O Bilingüismo no Desenvolvimento Cognitivo da Criança

 O Bilingüismo no Desenvolvimento Cognitivo da Criança

Paula Linhares Angerami

Diz a sabedoria popular que é mais fácil se aprender uma nova língua na infância. E por mais paradoxal que possa parecer é fato que a criança, mesmo não dominando ainda sua língua materna, tem mais facilidade para aprender uma nova língua. E o que é ainda mais fascinante, é que esse aprendizado ajuda  em seu desenvolvimento cognitivo. Ou seja, a abstração necessária para o aprendizado de uma nova língua irá fazer com que essa criança concomitantemente também desenvolva sua condição intelectual.

Estudos recentes mostram que o desenvolvimento intelectual e cognitivo se dá principalmente através de exercícios ou de aprendizados que exija necessariamente a busca da condição de abstração. É dizer que atividades que exigem grande esforço de abstração estão na realidade levando essa criança a adquirir uma condição intelectual que seguramente irá ajudá-la em outras atividades ao longo de sua vida. E de outra parte, como se não bastasse esse detalhamento do desenvolvimento intelectual o aprendizado de uma nova língua nesse período torna-se eficaz com enraizamento para toda a vida. Exemplo disso é a preservação de língua Guarani no Paraguai, onde apesar de língua oficial ser o espanhol o Guarani é preservado a partir dos ensinamentos efetivados na tenra infância. Nesse momento, então, os pais concomitante ao aprendizado do espanhol ensinam aos filhos o guarani propiciando, dessa maneira, que o Paraguai seja o único país de toda a América a preservar sua língua original. No Brasil, embora a quase  totalidade de nossos topônimos sejam de origem Tupi – Anhangabaú, Itanhaém, Ipê, por exemplo -, não temos mais qualquer relação com nossa língua original. E isso além do empobrecimento de nossa própria história é também a negação de nossas origens.

A criança ao adquirir uma nova língua em nossa realidade atual está também se preparando para um universo simbólico mais rico e diversificado. O que significa dizer que estará se instrumentalizando com subsídios muito validados em sua trajetória de vida. Aprender uma nova língua significa também se abrir para um novo patamar cultural em que a realidade dessa língua com suas características, com os povos que a utilizam e com uma série infindável de detalhes se descortinará para essa criança que igualmente está descobrindo o mundo e se desenvolvimento cognitiva e intelectualmente.  E podemos dizer ainda que a essa criança esteja sendo propiciada uma oportunidade de enriquecimento cultural ímpar.

É sabido também que aqueles estudantes que exibem êxitos nas universidades tiveram sua base intelectual e cultural alicerçada na infância e na adolescência. Ou seja, é novamente um novo prenuncio de uma antiga sabedoria popular que diz: “quem não traz da infância na vida é que não adquire”. Uma nova língua na infância é efetivar a responsabilidades de pais conscientes de seu papel no desenvolvimento cognitivo intelectual de seus filhos.

Paula Linhares Angerami é pedagoga pela PUC-SP, mestre em educação pela Montclair State University, e doutorando em Filosofia da Educação pela UNESP/Marília. Trabalha com Filosofia e Inglês para Crianças.