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Psicoterapia Existencial - Resenha

 
Resenha do Livro "Psicoterapia Existencial"

São Paulo, 2006, Thomson Editora

Valdemar Augusto Angerami – Camon

por Bruno Barcellos Sampaio


Um livro importante para quem pretende adentrar no estudo da psicoterapia existencial. Rico em subsídios teóricos e fundamentos filosóficos para que estudantes possam compreender o existencialismo e aqueles que já conhecem enriquecerem ainda mais o seu saber. Um livro que já é utilizado em Universidades e que é considerado essencial para a pratica da psicoterapia.

O livro é dividido em sete capítulos adicionados da Apresentação, um breve esboço sobre a história do existencialismo e de uma Bibliografia situadas, respectivamente, na abertura e no final do mesmo. Encontra-se logo de início uma poesia intitulada “Parêmias do Terapeuta Existencial” que pode se chamar do que é mais belo neste ser terapeuta e de sua colocação no mundo. Poesias que estão sempre presentes na obra do autor.

Na apresentação, o autor coloca a dificuldade de se encontrar conteúdo sobre o assunto em nossa literatura. Nos mostra a importância do estudo da psicoterapia existencial para nossa prática e mostra o caminho dos precursores deste movimento. O autor nos fala da importância deste livro para os universitários e diz que se torna um amigo do leitor através dele. Um livro escrito com paixão e amor.

No breve esboço sobre o existencialismo, perguntas como “o que é o existencialismo?” ou “o que é a psicoterapia existencial?” são respondidas e clarificadas, diferenciando de maneira rápida o existencialismo de outras abordagens que geralmente são classificadas como existenciais. Angerami faz uma lista dos autores existencialistas mais importantes sejam filósofos, poetas ou escritores de literatura e caminha através do tempo e do acréscimo de cada um para este modo de pensar.

No Capítulo 01 intitulado “Temas existencialistas: conceitos fundamentais” Angerami entra em um campo específico da psicoterapia e consegue de forma clara explicar temas existenciais polêmicos e que raramente são achados de forma direta na literatura. Intercala trechos literários dele próprio e de outros autores para exemplificar cada assunto estudado.

Discorre sobre temas como Existência, liberdade, essência, o ser-no-mundo, sentido de vida, transcendência, autenticidade, morte, amor e de conceitos que antes eram vistos com dificuldades por autores, mas que o existencialismo trás como inerente ao ser humano como a solidão, o tédio existencial e a culpa.

O autor ainda fala sobre angústia, tema estudado a fundo pelos existencialistas e que tem seu conceito modificado nesta corrente de pensamento humano e sobre felicidade vista com outras formas e contornos.  

Capítulo 02 – Fenomenologia: métodos e pressupostos

A importância de Edmund Husserl, criador do movimento denominado fenomenológico é destaque do início do capítulo. Mesmo este autor não podendo ser caracterizado como existencialista propriamente. Angerami nos mostra o que é a fenomenologia e sua ligação com o existencialismo.

O capítulo é dividido em duas partes. A primeira é sobre as bases fenomenológicas e a segunda sobre o método fenomenológico.
Dentro do método fenomenológico o autor separa quatro tópicos importantes. O primeiro é a análise intencional, ou seja a relação entre consciência e objeto, elucidando a essência desta correlação fazendo a chamada redução fenomenológica.

Redução fenomenológica e seus resíduos que é o próximo tópico dentro da segunda parte do capítulo (O método fenomenológico).
Angerami nos leva agora a ver a fenomenologia de dois ângulos diferentes. O primeiro é a ontologia fenomenológica de Sartre, sua idéia de fenômeno, sua divisão da existência em conceitos de “em-si” e “para-si”. Tem destaque ainda características básicas da consciência para o autor francês, a transcendência e a temporalidade. Por estas características segundo Angerami, “a compreensão do homem será feita de modo livre sem as amarras impostas pelo pensamento determinista”.
 
O segundo ponto de vista citado pelo autor é a ontologia fenomenológica de Heidegger. O filósofo alemão fala sobre a a importância do cuidado com as palavras, pois em cada sentença que proferimos, segundo ele, o ser é afirmado. Heidegger fala sobre a importância dos sentidos que cada ser dá para as coisas, o sentido diferente que cada pessoa dá para fatos, palavras ou objetos banais. O próprio autor em sua obra filosófica tem todo um cuidado especifico com as palavras.

O Capítulo 03 – O capítulo três é marcado pelo início da diferenciação entre a psicoterapia existencial e outras formas de fazer psicologia é intitulado “Psicologia e pressupostos existencialistas”. Ele é subdividido em duas partes a primeira chamada Psicologia como ciência.

O autor coloca que os pressupostos existencialistas propõem uma compreensão do homem enquanto fenômeno único. Isso diverge da psicologia vista como uma ciência. A ciência busca sempre uma objetivação das coisas, classificando e generalizando. Assim a psicologia como ciência empírica necessita sempre de um enfeixamento determinista o que se mostra totalmente ao contrario do movimento existencialista que nega compreender o homem por categorias, estruturas, generalizações ou testes classificatórios.

A psicologia como ciência diz que organismos diferentes reagem do mesmo modo diante de estímulos semelhantes. Isso contrasta-se radicalmente com a idéia existencial de seres únicos.
Angerami questiona como sentimentos como o amor, a paixão e outros podem ser classificados, pois inexistem diante de preceitos científicos e conceituações operacionais.
 
E vai além ao comentar sobre os experimentos realizados com animais, explicando que o pensamento existencialista recusa-se a aceitar estes procedimentos e coloca a impossibilidade de aceitação destes dados obtidos como generalizações.
Para ele “ A única possibilidade pertinente aos princípios existencialistas é a pratica psicoterápica, onde o terapeuta irá realizar um encontro existencial único e verdadeiro com o cliente”.

Capítulo 02 – Fenomenologia: métodos e pressupostos

A importância de Edmund Husserl, criador do movimento denominado fenomenológico é destaque do início do capítulo. Mesmo este autor não podendo ser caracterizado como existencialista propriamente. Angerami nos mostra o que é a fenomenologia e sua ligação com o existencialismo.

O capítulo é dividido em duas partes. A primeira é sobre as bases fenomenológicas e a segunda sobre o método fenomenológico.
Dentro do método fenomenológico o autor separa quatro tópicos importantes. O primeiro é a análise intencional, ou seja a relação entre consciência e objeto, elucidando a essência desta correlação fazendo a chamada redução fenomenológica.

Redução fenomenológica e seus resíduos que é o próximo tópico dentro da segunda parte do capítulo (O método fenomenológico).
Angerami nos leva agora a ver a fenomenologia de dois ângulos diferentes. O primeiro é a ontologia fenomenológica de Sartre, sua idéia de fenômeno, sua divisão da existência em conceitos de “em-si” e “para-si”. Tem destaque ainda características básicas da consciência para o autor francês, a transcendência e a temporalidade. Por estas características segundo Angerami, “a compreensão do homem será feita de modo livre sem as amarras impostas pelo pensamento determinista”.
 
Angerami nos cita autores importantes do movimento como Erasmo de Roterdã e parte para o campo específico da psicologia comentando sobre a adoção do termo humanista pretendendo tornar a psicologia mais humana. Para o autor este termo é desprovido de sentido e até apresenta erro semântico já que psicologia é definido como a ciência que estuda o comportamento humano.

E comenta sobre um polêmico texto de Sartre chamado “O existencialismo é um humanismo” onde o autor francês mostra que existem peculiaridades entre o existencialismo e o humanismo, alem de diferenças do humanismo arcaico.
Nos coloca duas formas de humanismo, a primeira é a que coloca o homem como fim e como valor superior. Sartre discorda desse modo, dizendo que o existencialismo nunca tomará o homem como um fim e sempre um por fazer. Ele nos coloca o sentido de humanismo que concorda, aquele que diz que o “homem está constantemente fora de si mesmo, é projetando-se e perdendo-se fora de si que ele faz existir o homem, sendo o homem esta superação e não se apoderando dos objetos senão em referência desta superação, ele vive no coração, no centro desta superação”.

Mesmo com esse esforço de Sartre de mostrar que o existencialismo é um humanismo, Angerami comenta que a questão ainda é bastante polêmica e delicada.

E conclui que se já é inadequado falar “Psicologia Existencial”, seria muito mais complicado dizer “Psicologia Existencial Humanista”. O ideal seria Psicologia humanista, já que as idéias dos principais autores humanistas se diferem muito dos pensamentos propostos pelos autores existenciais.
 
O Capítulo 05 é intitulado “Psicanálise e Existencialismo”. O autor faz uma comparação entre o Existencialismo e a Psicanálise, analisando os principais conceitos psicanalíticos aos olhos existenciais. Nos mostra que a psicanálise é formulada para comprovar sua própria teoria e não dá importância primária ao fenômeno como faz o existencialismo.

Angerami cita uma frase de Freud que comprova a colocação do fenômeno em segundo plano. Assim a teoria psicanalítica, dogmática, é colocada como soberana frente ao fenômeno.

Freud embasou sua teoria nas ciências naturais, o que o obrigou a atacar os fenômenos e os colocar em um nexo-causal, ou seja, causa e efeito, podando assim o homem de ser um ser que realiza a própria essência a partir da existência.

O autor ainda explica a existência a partir de fatos ocorridos no passado. Angerami discorda desta “verdade psicanalítica” e diz que se algum fato ocorreu numa data cronologicamente anterior não significa que isso seja a causa dos problemas que estamos vivendo no presente.

Em seguida coloca alguns pontos do pensamento existencialista para estabelecer um contraponto com a teoria da psicanálise. Esse contraponto se divide em duas partes. A primeira fala do projeto do ser, nos mostra primeiro a questão da divergência no esquema de causa-efeito, pois para o existencialismo isso estaria determinando o homem e não o tornando responsável por suas ações e caminhos. Um segundo ponto dentro deste item é a questão da responsabilidade, onde a psicanálise coloca a questão do determinismo do inconsciente. O existencialismo coloca o homem como total responsável por suas ações
 
A segunda parte fala exatamente sobre o inconsciente, o autor nos coloca a definição de inconsciente para Freud, e questiona essa posição de acontecimentos escondidos nesta “região” fazendo um paralelo com o lembrar e o não lembrar.

Finaliza o capítulo dizendo que o homem pode se esconder, pode fugir da liberdade de refletir e até mesmo pensar sobre a existência. E diz que a angustia de liberdade poderia ser produzida por um simples ato de lembrança sem a necessidade de “invocar nenhum conceito metafísico para explicar sua ocorrência”.

Capítulo 06- Convergência do pensamento existencialista na prática psicoterápica
Neste capítulo Angerami nos mostra os principais autores que trabalham na convergência do pensamento existencialista a prática psicoterápica. E nos mostra ainda aqueles que são considerados existencialistas, mas em nada justificam tal posicionamento.

Os autores citados são Rollo May. Considerado existencialista, mas que segundo Waldemar é uma classificação errônea pois utiliza-se de conceitos psicanalíticos em sua obra, como por exemplo, a relação causa-efeito e a idéia de inconsciente.

Victor Frankl é o outro autor citado por Angerami. Criador da logoterapia que faz uma convergência em sua obra trazendo Deus para a compreensão e reflexão do homem. O autor nos afima que Frankl é admirado por terapeutas que busca unificar as crenças místicas com a prática da psicoterapia. Destaca-se a a historicidade de Frankl como prisioneiro de guerra.
 
O terceiro autor destacado por Angerami é Binswanger que juntamente com Jasper iniciou a chamada “Psiquiatria existencial”. Recebe um destaque entre os existencialistas por sua obra extensa, por ter iniciado o trabalho existencial na psiquiatria e, como diz Angerami, por sua obra ser ponteada por momentos brilhantes.

Medard Boss é outro autor que aparece como exponencial na atualidade. Recebe grande influencia de Heidegger, considerados por muitos ser mais heideggeriano que o próprio autor alemão. Waldemar nos fala também da crítica que Boss recebe por negar a armação psicológica da psicanálise e substituir por conceitos existenciais, mantendo sua estruturação.

O quinto autor é J.H. Van Den Berg, psiquiatra holandês que tem bastante projeção entre os existencialistas contemporâneos. Angerami nos coloca que sua obra é reduzida, mas que é rica na análise realizada sob a ótica fenomenológica no campo da psiquiatria. Crítico dos conceitos vigentes da psiquiatria e da estrutura freudiana, tem “uma linguagem que ao mesmo tempo em que é precisa e constrita tambem apresenta rasgos de beleza e harmonia”.

Para finalizar os autores, Angerami nos fala sobre Ronald Laing. Autor de grande importância que tem sua principal obra (em parceria com Cooper) prefaciada por Sartre e tida como um marco inicial no movimento denominado “antipsiquiatria”. Laing sempre demonstrou preocupação em inserir o homem numa realidade social, fato que deu concretude sólida às suas obras.
 
Capítulo 07 – Perspectivas da psicoterapia existencial

Angerami nos mostra a perspectiva do pensamento existencial como um resgate da compreensão da condição humana apenas e tão somente a aspectos inerentes a ela.
Descarta qualquer teoria que não se trate da existência humana ou a coloque em mecanicismos ou teorias baseadas em hidráulica.

Fala sobre a dificuldade e as barreiras encontradas por este pensamento no meio acadêmico. O autor acredita que o existencialismo não conseguirá reunir tantos adeptos quanto as outras correntes da psicologia.
A última parte do livro é a bibliografia existencialista. O autor nos diz que a obra é bastante vasta e coloca as que usou como referencia, tendo a preocupação de separar por tópicos e autores de maior importância e ainda citar obras introdutórias que facilitarão aquele leitor que queira estudar mais sobre o assunto.
Através de poemas vamos entrando no mundo do existencialismo, ou ele vai adentrando em nosso ser, como as estações do ano citadas nos poemas que dão inicio aos capítulos. Cada qual com suas características próprias, assim como o ser humano.
Assim esta obra é básica para todos que se interessam por psicologia e psicoterapia, não para uma aceitação total ou como resposta pronta, mas para gerar sempre discussões em busca de crescimento.

 
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