Minha primeira cliente mastectomizada e o meu iniciar como psicoterapeuta existencial.

copyright©sávio_gomes2006

 

Sávio Roberto Moreira Gomes

RESUMO

 

         Este trabalho tem como objetivo mostrar as dificuldades pessoais e angústias sentidas no meu primeiro atendimento psicoterápico de uma cliente mactectomizada.         Numa análise reflexiva, aponta equívocos e acertos, bem como a insistente luta na busca do conhecimento teórico com base na fenomenologia existencial, suficiente para colocar-me nas pegadas do caminho daquilo que iria ser a minha iniciação no ofício de “artesão da palavra”, ou “psicoterapeuta existencial”.

Palavras-chave: Psicoterapia, Fenomenologia, Existencialismo.

 

 

My first customers mastectomized and mine to begin as existential psychotherapist.

 

ABSTRACT

 

This work has as objective shows the personal difficulties and anguishes felt in my first psychotherapeutic service to a customer mactectomized.

In a reflexive analysis, it points misunderstandings and successes, as well as the insistent fight in the search of the theoretical knowledge with base in the existential phenomenology, enough to put me in the footprints of the road of that that would be my initiation in the occupation of “artisan of the word”, or “existential psychotherapist.”

 

Keywords: Psychotherapy, Phenomenology, Existentialism.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

INTRODUÇÃO

 

         Se alguém me perguntasse como se faz (forma) um músico, como este se torna um virtuose, eu responderia:

__Tal como se faz (forma) um psicoterapeuta.

O músico pode ter sido um ótimo estudante, ao dominar a História da Música, saber todas as minúcias do porquê de cada nota do pentagrama, ser um especialista em Chopin, Mozart, Bach, Beethoven, Villa Lobos, Sibelius, etc.

Deverá ser um executante de algum instrumento, por exemplo, um violino. Mesmo assim, com todos os certificados, títulos e técnicas, não significam exatamente que seja um “músico” na plenitude da expressão. Há que ter sensibilidade, capacidade de compreender além do instrumento, interpretar subjetivamente “as coisas mesmas” do que deve ter sido a intenção do autor daquela peça.

Na sua interpretação, deverá ter captado o máximo da essência que aquela melodia conduz. Saber a exata pressão das cordas, a extensão absoluta do “vibrato”, a maestria do “stacatto”, a duração tão perfeita quanto subjetiva de cada nota musical, ser ainda exímio nas “pausas” e sublime no tempo do silêncio.

Diremos, então, que este músico executa Arte, que além dos estudos teóricos e técnicos, ele teve que desenvolver o contato direto com a expressão máxima de sua essência musical, ultrapassando intimamente limitações pessoais, só possíveis a ele próprio. Assim, ele transcende ao segurar o arco do violino: não se trata de um segurar qualquer, trata-se de um momento mágico, onde só ele sabe a quantidade exata, a sutileza, a precisão e a sensibilidade deste segurar.

O mesmo se dá com o “psicoterapeuta”:

Pode ter um excelente arcabouço teórico, haver estudado técnicas, ter feito os melhores cursos, assistido as mais nobres conferências e congressos, mas isto não significa que seja suficiente para que ele próprio se sinta um psicoterapeuta.

Seu instrumento é a fala e a escuta, e só será possível na forma de dueto, como numa ópera. Há, no entanto, que dominar o silêncio com precisão talvez maior do que o mais virtuoso músico.

Como o músico, o praticar de sua Arte deverá ultrapassar o sentido da técnica, não deverá desprezá-la, mas, ultrapassá-la.

O músico leva a vantagem das notas do pentagrama, o psicoterapeuta também terá que saber interpretar, compreender, executar sua arte, porém, diferentemente do músico, e aqui está a desvantagem, o mais das vezes, as notas principais encontram-se no verso da partitura, e, além disso, jamais saberá quando termina aquela melodia, se é que termina um dia.

Eu, aprendiz de artesão no ofício da psicoterapia, no final da graduação, ainda não sabia ao certo como tocar o meu instrumento, estava confuso e receoso. Faltava-me um aprofundamento maior numa base teórica coerente e consistente, além disso, faltava-me o alcance, a sensibilidade de saber a tessitura da arte de compreender.

Este é um relato sincero de como me tornei um psicoterapeuta existencial.

 

 

 

A ANGÚSTIA DE ESTAR LANÇADO NO DESESPERO DO OUTRO

 

Estava no penúltimo período na graduação de psicólogo, na Universidade Estácio de Sá, Campos dos Goytacazes, na fase inicial de estágio, sendo supervisionado para a qualificação de “psicólogo humanista existencial”.

Fiquei muito ansioso e preocupado. Havia sido solicitado a “dar um apoio” a uma cliente que havia sido submetida a uma mastectomia radical da mama esquerda, onde também foram retirados linfonodos e importantes músculos peitorais. Fazia pouco mais de uma semana que a cliente sofrera a severa intervenção cirúrgica, e acabara de ser transportada para a sua casa.

Era evidente que a mesma não poderia locomover-se até o Serviço de Psicoterapia Aplicada, local da Universidade, onde fazíamos o estágio. Apesar de havermos aprendido sobre um ‘locus’ para iniciar uma relação terapêutica, o denominado “setting terapêutico”, a situação exigia uma alternativa. Assim, comuniquei ao meu Supervisor a minha decisão de ir à casa da cliente. No entanto, este “atendimento” ocorreria sem a “supervisão”, porque estaria descaracterizado do referido “locus”, portanto, sem possibilidades para o “registro de freqüência de estágio”.

O mais próximo de “experiência” que eu possuía com pessoas enfermas, consistia em um estágio que havia feito no Hospital Ferreira Machado, na mesma cidade, onde travei meus primeiros contatos com pacientes portadores de HIV, pacientes transplantados (com e sem sucesso), e alguns pacientes em “atendimento paliativo”[1], leia-se, “de prognóstico reservado”, ou, numa denominação mais dura, “pacientes terminais”. Também tive interesse em conhecer mais de perto, os pacientes de hemodiálise numa unidade com atendimento público. Essa era toda a minha “grande” experiência, no lidar com a situação da dor do “outro”.

No que diz respeito ao conhecimento teórico, as “leituras obrigatórias” na supervisão que pretensamente nos dariam a “base” para nos tornarmos “psicólogos humanistas existenciais”, ainda estariam muito longe de poder atender a um desafio de tal amplitude, e eu podia pressentir isso.

O acesso a uma primeira leitura relacionada ao câncer, ocorrera em outra disciplina, um ano antes do período de estágio e das “leituras obrigatórias”. Tratava-se de um texto de Chiattone (2001), intitulado, “Uma Vida para o Câncer”, do qual eu e uma colega preparamos um trabalho para um seminário em sala de aula. Na mesma ocasião, um segundo texto, “Pacientes Terminais: Um Breve esboço”, do Angerami-Camon (2002) iria desencadear profundas reflexões, principalmente na questão “relacionamento terapêutico”, no quesito, “como será meu comportamento, perante questões tão profundas, como suportarei o olhar de quem vive a falta de sua própria perspectiva existencial”? Nestes dois textos estava o relato do existir humano, uma síntese da angústia na dialética que se situa entre “o viver e o morrer”.

Tendo agora que me fazer presente num caso real, fiquei com um sentimento terrível por não haver optado pela disciplina “Psicologia Hospitalar”, então, fui em busca de toda a bibliografia possível, e como “quem procura, acha”, fui descobrindo livros[2], os quais devorava incansavelmente. Como se percebe, as leituras mencionadas, não tinham nenhuma relação[3] com a formação “típica” de um psicólogo humanista existencial, e eu me encontraria mais distante ainda se ampliasse esta denominação para “fenomenologista-existencial.” Até aquele momento, o mais próximo que conhecia desta base teórica, era um pouco sobre Husserl e seu conceito de Fenomenologia[4], Redução Fenomenológica[5], e algumas noções de Kierkegaard[6].

Além de toda esta “trajetória”, existia uma questão pessoal não resolvida: Ainda não havia encontrado um porto para a minha própria perda, pois a minha mãe havia falecido recentemente, e o possível estar-com uma pessoa com câncer, automaticamente iria mexer com minhas próprias angústias relacionadas a sofrimento e morte.

Mas, alguma coisa me movimentava. Fui à casa da paciente. Sim, como psicólogo deveria utilizar o termo “cliente”, mas, naquele primeiro momento, para mim, ali estava uma paciente de “alguém médico”. Eu não sabia exatamente “quem” eu era. Não era um psicólogo, pois ainda estava em formação. Não era nem mesmo um “estagiário”, pois na rígida visão acadêmica, não estava no “setting terapêutico”, no máximo, estava ali com a permissão “oficiosa” do meu supervisor.

Não importava o papel que internamente pudesse representar. Por parte da cliente, ali em sua presença estava um psicólogo, que, supostamente, deveria ou poderia ajudá-la.

No entanto, jamais esquecerei o impacto que me causou a sua primeira fala:

“__Doutor[7], enfim a minha vida terá um descanso. Sei que ao morrer vou descansar, ficar livre deste mundo de lágrimas para sempre. Mas, tenho medo, não propriamente da morte, mas de sofrer muito até que ela aconteça”.

 

A morte fala da perda, a perda fala da dor, e a dor assusta. Quando a morte não nos toca de perto, podemos encará-la intelectualmente como uma coisa que acontece a todo o mundo, chega a ser algo familiar. Quando ela nos toca mais proximamente, torna-se uma coisa estranha, gera um espanto. (POMPÉIA; SAPIENZA, 2004, p. 82).

 

DESCOBRINDO O CUIDADO COMO SOLICITUDE

O que exatamente me mantinha ali, certamente não era um ato de coragem, mas também não era um ato de “caridade”. Só iria saber mais tarde, que o que estava se passando no íntimo de minha própria angústia, tinha nome e ocorre normalmente com o ser humano; estava no “cuidado[8] como solicitude”, como explicaria Heidegger (2006, pp. 263, 265 et. seq.):

A solicitude é mostrada como um estado de ser do ser-aí. Há muitas possibilidades do dasein (ser-aí) [9], e entre estas, o cuidar de si e dos outros, a relação com o mundo; a consideração e a paciência estão inseridas na solicitude. Trata-se, então, do cuidado, que o ser-aí terá como ser-com em relação (ser-no-mundo) aos outros e que receberá também no seu existir. (Heidegger, 2001, p.182).

Este cuidado, para Heidegger, traz o duplo sentido como possibilidades conflitantes, uma vez que o abrir-se ou fechar-se do ser-aí, está referido no seu-ser-com-os-outros, como modo de ser. Assim, é o cuidado tendo como motivador, a pre-ocupação, uma intencionalidade prévia, algo que se situa acima do instinto e do racional calculante, que se situa diante de si mesmo, por sua constituição como pre-sença.

Talvez seja esta condição pré-ontológica, isto é, este procedimento só possível ao ser-aí, que sustente e mantenha a continuação da humanidade. Este entendimento prévio é o que seria capaz de nos manter existentes. Se pensarmos a história da humanidade e seus conflitos sociais, suas catástrofes, epidemias, etc., e apenas considerássemos o “instinto de conservação” do conceito naturalista-positivista, provavelmente a raça humana já estivesse extinta. Há, portanto, uma luta individual do dasein pela sobrevivência e ao mesmo tempo, da ocupação de sua espacialidade entre os demais seres.

O cuidado na forma de solicitude (fürgsorge) é o cuidado da sobrevivência da própria espécie humana, é o “cuidar” da humanidade, é estar em “estado de solicitação”. O Dasein como ser-com as pessoas que vem ao encontro, nunca como um sujeito para si. Pela solicitude, cuida, preserva, compreende o que é da espacialidade geral.

Em duas palavras, este conceito nos indica que antes do “cuidado”, num sentido ôntico, num sentido existenciário, há o cuidado, no sentido ontológico, no sentido da existencialidade.

À medida que naquela modesta sala, ocorriam “escuta e fala”, iriam surgir pouco a pouco o desenrolar e o desvendar da angústia de Clara[10], suas perplexidades, seu espanto perante a facticidade interpretada como “fatalidade”, sua “incapacidade” de olhar-se no espelho e presenciar o corpo mutilado, a ambivalência da sua própria temporalidade, ora se apresentando como uma antecipação da presença da morte, ora com a incerteza/certeza de “alguma possibilidade”, através do intenso tratamento médico que se seguiria.

E ali naquele ambiente, perante o desespero humano de quem se sente tocado pelo bafo da morte, também surgiu imediatamente toda a minha urgência pessoal, se poderia ou não ser um psicólogo. Se desistisse naquele momento, se recusasse, estaria me condenando ao afastamento definitivo de minhas próprias possibilidades. Então eu percebi que iria deixar surgir algo que era uma coisa interior, algo que certamente teria que ser lapidado. Deixei, assim, Clara manifestar suas palavras, e expressar sua dor:

 

Na psicoterapia, a expressão da dor manifesta através da palavra ganhará contornos específicos que trazem em seu bojo a própria dimensão do sofrimento manifesto pelo paciente. É pela palavra que seu constitutivo de sofrimento ganhará formas que serão lapidadas artesanalmente pelo psicoterapeuta para, então, ganhar novos contornos e se transformar, assim, em anseio libertário. É dizer que a arte da psicoterapia exigirá que sejamos artesãos na plenitude do termo. (Angerami-Camon, 2005, p. 30).

 

Senti a importância e o peso da expressão “acalentar”, ao mesmo tempo, de como era importante para ela deixar sair todo aquele sentimento, a angústia anterior da cirurgia, ainda represada e não manifestada. Suas expectativas, o medo da dor física e psíquica, a idéia de abandono, um possível renunciar de sua feminilidade, e o nada-saber sobre suas reais chances de recuperação.

O que me ocorreu dizer, foi uma tentativa de mostrar-lhe que a cirurgia era um iniciar de um tratamento, mas que tinha razão de sentir-se fragilizada, enfraquecida e confusa, principalmente, por ter sido tão recentemente. Certamente falei ainda umas coisas, cometi umas bobagens, pois não sabia nada de concreto sobre o câncer. Assim, devo ter falado algo do tipo, “a maioria das pacientes que faz este tipo de cirurgia, fica completamente curada”, ou até criado alguma “estatística pessoal”, do modo, “mais de oitenta por cento, consegue…”.

O que sei que foi psicoterapeutico naquele momento, além do fato de saber ouví-la, e que pareceu proporcionar alguma calma, foi a sinceridade ao afirmar que nenhum de nós pode prever a própria morte, e que, enquanto não a sabemos, quando algo tão profundo nos acontece, poderia ser a chance que estávamos precisando para um novo recomeçar, para ter um novo olhar sobre nós mesmos e sobre o mundo.

 

May, apud Souza, afirma que a consciência de ser-para-a-morte conseqüente a uma moléstia grave fornece a oportunidade de ser-para-a-vida de modo saudável e a partir do aprofundamento da consciência adquirida, o homem torna-se sujeito do mundo e não mais um objeto a seu serviço. (Souza, 2003, p.149).

 

Na época, não tinha ainda o entendimento suficiente, para exercer uma psicoterapia com base fenomenológico-existencial. Meus conhecimentos e estudos com base em Kierkegaard, Husserl, e principalmente em Heidegger, vagavam ou flutuavam de forma ainda desconexa, como suponho deve ocorrer com qualquer estudante, seja de Filosofia ou Psicologia, principalmente ao travar seus primeiros contatos, pois trata-se de uma linguagem muito especializada e particular.

Hoje, tenho consciência, que naquele princípio de atendimento, estava mesmo no nível do “cuidado”. Ao me colocar completamente na percepção e disposição de ajudar, e na medida em que Clara ia se fazendo cada vez mais presente, quanto mais desvelava luz e sombra de sua clareira[11] pessoal, mais estávamos na região ontológica do cuidado. De alguma forma, desenvolvemos um sentimento de confiança mútua, e isto permitia tanto a forma de cuidar no sentido ôntico quanto ontológico. Naquela comunicação, havia uma compreensão, uma “solicitude libertadora”, que ao amar “desinteressadamente, liberta o outro para si mesmo[12]“.

Feijoo (2000, pp. 103 e 107), em seu esclarecedor livro, “A Escuta e a Fala em Psicoterapia, uma proposta fenomenológico-existencial”, nos ensina que o psicoterapeuta atuará como mensageiro da palavra do cliente, em um processo mútuo de corresponder e des-prender, tal como entendido por Heidegger [...] e que a palavra é a morada do ser.

Todos estes conceitos que estamos tratando, foram arduamente buscados nos estudos da fenomenologia (filosofia hermenêutica)[13], no caso mais específico, na analítica existencial com base na ontologia estudada por Martin Heidegger, em sua investigação do sentido do ser, na obra Ser e Tempo (2006), cuja primeira publicação é de 1927, e ainda no “Seminários de Zollikon” (2001), do mesmo Heidegger, editado por Medard Boss em 1987.

Constitui uma tarefa realmente pesada, e requer um grande esforço, ou, como diria o poetinha Vinícius de Moraes[14], é preciso ter “peito de remador” para encarar a empreitada de tentar desvendar Heidegger, cotejar com Husserl, interpretar Kierkegaard, e ainda mergulhar em outros “existencialistas”, para buscar cada vez mais penetrar o sentido do ser, entender a angústia e o desespero humano. Ao mesmo tempo, na criação do ofício de “artesão da palavra”, estar atento em não criar roteiros e enquadres, o que nos levariam fatalmente ao tecnicismo científico.

 

ABSTRAÇÕES: CIENTIFICIDADE DA FENOMENOLOGIA; DIFICULDADES ACADÊMICAS.

 

Entramos na questão do “como” e em outras indagações: Estaríamos na contramão da cientificidade do que estudamos? Poderíamos dizer que a tal “fenomenologia” e a tal “ontologia” poderiam ser tratadas como Ciência?

Se respondermos que estamos na contramão, poderia causar a ilusão de estarmos praticando uma psicologia do senso-comum, que de nada teria valido os estudos convencionais, seja na Graduação ou na Pós-graduação. Se consultarmos Heidegger (2006, op.cit, p.66), ele nos diz que “a expressão ‘fenomenológica’ significa, antes de tudo, um conceito de método, e mais adiante, que a palavra “fenomenologia” exprime uma máxima, “para as coisas mesmas.” Na mesma página, diz que a sua “ontologia” não segue “às ontologias historicamente dadas”, que no caso do seu “método”, sequer visa designar uma “determinada disciplina filosófica”.

Em minha opinião, nunca vi nada mais científico em todos os meus estudos de psicologia, e como é difícil conseguir alcançar o mínimo de entendimento necessário para poder estar perante o cliente, dentro do “setting”, isto é, poder realmente sentir-se “artesão da palavra”, tornar-se no sentido pleno da expressão, um psicoterapeuta.

Para não gerar “ansiedade” em quem lê este texto, principalmente se for alguém em dúvida sobre a validade da psicoterapia existencial com um enfoque fenomenológico da analítica da existência, e sua “cientificidade”, vamos aos registros de 07 de julho de 1966, em Zollikon, nos “Diálogos com Medard Boss (1961-1972)”:

 

A fenomenologia é uma ciência mais científica do que as ciências naturais, especialmente se considerarmos a ciencia [Wissenschaft] no sentido do saber [Wissens] originário, no sentido da palavra em sânscrito [Wit]. Quando a ciencia natural insiste em sua cientificidade natural, ela já deixou para trás o que é decisivo há muitos séculos.[...] (Heidegger, 2001, op. cit., p. 225).

 

Parte da nossa dificuldade em “encontrar as pegadas do caminho” para podermos entrar na clareira desta instigante e apaixonante investigação, deve-se ao modo em que nos é transferido o conhecimento. Refiro-me aos cursos de formação, ao caráter de suas ementas, e também a falta do tempo adequado para transmiti-los. Esta é uma questão importante, pois levamos um tempo muito maior aprendendo psicanálise em proporção à preparação da “linha” ou “abordagem” na qual seremos supervisionados, e posteriormente iremos empregar no dia a dia profissional.

Praticamente, somos orientados todo o tempo para uma psicologia estritamente científica. Daí para podermos adentrar num terreno da complexidade de uma psicoterapia existencial em uma base fenomenológica, coloca-nos numa situação de um aprendiz de trapezista de circo que vai para o treinamento sem a proteção da rede.

Acrescente-se o fato de que nem sempre as indicações bibliográficas são as mais adequadas ou favoráveis à formação do aluno, pois podem estar atendendo às características individuais do professor ou supervisor. Nem todos os psicoterapeutas existencialistas, são da abordagem fenomenológico-existencial com base na ontologia.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Estas dificuldades têm sido analisadas por importantes e consagrados autores na área da Psicologia Existencial:

1-      Somos ensinados a pensar cientificamente, criando o imaginário de uma prática sistematizada voltada para alguma forma de diagnóstico, buscando uma causalidade (Feijoo, 2004, p.10; 1999, p.15);

2-      Criamos um falso conceito de “psicologia científica”, por termos estudado “ciência”. (Feijoo, 1999, ibid. p.15);

3-      Tendemos a querer “um repertório de procedimentos seguros, de receitas de eficácia comprovada, que poderão ampará-lo em seu próximo mergulho no mundo do consultório ou da instituição”. (Augras, 2004, p.8);

4-      “A formação do psicólogo clínico geralmente não lhe facilita a abertura [...]. É que em muitos aspectos a formação clínica permanece tributária do enfoque psicanalítico”. (Augras, 2004, ibid. p. 85);

5-      “O nosso arcabouço teórico pode ser o nosso instrumental de compreensão da realidade emocional do paciente, mas não é jamais algo infalível que sempre está acima dos fatos”. (Angerami-Camon, 2005, p.33).

 

Feijoo, em textos muito importantes que vão de 1999 a 2005, nos apresenta a perspectiva de uma psicoterapia tendo por base o método fenomenológico e como fundamento os princípios existenciais com vistas à prática clínica, a partir da compreensão da filosofia da existência, tendo como suporte os pensamentos de Kierkegaard e Heidegger. Ali fomos encontrar indícios mais fortes do que precisávamos e que se estenderiam com o apoio de outros autores importantes, boa parte deles nas referências que apresentamos no presente texto.

É bom lembrar que embora tenhamos referido a expressão “método”, não significa dizer que estas orientações tenham o formato típico de uma “metodologia científica”, alguma “normatização”, “sistema”, “repertório”, ou qualquer coisa neste aspecto. No caso, trata-se de uma sugestão para conhecer tanto os conceitos filosóficos, quanto o modo de entender a circularidade própria da hermenêutica, numa ontologia praticada por Heidegger, indo ao máximo da interpretação da expressão grega, digamos assim, numa filosofia pura, ou, numa ontologia essencial analítica da existência.

Nada melhor para sintetizar estes comentários, do que citar as afirmativas através da lavra de Valdemar Augusto Angerami-Camon, um dos mais competentes autores nacionais da Psicologia Existencial, a quem também sempre recorremos como fonte de consulta e aprendizado:

 

O pensamento existencialista, [...] mostra-se numa evolução dinâmica, abrindo-se num leque de possibilidades para a irreversibilidade da existência enquanto fenômeno único e isolado. Lega, assim, a condição imutável de que cada ser é responsável pelo conjunto de atos e atitudes, enredando dessa forma o próprio enfeixamento das possibilidades existenciais. Ao contrário das teorizações vigentes na Psicologia – dogmáticas em sua asserção e explicadas a partir de seus próprios pressupostos -, o pensamento existencialista, longe de tornar-se irredutível diante das críticas, propõe uma reflexão sobre o homem a partir daquilo que lhe é mais inerente: a existência. (Angerami–Camon, 2007, p. 89).

 

EXISTE UMA PSICOLOGIA PSICOSSOMÁTICA EXISTENCIAL?

Dissemos que percorríamos caminhos difíceis e distanciados da fenomenologia-existencial, mas também afirmamos que o nosso “equívoco” nos conduziu a preciosos caminhos. Acredito que aprendemos também com os erros, e até mesmo com a inocência do desconhecimento que por nos encontrarmos desarmados, acabamos por acrescentar ou conhecer alguma coisa que acabará nos sendo útil na atividade profissional ou na vida, de modo geral.

Ainda impregnado da sistemática acadêmica, isto é, com uma visão de uma psicologia científica e sistematizada, vivia em busca de uma Psicologia Psicossomática Existencial, e, por mais que os meus professores tentassem me dissuadir desta suposição, mais eu me mantinha numa posição irredutível. Eu estava certo, e eles tinham toda a razão. Como é possível uma afirmação tão paradoxal? Creio que posso explicar:

Havia lido com total atenção a obra “Psicossomática Hoje”, do Dr. Júlio de Mello Filho, assim como o livro “Introdução à Psiconcologia”, de Maria Margarida M.J. de Carvalho, além de toda a lista já citada na página três deste trabalho. Mello Filho & Moreira (1992, pp. 133 a 135) ensinam que “a célula pode, de certa forma, comportar-se como um “não-eu” do organismo [...] perder o auto-reconhecimento de sua atividade [...] a partir de uma reação psíquica”.

Sob o ponto de vista da psicossomática com base psicanalítica, isto está absolutamente correto, mas, certamente, sob o ponto de vista de uma análise fenomenológico-existencial, visto exatamente desta forma, estaria completamente errado, ou demandaria de explicações mais acuradas.

Se for assim, como fica a minha afirmação paradoxal?

Antes de responder, preciso fazer mais algumas colocações: Tanto Heidegger quanto Kierkegaard declaram que a doença se dá pela “perda da liberdade do eu”:

 

a) Martin Heidegger:

 

O homem é essencialmente necessitado de ajuda, por estar sempre em perigo de se perder, de não conseguir lidar consigo. Esse perigo é ligado à liberdade do homem. Toda questão do poder-ser-doente está ligada à imperfeição de sua essência. Toda doença é uma perda de liberdade, uma limitação da possibilidade de viver. (Heidegger, 2001, op.cit. p. 180).

 

b) Søren Aabye Kierkegaard:

1-       [...] a angústia é um estado que manifesta a relação do Indivíduo com o mundo, relação determinada pela liberdade. (apud Le Blanc, 2003, p. 81);

2-       “o eu” se constitui pelo movimento do existir e, para ele, a ausência de movimento constitui-se na “perda do eu”. (apud Feijoo, 2000, op. cit. p. 28);

3-       A culpa existencial: a culpa nasce da angústia e se dá pela liberdade não exercida em sua possibilidade plena [...] (ibid. p. 68);

4-       A hermética: a negação da liberdade se dá pela não-comunicação, não-revelação, na tentativa de esconder-se. Equivale ao mutismo, fechamento, revelando-se involuntariamente. [...] (id.);

5-       A negação da liberdade: ocorre quando se deixa que a vida, o acaso ou o tempo deixem as coisas acontecerem. A não-liberdade justifica-se pelo súbito; com a negação do contínuo, desconhece leis, por não decorrerem de fenômenos físicos. É no fenômeno psíquico que se dá o repentino, em que aparece a não-liberdade; (id);

6-       Perda-somático-psíquica da liberdade: a angústia, frente à presença de liberdade – porém querendo negá-la -, pode levar o corpo a se pronunciar. A resposta do corpo poderá aparecer sob forma de angústia, através de “uma sensibilidade por demais excitada, uma irritabilidade muito tensa, um nervosismo à flor da pele, a histeria, a hipocondria, etc., são outras diversas nuances do demoníaco ou podem sê-lo”. (Id., p.138,139)[15] (Ibid. p. 69).

 

Tomemos ainda mais uma citação importante de Heidegger para a nossa fundamentação:

Então tudo o que chamamos a nossa corporeidade, até a última fibra muscular e a molécula hormonal mais oculta, faz parte essencialmente do interior do existir; não é, pois, fundamentalmente matéria inanimada, mas sim um âmbito daquele perceber não objetável, não opticamente visível de significações do que vem ao encontro, do que consiste todo o Da-sein. Este corporal forma-se de tal modo que pode ser utilizado no trato com o “material” do animado e inanimado do que vem ao encontro. Mas ao contrário de uma ferramenta de esferas corporais do existir não são descartadas do ser-homem. (Heidegger, 2001, op. cit. p. 244).

 

Tomando as afirmativas de a) e de b), percebemos que a “perda da liberdade” ocasiona doenças. “A proposta psicoterapêutica vai consistir também no resgate da liberdade”. (Feijoo, 2001, p. 137). Logo, se o aprisionamento da liberdade conduz à doença, se o paciente resgata esta mesma liberdade na psicoterapia, a doença deverá tender ao desaparecimento.

Com isto, respondemos a pergunta paradoxal. A análise acima, não tem nenhum enfoque organicista, pois os próprios fundamentos nos apontam a “perda da liberdade” numa manifestação nitidamente existencial.

Angerami-Camon, (2003, p. 69) relembra que “o corpo é a minha memória vivencial. É nele que residem todas as memorizações de minhas vivências e que se encontram depositadas as somatórias das minhas experiências passadas”.

Para interpretar as afirmativas acima como retrocesso à cientificidade, seria necessária uma intencionalidade por parte do leitor. Repetimos, para não deixar dúvidas, que dependerá do ponto de vista do psicoterapeuta.

As afirmações de Kierkegaard apud Feijoo (2000, op. cit.) contidas em b), são nada mais nada menos, do que o “Conceito de Angústia”, mostrando as posições psicológicas de liberdade possíveis a todo e qualquer ser existencial.

Lidar com uma paciente com câncer, é lidar com alguém que enfrenta a facticidade de estar-lançado na direção da morte, com possibilidades reduzidas de sobrevivência e cura. Compreender uma mulher que se sente mutilada e atingida na sua auto-imagem, significa também ter que se preocupar com fatores que contribuiriam para o agravamento ou reincidência deste câncer.

Neste momento, temos sim que nos preocupar no sentido absolutamente ôntico. Meus estudos ditos equivocados ensinam que a mulher com câncer, tem uma forte tendência tanto ao estresse quanto à depressão. E depressão, baixa a imunidade:

 

Estudos ligados à Psiconeuroimunologia apontam a evidência da influência da depressão sobre a diminuição das células T (natural killer), que atuam no sistema imunológico desempenhando um papel importante no controle de processos relacionados ao câncer. [...] algumas pesquisas já tenham demonstrado que os índices de cura aumentam quando os pacientes nutrem expectativas positivas quanto à resolução do problema. (DAL-FARRA; PRATES, 2004, p. 11).

 

Assim, sob este ângulo, é possível sim falar de uma “psicossomática[16]” que não seja psicanalítica. E para que serviria isto? Apenas para que nós como psicoterapeutas possamos ter aumentada a nossa responsabilidade do “cuidado” terapêutico, não perdendo de vista o corpoalma[17] do paciente que se desvela na psicoterapia. O “estar-bem” contribui para um melhor resultado da terapia medicamentosa e na recuperação pró-ativa da paciente, diminuindo a possibilidade de reincidência.

Numa palavra final, entendo a possibilidade de uma Psicologia Existencial Psicossomática, com o entendimento que temos de atuar não perdendo de vista o empenho em manter ao máximo o equilíbrio psíquico, com enfoque tanto na auto-estima, quanto no afastamento nefasto da depressão.

Como disse Angerami-Camon (2001, p. 2): “Procuramos caminhos alternativos para compreender a depressão à luz dos princípios existencialistas”.

 

POSSIBILIDADES PSICOTERAPEUTICAS: COMPREENSÃO E CUIDADO

 

Vamos lembrar que a cliente tem no próprio corpo uma visão real de um profundo corte, algo bem à mão que carrega consigo, mas, não possui mais aquela mama, e junto com esta falta física, muitas outras representações transitam em seu ser-mulher.

Pela visão médica, a forma mais provável de atender a minha cliente Clara, seria no sentido de ajudar no processo de aceitação de ser uma “mulher mutilada” então, deveria atuar psicoterapeuticamente na “questão da auto-estima” No discurso médico, portanto, estaria “contribuindo com o pós-operatório de uma paciente com câncer T.3[18]”, o que me colocaria no lugar de uma perspectiva meramente ôntica, ou absolutamente científica.

Se fosse atender este pedido estritamente como solicitado, aí sim, estaria de volta aos conceitos de uma psicologia científica, só esta como possível para dialogar na mesma região de uma psicologia médica.

Havia, porém, outros fatores que nenhum bisturi já inventado seria capaz de cortar: a história de vida de Clara, a sua visão de “um viver infeliz” o conviver de um casamento precoce (aos14 anos) com um homem com idade para ser seu pai; uma infância do desamparo, e pior do que tudo isso: __Um diagnóstico anterior equivocado, com dois anos de atraso, uma “calcificação sem importância clínica[19]” que na verdade, fora um câncer com erro grosseiro de interpretação diagnóstica.

Na narrativa de Clara, havia toda uma manifestação profundamente sentida, de muitas perdas: o ter de sair do convívio com os pais e irmãos em Cuiabá, para ir em busca da sobrevivência, com apenas 12 anos de idade, indo de “carona”[20] até o Rio de Janeiro, a humilhação da prostituição, até “conseguir emprego numa família boa”.

Depois, o casamento infeliz com um homem trinta anos mais velho, as agressões físicas, a humilhação perante os três filhos menores, o ter de trabalhar para sustentar a si, as crianças, e ao próprio esposo que perdera o emprego por viver embriagado. Desejando encerrar o casamento, o marido a ameaçava, bem como aos filhos.

Gradativamente, foi se afastando da possibilidade de ser si-mesma, ausentando-se do seu próprio existir:

“__Perdi o gosto pelas coisas. Ganhava um dinheirinho extra fazendo bordado, crochê. E adorava cozinhar, então, fazia salgados por encomenda para festas e bares, depois, consegui um emprego de cozinheira num restaurante. Eu era quem sustentava a família.” (Sic.).

Clara é uma batalhadora, e chegou a ter dois empregos, sendo um deles de servente em um hospital, onde trabalhava quatro noites por semana. Foi neste hospital que encontrou o médico que iria lhe fazer um diagnóstico errado.

Com o câncer, tudo passou a ser um prenúncio nefasto que se misturava a sentimentos de culpa.

Kierkegaard apud Feijoo (2000, op. cit. p. 56): “O homem é uma síntese de infinito e de finito, de temporal e de eterno, de possibilidade e de necessidade.”

Clara parecia ter perdido o sentido desta ambivalência, esta coisa ambígua e natural de toda angústia, este transitar do desespero humano, que se situa entre o viver e o morrer. Ela já se reconhecia no finito, não havendo mais lugar para a imaginação de um “agora não”. Seu eu, emaranhado nas teias da liberdade tolhida, quedava-se vencido perante o anúncio de uma morte urgentemente anunciada.

Tentei descrever quais eram os sentimentos revelados nas primeiras semanas de psicoterapia. A nossa função de saber escutar, transforma-se também em arte, pois se aprende em cada sessão que o corpo e a voz da paciente revelam matizes de intensa emotividade, a tal ponto, que passamos a ter a impressão que podemos “sentir” exatamente o que ela passa. Este é o momento da fala, do choro, do silêncio profundo, do apegar-se e do desapegar-se às possibilidades do existir.

Existiam muitos medos revelados por Clara: o medo de olhar-se no espelho, o medo da quimioterapia e da radioterapia, o medo de perder os cabelos, o medo de “passar mal”, e o medo de ir num ambiente “do câncer”, sentir-se “olhada” por outras mulheres também em tratamento. E o medo maior: a incerteza do sucesso do tratamento e a dor.

O apoio dos filhos era incondicional. O marido, ao sair definitivamente de casa, revelou que “não tinha mais mulher, pois esta havia se estragado.” (Sic). A cicatrização transcorria favoravelmente. Havia agora alguma paz naquela casa.

Mesmo assim, no primeiro dia das aplicações no “hospital do câncer”, ela perdeu a coragem e desmoronou. Avisado pelos filhos, fui à casa de Clara, com o intuito de persuadi-la, mas o desespero era total. A solução foi comprometer-me a levá-la, e foi exatamente o que fiz.

Nada disso foi fácil. Compreendi o receio de minha paciente. É indescritível a sensação. Acontece mesmo a percepção dos “olhares”, ou seja, de maneira sutil ou de maneira acintosa. Mas, pude entender depois que fenômeno era este. Não se tratava de uma “avaliação”, mas, antes, uma identificação. Havia ali um fenômeno social, ou seja, novamente “senti” o sorge, o cuidado. Era sim, uma comunicação humana, um “como está?”, silencioso e, de certa forma, uma curiosidade, talvez um perguntar: “__Iremos vencer esta batalha”?

Aguardando na sala de espera, uma outra mulher “quebrou o gelo”: __Seu irmão? Ela respondeu: __Não, meu psicólogo.

Senti um forte calor no rosto, meu coração estava disparado, e tentei manter um ar de naturalidade. Fui surpreendido pela fala da auxiliar de enfermagem, ao anunciar: __Senhora Clara, por favor…

Terminada a terapia médica, o aspecto de Clara era lastimável, mas eu havia presenciado a saída de outras mulheres, então, estava parcialmente preparado. O pior ainda estava por vir, pois ela estava passando muito mal. Foi difícil conduzi-la até o meu carro e eu não tinha força física o suficiente. Pedi a um taxista ali estacionado que me ajudasse, mas este negou a ajuda, então, achei forças não sei de onde e finalmente a coloquei no carro.

Devo ter-me alongado um pouco nesta narrativa, mas, acho muito importante apontar as dificuldades, dizer coisas que não serão ouvidas normalmente na universidade, ou que poderão até ser rechaçadas por eventuais psicoterapeutas apenas “didáticos.”

Depois de Clara, já formado e atuando profissionalmente, venho atendendo a outras pacientes com câncer. Cada caso é um caso, evidentemente, mas, o “saber como é” um tratamento desta natureza, facilita-nos o processo de escuta e fala. Se você apenas leu ou soube, então você não sabe. Aprendi mais compreendendo a realidade da mulher-com-câncer, do que se tivesse lido cem livros.

Portanto, muitos daqueles equívocos que pareciam me lançar na outra margem, me lançaram com mais clareza e exatidão na direção certa de um “artesão da fala”, um ser que se sente psicoterapeuta existencial.

 

FRENTE A FRENTE COM O FENÔMENO

Como vimos, o conceito de fenomenologia refere-se a “voltar-se para as coisas mesmas”, e isto não é tão fácil assim tal como simplesmente é dito. Sá (2004, p. 41), lembra que “é a recuperação da atitude básica dos pensadores gregos: abrir-se para a experiência do ser dos entes em seu desvelamento e ocultação.”

Assim, o apreender do sentido do que se fala, é algo extremamente delicado. Mais difícil ainda, quando o fenômeno se oculta, teima em não se revelar. E isto parece ser muito mais comum do que o que se revela com facilidade.

Desse modo, o impacto da primeira fala de Clara, comovente, impactante e convincente, deixava claro que não temia a morte, mas temia o sofrimento da dor. Ao me colocar perplexo, porque eu não conseguia captar o “como” não ter medo da morte, o que parece inteiramente conflitante com o sentimento da paciente, ao invés de lançar-me fora da psicoterapia, colocou-me no modo de afinação[21]:

 

1-      O não-ter-medo-da-morte, de Clara movimentava o meu ter-medo-da-morte:

2-      Logo, colocar-me no “lugar” fenomenologicamente, significava compreender este sentimento, para poder ter uma circunvisão. Perguntei-me: Como é meu sentimento “não tendo medo da morte”?

3-      Mas, de que Clara tem medo? __Ela tem medo do sofrimento da dor.

4-      A dor é uma coisa subjetiva. Não dá para saber “quanto” é a dor. Mas, posso captar a dor no tremor de sua voz ao narrá-la, ao expressá-la. Se você está “junto”, você consegue. Não me refiro a dor “como ela é”, mas, como “deve estar sendo”.

5-      Clara: “Não tenho mais tempo para reparar o passado, resgatar as coisas das quais abri mão”.

6-      Perguntei se não teria tempo para examinar as possibilidades de cura, uma vez que essa é a finalidade da terapia médica, e que o nosso papel ali consistia também numa crença de recuperação.

7-      Queria entender porque ela não apresentava uma expectativa positiva em relação a todo o tratamento. Argumentei a possibilidade de ela poder avaliar a convivência agora positiva dentro do seu lar, o carinho dos três filhos, suas novas oportunidades, inclusive para o seu organismo, convidei-a, enfim, para um novo modo de olhar para tudo, uma re-visão.

Este era o objetivo da terapia:

 

Possibilidade de dirigir um olhar diferente para a própria existência e, assim, reformular significados, aprofundar pensamentos, perceber que a própria pessoa que é capaz de ver (rever) a vida que realizou, mas que pode escolher caminhos diferentes através de suas realidades, e estas, por sua vez, são sempre algo a meio caminho entre o que foi dado, como foi dado, e o que foi percebido. Isto é feito através da verbalização, para que tenham mais nitidez e possam ser compreendidas, pensadas melhor em todas as proporções e significados: “_ O que tem valor para mim?”.

Cabe ao terapeuta estar junto ao seu cliente, estar com este é como presenciar as águas de um rio. Não verificar nem apenas a superfície, nem cometer o equívoco de revolver o fundo. O rio é todo rio, e o cliente é todo existência, não dá para ficar à espreita, como se tivéssemos que surpreender alguma coisa. Não dá para determinar o que é superfície, ou o que é profundo. “Fenomenologia não é uma teoria. É um modo de se aproximar de um fenômeno”. (SAPIENZA, 2004, pp. 26 a 57, passim).

 

O fenômeno mais evidenciado que restava era, portanto, o medo. Isso era o que mais resplandecia, tivesse ou não algo oculto, o medo era o que se revelava, e sendo, contém o temor, que se mostrava “às coisas mesmas”, na direção da dor, logo, a dor é o que temia. Por temer, significando não-querer, ao mesmo tempo com a queixa do não-ter-sido, algo clamava para o pessoal, para o que poderia ser ou ainda-ser.

A pre-sença estava em movimento, buscando uma resposta ao clamor da consciência. No processo psicoterapeutico, eu tinha que interrogar o porquê não apostar no sucesso do tratamento, já que esta era a sua chance. Clara ficava indecisa, argumentava: “__E se não”? Propus que ela fizesse uma retrospectiva, do “antes” da cirurgia e agora, nesta altura já com várias sessões feitas.

A primeira resposta: “Estou careca, feia, sem a mama”. Argumentei: mas está viva, sua cor está ótima, seus olhos brilham, seus filhos a apóiam o tempo inteiro. Você ouve muitas histórias de sucesso das outras pacientes. Cada vez mais, o movimento da pre-sença, a fazia “sentir-se incomodada em sua própria casa”.

 

A pre-sença, no entanto, precisa do testemunho de um poder-ser-si-mesma que, enquanto possibilidade, a pre-sença é sempre si-mesma. A consciência pode tornar-se testemunho de si-mesma, e assim se faz no seu clamor “voz da consciência”, abrindo a possibilidade da escuta. Tem-se o “querer-ter-consciência”, onde transparece a totalidade estrutural: cuidado. (Feijoo, 2000, op. cit. p.109).

 

Ainda ocorreriam momentos vacilantes, mas, num dia inesquecível, Clara resolveu olhar-se no espelho. Eu estava lá. Teve uma crise de choro, vacilava entre o “ir ver” e o “não ver”. Tinha que ajudar-lhe a ficar calma. Dentro das coisas que havia “inventado” para ela, consistia em fazê-la perceber como estavam sendo os seus dias. Pedia que procurasse perceber “como” estava se sentindo, de todas as formas.

Nesta semana, do-ver-não-ver, ela estava muito bem, daí, ela fez uma narrativa produtiva. Por fim, entrou no quarto. Pedi que os filhos ficassem aguardando comigo na sala. Trinta minutos depois, ela saiu e disse: “__Finalmente, vi”. “É muito feio, mas, estou viva”. Nos olhou firme, de forma solidária, um olhar da cumplicidade de quem se sente amparada, em pleno sorge. Nós a abraçamos.

 

CONCLUSÃO

 

Naquele dia, percebi que o “grupo”, isto é, familiares e este psicoterapeuta, participávamos no processo de “pre-ocupação ou antecipação libertadora [...] que se funda na liberdade de escolha por parte daquele que clama pelo seu ser mais próprio”. (Feijoo, 2000, op. cit. p. 112).

Clara ressurgiu com muitos novos sentidos para a sua vida. Passou a ajudar outras mulheres com câncer, sempre com notável otimismo. Faz seus exames de acompanhamento rigorosamente, e está sempre de ótimo humor. Pelo menos uma vez por mês fazemos contato, e quando sente alguma “baixa”, comparece na clínica onde trabalho, aí podemos ter quantas sessões quanto necessárias, mas geralmente, ela vai uma ou duas vezes. Voltou a trabalhar, e já conseguiu comprar uma casa, na qual fez um jardim com muitas rosas e girassóis. Naquele jardim carinhosamente cuidado, as plantas têm nome de gente. Tenho o orgulho de revelar, que além de psicoterapeuta, ali eu sou um “girassol”.

Uma observação que não podemos deixar de fazer. O câncer é uma doença traiçoeira e imprevisível, e se apresenta de muitos modos. Pode ser rápido, lento, agressivo, isolado, multifacetado, tendo ou não ramificações que geram metástases, e nunca se pode garantir se reincidirá ou não. Portanto, em nenhuma hipótese, a paciente poderá dispensar um rigoroso acompanhamento médico.

Quase três anos se passaram, e os seus exames médicos apontam um prognóstico cada vez mais favorável. Atualmente se submete aos exames regulares, e toma a medicação Tamoxifeno[22], que é a medicação preventiva mais utilizada no mundo, com vistas a evitar a reincidência do câncer.

Depois dela, tenho atendido a várias pacientes mastectomizadas e cada vez mais exercitado a psicoterapia fenomenológico-existencial, na qual acredito profundamente, além de buscar cada vez mais aperfeiçoar minha sensibilidade e compreensão.

Com este trabalho, mostramos em linhas gerais, que ao pesquisar sobre uma possibilidade clínica não cartesiana, é possível praticar uma Fenomenologia, através de uma metodologia heideggeriana, isto é, como um “envolver-se de modo especial na relação com aquilo que nos vem ao encontro” (Heidegger, 2001, op. cit. p. 136). Heidegger refere-se a um método diferente do conceito clássico do método científico, indo ao sentido original do grego: meta odos.

Não se trata de negar os consagrados métodos científicos, mas uma metodologia que admita um envolver-se, no sentido de “estar-junto”, como interpretação absolutado “cuidado” ou Sorge, na forma de “solicitude”, ou fürgsorge, ou, no sentido existenciário, um sentido ontológico, voltado para a existencialidade.

Percorremos um caminho árduo, porém gratificante, ao desvendar com mais vigor os caminhos da fenomenologia, e concluímos que o curso de graduação não é o suficiente para dar esta sustentação, sendo necessário um mergulho e um entendimento maior da base teórica.

Nos aprofundamentos, fomos buscar em autores consagrados, os esclarecimentos necessários, primeiro em Husserl, Kierkegaard, e principalmente, Heidegger, em diversas de suas obras. Certamente, sem as orientações obtidas no Curso de Pós-Graduação, dificilmente teríamos um acesso bem ordenado da bibliografia necessária, além, evidentemente, dos esclarecimentos proporcionados pelos professores.

Na prática clínica, aprendemos que na Psicologia Existencial, não podemos ter a ilusão de um “repertório de procedimentos” e que não somos infalíveis na compreensão da realidade emocional do nosso paciente. O que não podemos perder de vista, é exatamente a solicitude, e o imenso leque de possibilidades que cada ser possui na sua própria existência.

Vimos em Feijoo, 2000, op. cit. p. 28, que “o eu” se consitui pelo movimento do existir e, para ele, a ausência de movimento constitui-se na perda do eu”. O “eu” perdido, significa um “eu” sem liberdade, e sem esta, o eu-corpo, adoece, e cabe à psicoterapia, resgatar este “eu” perdido.

Na narrativa do caso da nossa cliente Clara, vimos a importância da solicitude e cuidado também dos familiares, a reaquisição de um “sentido para viver” por parte da paciente, dirigindo um novo olhar para a própria existência. Participamos do testemunho de um “poder-ser-si-mesma”, da própria Clara, abrindo-se para o “cuidado” de si e reabrindo-se para a Vida.

Loparic (2004, p. 36), nos informa que Heidegger, poucos dias antes de sua morte, escrevera a epígrafe a ser colocada em sua edição inteira (ao todo, escreveu 102 volumes): “Wege, nicht Werke”: “Caminhos, não obras”.

Agora sei que posso ir colocando os pés nas pegadas destes “caminhos”.

Como o músico, estou condenado e estar em contato permanente com a minha arte. Já compreendi a responsabilidade de manter-me nesta clareira e nesta afinação, e já posso “tangenciar o arco” desta música sutil que chamamos ser humano.

 

 

 

___________________

 

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ANGERAMI-CAMON, Valdemar Augusto (Org.). Prática da Psicoterapia. São Paulo: Editora Pioneira Thomson Learning, 1999.

_________________. Depressão e Psicossomática. São Paulo: Editora Pioneira Thomson Learning, 2001.

_________________. Psicologia Hospitalar, Teoria e Prática. São Paulo: Editora Pioneira Thomson Learning, 2002.

_________________. Psicoterapia e Subjetivação. Uma análise de Fenomenologia Emoção e Percepção. Editora Pioneira Thomson Learning, 2003.

_________________. As Várias Faces da Psicologia Fenomenológico-Existencial. Editora Pioneira Thomson Learning, 2005.

_________________. Psicoterapia Existencial. Editora Pioneira Thomson Learning, 2007.

 

AUGRAS, Monique. O Ser da compreensão: fenomenologia da situação de psicodiagnóstico. Petrópolis, Vozes, 11ª Ed., 2004.

 

CHIATTONE, Heloisa Benevides de Carvalho. Uma Vida para o Câncer. In:ANGERAMI-CAMON, Valdemar Augusto (org.). O Doente, a Psicologia e o Hospital. São Paulo: Editora Pioneira Thomson Learning, 3ª Ed., 2001.

 

DAL-FARRA, Rossano; PRATES, Emerson Juliano. A Psicologia Face aos Novos Progressos da Genética Humana. Psicologia Ciência e Profissão, 2004 (1), 94-107.

 

FEIJOO, Ana Maria Lopez Calvo de. A Psicoterapia Existencial: Uma Pesquisa Fenomenológica. In: ANGERAMI-CAMON, Valdemar Augusto. Prática de Psicoterapia. São Paulo: Editora Pioneira Thomsom Learning, 1999.

 

_________________. A Escuta e a Fala em Psicoterapia: Uma proposta fenomenológico-existencial. São Paulo: Vetor, 2000.

 

_________________. A psicoterapia em uma perspectiva fenomenológico-existencial. In: ANGERAMI-CAMON, Valdemar Augusto. Psicoterapia Fenomenológico-Existencial. São Paulo: Editora Pioneira Thomson Learning, 2002.

 

_________________. A Psicologia clínica e o pensamento de Heidegger em “Seminários de Zollikon”. In: Revista Fenômeno Psi; Ano 2, nº. 1, Rio de Janeiro: Editora IFEN, maio de 2004.

 

GASPARINI, Ana Cristina Limongi França; RODRIGUES, Avelino Luiz. Uma perspectiva psicossocial em psicossomática: via estresse e trabalho. In: MELLO-FILHO, Júlio de, et. al. Psicossomática Hoje. São Paulo: Artmed Editora, 1992.

 

HEIDEGGER, Martin. Seminários de Zollikon. (Editado por Medard Boss). São Paulo: EDUC – Editora da PUC-SP; Editora Vozes, Petrópolis, Rj, 2001.

  1. Ser e Tempo (Trad. Marcia S.C. Schuback). Petrópolis, RJ. Ed. Vozes; Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco; Editora Vozes, Petrópolis, Rj, 2006.

 

HUSSERL, Edmund. Coleção “Os Pensadores”. São Paulo: Editora Nova Cultural, 2005.

 

LE BLANC, Charles. Kierkegaard (Trad: Marina Appenzeller). Coleção Figuras do Saber. São Paulo: Estação Liberdade, 2003.

 

LOPARIC, Zeljko. Heidegger. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.

 

MELLO-FILHO, Júlio; MOREIRA, Mauro Diniz. Psicoimunologia Hoje. In: MELLO-FILHO, Júlio de, et al. Psicossomática Hoje. São Paulo: Artmed Editora, 1992.

 

PENNA, Antônio Gomes. Introdução à Psicologia Fenomenológica. Rio de Janeiro: Imago Editora, 2001.

 

POMPEIA, João Augusto; SAPIENZA, Bilê Tatit. Na Presença do Sentido. São Paulo: EDUC, Paulus, 2004.

 

PROTÁSIO, Myriam Moreira. “Seminários de Zollikon”: desconstruindo algumas noções da Psicanálise. In: Revista Fenômeno Psi; Ano 2, nº. 1, Rio de Janeiro: Editora IFEN, maio de 2004.

 

 

SÁ, Roberto Novaes de. A Questão do Método na Clínica Daseinsanalítica. In: Revista Fenômeno Psi; Ano 2, nº 1, Rio de Janeiro: Editora IFEN, maio de 2004.

 

SALES, Catarina A. O Cuidado no Cotidiano da Pessoa com Neoplasia: Compreensão Existencial. Tese de Doutorado, USP. Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, 2003. < http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/83/83131/tde-13022006-144854/> Retirado na Internet em 10/12/2006.

 

SAPIENZA, Bilê Tatit. Conversa Sobre Terapia. São Paulo: EDUC, Paulus, 2004.

 

SOUZA, Camila B. Corpoalma com Câncer. In: QUAYLE, Julieta. LUCIA, Mara Cristina Souza de, Et. al. Adoecer. As Interações do Doente com sua Doença. São Paulo: Ed. Atheneu, 2003.

 

[1] Termo criado em 1990, pela Organização Mundial da Saúde: “Uma especialidade praticada por médicos que visa tratar de pacientes em fase avançada, ativa, em progressão, cujo prognóstico é reservado e o foco da atenção é a qualidade de vida”. (Teixeira, 2002), apud Sales, Catarina A. O Cuidado no cotidiano da Pessoa com Neoplasia: Compreensão existencial. Tese de Doutorado, USP. Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, 2003. < http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/83/83131/tde-13022006-144854/ > Retirado na Internet em 10/12/2006.

 

[2] “O Doente, a Psicologia e o Hospital”; “Psicologia Hospitalar”; “E a Psicologia entrou no Hospital”; ”A Prática da Psicoterapia”, todos estes escritos ou organizados pelo já citado Angerami-Camon; “Princípios para a prática da Psicologia Clínica em Hospitais”, de Bellkiss Wilma Romano; “Adoecer, as interações do Doente com sua Doença”, Julieta Quayle e Mara C. Souza; “Psicossomática Hoje”, Dr. Júlio de Mello Filho; e o “Introdução à Psiconcologia”, de Maria Margarida M.J. de Carvalho (Coord.), etc.

 

[3] Estava numa trilha difícil, mas também é verdade que o meu “equívoco” me levaria a preciosos caminhos. (N.A).

[4] Fenomenologia: Conceito criado por Husserl em 1907, em seu “Die idee der Phänomenologie”. Simplificadamente refere-se à “essência da consciência”, ou à “consciência pura”, e ao “Homem marcado por sua dimensão histórica”. (PENNA, 2001, pp. 11 a 13).

[5] Redução Fenomenológica ou Transcendental: Teoria criada por Husserl (1913): “Colocar o mundo natural entre parênteses, concentrando-nos, apenas, na investigação dos objetos imanentes, tal como se apresentam à nossa consciência e vivência e desse modo são assimiladas ou percebidas.” (HUSSERL, 2005, p. 10).

[6] Sobre este existencialista, abordaremos ao longo do texto. (N.A).

[7] “Doutor”: termo colocado conforme dito popularmente e citado pela cliente. (N.A).

[8] “O cuidado não se refere a um determinado modo de relação, e sim à condição de ser aberto às possibilidades de relação nas suas diferentes modalidades. Assim, vai permitir que as relações se dêem de modo desinteressado, libertando o outro para si mesmo” (Feijoo, 2000, p. 83).

[9] “A palavra Dasein significa comumente estar presente, existência [...]. o aí (Da) em Ser e Tempo não significa uma definição de lugar para um ente, mas indica a abertura na qual o ente pode estar presente para o homem, inclusive ele mesmo para si mesmo. O a ser distingue o ser-homem. (Heidegger, 2001, p. 146).

[10] Nome fictício, visando preservar a identidade real da cliente. Acrescente-se, desde já, que a narrativa deste texto, foi previamente autorizada por escrito.

[11] Na questão, o ser demora-se (tempo) na “clareira” (espaço) e se orienta, no sentido de “consciência” (pratica o estar-aberto). (Heidegger, 2001, 237, 238).[ Resumo]: (N.A).

[12] Esta expressão foi citada por Medard Boss, no prefácio da primeira edição dos “Seminários de Zollikon” (Heidegger, 2001, p.12), referindo-se à solicitude do próprio Heidegger em tornar público e discutir os seus estudos e pensamentos.

[13] “A filosofia hermenêutica, portanto, não significa interpretar a partir de referenciais externos, sejam teóricos, sejam do vulgo. Significa trazer mensagem e notícia da coisa em si mesma. A hermenêutica de Heidegger é utilizada a fim de possibilitar o emergir do ser do ente, de forma que o mesmo se revele e, assim, não se corre o risco de interpretar aquilo que é mostrado de acordo com as teorias e a história. É, portanto, poder pensar segundo o modo do diálogo”. (Feijoo, 2000, op.cit. p. 43).

[14] Vinícius de Moraes (1913-1980). Para viver um grande amor. (letra de Vinicius de Moraes, música de Toquinho). (N.A).

[15] “Conceito de angústia”, publicado em 1844, apud Feijoo, 2000, op. cit.

[16] “Existe também uma confusão conceitual em relação ao termo Psicossomática, embora isto não seja explicitado, o que possibilita a falsa idéia de que a noção de Psicossomática seja homogênea, quando na verdade não é. [...] existe um grande número de significados e tendências na Psicossomática, o que revela a dificuldade ou mesmo a impossibilidade de estabelecermos um estatuto preciso e definitivo para a Psicossomática.” (GASPARINI e RODIGUES, 1992, p. 94)

 

[17] “Corpoalma”: Esta expressão é utilizada por Souza (2003, p. 143): “Corpoalma com Câncer”.

[18] Classificação proposta pela Union Internationale Contre le Câncer (UICC) e pelo American Joint Commitee on Câncer (AJCC), sendo referida como “Classificação TNM”, onde, T é a dimensão do tumor primário (no caso, T3, o tumor tem mais do que 5 cm. de diâmetro); N a presença ou ausência de metástases para linfonodos regionais, e M, a presença ou ausência (de outras) metástases.<http://www.projetodiretrizes.org.br/projeto_diretrizes/024.pdf> Retirado na Internet em 21/06/2005.

 

[19] Tal como lido no laudo médico apresentado pela cliente (N.A).

[20] Esta “carona” significou a perda da virgindade seguida de prostituição.

[21] “Todo modo de ser está fundado numa circunvisão e numa compreensão (que constituem a afinação) em relação ao que vem de encontro dentro do mundo. Ao relacionar-se de uma determinada forma, e não de outra, com o que lhe vem ao encontro, o dasein realiza um não-poder-ser-diferentemente. O não-poder-ser-diferentemente também é um modo de ser.” (Protásio, 2004, p. 30).

[22] Tamoxifeno ou Citrato de Tamoxifeno: Medicação utilizada como antiestrogênico do carcinoma mamário avançado. (Informação retirada da bula, Laboratório Zodiac) N.A.