Uma análise fenomenológico-existencial do filme “Sonhos” de Akira Kurosawa

Uma análise fenomenológico-existencial do filme “Sonhos” de Akira Kurosawa

Aluno: Adriano Alonso P. Cunha

Orientação: Prof. Valdemar Augusto Angerami – Camon

2009

 

O MISTÉRIO DAS COUSAS
(do “Guardador de Rebanhos” – Alberto Caeiro)

O mistério das cousas, onde está ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio disso e que sabe a árvore?
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as cousas e penso no que os homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.

Porque o único sentido oculto das cousas
É elas não terem sentido oculto nenhum,
É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as cousas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender.

Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: —
As cousas não têm significação: têm existência.
As cousas são o único sentido oculto das cousas.

 

 

 

Resumo

 

 

Akira Kurosawa é considerado por muitos como um dos melhores diretores de todos os tempos, ele foi o diretor que fez com que o cinema japonês fosse reconhecido no mundo inteiro e dirigiu filmes por 50 anos. Sonhos (Yume, 1990) foi um dos últimos filmes dirigidos por Kurosawa e possui certas características que o tornam interessante de ser analisado por uma visão fenomenológico-existencial como, por exemplo: (1) é um filme constituído por oito partes, com certa independência entre si; (2) alega ser autobiográfico; (3) trata de temas como: ecologia, guerra, amor à vida, vida em sociedade, tecnologia, perda de tradições, morte, por exemplo; (4) através do choque entre a vida moderna e a mostrada no filme nos faz refletir sobre a forma como vivemos.

“Sonhos” é constituído de oito partes que tratam de temas relacionados. Nos dois primeiros sonhos o diretor aparece como uma criança que entra em contato com o desconhecido, na forma de raposas ou de pessegueiros. Nos sonhos que seguem, ele é um adulto, no terceiro sonho a natureza, na forma de tempestade de neve, é implacável. O tema tratado a seguir é a culpa e a guerra, a beleza da arte e da vida é mostrada no sonho chamado Corvos, o personagem passeia pelas obras de Van Gogh. Há dois sonhos que mostram catástrofes nucleares, a destruição da vida e de toda a natureza. O último sonho é uma reconciliação entre as formas de vida primitiva e pós-industrial.

A análise do filme será contextualizada dentro da história do cinema japonês e do diretor. Alguns temas caros à Filosofia Existencial serão discutidos a partir do que é mostrado no filme.

 

 

Introdução

 

 

Quando nos referimos a um filme, e este não é estadunidense, automaticamente dizemos de onde ele vem. Um filme traz características do lugar em que foi feito, um componente social-histórico, além das tradições do “fazer” cinema local. Os filmes produzidos na Europa, na década de 1950, por exemplo, são muito diferentes dos produzidos no Japão, ou mesmo nos Estados Unidos. Atualmente, um cineasta que resolva fazer um filme, terá tido influências do cinema de todas as partes do mundo, não somente do país de onde veio. Há, portanto, uma transnacionalidade do cinema.

O próprio Akira Kurosawa afirmou que se você quiser ser um bom diretor de cinema você deve mergulhar nos filmes e na literatura mundiais assim como os feitos pelo seu país, você deve ser um cidadão do mundo (Martinez, 2009). Um fato impressionante é que uma das críticas centrais que Kurosawa recebeu e recebe das críticas ocidentais e japonesas seria que seus filmes seriam apenas uma cópia de menor valor do cinema ocidental. Tendo a crer que ele sabia aproveitar da cultura produzida em todo o mundo, assim como da cultura japonesa (ele era um grande fã de Yasujiro Ozu e Kenji Mizoguchi) (Yoshimoto, 2000). Alguns de seus filmes usaram textos de Shakespeare e Dostoievski, quadros de Van Gogh, ou histórias do imaginário japonês.

Influências entre os cinemas japonês e mundial só ocorreram, de fato, após a década de 1950. O cinema japonês permaneceu “isolado” para o ocidente, exceto para o Brasil, devido à grande comunidade japonesa aqui presente.

Em 1951 o filme Rashomon venceu o grande prêmio do Festival de Veneza, as reações mundiais foram as mais diversas, um jornalista estadunidense chegou a dizer que o filme era confuso, talvez devido às diferenças entre os modos de se fazer cinema. Rashomon conta a história de um crime a partir de três pontos de vista: da mulher, do assassino e do marido, e é considerado uma obra de arte em cada um de seus aspectos.

A excelente recepção crítica e comercial que Rashomon teve fez com que os ocidentais buscassem outros filmes japoneses fazendo com que Kurosawa fosse o japonês mais famoso fora do Japão.

Kurosawa nasceu em Tóquio em 1910 e teve uma longa carreira, seu primeiro filme foi em 1946, faleceu em 1998, deixando XX filmes e alguns roteiros escritos. Um de seus últimos filmes “Sonhos” (Yume, 1990) foi feito graças à ajuda dos diretores Steven Spielberg e George Lucas, que convenceram os estúdios a financiá-lo, desde que o primeiro colocasse seu nome na capa. “Sonhos” apresenta oito histórias do imaginário japonês e, claro, do diretor/roteirista. A bomba atômica, a cultura e guerra são exemplos de alguns temas.

Os oito sonhos não apresentam ligação entre si, cada um apresenta histórias aparentemente independentes. Uma análise mais precisa mostra haver certa ligação cronológica entre eles, os dois primeiros sonhos mostram o personagem em sua infância, os outros seis sonhos apresentam o mesmo ator como personagem principal. No início de cada sonho está escrito “Konna yume o mita”, legendado para o inglês como “I had a dream like this”, infelizmente não aparecem legendas para o português. A ligação entre os sonhos é reforçada pelo “Eu”, além disso, a placa na frente da casa mostrada no primeiro sonho está escrito Kurosawa. Fazendo-nos acreditar que o filme é autobiográfico.

Há outros pontos em comum entre os vários sonhos, o personagem principal se apresenta de forma a mostrar muito respeito às situações que se apresentam, à natureza, às pessoas que encontra. No segundo sonho, por exemplo, a criança pede desculpas aos pessegueiros porque sua família os cortou. A relação com a natureza é um dos temas recorrentes através dos vários sonhos, seja a natureza como algo muito poderoso e maior do que o ser humano (Sonho nº 3: A tempestade de neve), como misteriosa (Sonho nº 1: Raios de sol…, Sonho nº 2: O pomar…) sendo destruída (Sonho nº 2: O pomar…, Sonho nº 6: Monte Fuji…, Sonho nº 7: O Demônio, Sonho nº 8: A aldeia…) maravilhosamente bela (Sonho nº 5: Corvos) ou como necessária para a sobrevivência dos seres humanos (Sonho nº 8: A aldeia…). As guerras e a destruição que ela causa também são mostradas (Sonho nº 4: O túnel).

O personagem “Eu” se mostra aberto a novas experiências, é um personagem que se deixa levar pelo que acontece no momento, ele escuta e faz perguntas apenas para esclarecer o que está ocorrendo, é um personagem curioso.

O objetivo do trabalho não é tentar entrar ou decifrar o que o diretor estava pensando, ou mesmo sua alma. O filme trata de temas caros ao existencialismo, o texto se centrará na discussão entre as idéias do filme e de alguns filósofos existencialistas.

 

 

 

Análise do filme “Sonhos”

 

 

Os dois primeiros sonhos mostram o diretor como uma criança, o primeiro sonho o mostra como criança observando a chuva em um dia de sol, vemos uma casa, a câmera fica parada. A mãe do menino diz que ele não vai sair de casa, pois as raposas celebram casamento em dias como esse, “existem coisas que não devem ser vistas.” O menino não obedece a sua mãe e, sai para passear dentro de uma floresta com árvores altas e vegetação rasteira também alta, fazendo com que o menino pareça ainda menor. O menino assiste a um casamento de raposas, enquanto as raposas caminham, elas dançam. Quando ele volta para casa, sua mãe, firme e assustada, lhe diz as conseqüências de sua desobediência.

A raposa tem muitos significados para a cultura japonesa, Hearn em seu livro Glimpses of an unfamiliar Japan (2005), dedicou um capítulo inteiro às raposas, ele dizia, há mais de cem anos atrás que a presença das raposas no folclore japonês estava perdendo espaço, sendo substituídas pelo ensino das ciências ocidentais. Kurosawa traz o folclore de volta. Para os japoneses as raposas são animais dotados de certa magia, o deus Inari é considerado o deus do arroz ou da comida é representado junto às raposas e, para alguns é uma raposa (Hall, 2007), embora também possam ser associadas a espíritos negativos.

O segundo sonho mostra uma criança levando chá para a irmã e suas amigas, quando o só menino vê outra menina ele a segue para onde havia um pomar de pessegueiros. Agora personificados eles acusam o menino de usar as árvores apenas para conseguir os pêssegos, este chora e se defende dizendo que ele pode comprar os pêssegos, agora a beleza das árvores florindo não pode mais ser vista e pode ver pela última vez a beleza das árvores que existiam ali.

Heidegger (Michelazzo, 1999) afirma que a “razão tecnológica” é a palavra de ordem de todo o mundo, ela justifica toda a destruição que os seres humanos causam a todos os seres vivos (incluindo o próprio homem) e ao planeta. Todo o real passa a ser instrumento, meios de se conseguir outras coisas, o pessegueiro questionando se o menino sente falta dos pêssegos, questiona, na verdade, a forma com que este se relaciona com o real, para a família os pêssegos podem ser comprados e, portanto, as árvores não têm serventia, o menino tinha as árvores como parte de sua vida, agora ele chora.

A criança não conseguiu lutar contra a vontade dos adultos de sua família contra o corte do pomar, assim como outras vozes não conseguem barrar a destruição do mundo. O desenvolvimento sustentável proposto como solução tem a intenção fazer com que o mundo fique funcionando para que continuemos o utilizando para viver e enriquecer infinitamente. A defesa da biodiversidade é baseada em argumentos do tipo: “em algumas dessas plantas está a cura do câncer” é só digitar no Google “cura do câncer floresta” e encontramos todo o tipo de reportagem principalmente ligando pesquisas à Floresta Amazônica, conhecida por sua grande biodiversidade.

As conseqüências desse pensamento são discutidas nos sonhos 6, Monte Fuji Vermelho e 7, O Demônio Chorão (tradução livre a partir do inglês).

No primeiro o Monte Fuji entra em erupção graças ao acidente de uma usina nuclear próxima causando morte de pessoas e envenenamento do ambiente. Mais uma vez o diretor nos mostra características do pensamento do povo japonês, próximo ao fim do sonho as pessoas, em fuga, encontram o mar. A geografia do país (Japão) é explorada, o encontro com o mar significa a morte, pois eles estão presos.

No sonho número 7, o viajante encontra um ser humano que sofreu mutações devido a um holocausto nuclear, nesse local há plantas rasteiras como os dentes de leão se transformaram em plantas gigantes, as pessoas que sobreviveram possuem chifres e são canibais. Os dois sonhos tratam da nossa confiança excessiva na tecnologia em contraste a uma concepção de um futuro limpo e esterilizado, enfim melhor do que hoje.

O sonho número 4, O Túnel, é sobre um comandante que reencontra seu batalhão morto na guerra Japão – Estados Unidos. A questão é que eles não sabem que estão mortos e seu comandante carrega a culpa até os dias de hoje. O oficial tenta convencê-los de que eles devem admitir que estejam mortos e parar de se segurar à vida. A morte é um dos temas mais importantes para o existencialismo, a não aceitação da morte pelos soldados e a aparição deles em sonho podem ser discutidas a partir de Sartre. Para este autor a morte é “a ocorrência que determina o fim da existência pondo fim a todos os projetos elaborados.” Heidegger pensa sobre a morte de outra forma, como parte da vida. O primeiro contato com a morte para o autor acontece através da morte de outros, mas os que não morreram ainda têm a presença de quem morreu; vide o personagem de Kurosawa nesse sonho (Angerami, 2007).

O sonho “A tempestade de neve” nos mostra a natureza implacável, aqui a natureza não está em ligação com os sentimentos dos personagens ou mostra estados interiores como costuma acontecer no cinema japonês. A natureza é uma força gigantesca contra a qual os personagens lutam; a tempestade não dá trégua e a desistência dos viajantes parece ser a única saída possível.

O sonho “Corvos” de número 5 traz o visitante interpretado por Akira Terao está em um museu observando algumas obras de Van Gogh. O museu é um ambiente calmo e silencioso. De repente, o viajante entra e passeia pelas obras do grande pintor. Os cenários desse sonho são relacionados às pinturas e esboços feitos por Van Gogh ou são as próprias pinturas. Para que tivéssemos a sensação de passear pelos quadros, Kurosawa chegou a reforçar alguns traços e disse a seu assistente: “Imagine que- eu retocando uma pintura de Van Gogh! Bem, afinal de contas esse é o meu sonho, então talvez ele vá me perdoar.” (Nogami, 2006; tradução livre).

O visitante, enquanto passeia pelas obras encontra ninguém menos que o próprio Van Gogh, interpretado por Martin Scorsese, que pergunta: – Por que você não está pintando?

A natureza é mostrada em locações reais e intermediadas pela visão de Van Gogh. O sonho é sobre a beleza da arte e a percepção que o pintor tinha do mundo. Merleau-Ponty discute a arte em “O olho e o espírito”, ele afirma que não olhamos uma pintura, mas olhamos “com” a pintura ou “de acordo com” ela em contraposição à visão cartesiana, na qual a arte é apenas uma representação do mundo.

O último sonho, A aldeia dos moinhos de água, é talvez, o mais lírico. A história se passa em uma aldeia sem nome, que, segundo um ancião, pode ser chamada por Aldeia dos Moinhos de Água.

O sonho se inicia com crianças colocando flores sobre uma pedra, o visitante curioso observa e continua seu caminho, mais tarde pergunta ao ancião, que encontra construindo um moinho, o que aquele gesto significa. O ancião responde que seu pai uma vez disse que um viajante morreu ali há muito tempo e que os moradores ficaram emocionados e decidiram enterrá-lo ali mesmo. A partir de então as pessoas têm o costume de colocar flores sobre aquela pedra.

Esse ritual é parte daquela comunidade, assim como muitos outros e estão ligados à coesão do grupo. Rituais são ações feitas por pessoas, quase sempre sem estar ligadas à sobrevivência e possuem forte influência sobre a subjetividade da pessoa que o realiza assim como na de todo o grupo.

As crianças quando colocam flores sobre as pedras estão em silêncio, repetindo movimentos e posturas todas as vezes que o ritual é executado. Alguém poderia argumentar que rituais são uma simples repetição de movimentos, a mente dessas pessoas poderia estar a quilômetros dali. Sim, poderia. Alguns cartesianos poderiam até mesmo enfatizar a separação entre mente e corpo, a mente controla o corpo e enquanto este executa ordens automáticas, a mente estaria livre para divagar, não sendo afetada por suas ações. Poderiam até mesmo sugerir evidências como a melhora no desempenho em certas atividades. Os cartesianos afirmam que o saber é uma característica da mente e fazer é do corpo.

Já Merleau-Ponty (1962, Fenomenologia da Percepção) discorda do dualismo mente/corpo e afirma: “Eu sou meu corpo” e “nosso corpo é uma relação com o mundo e não uma coisa no mundo.” Tudo o que nos acontece e tudo o que fazemos, é feito e nos acontece através de nosso corpo. A repetição do ritual de colocar flores, embora sem saber o motivo modifica, portanto a existência (corporal e espiritual), de quem participa do ritual. O hábito, segundo Merleau-Ponty, é uma operação existencial, pois envolve atividades repetitivas, mecânicas e sem necessariamente decisão espiritual, podendo ser modificado por esta quando for necessário.

Mais tarde no sonho o ancião diz, enquanto ainda constrói o moinho que as pessoas se acostumam com a conveniência e jogam fora o que é realmente bom. Alguns rituais se perderam com o surgimento de certas tecnologias. Há um sabor amargo da perda das tradições nesse momento do filme, é um tema recorrente no cinema japonês (um belíssimo exemplo: Bom Dia de Yasujiro Ozu). Há um embate entre a tecnologia e a perda das tradições, em alguns casos a primeira é vista como inevitável.

A história não ocorre em outro século ou em um universo mágico, é atual e no planeta em que vivemos, apesar de não existirem computadores, luz elétrica, máquinas de arar a terra, tocadores portáteis de música ou outras comodidades. Devemos lembrar que as tecnologias não estão presentes no vilarejo por opção das pessoas que moram lá. Os aparelhos tecnológicos são vistos como sinônimo e símbolo de riqueza, não é necessário citar a compra de aparelhos celulares no Brasil, as pessoas compram um mais moderno mesmo que o antigo não esteja danificado ou não atenda mais suas necessidades. Outro confronto com nosso imaginário é que o sonho se passa no Japão, 2º país mais desenvolvido do mundo que é conhecido por exportar aparelhos tecnológicos.

Segundo o ancião, a aldeia também não tem nome e moradores fixos. Uma aldeia sem moradores! Um lugar como esse é ainda mais difícil de ser imaginado. Há vários aspectos que o torna difícil de ser imaginado; o contato com a natureza “eu não gostaria de não ver as estrelas durante a noite”, com as pessoas, a celebração da vida, enfim, um local onde as pessoas exerçam sua existência ao invés de tentarem sobreviver.

Heidegger discute a questão do tempo e volta aos primeiros pensadores quando Platão apresenta o mito da caverna nos afasta da finitude. Se as imagens que vemos são apenas sombras da realidade, deve existir uma realidade eterna, imutável fora da caverna. O habitante que saiu da caverna encontrou a idéia de cadeira, imutável; a idéia de pássaro, eternamente jovem e cantante.  As mudanças e a morte não fazem parte do pensamento ocidental. O ancião possui a sensibilidade e diz: “(Os homens) não percebem que vão morrer por não viverem próximos à natureza, querem evitar a morte o tempo todo.” No mundo da tecnologia não somos lembrados da finitude. As pessoas estão esperando qual a próxima novidade tecnológica como se, assim como nossos novos aparelhos, fôssemos ficar cada vez mais eficientes e energéticos com o tempo.

Em contraposição à nossa atitude, o ancião com 103 anos, visto na obra-prima de Kurosawa, consegue lidar com a passagem do tempo de forma impressionante. O ciclo nascimento, crescimento e morte é bem claro e aceito: “É bom viver muito, trabalhar duro e receber gratidão.” Exceto quando há morte de crianças: “Romper esse ciclo não é fácil de comemorar.”

Para Heidegger o ocidente possui um rumo, um destino, que é controlar a natureza, a realidade. Tudo o que acontece deve ser previsto e possível de ser controlado. Esse tema também está presente em Dersu Uzala (1975), há contraste entre dois tipos de mapeamento da floresta, o primeiro, do personagem principal (Dersu) está baseado nas árvores, rios, sons, cheiros…; já o mapa cartográfico que os soldados constroem, é um duas dimensões com a intenção de ser usado para modificar a floresta em um novo assentamento.

As tecnologias que já foram defendidas como facilitadoras do viver humano se estabeleceram de forma completamente diferente. As máquinas substituíram seres humanos em seus empregos, mudando a configuração da empregabilidade no Brasil e no mundo e levando milhões de pessoas à informalidade, por exemplo. As pessoas listam celulares e computadores portáteis como benefícios que a empresa que trabalham lhes “dá”. No entanto, esses mesmos aparelhos servem para que o funcionário trabalhe fora do local e da hora combinada. São típicos presentes de grego.

Os avanços das ciências são importantes, isso não se pode negar. Podemos lembrar os foguetes que levaram o homem à lua ou mesmo a descoberta e cura de doenças que as gerações anteriores sequer sabiam da existência, a possibilidade de se comunicar com pessoas de qualquer parte do planeta.

E não é difícil supor que o funcionário imaginário que recebeu o computador de seu novo emprego tenha mostrado o aparelho com orgulho e discorrido sobre o que ele pode fazer naquele aparelho, ver filmes, mandar emails, ouvir música, se comunicar, montar apresentações, etc. O orgulho presente nesse funcionário é o mesmo que sentimos quando ouvimos que “O homem” construiu chips de computador super potentes, ou que atingimos um grau maior de civilização, vencendo uma batalha contra o câncer embora eu e você não fizemos parte de todas essas descobertas, somos orgulhosos.

O ancião criado por Kurosawa usa o termo milagre para descrever a forma como lidamos com as tecnologias. Milagre remete a algo sobrenatural ou algo maravilhoso, algo que vem do sagrado. Denis Huisman (2001), explica Heidegger e sua visão sobre as tecnologias: “Longe de condenar a técnica, Heidegger esforça-se para nos lembrar que a técnica é só ao-lado da existência e não a própria existência.” Nós estaríamos muito envolvidos pela técnica e teríamos perdido o existir, o mundo deixa de ser um lugar de morada.

Como discutido, a tecnologia não está presente na vida daquela população, não por falta de recursos financeiros, mas por escolha. Sartre afirma que a existência é uma série de escolhas e que é impossível uma vida sem escolhas, para ele a liberdade de escolhas é total. Ao assistir esse sonho, percebemos que o ancião fez outra escolha que em um primeiro momento nos deixa chocados. Sua atitude em relação à vida: “Há quem diga que a vida é dura. (…) Viver é bom e emocionante.” A vida parece ser uma aventura, mas uma aventura consciente, responsável, em relação à natureza, em relação aos outros e, principalmente, em relação a si mesmo. Para Sartre, a responsabilidade de nossos atos vem da própria liberdade e se recusar a escolher também seria uma escolha. O ancião nos mostra que também possamos fazer essa escolha, mesmo que nos pareça real só em sonho.

Há uma escolha por uma vida responsável também em relação à natureza, não há desperdício e o abuso no pequeno vilarejo, o ancião chega a afirmar que a sujeira que causamos à natureza também está em nossos corações.

Ao final do sonho nos percebemos com o mesmo olhar curioso e impressionado do visitante sem nome, que coloca flores sobre a pedra em homenagem ao viajante morto, mostrando que, assim como quem assiste o sonho, também aprendeu algumas coisas.

 

 

Ficha Técnica do Filme

 

 

 

Diretor – Akira Kurosawa
Roteiro – Akira Kurosawa
Produtor – Hisao Kurosawa

Produtor – Mike Y. Inoue
Cinematografia – Takao Saito
Cinematografia – Masaharu Ueda
Produtor Associado – Allan H. Liebert
Produtor Assistente – Seikichi Ilizumi
Editor – Tome Minami
Akira Terao – “Eu”

Mitsuko Baisho – Mãe de “eu”

Toshie Negishi – Mãe que carrega o filho

Mieko Harada – A fada de neve

Mitsunori Isaki – “Eu” menino

Toshihiko Nakano – “Eu” criança

Yoshitaka Zushi – Soldado Nogushi

Hisashi Igawa – Trabalhador da usina nuclear

Chosuke Ikariya – O demônio chorão

Chishu Ryu – Ancião

Martin Scorsese – Vincent Van Gogh

 

 

 

Bibliografia

 

 

 

Angerami V. A. (2007) Psicoterapia Existencial. 4ª edição. Thomson Learning Brasil.

Canby V. (1990) Review/Film; Kurosawa´s Magical Tale of Art, Time and Death. Publicado no jornal The New York Times. Lido em outubro de 2009.

(http://movies.nytimes.com/movie/review?_r=1&res=9C0CE5D7103AF937A1575BC0A966958260)

Hall J. (2007) Kitsune. Página visitada em novembro de 2009. (http://www.jh-author.com/kitsune.htm)

Hearn L. (2005) Glimpses of Unfamiliar Japan. Página visitada em novembro de 2009. Project Gutenberg (http://www.gutenberg.org/etext/8130)

Huisman D. (2001) História do Existencialismo. EDUSC.

Martinez D. P. (2009) Remaking Kurosawa: Translations and Permutations in Global Cinema. Palgrave Macmillan.

Merleau-Ponty M. (1962) Fenomenologia da Percepção. 5ª edição. Martins Fontes.

Michelazzo J. C. (1999) Do um como princípio ao dois como unidade: Heidegger e a reconstrução ontológica do real. FAPESP: Annablume.

Nogami T. (2006) Waiting on the Weather: Making Movies with Akira Kurosawa. Stone Bridge Press. Original em japonês Tenki Machi, publicado em 2001.

Schilbrack K. (2004). Thinking Through Rituals: Philosophical Perspectives. Routledge.

Yoshimoto M. (2000). Kurosawa: Film Studies and Japanese Cinema. Duke University Press.