Johnny vai à Guerra

EUTANÁSIA

Filme: JOHNNY VAI Á GUERRA

Título Original: JOHNNY GOT HIS GUN

Direção: Dalton Trumbo

Música: Jerry Fielding

Diretor de Fotografia: Jules Brennen

Distribuição: World Entertainment – EUA/ 1971

Esse filme se configura a mais plena realização do que foi dito anteriormente do poder de filme de nos penetrar a alma e nos lançar diante de temas dilacerantes da condição humana. A Filosofia, a Medicina, a Psicologia, e tantas outras  escolas de saber que se queira arrolar não teriam condições de promover uma discussão tão aguda e contundente sobre a eutanásia quanto a exibição e discussão desse filme. Sem dúvida alguma lança a temática da eutanásia para discussão em seminários acadêmicos ou mesmo na realidade hospitalar tendo a embasá-la textos que possam abordá-la de maneira profunda e abrange pode ser muito rico e envolto em nuanças de crescimento pessoal e intelectual. Mas seguramente o impacto provocado diante da exibição desse filme faz da eutanásia algo além de qualquer conceituação que se queira tecer para compreender sua complexidade.

Trumbo criou uma obra única no gênero, pois mostra a história de um soldado, o nosso Johnny, que vai a guerra lutar por seu país. Não é nenhum país específico nem tampouco existe citação a qual guerra o nosso personagem irá protagonizar. Apenas temos diante de nós uma situação universal do número de jovens que tem suas vidas ceifadas por essa idiotia humana denominada de guerra.

A fotografia do filme torna-se um espetáculo à parte pois é feito uma alternância em momentos em que as cenas são exibidas em cores e em preto e branco. As várias fases da vida do nosso personagem se alternam nessas mudanças de cor para preto e branco, e sempre tendo como moldura uma música que irá dar a ênfase aos sentimentos mostrados e lancetados no espectador.

O filme mostra cenas de Johnny se despedindo da namorada, da família, e na companhia de outros tantos jovens, partindo para a guerra. De início é mostrado Johnny trocando correspondência com sua namorada e combinado do possível casamento quando de seu retorno. E como era previsível desde o início é mostrada a cena em que Johnny é atingido e dilacerado em sua condição humana.

O que resta então de Johnny é apenas um membro sem braços, pernas e consciência. O restante do filme se desenrola então no leito do hospital onde aquele resto de corpo anônimo é analisado e observado pela equipe de saúde. Ele não tem consciência mas ouve e percebe tudo ao seu redor. O seu desespero aumenta na medida em que se percebe anônimo sem referencias e sem poder comunicar-se com a equipe. Com o desenrolar de sua internação começa a contar os dias identificando datas como natal, páscoa etc. Posteriormente consegue se comunicar com um dos membros através de movimentos labiais reproduzindo sinais de telegrafia.

E nesse momento o filme se reveste de aspectos sombrios de angústia e desespero envolvendo a condição humana, pois pareado ao magistral jogo de fotografia com a alternância de imagens coloridas e em preto e branco temos lançado sobre nós as mais dilacerantes questões envolvendo o significado de se manter uma vida nessas condições. A dialética entre eutanásia e distanásia se faz de uma contundência impar pois estará a mostrar que muitas vezes a necessidade de se manter um paciente nessas condições é uma necessidade da equipe de saúde do que propriamente do paciente.

E quando esse paciente consegue se comunicar o que ele pede a essa equipe é que o matem, simplesmente deseja morrer para acabar com esse sofrimento prolongado e que certamente será arrastado por muito tempo devido os recursos da tecnologia médica. E se falamos anteriormente da similaridade de um filme a um quadro na retratação da dor e desespero humano, esse filme certamente é um exemplar cabal dessas afirmações, pois se trata de uma obra que nos deixa totalmente atônitos e com a sensação da aridez da própria condição humana. Esse é um filme anti guerra, mas também uma das grandes apologias de defesa da eutanásia a mostrar que em situações tão degradantes a vida se esvai em desespero sem nada que possa dar-lhe sentido. Johnny está cego, mudo, sem braços e pernas mas com a consciência preservada, e essa condição faz com que além de perceber o seu próprio entorno ainda preserva as recordações de seu passado.

Essas recordações são exibidas em cenas de cor em contraponto com seu momento no hospital que é mostrado sempre em preto e branco. Suas recordações se tornam ainda mais dilacerantes pois são vivas, coloridas e mostram momentos em que ele sentia sua vida pulsando alegria e possuía sonhos de construir família e ter uma vida comum junto de seus familiares. A guerra acaba com sua vida e seus sonhos, e isso seguramente é universal a todos que de alguma maneira tem suas vidas ou a de parentes próximos dilacerados pela guerra. A música de Jerry Fielding é pontual criando atmosferas de dor e lampejos de emoção que se alternam na própria dimensão da alternância de variações do filme de cor para preto e branco. O sofrimento é moldurado pelas variações melódicas dando ao seu constitutivo a combinação de aridez presente no enredo. Esse filme seguramente é a verdadeira antítese da indústria holywoodeana de entretenimento, pois embora tenha essa origem em sua produção está muito longe de ser algo que se assista como mera distração. Ao contrário, temos diante de nós um filme que nos leva aos mais profundos sentimentos de sofrimento e angústia diante do desespero humano.

SUGESTÕES TEMÁTICAS DE DISCUSSÃO E REFLEXÃO

- Eutanásia

Em trabalho anterior[1] mostramos através de publicação de diversos autores enfocando óticas diferentes sobre a dialética de eutanásia e distanásia. Nesse sentido os defensores de cada uma dessas posições sobre terão inúmeros argumentos sobre a necessidade de se defender tais temáticas. E na realidade o que irá prevalecer sempre é o enfeixamento de valores presentes na ótica de cada um dos protagonistas dessa discussão. A eutanásia por si desperta valorais morais e religiosos presentes em nossa alma e que muitas vezes se encontram latentes a espera de alguma estimulação para emergirem de modo impensável. E o que é mais fascinante no bojo dessas argüições é que todo e qualquer profissional da área da saúde, e das outras também é  importante que se pontue, sempre possui valores da ordem moral e religiosa que pertencem a sua historicidade. E despojar-se desses valores diante do paciente é algo muito difícil e por assim dizer complicador de muitas das ações a que assistimos na realidade hospitalar.

Johnny mostra em seu sofrimento que lutar pela preservação da vida deve passar também por uma discussão que englobe igualmente a qualidade dessa vida. E também as razões que possam justificar o prolongamento de uma vida, ou ao contrário, o estancamento desse sofrimento.

Vivemos em uma sociedade que em princípio é definida como laica. E embora no momento possamos assistir a uma grande movimentação para a retirada de objetos e apetrechos que envolvem religiosidade de lugares públicos – principalmente a cruz de Cristo presente em quase todas as instituições públicas -, ainda assim as discussões envolvendo a questão da eutanásia na quase totalidade das vezes são pontuadas por princípios religiosos. Isso equivale a dizer que o sofrimento pungente a que o paciente se encontre envolto nada significa diante da religiosidade presente na argumentação desses profissionais da saúde.

Os argumentos presentes no filme de Trumbo são por demais dilacerantes para que fiquemos impassíveis diante de tais questões. O sofrimento de Johnny,  e que retrata o sofrimento universal presente em uma guerra em qualquer parte do universo, nos mostra a necessidade de se ter valores mais flexíveis para que possamos abarcar a questão do sofrimento humano de maneira mais abrangente e principalmente se o revestimento de conceitos pessoais que, muitas vezes, inclusive, não fazem parte dos valores do paciente.

- Sobre o Sentido de Vida

No momento em que assistimos ao crescimento do chamado “Suicídio Assistido” que já encontra eco na legislação de vários países, inclusive como o surgimento de empresas especializadas para esse tipo de intervenção, é necessário que possamos escutar o sofrimento daqueles para quem a vida se tornou um fardo insuportável e sem qualquer resquício de sentido vital.

Não se trata simplesmente de defender qualquer das posições envolvidas nessa discussão e sim de se ter uma postura de aceitação das divergências colocadas diante de nossos valores pessoais. É dizer que qualquer posição que envolva uma pessoa enferma e em situação de extremo desespero precisa necessariamente passar pela escuta de suas razões e de suas próprias conceituações sobre sua vida. A vida que pula em uma manhã azul de inverno com seus matizes coloridos indescritíveis e maravilhosos, seguramente agoniza nos corredores do hospital diante do desespero humano. E discutir questões envolvendo a eutanásia e a dignidade humana são, em princípio, uma das maneiras que encontramos para alargar nossos horizontes diante das questões que se nos apresentam na cotidianidade.

Esse filme na defesa que faz da eutanásia também nos impulsiona a questionar o próprio significado de nossas vidas. E por assim dizer, o verdadeiro pulsar que estamos conferindo às nossas próprias realizações. O sentido que damos à nossa própria vida nos envolve diretamente em confronto dilacerante quando nos vemos diante da morte e do sofrimento de pacientes terminais. É como se o doente em estado terminal pudesse nos conferir uma nova realidade de dimensões novas e mais abrangentes à nossa própria vida. Uma nova vida que se descortina diante da possibilidade da morte e da consciência de nossa finitude tão escancarada nos corredores hospitalares. Angerami (2008) assevera que o homem passa a maior parte de sua existência buscando o sentido da vida, perguntando o que é a vida, qual a sua obstinação, qual a sua verdade. Em sua busca desvairada recorre a todo o tipo de respostas, buscando desde verdades místicas até aquelas chamadas científicas. E o confronto com a morte nos escancara de modo abrupto e envolvente o que estamos fazendo com a nossa própria vida e o sentido que estamos lhe dando diante das vicissitudes que se apresentam em nossos caminhos.

O filme de Trumbo é um acinte a valores morais, existenciais e religiosos que se mostrem rígidos em seus constitutivos. É um convite a uma reflexão pormenorizada e profunda sobre o sentido de nossas vidas. Sobre como estamos validando essa dádiva que se nos presenteia em nossos dias de momentos tingidos de azul e distante do cinza do sofrimento e do desespero humano. É dizer que estamos diante da reflexão de que a busca do sentido de vida passa necessariamente por uma sistematização reflexiva do rumo que damos a nossas buscas e realizações.

Somos essa concretude humana que se depara com situações inusitadas de sofrimento e desespero em nosso entorno e que muitas vezes também nos leva a própria desestruturação de nossos valores primários. Refletir sobre o sentido de vida é um convite para que possamos mudar o rumo de nossas vidas tantas vezes quantas forem necessárias e tantas vezes que esse rumo se tornar turvo diante do lamaçal de dor e sofrimento que a vida se nos apresenta. Muitas vezes nos sentimos distantes do desespero humano por não termos nada que no evidencie tais questões em nossas pessoas próximas. No entanto, e isso é irreversível na vida, sempre a vida nos confrontará com nossa finitude com o sentido que estamos dando à nossa existência, e tal construto nos faz necessariamente envolto nessa condição de ter na busca do sentido de vida o próprio balsamo capaz de cicatrizar tais chagas de sofrimento e dor. E como dito anteriormente a reflexão feita a partir da exibição de um filme seguramente será mais contundente e eficaz do que a discussão feita a partir de um texto filosófico em que a racionalidade ira permear e cercear rompante da emoção presentes em nossa alma.  Um texto teórico e filosófico sempre é importante para a nossa formação intelectual e até mesmo emocional, mas sem dúvida se for pareado com a exibição de um filme que possa desmoronar com nossas barreiras racionais esse intento será atingido com mais plenitude.

 

[1] “A Ética na Saúde”, Angerami, V.A., (org.) Thomson Learning, São Paulo, 2003.