em termos científicos e sim em linguagem simples, semelhante à que é utilizada na vida cotidiana.

Portanto, partirei da minha experiência como psicóloga em abrigo e dos meus questionamentos a respeito da minha atuação e dos desafios com os quais tenho me deparado, para analisá-los sob a luz do método fenomenológico proposto por Yolanda Cintrão Forghieri para chegar, assim, à essência da minha vivência.

RESULTADOS

"O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós”.

Jean Paul Sartre

Comecei a atuar na área social, mais especificamente em um abrigo municipal, localizado em uma cidade no interior de São Paulo, desde junho de 2008. Essa tem sido minha primeira experiência como psicóloga social em abrigo. Minha experiência anterior restringia-se à área da saúde mental e da psicologia clínica..

Fui contratada pela prefeitura municipal, através de concurso público, lotada para o Departamento de Assistência Social para atuar como psicóloga social no abrigo municipal.

Enfrentei diversos desafios nesta minha nova jornada para descobrir qual era meu papel. Para fins didáticos, relatarei minhas experiências em tópicos. O referencial fenomenológico-existencial embasará o meu olhar e é a partir dele que analisarei minha experiência.

O começo: conhecendo o abrigo

Está localizado em uma cidade no interior de São Paulo. Por motivos éticos não citarei o nome da cidade. Faz parte dos programas oferecidos e coordenados pelo Departamento de Assistência Social do município. Por ser um abrigo municipal, podemos ter acesso a todos os serviços disponíveis na rede, dentre eles, escolas, médicos, psicólogos.

Tem capacidade para receber 20 crianças e adolescentes de 0 a 18 anos, sendo destinadas 10 vagas para o sexo feminino e 10 vagas para o sexo masculino, uma vez que eles são separados por alas. Os irmãos não são separados para preservar os vínculos familiares. Alguns estão afastados temporariamente da família de origem à espera de uma reestruturação familiar e outros, estão afastados permanentemente da família de origem à espera de uma família substituta, ou seja, estão disponíveis para adoção, visto que a família de origem foi destituída do pátrio poder.

Conhecendo as crianças e adolescentes

Logo que cheguei, estava muito ansiosa e perdida também. Por isso, cometi alguns “erros”, ao querer atuar sem nenhuma orientação e precipitadamente. Além disso, ainda não conhecia a história de cada criança e adolescente. Nas reuniões semanais com a equipe técnica do Departamento de Assistência Social é que fui me adaptando e segurando minha ansiedade de atuar.

Cada criança e adolescente chega com uma história diferente, geralmente marcada por uma série de perdas e dores.  Mas só aos poucos vamos conhecendo essas histórias, já que quando eles vêm ao abrigo faltam informações e documentações.

Cada um tem um jeito próprio e diferente de se expressar e aos poucos comecei a descobrir isso. No começo, eles testavam os meus limites para poderem me conhecer. Alguns eram mais carinhosos e amorosos, principalmente as meninas. Alguns meninos eram mais agressivos, sendo o toque agressivo a forma que encontravam para se comunicar comigo. Algumas meninas escreviam cartinhas e me entregavam. Um dos meninos me mandava ir embora todos os dias, e eu até comentava que no dia seguinte estaria lá novamente.

Possuem uma história marcada por uma série de perdas e decepções, o que contribui para que  sejam muito carentes afetivamente. Cada um tem seu jeito de pedir atenção e demonstrar ciúmes, seja através da agressividade, do carinho, do abraço, da escrita de cartas, das reclamações, dos gritos, dos olhares, das birras, enfim, dos vários modos de se comunicar. E são essas especificidades que fazem o fenômeno de lidar com o ser humano que se mostra naquele momento, naquela relação comigo, ser único e especial.  Cada encontro com esses seres humanos é único e mágico.

Demorei para perceber essas singularidades de cada um deles. Estava muito preocupada em ser respeitada por eles, percebendo apenas o comportamento em si deles. Não conseguia ver o significado dos comportamentos de cada um.

Segundo Merleau-Ponty (2007 apud ANGERAMI,2004), o mundo percebido é o mundo que eu vivencio. È com o meu corpo que percebo o mundo; é através dele que entro em contato com o outro e com o mundo. Os fatos revelam que a minha realidade perceptiva esbarra na vivência das coisas, ou seja, o mundo é como eu o percebo a partir das minhas vivências. E é com o meu corpo que percebo e vivencio o mundo.

Descobrindo meu papel

Antes da minha chegada, havia duas psicólogas que atuavam no abrigo. Elas realizavam grupos com as crianças e adolescentes nos períodos da manhã e tarde e reuniões com as monitoras. Continuaram com estas atividades até aproximadamente um mês após a minha chegada para que eu pudesse observar como deveria ser minha atuação.

Porém, fui percebendo que este momento de transição estava confuso para mim, para as crianças e adolescentes e para a equipe, já que elas vinham ao abrigo apenas duas vezes por semana e em apenas dois períodos, sendo que eu estava constantemente lá. As crianças e adolescentes ainda estavam me conhecendo, testando os meus limites e ainda estava confuso para elas que eu era a nova psicóloga do abrigo. Até então eu era vista como mais uma “tia”, uma monitora.

A equipe também não sabia ao certo qual era o meu papel. Isso estava confuso para todos, inclusive para mim. Não sabia ao certo qual meu espaço de atuação e aos poucos fui percebendo que eu precisava construí-lo, sem perder de vista minhas experiências anteriores, que só contribuíram para enriquecer o meu jeito de atuar e de estar lá. Precisava aprender a transformá-la e adaptá-la  à nova realidade que estava vivenciando neste momento.

Segundo Heidegger (1988, pp.169 e 170 apud Forghieri,2004), o “mundo é sempre um mundo compartilhado com os outros”. O ser humano compreende a si mesmo a partir da sua experiência. As experiências do ser humano ocorrem em mundo e este mundo é habitado por outros homens. É na relação com os outros que o homem se descobre.

O mundo é visto e vivido segundo a percepção de cada um. Vemos as coisas dentro de seu contexto e em conexão com a nossa própria pessoa (Van den BERG, 1973 apud FORGHIERI, 2004, p. 35). 

A nossa identidade está implicada nos acontecimentos que vivenciamos no mundo. “As coisas não podem ser sem o homem e o homem não pode ser sem as coisas que encontra” (BOSS, 1963,p. 41 Apud FORGHIERI, 2004, p. 28).

            No começo, estava muito preocupada em corresponder às expectativas da equipe, mas minha atuação é diferente, o que não quer dizer que um psicólogo seja melhor ou pior que o outro. Cada profissional tem as suas singularidades. E é justamente isso que enriquece a prática de cada profissional. Aprendi a perceber minhas potencialidades sem me anular e ao mesmo tempo enriquecer a minha prática com as experiências trazidas pelos outros profissionais.

            É na interação com o outro que podemos nos descobrir, que podemos aprimorar nossas potencialidades. O ser humano é um ser-com-o-outro. É no encontro com o outro que ocorre uma relação de reciprocidade, na qual ambos influenciam-se mutuamente. É no encontro com o outro que atualizamos nossas potencialidades (FORGHIERI,2004).

Desafios da atuação em abrigo: “a aparente rotina”

 O trabalho em abrigo exige muita flexibilidade e perseverança, uma vez que os desafios são constantes. Um dia nunca é igual ao outro. Às vezes, tudo está calmo e tranqüilo, quando de repente algo acontece. Lidar com crianças e adolescentes é assim. Às vezes uma criança está bem aparentemente e começa a fazer birra porque é contrariada em seus desejos. Ou alguém cai e se machuca. Ou ocorrem brigas entre eles por diversos motivos.

Segundo Michelazzo (1999), o caráter da imprevisibilidade marca nossa existência. O inesperado nos ronda a todo momento. Ele é uma fenda, uma ruptura, que “quebra a aparente rotina da vida”. O imprevisto rompe com aquela aparente sensação de tédio, de rotina, em que tudo aparenta ser constante e controlado. Nesse momento, surge a angústia que nos coloca diante do nada, fazendo-nos refletir sobre nossas experiências.

São nos momentos de conflito que podemos refletir sobra nossa atuação e o modo como estamos lidando com as crianças e adolescentes, tentando compreender como eles se vêm e como acreditam que são visto pelo outro.

A realidade do abrigo é de crianças e adolescentes que são obrigados a conviverem juntos por estarem sob proteção. Sabemos o quanto estar longe da família de origem e das pessoas que amam é difícil. Por piores que estas famílias possam ser, temos que entender o seu histórico e não julgá-las, pois são famílias abandonadas pelas políticas públicas.

            A equipe faz o possível para tornar o ambiente do abrigo agradável, mas nem sempre isso ocorre. Cada criança e adolescente que chega tem uma história que nem sempre pode ser compartilhada com todos. Porém, é comum ocorrerem desentendimentos e brigas entre eles, visto que lidar com o diferente também é difícil. Lá não é a casa deles e eles têm que conviver com pessoas diferentes e desconhecidas. E isso é demonstrado nos momentos de “explosão”, para nos comunicar que eles estão vivos, têm sentimentos e conseguem exteriorizá-los. Claro que há um limite entre a expressão dos sentimentos e o vandalismo. Por isso, a equipe deve ter muita sensibilidade para ter discernimento e agir com coerência nestes momentos.

            Além disso, eles chegam muito fragilizados e carentes afetivamente. Por isso, necessitam de muita atenção, só que os membros da equipe não podem dar atenção exclusiva a uma só criança e/ou adolescente, visto que isto gera um clima de disputa, ciúmes e rivalidade.

            Eles possuem uma grande necessidade de se sentirem olhados. O olhar do outro é muito importante, pois é pelo olhar que eu me reconheço, reconheço o outro e sou reconhecido por ele também.

            Segundo Merleau-Ponty (2007  apud Angerami, 2004 ),

O mundo é o que percebo, na sua proximidade absoluta, desde que examinada e expressa, transforma-se também em inexplicavelmente em distância irremediável. Tal distância é, na verdade, o confronto entre a percepção dos fatos no imaginário e o seu desvelamento com a realidade, onde a proximidade conceitual será na tangência circunstancial entre os pontos de proximidade. O meu corpo, como encenador da minha percepção, já destruiu a ilusão de uma coincidência de minha percepção com as próprias coisas. Entre elas e eu, há doravante, poderes ocultos, toda essa vegetação de fantasmas possíveis que ele só consegue dominar no ato frágil do olhar.

Equipe

É composta por uma coordenadora e assistente social, uma psicóloga, uma secretária, uma pedagoga, uma voluntária de pedagogia, uma voluntária de  biblioteconomia, uma faxineira, duas cozinheiras e dez monitoras (cuidadoras).

 A coordenadora e assistente social, assim como a psicóloga, a secretária e a faxineira trabalham de segunda a sexta feira, durante seis horas por dia. As cozinheiras trabalham em dias alternados, durante seis horas por dia. Há quatro monitoras que trabalham em duplas de manhã e à tarde. As demais se revezam, em escalas de plantões e trabalham em duplas durante o período noturno e finais de semana.

É uma equipe bem extensa, em que há muita rotatividade de cuidadoras. Esse jeito de trabalhar tem facilitado o trabalho por um lado, pois não há sobrecarga de trabalho. Por outro lado, precisamos investir muito em capacitações para que ocorra um trabalho conjunto a fim de que atinjamos nosso objetivo que é o de cuidar das crianças e adolescentes da melhor forma possível. Além disso, lidamos a mudança de monitoras devido a vários fatores, seja a falta de adaptação ao trabalho, como a presença de imprevistos e dificuldades pessoais que impossibilitam a continuidade do trabalho.

Tudo isso repercute na relação com as crianças e adolescentes, uma vez que eles se apegam facilmente aos seus cuidadores e quando ocorre a saída de um deles, ela é sentida como mais uma perda, dentre as tantas que tiveram ao longo de suas vidas.

Além da rotatividade da equipe, há a rotatividade constante das crianças e adolescentes. Uma das características do abrigo é justamente essa. Nada é duradouro. Há sempre pessoas chegando e saindo o tempo todo. É um ambiente permeado pela “ameaça da perda”.

Estes são os imprevistos com os quais temos que lidar o tempo todo. Mas o trabalho não consiste apenas de desafios. Também conseguimos vislumbrar os frutos de tanto esforço e dedicação da equipe através das várias manifestações de carinho deles conosco, tais como: a preocupação em perguntar como estamos, um abraço forte e apertado, um olhar e um sorriso de alegria. Além disso, cada aniversário é comemorado conjuntamente e são realizadas festas.

São realizadas atividades externas com a as crianças e adolescentes, com a finalidade de diversão e convivência à comunidade, não se restringindo apenas ao município.

Minhas atribuições como psicóloga

            Com o tempo fui descobrindo minhas atribuições e o meu jeito próprio de desempenhá-las. No dia em que assumi não consegui conversar com a diretora do Departamento de Assistência Social. Então, fui atuando sem saber ao certo minhas  atribuições.

Nas reuniões de equipe técnica com a diretora do Departamento de Assistência Social, a coordenadora do abrigo e as duas psicólogas que atuam no CRAS, fui percebendo que minha atuação deveria englobar os grupos com as crianças e adolescentes, e as reuniões com as monitoras, para capacitação e treinamento da equipe.

Os grupos com as crianças e adolescentes são semanais, a fim de trabalhar a cooperação, a integração, a auto-estima, enfim, todas as questões referentes ao processo de abrigamento. Utilizo tanto dinâmicas de grupo como atividades que envolvem a pintura com tinta,  lápis de cor e canetinha, trabalhos com sucatas; desenhos, construção de trabalhos conjuntos e jogos.

As reuniões com a equipe deveriam ser semanais, para oferecer treinamento e orientação, a fim de capacitar a equipe para poder lidar da melhor forma com as crianças e adolescentes. Porém, devido a dificuldades relacionadas à rotina da instituição, tais como, rotatividade de horário da equipe e atividades externas com as crianças e adolescentes, estas reuniões ocorrem apenas uma vez por mês.Tem sido muito difícil conciliar os horários da equipe toda com os compromissos das crianças e adolescentes.

São realizadas reuniões semanais entre a equipe técnica do abrigo. Além disso, freqüento as reuniões semanais com a equipe técnica do Departamento de Assistência Social, que são realizadas no próprio departamento.

Freqüentemente vou a fórum ler os processos das crianças e adolescentes, a fim de conhecer suas histórias. Também vou ao Centro de Referência da Assistência Social, freqüentar os grupos do Ação Jovem como observadora. Estes são grupos de adolescentes e são coordenados por duas psicólogas, as mesmas que iam ao abrigo antes da minha chegada.

Uma observação muito importante é que há vários modos de se atuar em um abrigo e estes são os modos como tenho atuado neste abrigo, o que não quer dizer que isso não possa ser reformulado.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

“A vida é maravilhosa quando não se tem medo dela”

Charles Chaplin

O trabalho do psicólogo em abrigo é permeado por incertezas e desafios, visto que não há um jeito “certo” e único de atuar. Ainda há pouca literatura a esse respeito. Mas acredito que a prática deve ser norteada pelas nuances e especificidades de cada instituição.

 Além disso, o psicólogo deve atuar em um contexto grupal para abarcar as questões referentes à instituição e seus desdobramentos. Esse trabalho não se restringe apenas aos grupos com as crianças e adolescentes, mas também a reuniões de capacitação e treinamento com a equipe. A equipe tem que ser capacitada para lidar com as crianças e adolescentes, a fim de exercer tanto as atividades rotineiras, que envolvem os cuidados físicos e materiais, quanto proporcionar um ambiente agradável permeado pelo afeto.

O psicólogo deve pautar seu trabalho com base tanto no âmbito micro institucional, que engloba a instituição em si e seus desdobramentos, quanto no âmbito macro institucional, que engloba a relação das crianças e adolescentes com a comunidade e com suas famílias de origem.

Uma característica muito comum da atuação na área social é a constante rotatividade dos profissionais, que parece estar relacionada a diversos fatores. Os profissionais são mal remunerados e pouco reconhecidos pelo trabalho que desempenham, visto que muitas vezes trabalham além do horário estipulado. Há baixa expectativa de ascensão na carreira. Além disso, há muitas barreiras com as quais se deparam para a realização do seu trabalho. O profissional tem que trabalhar em equipe, mas nem sempre a equipe está unida e tem os mesmos objetivos.

Há também as barreiras institucionais com as quais nos deparamos o tempo todo, visto que nenhuma instituição é perfeita. Ela está inserida dentro de um contexto social. Sabemos o quanto a realidade social brasileira ainda é precária, devido à carência de políticas públicas que contemplem as pessoas em situação de risco e vulnerabilidade social.

Devido à falta de um trabalho preventivo com as famílias que se encontram em situação de vulnerabilidade social, o abrigo acaba sendo o primeiro recurso disponível para afastar as crianças e adolescentes das situações de violência, abuso e maus-tratos.

Ao longo deste trabalho, mostrei algumas das barreiras com as quais o psicólogo em abrigo se depara. Meu objetivo foi mostrar como é a realidade de uma instituição, visto que as dificuldades são constantes e temos que aprender a superá-las, através do enfrentamento destas. Para tal, é preciso ter muita união e cooperação entre a equipe.

Como ressaltei na introdução, a formação do psicólogo não contempla a atuação na área social e não nos prepara para enfrentarmos os desafios que tal prática suscita.

É preciso ter muita perseverança para enfrentar os desafios, que são constantes e nunca um dia é igual ao outro. Há dias de aparente calmaria e outros em que parece que as tempestades nunca passarão. O comportamento das crianças e adolescentes muda conforme a realidade institucional e o comportamento da equipe. Como dito anteriormente, o homem está situado em um mundo e neste mundo existem outros homens. O mundo é compartilhado com o outro. É na relação com o outro que eu me reconheço e dou significado para as minhas vivências.

Há muitas expectativas com relação ao trabalho do psicólogo, pois a equipe espera que ele sane todas as dificuldades que aparecem e que ele tenha soluções mágicas para todos os problemas. Quando na realidade, o psicólogo não está ali para isso. Seu papel é refletir junto com a equipe a fim de que todos reflitam sobre os problemas com os quais se deparam para que possam buscar “soluções” de um modo conjunto.

É preciso que a equipe compreenda a influência que ela exerce no comportamento das crianças e adolescentes. Ela passa a ser vista como uma referência na transmissão de valores e de afeto.

Alem disso, as atividades externas realizadas propiciam a inclusão social e a convivência comunitária, contribuindo para a vivência de novas experiências e outras formas de se relacionar diferente das que eles conheceram em suas famílias de origem.

Apesar de todas as dificuldades, é um trabalho gratificante e enriquecedor, mas que exige um “olhar além” do fenômeno que se mostra. Não há “resultados palpáveis”, o trabalho é visto através de um olhar, de um gesto ou até mesmo de uma simples frase de carinho e de amor.

 O olhar além do fenômeno que se mostra também engloba a compreensão do significado do comportamento das crianças e adolescentes, pois se olharmos apenas para o comportamento em si, perdemos a globalidade do fenômeno e muitas vezes o fenômeno aparenta ser, não revelando o que é de fato. E esta é uma das grandes belezas da existência humana. Estamos em constante transformação.

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[1]Este capítulo será embasado na Política Nacional de Assistência Social, 2004. Esta política tem como principais fundamentos a Constituição Federal de 1988 e a Lei Orgânica da Assistência Social de 2003, que compõem o Sistema único de Assistência Social.


 
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