Processo de Reabilitação dos Pacientes de Uma Clínica-Escola de Fisioterapia. Uma Visão Fenomenológica

Processo de Reabilitação dos Pacientes de uma Clínica-Escola de Fisioterapia – Uma visão fenomenológica

Priscila Zuliani Librelon

Introdução

Ao acompanhar a reabilitação dos pacientes de uma Clínica-escola de Fisioterapia, como estagiária do curso de Psicologia atuando em um projeto de extensão denominado “Psicologia da Saúde: atendimento junto a Clínica-escola de Fisioterapia” pude compreender a relevância desse processo para os pacientes, considerando as dificuldades e os ganhos adquiridos durante esse período e a relação estabelecida entre paciente, seus familiares e equipe de profissionais, elemento também necessário para o bom desenvolvimento do tratamento fisioterápico. Frente a essa relevância busquei por meio dessa pesquisa compreender o sentido do processo de reabilitação para esses pacientes, por meio do relato de suas vivências durante esse período. Este objetivo compreendeu a busca por maior conhecimento sobre o campo da reabilitação para pessoas acometidas por moléstias físicas, possibilitando também aos pacientes a produção de conhecimento e a atribuição de sentido ao processo de reabilitação a partir da reflexão de suas próprias vivências.

Reabilitação: aspectos gerais

Por reabilitação entende-se: um processo que tem a finalidade de promover melhora física, mental, funcional e social ao paciente em um dado período e; uma especialidade dentro da área da saúde, a qual surge em um cenário mundial, mais especificamente após as Guerras Mundiais, com o intuito de garantir o bem-estar da população frente à multiplicidade de problemas que a afetava naquela época, principalmente as pessoas mutiladas e portadoras de outras deficiências decorrentes das guerras que, apesar do comprometimento de saúde também tinham dificuldade em se readaptarem na sociedade, retomando suas funções (Alves, 2001).

Frente ao tratamento fisioterápico, é essencial distinguir entre os conceitos de reabilitação e recuperação, que ao serem confundidos acabam gerando falsas expectativas e angústias nos pacientes e familiares. Conforme Madaleno et al. (2007), reabilitação compreende um conjunto de procedimentos terapêuticos, aplicados a pessoas portadoras de incapacidades, com o objetivo de restabelecer a funcionalidade das capacidades físicas, psíquicas, sociais e profissionais, permitindo a retomada de seus papéis na família e na sociedade. Já recuperação consiste em retomar o perdido, ou seja, adquirir novamente certa função ao curar-se. Segundo a autora, os pacientes buscam os centros de reabilitação com o intuito de recuperar os movimentos perdidos, confundindo a aquisição de independência com a cura, sendo que a conscientização de suas reais possibilidades ocorre durante o processo de reabilitação com o auxílio dos profissionais e familiares.

Ao se falar de reabilitação como conjunto de determinadas atividades, este processo deve ser desenvolvido por uma equipe multiprofissional composta por médicos, psicólogos, enfermeiros, nutricionistas, educadores físicos, entre outros, sendo que, o principal profissional responsável pela administração do tratamento é o fisioterapeuta. Um trabalho bem desenvolvido pela equipe de saúde viabiliza diversos benefícios, tais como a melhora da capacidade funcional do paciente, redução dos fatores de risco, melhora na qualidade de vida, bem como a verificação de sinais que antecedem complicações do quadro clínico (Mair et al., 2008). Entretanto, não se deve considerar a reabilitação apenas no âmbito das funções físicas ou ortopédicas, faz-se necessário ressaltar a reabilitação psicossocial, processo que facilita ao indivíduo portador de limitações, a retomada da autonomia e do exercício de suas funções na comunidade, considerando a integridade e o potencial de cada pessoa (Pitta, 2001).

A reabilitação não compreende apenas uma técnica, mas uma ação cotidiana que, aos poucos vai dando sentido a novos projetos de vida, por meio da liberdade, autonomia e satisfação, englobando tanto a saúde física como mental de pessoas portadoras de limitações. Não consiste em uma tecnologia, mas numa abordagem ou estratégia, que objetiva, além da simples passagem de um paciente em condição de incapacidade ou desabilidade para a competência e desenvoltura em suas funções, dentro de suas possibilidades. Dessa forma, a reabilitação psicossocial visa restaurar as habilidades para o convívio social do paciente, seja em casa, no trabalho, na escola ou qualquer outro contexto, considerando que as relações sociais estão presentes a cada momento (Pitta, 2001).

Para tanto, Alves e Kaihami (2000) afirmam que, para atingir o objetivo da reabilitação a equipe multidisciplinar deve avaliar o paciente em todos os aspectos, isto é, físico, psíquico e social, verificando os recursos existentes na comunidade, as condições do relacionamento familiar e o suporte oferecido nos diferentes contextos.

Interação entre o paciente em reabilitação, sua família e equipe profissional

Ao abordar três eixos relacionais da reabilitação – o paciente, sua família e o profissional da saúde – é necessário refletir sobre o papel e o lugar que cada um ocupa neste processo. Frente a essa exigência, a fisioterapia, bem como a psicologia neste contexto, têm como função a cooperação frente uma nova realidade de vida apresentada pelos pacientes, além de serem responsáveis pela promoção da inter-relação entre educação e saúde, permitindo maior compreensão deste processo por parte dos pacientes e familiares (Ragassom, Almeida, Comparin, Mischiati & Gomes, 2007).

Frente a isso, é necessário considerar a singularidade do indivíduo em seu processo de reabilitação, como a hereditariedade ou predisposição genética; capacidade de adesão do tratamento; recursos financeiros; necessidades individuais; e sua adaptação, pois o relacionamento que o paciente estabelece com o ambiente, além de suas relações interpessoais, possibilita o cuidado com a saúde (Nogueira & Jardim, 2007).

Por outro lado, muitas vezes para os profissionais da saúde tratar o paciente acaba se tornando uma rotina, pois sua profissão lhes permite familiarizar-se com a condição de saúde dos acometidos, preocupando-se apenas com a queixa física, sendo que as expectativas e as emoções acabam por não serem consideradas como aspectos importantes para o sucesso do tratamento. Há, nesse sentido, dificuldade por parte desses profissionais ao lidar com temas não relacionados à sua formação específica, o que os levam a substituir o indivíduo pelos aspectos puramente técnicos, transformando a interação profissional-paciente em uma experiência tecnicista, perdendo a complexidade e o potencial dessa relação. Entretanto, ao contrário dessa percepção que alguns profissionais apresentam em relação ao período de reabilitação, o paciente tende a uma visão diferenciada do processo, uma vez que para ele a doença não se apresenta como um fato corriqueiro, manifestações conhecidas ou soluções previsíveis, mas como uma ameaça a sua integridade física, psíquica e social (Canto & Simão, 2009).

Moura e Silva (2005) afirmam que a família desempenha um papel essencial no processo de reabilitação, colaborando e cuidando do paciente por meio da utilização dos manuseios ensinados durante o tratamento fisioterápico, considerando a importância em participar desse processo, adquirindo habilidades para desempenhar seus papéis. Dessa forma, estabelece-se também a interação profissional-família, sendo ela essencial para que ocorra a troca de informações, contribuindo para se atingir os objetivos funcionais do tratamento, tornando possível a reabilitação psicossocial do paciente. Para tanto, o profissional de saúde deve ouvir, compreender e auxiliar nas dificuldades do dia-a-dia encontradas por essa família, bem como em relação à seus anseios e expectativas considerando que, muitas vezes, as técnicas utilizadas não são o suficiente para suprir todas as necessidades do paciente, sendo necessário o auxílio dos cuidadores.

A presença efetiva da família permite que o processo de reabilitação ganhe um sentido por meio deste vínculo estabelecido, através do qual o paciente adquire experiências para relações futuras, facilitando assim, seu convívio social (Moura & Silva, 2005). Entretanto, quando há negligência dos cuidados em domicílio, dificulta-se a reabilitação dos acometidos (Caetano, Damasceno, Soares & Fialho, 2007).

Pinto e Spiri (2008) ressaltam que em alguns casos a família pode apresentar sofrimento maior que os próprios familiares acometidos, considerando a não compreensão da condição de saúde do paciente, que resulta em ansiedade e dificuldade para expressar os sentimentos. Conforme Alves e Kaihami (2000), o paciente por sua vez, pode ser prejudicado durante o desenvolvimento de seu tratamento quando não encontra suporte familiar, diante da falta de expectativas e da dependência gerada neste contexto, muitas vezes, pela família ter uma visão do acometido como uma pessoa incapacitada de realizar as atividades anteriormente desempenhadas.

Frente a essas condições, o papel do psicólogo se destaca como mediador das inter-relações entre profissionais, familiares, pacientes e sociedade, contribuindo para a autonomia ao lidar com angústias, medos e fantasias, visando um trabalho integrado a fim de garantir o êxito da reabilitação.  Esse processo emancipatório é fundamental frente às mudanças na vida do paciente e de seus pares, sendo necessária a elaboração de perdas, além da conscientização ampliada acerca dos limites e potencialidades (Madaleno et al., 2007). O psicólogo como orientador também pode facilitar a reorganização da rede familiar ao permitir que todos reflitam e compreendam o fato ocorrido e as condições atuais que se apresentam (Alves & Kaihami, 2000). Sua atuação torna-se imprescindível à medida que o paciente apresenta dificuldade para aceitar e conviver com sua condição de saúde, considerando que deve observar primeiramente se a pessoa acometida tem conhecimento do que está acontecendo com ela, bem como a respeito de seu diagnóstico e prognóstico (Pinto & Spiri, 2008).

Dessa forma, tanto o psicólogo como os demais profissionais da equipe de saúde devem agir como facilitadores, proporcionando autonomia e a reorganização da vida do paciente e de suas relações sociais, pois, mesmo que essas pessoas apresentem limitações frente aos comprometimentos de saúde é possível desenvolver habilidades e potencialidades, possibilitando a minimização da vulnerabilidade e ampliação dos vínculos afetivos. O próprio paciente, quando se encontra envolvido no processo de reabilitação por meio das relações afetivas, desenvolve por si mesmo a autonomia necessária para se tornar independente dos cuidados dos profissionais e familiares. Além disso, a equipe de saúde juntamente com os pacientes, pode construir novas relações, possibilitando assim, a reorganização da vida frente às condições de saúde, por meio da comunicação, do acolhimento, da escuta e de atividades criativas, estabelecendo novas relações sociais (Lussi, Pereira & Junior, 2006).

Enfoque fenomenológico em saúde

A partir da discussão realizada até o presente momento, vários autores já citados (Pitta, 2001; Moura & Silva, 2005; Pinto & Spiri, 2008; Canto & Simão, 2009) apontam para um atendimento técnico e objetivo em relação à saúde, tornando evidente a necessidade de se pensar num serviço que ampare o paciente, possibilitando uma discussão a respeito do sentido das vivências do acometido em seu processo de reabilitação por meio do enfoque fenomenológico na psicologia. Cabe ressaltar que a presente discussão não se propõe a desconsiderar a atenção técnica que é dada ao processo de reabilitação, pois se admite que sem ela todo o esforço empenhado seria comprometido ou incompleto. Trata-se pois de uma discussão acerca da dimensão subjetiva, tanto do profissional quanto do acometido.

Para tanto, é imprescindível compreender a concepção de saúde dentro da perspectiva fenomenológica, que se destaca como um processo ao invés de um estado, na medida em que o organismo se movimenta juntamente com o mundo que o cerca, transformando-o e atribuindo-lhe significado enquanto ele próprio se modifica, enquanto ser-no-mundo e ser-em-situação. Sendo assim, considera-se saudável a pessoa que utiliza sua capacidade criadora para atribuir sentido às suas experiências e se posicionar frente aos chamados da vida e do mundo (Augras, 2002 & Critelli, 2007).

Diante da brusca mudança na vida de uma pessoa que passa a ser acometida após algum acidente, doença, entre outras situações, é comum que em algum momento ela não veja perspectivas futuras. A esse engessamento frente ao futuro, quando a pessoa se depara com a ausência de sentido, a fenomenologia nomeou de angústia. Todavia, é por meio dessa angústia existencial que a pessoa passa a questionar a situação em que vive, ou seja, sua condição de saúde, encontrando motivação para buscar novos caminhos e atribuir novos sentidos à vida (Tenório, 2003).

Segundo a autora, ao passar por uma fase de sofrimento o acometido precisa primeiramente se sentir compreendido frente às suas emoções, sentimentos, e dificuldades envolvidas na reabilitação. Dessa forma, olhando para a vivência, torna-se possível a compreensão do paciente como um Ser íntegro e único, que deve ser respeitado pelos profissionais de saúde, entre outros agentes e cuidadores.

Diante de uma abordagem fenomenológica, cabe aos profissionais da saúde deixar de lado a caracterização do diagnóstico e olhar para a vivência do paciente. Entretanto, é necessário considerar que cada acometido possui sua singularidade, de forma que cada um experiencia esse período de diferentes maneiras, uma vez que as teorias e técnicas que muitas vezes levam a categorização do paciente não são capazes de alcançar a complexidade da experiência e da existência dessas pessoas (Tenório, 2003).

Ainda conforme a autora, a presente discussão aponta para a necessidade de mudança do olhar dos profissionais de saúde em relação aos pacientes, mesmo que somente em alguns momentos, deixando de lado seus próprios valores e conceitos, teorias e técnicas, para apreender e compreender a vivência do outro e os sentidos que ele atribui à mesma. Para tanto, é necessário desprender-se dos saberes a priori e qualquer forma de preconceito, respeitando a singularidade de cada paciente, bem como as particularidades de seu processo de reabilitação.

Monteiro, Rocha, Paz e Souza (2006) apontam para a necessidade da compreensão e atribuição de sentido dos profissionais de saúde em relação às suas próprias ações, tornando o serviço de saúde mais autêntico ao estarem atentos às experiências e aos sentidos da reabilitação dos pacientes. Dessa forma, o enfoque fenomenológico em saúde, permite um olhar diferenciado da realidade do acometido, das relações humanas, bem como do cuidar por parte desses profissionais. Entretanto, é preciso que o profissional esteja atento às suas próprias vivências para então compreender a vivência dos pacientes.

Ao se deparar com uma condição orgânica saudável, porém, ao mesmo tempo acometida por limitações, perdas e dificuldades, o paciente exige nova forma de tratamento por parte dos profissionais, pois o problema não se restringe à ordem física, compreendendo também a subjetividade humana. Contudo, os profissionais são desafiados a flexibilizar os modelos técnicos e objetivos em relação ao serviço de saúde e buscar um atendimento humanizado, em que o paciente possa falar abertamente sobre seu sofrimento, sobre a percepção de si após o acometimento de saúde, refletindo e buscando novos sentidos para sua vida, além de sentir-se aceito diante de sua condição, o que possibilita a adesão ao tratamento, podendo então, pensar sobre seu significado (Correia, 2006).

Segundo o autor, ao repensar sua condição de paciente em reabilitação pode libertar-se do próprio estigma, o que implica na aceitação do acometimento como parte de sua existência. Entretanto, essa nova vivência como acometido remete à angústia das impossibilidades, por isso é preciso que os profissionais estejam com os pacientes, ouvindo-os como os próprios relatores de sua experiência, deixando de lado os modelos de tratamento reducionistas que levam a fragmentação do ser humano, como se o problema estivesse nas partes e como se fossem passíveis de cura. O acometimento acarreta o sofrimento enquanto necessidade de atribuição de sentidos, ressaltando a importância de um atendimento que olhe para os significados dessa angústia existencial.

Gomes, Paiva, Valdés, Frota e Albuquerque (2008) afirmam, então, que o foco do atendimento à saúde, segundo a perspectiva fenomenológica, apreende a experiência, os sentidos e as percepções do paciente, permitindo melhor compreensão do processo de gestão e humanização dessa área. Essa mudança na postura profissional implica em uma atitude empática e de acolhimento ao colocar-se no lugar do paciente para compreender seus sentimentos, atitudes, pensamentos e ver o mundo da forma que este o cerca. A abordagem fenomenológica visa compreender como a consciência do paciente está sendo afetada por sua condição de saúde e como sua percepção a respeito da reabilitação afeta sua interação com o mundo e com os outros, sendo necessário por parte dos profissionais, um entendimento sobre sua história de vida, ou seja, desde o período anterior ao acometimento, sua experiência real após o mesmo e suas perspectivas futuras. Tal compreensão torna-se possível a partir do discurso do acometido, por meio do qual ele revela os sentidos de sua vivência, uma vez que o destaque do presente enfoque fenomenológico é a experiência de vida das pessoas.

Dessa forma, ao compreender o homem como um Ser íntegro, o enfoque fenomenológico vem auxiliar na garantia do direito a saúde, previsto na Constituição Federal de 1988. Além disso, sua concepção de homem como um Ser autônomo e responsável, que se constitui na interação com o mundo, permite a realização de um serviço baseado nas relações interpessoais, isto é, entre profissionais de saúde, pacientes e familiares, considerando a singularidade, a subjetividade e a história de cada pessoa na prática de um cuidado humanizado. Essa perspectiva de atenção à saúde permite a confiança e participação dos acometidos em seu próprio processo de reabilitação (Gomes et al., 2008).

Metodologia

Foi realizada uma pesquisa fenomenológica, que encontra-se inserida em uma perspectiva qualitativa, cuja proposta é compreender e descrever o fenômeno a ser estudado. Há uma busca pela compreensão individual, pela apreensão do sentido da vida humana como um todo, rompendo com a distinção entre sujeito e objeto de estudo, uma vez que ambos compartilham das mesmas características por meio da intencionalidade (Freitas, 2007).

Segundo Amatuzzi (2009), essa modalidade de pesquisa pautada nas ciências humanas é de cunho qualitativo e descritivo de vivências subjetivas, ou seja, se fundamenta no discurso do sujeito, buscando compreender os sentidos em relação aos contextos, habilitando o pesquisador em uma visão mais ampla do ser humano.

Para tanto foram realizadas entrevistas reflexivas como propõe Szymansky (2002), havendo a participação tanto do entrevistador como dos entrevistados. Ao pesquisador coube refletir sobre a fala dos participantes expressando a compreensão das mesmas, permitindo um movimento de caráter reflexivo por parte dos entrevistados, que ao se depararem com a própria fala expressa pelo entrevistador foram capazes de articulá-la em outras narrativas. Sentidos foram produzidos nesta interação por meio da representatividade da fala.

Segundo Yunes e Szymanski (2005), esse método de entrevista dinâmico e interativo proporciona o encontro interpessoal, incluindo a subjetividade de ambos, pesquisador e participante, possibilitando que juntos construam novos conhecimentos, contribuindo para o surgimento de informações objetivas e subjetivas, facilitando a condução do diálogo de forma que o tema foi aprofundado.

Após o contato com os participantes, a explicitação dos objetivos da pesquisa e a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, a entrevista iniciou com a seguinte pergunta disparadora “Como está sendo o processo de reabilitação para você?”, no intuito de abrir caminho para a significação desse período, considerando que acompanhei o desenvolvimento dos participantes em seus relatos, facilitando também a expressão em relação à seus sentimentos referentes à reabilitação.

Participaram da pesquisa quatro pacientes de uma clínica-escola de fisioterapia. Amélia e Nelson, são pessoas já atendidas por mim enquanto estagiária de psicologia, quando ainda participava do projeto de Extensão “Psicologia da Saúde: atendimento junto à clínica-escola de fisioterapia” (2008 à 2009). José Roberto e Guilherme foram indicados por outros estagiários, também integrantes do referido projeto de extensão. Apesar de já conhecer alguns pacientes, isso não interferiu na coleta e análise dos dados, pois a pesquisa realizada não considera conhecimentos à priori ou pré-julgamentos por parte do pesquisador.

Amélia tem 60 anos, é casada e tem filhos, considerando que duas de suas filhas, bem como uma de suas netas sofrem da Síndrome de Charcot Marie Tooth, diagnóstico mais conhecido como atrofia muscular, motivo pelo qual ela frequenta a clínica-escola de fisioterapia há cinco anos. Para ela o tratamento lhe permite continuar desempenhado suas funções como dona de casa e esposa, podendo cozinhar e limpar, entre outros afazeres domésticos. Apesar de dar continuidade às atividades diárias, Amélia luta para superar o próprio preconceito em relação a sua condição de saúde.

Nelson tem 32 anos, é solteiro e frequenta a clínica-escola de fisioterapia há aproximadamente 10 anos, considerando que anteriormente já frequentou outros serviços da mesma especialidade em decorrência de um aneurisma que sofreu aos 14 anos de idade, comprometendo seu equilíbrio, sua coordenação motora, entre outros acometimentos. Por um longo tempo, aproximadamente 16 anos, Nelson limitava suas atividades saindo de casa apenas para frequentar a fisioterapia e, às vezes, a igreja. Ele nunca gostou de ajuda para realizar suas funções se mantendo independente frente às dificuldades encontradas. Após muitos anos voltou a frequentar a escola, contexto que possibilitou a ampliação de sua rede social e de seu conhecimento.

José Roberto tem 53 anos, é casado e tem filhos. Ele participa do serviço de fisioterapia devido a um acidente que sofreu em 2009, caindo do telhado de sua oficina enquanto trocava uma telha, o que resultou em fratura craniana e de demais membros do corpo. Atualmente, como ele mesmo relata, apesar de algumas limitações se encontra quase 100% reabilitado, dando continuidade a sua profissão de mecânico, bem como a outras tarefas quotidianas, além de atividades em que passou a se empenhar após o acometimento de saúde.

Guilherme tem 52 anos, exerce a profissão de marceneiro, é casado e tem dois filhos. O motivo pelo qual frequenta a fisioterapia corresponde ao quadro de esclerose múltipla, diagnóstico descoberto em 2007 após sofrer um surto que resultou na perda do movimento do pé direito, sendo que desde então se angustia com as perdas e limitações do próprio corpo. Apesar das dificuldades, ele continua a exercer seu trabalho e busca readaptar todas as suas funções, até mesmo o próprio jeito de andar.

Cabe ressaltar que todos os nomes abordados na pesquisa são fictícios, considerando o sigilo ético em relação aos participantes.

Quanto à descrição das entrevistas, esta foi redigida considerando os relatos expressivos entre pesquisador e participantes, utilizando apenas trechos do discurso de maior relevância para a análise das vivências. Após a descrição de cada encontro, tais relatos foram apresentados aos respectivos entrevistados num segundo encontro denominado devolutiva, momento em que poderiam tanto discordar, concordar ou acrescentar novas narrativas à descrição.

A análise das entrevistas foi realizada com base na proposta de Amedeo Giorgi (1989) que considera quatro passos a serem seguidos:

  • A leitura geral da descrição, isto é, dos relatos expressivos, obtendo um senso geral de tudo que foi compreendido durante a entrevista;
  • Após obter o sentido do todo, a entrevista foi analisada com o objetivo de identificar as unidades de sentido, a partir de uma perspectiva psicológica focalizando o fenômeno a ser estudado, isto é, “o processo de reabilitação de cada participante”;
  • Em seguida foi realizado o delineamento das unidades de sentidos por meio da compreensão psicológica das mesmas, considerando-as unidades reveladoras do fenômeno;
  • Após a identificação, análise e compreensão das unidades de sentido foi redigida uma síntese de todas as unidades em relação à experiência de cada pessoa, permitindo a “estruturação da vivência de cada participante”.

A partir dos aspectos comuns da vivência dos sujeitos em relação ao processo de reabilitação, foi elaborada uma síntese geral das entrevistas, tal como propõe Amatuzzi (1996), ampliando a compreensão do processo de reabilitação em função de pessoas que, embora vivam situações distintas, expressaram significados semelhantes em seus relatos.

A discussão foi elaborada a partir do diálogo com outros pensadores a respeito dos aspectos abordados na síntese geral, entre outros considerados fundamentais para a problematização e compreensão da vivência de pessoas em processo de reabilitação.

Unidade de Sentido

Ao retomarmos o assunto dos estudos, Nelson afirma que quem o motivou foram duas professoras da clínica-escola de fisioterapia e o atendimento psicológico que realizou juntamente durante seu tratamento, possibilitando um espaço de fala que não havia encontrado na fisioterapia até então. Percebi o quanto falta estímulo e motivação de sua família, considerando que quando o conheci, Nelson não conversava nem mesmo com seus pais e irmãos, e quando falou em voltar a estudar, sua mãe lhe perguntou por que, afirmando que não seria necessário(Entrevista com Nelson).

Compreensão Psicológica

Nelson sempre encontrou maior apoio e motivação dos professores e estagiários da clínica-escola, o que permitiu que alcançasse suas conquistas. Entretanto, ele gostaria de receber o mesmo apoio de sua família e fica sentido quando esta não reconhece seus esforços. Além disso, Nelson distingue que o tratamento fisioterápico ajudou em sua reabilitação física e o acompanhamento psicológico na reabilitação psicossocial, na medida em que lhe abriu espaço para falar sobre seus medos, preocupações, angústias e desejos.

Discussão

Considerando os relatos dos entrevistados, bem como minha experiência ao estagiar na Clínica-escola de Fisioterapia, torna-se impossível pensar na reabilitação sem levar em conta alguns aspectos da vivência dos acometidos, como o apoio inter-humano, a aceitação da própria condição de saúde, a relevância de uma atividade durante o processo e a vontade de se atribuir sentido ao mesmo. Todas essas características do período de reabilitação encontram-se interligadas, de modo que o paciente pode experimentar uma ou mais delas, quando não todas, que se mostraram relevantes para o sucesso do tratamento e comuns na vivência dessas pessoas.

Oapoio inter-humano compreende um aspecto facilitador da reabilitação, uma vez que o paciente responde melhor ao processo se houver algum tipo de auxílio, seja da família, de amigos, da equipe de saúde ou de qualquer pessoa que esteja próxima para dar o suporte necessário neste período de angústias. É por meio desta característica que os acometidos encontram forças para superar o sofrimento, encontrando disposição e determinação pessoal para continuar as atividades do dia-a-dia e para aceitar a própria condição de saúde.

Percebi que em algum momento do processo de reabilitação todos os entrevistados passam pela dificuldade em aceitar a condição de saúde e como José Roberto relata, o apoio de sua família e de seus amigos, sua fé e determinação pessoal, o ajudaram a aceitar sua condição atual de saúde, levando-o a buscar novas formas de lidar com suas limitações, bem como novos sentidos para suas ações.

Guilherme, ao se deparar com a falta de apoio médico, buscou conhecer pessoas portadoras do mesmo diagnóstico, que de alguma forma lhe deram esperança e disposição para continuar buscando novos recursos, seja por meio de outros profissionais, outras técnicas de tratamentos ou demais medicamentos. Já na vivência de Nelson, pude notar claramente o estreito laço entre o apoio inter-humano e a aceitação, uma vez que somente voltando a estudar e fazendo amigos que ele conseguiu aceitar algumas condições, como o uso da bengala e consequentemente seu acometimento.

Como ressalta Tacca e Rey (2008), a escola é um contexto que permite os relacionamentos inter-humanos, facilitando a troca de conhecimentos, prestatividade entre os colegas, entre outros aspectos. Um dos receios de Nelson era não atingir suas próprias expectativas em relação ao desejo de aprender, pois se considerava uma pessoa com limitações, incapaz de responder ao processo de ensino como os demais alunos. Entretanto, ele se surpreendeu, pois a escola que frequentou superou o desafio entre a igualdade e a diferença, distinguindo o que deve ser igual para todos de suas necessidades particulares, como a dificuldade em copiar o conteúdo da lousa com agilidade.

O próprio tratamento fisioterápico, entre outras atividades realizadas durante a reabilitação, podem ser possibilidades de relações inter-pessoais quando os pacientes encontram auxílio necessário no atendimento da equipe de saúde. Entretanto, considerando os aspectos trazidos por Lussi, Pereira e Junior (2006), bem como pude perceber ao acompanhar alguns pacientes da Clínica-escola de Fisioterapia ao longo de dois anos, além do relato de Nelson, os tratamentos utilizados pelos serviços de saúde acabam sendo restritos e repetitivos, não atendendo as reais necessidades do paciente, além de reduzirem os acometidos a uma variedade de diagnósticos. Talvez por esse motivo, algumas pessoas não reconheçam o processo fisioterápico como parte da reabilitação, o que mostra a necessidade da Humanização do serviço de saúde.

A padronização do diagnóstico que promove a estigmatização do paciente corresponde a um dos fatores que mais inviabilizam o sucesso das técnicas terapêuticas adotadas pelos serviços de reabilitação, levando ao fracasso do mesmo, na medida em que não contribui nem considera o contexto real vivenciado pela pessoa. Compreende um modelo de tratamento centrado na doença, que acaba agravando ou ignorando a crise da pessoa frente a sua condição de saúde, pois não possibilita que o paciente construa sua autonomia, pelo contrario, podendo contribuir para que ele também tenha uma visão de si como alguém debilitado e incapaz (Lussi, Prereira & Junior, 2006).

Segundo os autores, um serviço de qualidade seria aquele que atende todos os pacientes de modo a considerar a singularidade de cada um, possibilitando que todos se beneficiem do processo de reabilitação conforme sua necessidade, sem construir hierarquias e excluir os acometidos por meio de suas maiores limitações e dificuldades, desconsiderando a possibilidade de reabilitação dos mesmos. Deve ser um serviço de produção afetiva na rede de relações sociais dos pacientes, proporcionado pela equipe de saúde, familiares e pela comunidade, incentivando o desenvolvimento de habilidades e adaptações necessárias.

Para Buber (2007), o relacionamento inter-humano se estabelece no âmbito do conhecimento íntimo, ou seja, no contado do profissional ou de qualquer outra pessoa, permeado pela vivência do paciente, de modo a ser tratado e tratar o outro a partir das experiências de cada um e não como um objeto. Dessa forma podemos fazer uma crítica construtiva à objetividade do serviço de saúde que, muitas vezes, se propõe apenas a analisar o paciente.

Amélia tem um discurso diferenciado em relação aos demais participantes da pesquisa, pois ela é a única que atribui todo o sucesso da reabilitação ao apoio profissional já que não o encontra na família ou nos amigos, atribuindo sua condição de saúde a uma vontade de Deus. Apesar de reconhecer que o período de férias prejudica o tratamento dos pacientes pelo tempo que ficam sem atendimento, frequentar o serviço de saúde é a atividade mais relevante em sua reabilitação, o que a permite atribuir sentido a sua vivência enquanto portadora de uma deficiência genética.

Entretanto, há uma divergência nas relações inter-humanas, que pude observar na vivência de Amélia, entre a vida a partir do que realmente se é, como portadora de atrofia muscular, e a vida a partir da imagem, isto é, do que se quer parecer ao olhar do outro (Buber, 2007). Amélia não está conformada com sua condição de saúde e sente vergonha de si mesma, pois, na verdade gostaria de ser alguém comum que pudesse usar roupas sociais e sapatos de salto como anteriormente, essa seria a imagem que gostaria de passar às pessoas para que não a olhassem com estranheza ao reparar em seu jeito de andar. Entretanto, uma das preocupações do autor é que as pessoas passem a se importar apenas com a aparência, esquecendo-se das relações inter-humanas, como ocorre com Amélia, pois ao se incomodar com a própria imagem não permite que outras pessoas tomem conhecimento de sua vivência ao considerar qualquer aproximação como “curiosidade” e “falta de bom senso”, se isolando do convívio social ao deixar de frequentar lugares como a igreja, mercados, praças, entre outros.

Dessa forma, aaceitação, também característica da vivência das pessoas que buscam a reabilitação, corresponde a outro ponto de discussão, considerando que após refletir sobre sua condição de saúde e compreendê-la, o paciente pode optar por aceitar a mesma ou negá-la. A partir da aceitação, a pessoa consegue atribuir sentido as suas ações, sentimentos, pensamentos, ou seja, ao momento em que está vivendo, mesmo que este esteja implicado de sofrimento. Cabe ressaltar que, a aceitação, a atribuição e a busca de sentido, bem como as atividades daí decorrentes, não são processos separados ou lineares, como se um iniciasse na medida em que o outro terminasse. Refletindo sobre a vivência e história de vida dos participantes, podemos dizer que esses elementos da reabilitação ocorrem simultaneamente e são complementares, isto é, na medida em que aceito minha condição, começo a atribuir sentidos e a explorar novas atividades, que reafirmam e incentivam a aceitação, e assim por diante.

A aceitação pessoal depende também da aceitação do outro, se a família e os demais contextos sociais acolhem ou tratam o acometido com negligência. Ao sentirem-se acolhidos, as pessoas que sofrem de algum comprometimento passam a vislumbrar novos caminhos, saindo de casa e livrando-se da vergonha, do receio de serem discriminados e até mesmo da culpa que carregam por determinada condição de saúde (Rogers, 1983; Teixeira & Guimarães, 2006).

Ao encontrar apoio durante o atendimento fisioterápico e psicológico Nelson começou a frequentar a escola, momento em que sua vida mudou e ele passou a aceitar melhor sua condição ao compreender que era capaz de desempenhar funções como os demais colegas que conheceu, ou seja, estudar e aprender. Já Amélia, talvez ainda não tenha se sentido aceita pelos olhares que tanto a incomodam, impedindo-a de conviver com outras pessoas em diferentes lugares, mas sem dúvida, isso é um questionamento importante em seu processo de reabilitação.

Todos os que sofrem de algum comprometimento de saúde esperam ser vistos com igualdade e quando o acometimento é considerado apenas outra forma de viver a vida, ao invés de algo aversivo, os pacientes sentem-se aceitos, passando a compreender as próprias limitações (Teixeira & Guimarães, 2006). No caso dos entrevistados, não se trata apenas da relevância em serem vistos com igualdade, mas eles gostariam de ter suas potencialidades reconhecidas – as mesmas de antes e as novas que surgem com a ressignificação.

Considerando que a fé foi um dos aspectos relevantes em relação à aceitação da condição de saúde, podemos considerá-la como outro tipo de relação inter-humana, uma vez que compreende o vínculo entre a pessoa e um Ser maior, no caso dos entrevistados, a fé em Deus. Esse aspecto aparece mais claramente na vivência de José Roberto, uma vez que ele considera a fé em Deus como elemento primordial para se atingir a realização no processo de reabilitação, bem como em qualquer momento da vida. O apoio necessário durante sua reabilitação também está embasado na relação com Deus, alguém que o protege e que pode confiar, além de sua família e de seus amigos.

Segundo Amatuzzi (1999), a fé permite a pessoa ver o mundo de forma transcendente, isto é, para além de si mesmo, considerando os aspectos sociais e não apenas pessoais. Frankl (1985) aponta para a necessidade da auto transcendência, na medida em que ao preocupar-se com alguém ou com alguma causa que não diga respeito a si mesmo, há possibilidade de superar o sofrimento e atribuir sentido a própria vivência. A fé seria uma forma de se aproximar dos aspectos da vida e do mundo, principalmente do que é incompreensível, bem como um meio de se aproximar das situações quotidianas que acarretam mudanças na história dos entrevistados, uma forma de aceitar e aprender a conviver com o acometimento de saúde.

Amatuzzi (1999) aponta para os pensamentos de Erich Fromm a respeito da religiosidade, sendo que um de seus aspectos seria a fé como necessidade de sentido e paralelamente de uma dedicação. É diante da necessidade que o acometido busca harmonia por meio da fé para o que foi perdido. Entretanto, a fé não está necessariamente relacionada à religião, sendo considerada também um caráter pessoal em relação à situação vivida, como a determinação, disposição, confiança e firmeza. A fé do acometido o permite enxergar novos caminhos e possibilidades frente às limitações encontradas, aceitando sua condição de saúde e o processo de reabilitação como algo que lhe traga novas alternativas ao invés de se prender ao fato trágico de um acidente ou doença. A disposição e confiança pessoal permite a continuidade das atividades quotidianas, mesmo tendo que adaptar-se a nova vivência, mantendo-se firme frente às dificuldades, podendo então, superar o desespero.

Ao se deparar com a angústia que surge frente à perda, com as dificuldades e limitações encontradas após o acometimento de saúde, o paciente é chamado a atribuir sentido para sua nova condição de vida, o que requer todo um reajuste de suas ações e formas de conceber elementos e relações do seu cotidiano, uma busca constante de ressignificar os aspectos da vida envolvidos com a perda e com o acometimento.

Essa vontade de sentido compreende outro ponto de discussão e aparece na vivência de todos os entrevistados. José Roberto, por exemplo, descobriu outras atividades que lhe faziam maior sentido que as desenvolvidas anteriormente, deixando um pouco de lado sua profissão de mecânico para dar aulas de música, bem como escrever um livro sobre sua história de vida. Ele acredita e atribui toda sua vontade de viver à fé em Deus, passando também a valorizar mais sua família.

Segundo Frankl (2005), a busca por sentido compreende a busca por possibilidades de se modificar a realidade vivida. Cada sentido é único, porém, mutável, por isso, o autor aponta para a capacidade do homem em atribuí-los em qualquer momento da vida, seja frente às satisfações ou frustrações, mesmo ao enfrentar uma situação sem esperança, ao sentir-se vítima do próprio acometimento de saúde sem poder contar com ajuda ou mesmo sem poder mudar uma realidade inevitável. No caso de Guilherme, portador de esclerose múltipla, quando não é mais possível mudar as circunstâncias pode-se mudar a si mesmo, pois a cada limitação encontrada renova sua vivência, readaptando funções, ações, sentimentos entre outros aspectos. Mudar a si mesmo significa crescimento, renascimento e muitas vezes, transformar o sofrimento em conquistas.

Todos os participantes, após enfrentar a crise existencial frente essas mudanças físicas, psíquicas e sociais, redescobrem sentidos, como ocorreu também com Nelson, pois o retorno aos estudos lhe proporcionou novamente bem-estar, na medida em que passou a se sentir útil, isto é, em movimento rumo ao crescimento e à autonomia, considerando que há muitos anos, a única atividade que desenvolvia era a fisioterapia, exercitando-se apenas fisicamente, passando também a exercitar-se intelectualmente. Além disso, a oportunidade de fazer novos amigos fez com que ele se enxergasse uma pessoa como as outras, superando o receio que tinha de sofrer qualquer tipo de discriminação ao frequentar ambientes sociais.

Segundo Bello (2006), para nos orientarmos diante da experiência do dia-a-dia é necessário saber o sentido de nossas ações, mesmo que tenhamos maior dificuldade em identificá-los frente a algumas circunstâncias. A autora fala sobre os pensamentos de Husserl, afirmando que nem todo sentido é imediatamente compreensível, considerando que alguns pacientes, diante da trágica situação após um acometimento de saúde, não conseguem encontrá-lo ou mesmo reconhecê-lo em sua vivência. Entretanto, a compreensão do sentido é uma capacidade humana, sendo que todos os participantes da pesquisa em questão conseguiram dar continuidade as suas tarefas, mantendo-se ativos ao invés de tornarem-se vítimas da condição debilitada de saúde, com exceção de Amélia que ainda tem algumas questões pessoais a enfrentar. De certa forma, o que possibilitou essas pessoas continuarem movimentando-se em busca de novas alternativas para sobreviver e se reabilitar não foi apenas o fato de existir, mas de atribuir sentido a própria existência.

A busca por sentido na vida é uma especificidade humana frente aos sentimentos de incapacidade ou inutilidade, isto é, diante de uma crise existencial como o acometimento de saúde. A saúde que até então era o meio pelo qual se alcançava os objetivos, passa a ser um problema existencial para que a pessoa alcance seus desejos, tendo que reorganizar e ressignificar sua vida de forma a criar novos projetos frente à condição que se apresenta. Entretanto, há possibilidade do surgimento da falta de sentido para a vida num momento de confusão, como este, aumentando o vazio existencial (Frankl, 2005), pois ao contrário do relato dos entrevistados, outros pacientes ao se depararem com o acometimento de saúde perdem o sentido da vida prendendo-se ao próprio sofrimento, não conseguindo reagir às dificuldades encontradas no processo de reabilitação. É a vontade de sentido que permite a pessoa movimentar-se em busca de novos caminhos, independente da situação que se apresenta e dos fatos que tenha que enfrentar.

Para Rogers (1983) a vida é sempre um processo ativo e não passivo, na medida em que todo ser vivo tende a auto-realização, ou seja, enquanto houver vida o organismo movimenta-se em busca de recursos para se manter e crescer. No caso dos pacientes, independente do acometimento, se há ou não estímulos vindos de dentro (disposição, determinação) ou de fora (apoio familiar, de amigos e da equipe profissional), dos ambientes favoráveis ou desfavoráveis (família, escola, serviço de saúde, sociedade), a pessoa busca sua realização e independência frente à condição de saúde. Entretanto, essa tendência realizadora é positiva na medida em que a pessoa se mantém em movimento continuo não estando vinculada apenas a escolhas positivas, como dar continuidade ao tratamento, ao trabalho ou ao estudo, considerando que a depressão e a comodidade, por exemplo, também podem ser meios que a pessoa encontra para lidar com a circunstância que se apresenta.

Frankl (2005) ainda afirma que há três vias pelas quais é possível encontrar sentido para a vida, isto é, por meio do trabalho, sentindo-se responsável por uma atividade que requer conhecimento e ação; pelo amor, valorizando as relações pessoais; ou pelo sofrimento ao se dar conta da realidade inevitável que o cerca, tomando uma atitude frente ao mesmo.

O homem está sempre se movimentando em busca de um sentido e respondendo às circunstâncias que a vida lhe apresenta. O acometimento de saúde pode frustrar o desejo de sentido de trabalhar, estudar, tocar, dirigir, entre outras atividades, porém, o sofrimento é a condição pela qual torna-se possível ressignificar determinadas atividades, assim como criar outras conforme as possibilidades que se apresentam, considerando que tanto a frustração como a satisfação das necessidades quotidianas podem levar o homem à vontade de sentido (Frankl, 2005).

O autor acima afirma que a vontade de sentido é uma manifestação da pessoa frente às circunstâncias que a vida lhe apresenta, sendo esta uma necessidade distinta das demais, podendo ser considerada como um indicativo de saúde mental na medida em que a pessoa consegue reorganizar sua vivência superando a situação problema. Por outro lado, a falta de sentido indica uma instabilidade emocional ao lidar com readaptações, já que a vontade de sentido pode ser considerada como um valor de sobrevivência, diante do qual a pessoa é capaz de reorientar-se para sua vida no presente e no futuro. A sobrevivência ou o bem-estar frente à condição de saúde que se apresenta depende da capacidade do paciente em orientar sua vida em direção a alguma atividade, como o estudo na vivência de Nelson, o próprio tratamento no caso de Amélia, o trabalho na experiência de Guilherme; ou a alguém, como fez José Roberto em relação a sua família e amigos, passando a valorizá-los mais após o apoio que encontrou.

Dessa forma, outro ponto a ser discutido é a relevância das atividades desenvolvidas no dia-a-dia dos pacientes, permitindo a ampliação da autonomia e das relações pessoais como afirma Guilherme, pois o trabalho para ele é importante na medida em que lhe permite conhecer pessoas, além de sentir-se útil e capaz frente a suas limitações.

Conforme Teixeira e Guimarães (2006), o trabalho é visto pelo homem como uma das atividades que o permite inserir-se no meio social ao estabelecer relações de troca com outras pessoas, seja por meio de bens, remuneração, afetividade entre outros aspectos. Além disso, a pessoa sente-se útil ao desempenhar sua função e capaz de gerir a própria vida, como Guilherme que após o acometimento de saúde continuou atuando como marceneiro e sustentando sua família, o que o deixa orgulhoso de sua própria disposição. A continuidade do seu trabalho lhe possibilitou manter sua identidade como marceneiro, pai e esposo que auxilia nas despesas de casa, bem como de uma pessoa que, mesmo sendo portadora de uma doença degenerativa como a esclerose, luta por seu espaço na sociedade. Independente das limitações do paciente em reabilitação, o trabalho, dentre outras atividades, são responsáveis pela qualidade de vida e bem-estar físico, psíquico e social, por isso devem ser incentivadas.

Segundo as autoras, após o acometimento de saúde as atividades quotidianas são readaptadas aos poucos conforme o paciente percebe suas limitações, desde as mais básicas como sentar-se, trocar-se, locomover-se, até as funções mais específicas, como trabalhar, estudar, cozinhar, praticar esportes, entre outras, tendo que acostumar-se com um novo corpo. Entretanto, o retorno às atividades da vida diária nem sempre depende apenas da determinação dos acometidos, pois, alguém que trabalha em uma empresa, muitas vezes deve passar pela readaptação de funções quando não trocá-las, mas para isso, a própria empresa deve compreender as limitações de seu funcionário, acolhendo-o e respeitando-o.

É muito comum o despreparo de empresas, escolas entre outros contextos ao ter que recepcionar portadores de alguma deficiência ou mesmo pessoas com limitações físicas, não havendo acesso ou estrutura adequada, levando ao cuidado exagerado ou ao descuido, o que dificulta a reinserção de quem sofre de algum comprometimento de saúde (Teixeira & Guimarães, 2006). Dessa forma, podemos pensar que os entrevistados como José Roberto e Guilherme conseguiram retomar suas funções, como mecânico e marceneiro, pois trabalham por conta própria; Nelson conseguiu voltar a estudar por meio de sua determinação, mas também porque encontrou uma escola e amigos que o acolhessem e respeitassem suas dificuldades, bem como seu ritmo de aprendizagem. Não basta a força de vontade do paciente em atribuir sentido para sua condição por meio das suas atividades, mas também o preparo da sociedade em incluir os acometidos, reconhecendo suas habilidades.

Podemos dizer que o tripé que alimenta a reabilitação da pessoa (aceitação, vontade de sentido e atividade) é potencializado e alimentado pelo tipo de relação que a pessoa estabelece com seus pares significativos (família, amigos, profissionais, dentre outros). Dessa forma, percebo que a produção de sentido diante da nova condição de saúde, ou seja, o aspecto que permite a pessoa continuar em movimento está estritamente relacionado com as atividades desempenhadas no dia-a-dia, que se tornam possíveis por meio da aceitação do acometimento, facilitada pelo apoio inter-humano, que também possibilita a disposição e determinação para que a pessoa continue a produzir novos sentidos frente à novas limitações.

Dessa forma, as vivências dos entrevistados nos mostram que o processo de reabilitação deve respeitar a singularidade e a totalidade das pessoas acometidas, bem como levar em consideração os aspectos acima discutidos, ou seja, a aceitação, a atividade e a vontade de sentido, enquanto alimentados por relações inter-humanas que, como dito anteriormente, potencializem a atualização da pessoa e a descoberta de novas formas de existir, no caso dos acometidos, de se reabilitar. Ou seja, a reabilitação deve partir do pressuposto ético da promoção da autonomia, no sentido de que é a própria pessoa que se reabilitará, sendo que qualquer imposição exterior (heteronomia) representaria um descaso. Dessa maneira, o profissional que se pretende pensar a reabilitação, deve pensar em formas de facilitar a autonomia das pessoas que buscam tal processo. Cabe dizer então que a pessoa pode ser reabilitada, mas o mais importante é que ela se reabilite (Frankl, 2005).

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