Entidade que tem por objetivo a promoção da dignidade humana.
Nesse sentido, oferece cursos, congressos, atendimentos psicológicos,
eventos culturais e palestras destinadas à comunidade. Fundado
em 1983, mantém-se na vanguarda de estudos e publicações teórico-filosóficos
sobre temas da realidade contemporânea. Em maio de 2006 mudou-se
para a zona norte continuando a promover a dignidade humana
através da elevação dessa condição como um todo por meio de
atividades que fundamentam uma reflexão sobre a relação da
pessoa com seu mundo, seus valores e sobre as suas relações
interpessoais. Dessa maneira procuramos dar a nossa contribuição
para a construção de uma sociedade mais justa e fraterna.
Marli Rosani
Meleti, Valdemar Augusto Angerami e Regina Aparecida dos Santos,
idealizadores e fundadores do Centro de Psicoterapia Existencial
em foto de Junho de 1983.
Centro de Psicoterapia Existencial:
Histórico de uma Instituição Afetiva
Resumo: A partir de uma entrevista realizada com Valdemar
Augusto Angerami – Camon, um dos fundadores e atual
coordenador, conta-se a história do Centro de Psicoterapia
Existencial (CPE) desde sua fundação, em 1983, juntamente
com o I Congresso Brasileiro de Psicoterapia Existencial,
até os dias atuais, ressaltando as atividades e publicações
da instituição.
Palavras-chave: Psicoterapia Existencial, Psicoterapia
Fenomenológico-Existencial, Valdemar Augusto Angerami – Camon,
Centro de Psicoterapia Existencial, História da Psicologia
no Brasil.
Abstract: From an interview with Valdemar Augusto Angerami
– Camon,,
one of the founders and coordinator, it tells the history
of the Centro de Psicoterapia Existencial (CPE – Existential
Psychotherapy Center) since its foundation, in 1983, together
with I Brazilian Existential Psychotherapy Congress, until
nowadays, emphasizing the institution’s activities and publications.
Keywords: Existential Psychotherapy, Phaenomenologic-Existential
Psychotherapy, Valdemar Augusto Angerami – Camon, Centro de
Psicoterapia Existencial, History of Psychology in Brazil.
Este artigo nasceu do interior da história
que ele próprio pretende contar, isto é, de uma forte característica
do Centro de Psicoterapia Existencial (CPE): a amizade. No
momento em que um dos fundadores e atual coordenador Valdemar
Augusto Angerami (mais conhecido pelo apelido de Camon) decide
relembrar o momento da criação do CPE através do website da
instituição e comunica aos amigos, logo surge o interesse
da Academia Paulista de Psicologia para que essa história
seja contada em seu Boletim. Embora muitas instituições cultivem
laços pessoais e profissionais, poucas demonstram essa característica
como marca fundamental. Segundo alguns depoimentos, a integração
do quadro do CPE não depende apenas da qualidade de ensino
do professor e sua titulação acadêmica, mas também de sua
postura amistosa em relação aos colegas e alunos, o que promove
um clima harmonioso na própria instituição.
Nem só de amizade, porém, vive uma instituição...
Com relação à dinâmica do CPE, o mero relato das atividades
e publicações relacionadas já preencheriam todo o espaço reservado
ao artigo. No afã de descobrir o melhor caminho de produzir
este texto e sendo requisitado a apresentá-lo, recorri a uma
entrevista com o já citado colega para preencher o espaço
com uma história concisa e ilustrativa, pois Angerami já se
mostrava em momento de relembrar o ano de 1983, época em que
o CPE foi oficialmente fundado e o I Congresso Brasileiro
de Psicoterapia Existencial realizado.
Como todos sabem, há sempre um contexto que
exibe todo um rol de possibilidades às pessoas que se decidem
a tomar uma atitude que mereça ser lembrada 24 anos depois.
No caso do CPE, esse contexto era formado por duas cadeiras
de supervisão do curso de Psicologia da Universidade Paulista
- UNIP: uma destinada ao atendimento de casos de situação
penitenciária, e outra relativa aos casos de tentativas de
suicídio cujo atendimento se dava no Hospital das Clínicas
de São Paulo. Embora as duas disciplinas tenham sido influentes
na formação do CPE, a mais proeminente foi a última, uma vez
que a atividade relacionada à penitenciária já havia sido
abandonada em 1981, dois anos antes da origem da instituição.
Nos dois casos, o Professor Angerami ensinava, Marli Rosane
Meleti e Regina Aparecida dos Santos auxiliavam e os alunos
atendiam diretamente em campo.
Sendo o embasamento teórico fenomenológico-existencial presente
em ambas as disciplinas e, além disso, compartilhado de maneira
pessoal pelos três docentes envolvidos, surgiu entre eles
a necessidade e o sonho de se criar uma entidade que pudesse
garantir o estudo do existencialismo e da psicoterapia existencial
de maneira mais profunda e consistente.
O nome inicial do CPE era Centro de Estudos
em Existencialismo e Psicoterapia, que tinha justamente a
intenção de reforçar uma posição teórica centrada na filosofia
de Jean-Paul Sartre, diferenciando-se da maioria das escolas
de influência existencial que se baseavam no alemão Martin
Heidegger, principalmente a Daseinsanalyse, dirigida por Sólon
Spanoudis, ainda vivo na época.
Com o tempo, porém, o horizonte teórico se
expandiu e houve a preocupação de se alterar o nome da instituição,
libertando-a da exclusividade sartreana. O Centro de Estudos
em Existencialismo e Psicoterapia adotou o nome-fantasia de
Centro de Psicoterapia Existencial (CPE), passando a englobar
outros autores importantes na fenomenologia e na filosofia
existencial, como, por exemplo, o famigerado Heidegger e o
até então pouco conhecido Maurice Merleau-Ponty.
Outro fator importante, além da determinação
das três pessoas, é a história acadêmica de Angerami, que
vinha de uma formação humanista do curso ministrado na Universidade
de São Paulo (USP) por Raquel Rosemberg, importante e conhecida
adepta da Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), fundada por
Carl Rogers, no qual se encontravam algumas pessoas que, em
sua maioria, até hoje mantêm alguma relação com o CPE, nem
todos de maneira direta. Alguns nomes merecem ser citados
pela sua influência em outros âmbitos ou abordagens da Psicologia:
Mauro Martins Amatuzzi, Ronilda Yakemi Ribeiro, Vera Engler
Cury e Christina Menna Barreto Cupertino.
Apesar do ambiente amigável, a citação desse
momento como impulso para a criação do CPE, era o fato de
que algumas idéias, diferentemente das pessoas, não agradavam,
levando à busca de novas vertentes teóricas, encontrando,
então, o existencialismo.
Voltando ao ano de fundação do CPE, é importante
salientar que, já em 1983, além dos estudos realizados pelos
três idealizadores, iniciaram-se também os cursos de formação
com o objetivo de divulgar a abordagem que se mostrava tão
eficaz e adequada nos trabalhos propostos em supervisão.
Em 1985, Regina retirou-se da instituição,
permanecendo Angerami e Marli na direção do CPE. Esta última
deixou a instituição em 2000, mas integrava-o formalmente
até há pouco tempo. Quem substitui juridicamente as ausências
é Evandro Linhares Angerami, artista plástico, filho de Angerami
e professor do CPE.
De 1983 a 1990, a atuação do CPE concentrou-se
principalmente nos grupos de formação, cujos alunos eram oriundos
predominantemente da UNIP e da USP, com alguns provenientes
da Universidade São Marcos, onde Angerami teve curta passagem.
Até 1990, mesclavam-se como atividades, além dos já citados
cursos, congressos e pequenos eventos. De 1990 a 2000, não
houve grupos de formação devido ao excesso de dificuldades
que surgiam a partir dos mesmos. Os congressos e eventos aconteciam
numa proporção bastante significativa, demonstrando excelentes
sinais de saúde e evidenciando tanto o sucesso quanto a sensação
necessária a todo educador de polinizar e disseminar o conhecimento.
Em 2000, porém, a amplitude dos mesmos diminuiu, surgindo
a agradável necessidade de serem retomados os cursos de formação,
criando-se, então, o novo Grupo I. Para dar uma referência
ao leitor, em janeiro de 2007, iniciou-se a turma XV.
Os problemas responsáveis pelo fechamento
dos cursos voltaram juntamente com eles. Foram, porém, enfrentados
e vêm sendo superados sempre que surgem e sem que se perca
de vista a exigência de qualidade e respeito atingidos pelo
CPE. Hoje, os grupos são uma marca fundamental da instituição,
que conta com cursos de formação não apenas em sua sede em
São Paulo, mas também em Manaus (AM) e Vassouras (RJ), além
de contar com inúmeras propostas de outras cidades de várias
regiões do país para efetivação dos cursos.
Um tema interessante para acompanhar a cronologia
do CPE é a partir do ponto de vista das publicações precedentes
dessa instituição catalisadora, d’onde emergiram tão férteis
terrenos. A maioria dos institutos trabalhava com cadernos,
e assim também começou o CPE, que publicou dois deles. Uma
das grandes marcas da instituição é o número de livros publicados,
sempre com a autoria ou organização de Valdemar Augusto Angerami.
Para o início dos cursos, o CPE publicou dois cadernos com
o título de Existencialismo e Psicoterapia, ambos escritos
por Angerami e discutidos pelo grupo, principalmente por Regina
e Marli.
Após a escrita desses cadernos, uma pequena
e nova editora procurou o CPE para publicação. Em 1984, portanto,
foi lançado o primeiro livro originado dessas duas apostilas
e que também se chamou Existencialismo e Psicoterapia. Hoje,
infelizmente, encontra-se fora de circulação. Iniciada essa
primeira etapa e diante da intensa disposição dos iniciantes
do CPE e da editora, na seqüência, lançaram-se mais cinco
títulos, totalizando seis livros no período de três anos.
O segundo título, lançado despretensiosamente,
foi Psicologia Hospitalar. Até hoje marco na Psicologia brasileira,
é fruto da postura forte em Psicologia Hospitalar dos integrantes
do CPE, que criaram o curso homônimo no Sedes Sapientiae,
primeiro curso de especialização sobre o tema no mundo. Diferente
da primeira publicação, vinha com variadas participações de
diferentes autores, muitos do CPE, que, como já mencionado,
exercia forte atuação no Pronto-Socorro do Hospital de Clínicas,
atendendo vítimas da tentativa de suicídio. A publicação trazia,
além de Angerami, Marli e Regina, outros nomes hoje proeminentes,
como Heloísa Benevides Chiattone. Sabe-se hoje que o livro
é referência mundial por se tratar a primeira publicação a
conter a expressão Psicologia Hospitalar em seu título. Alguns
capítulos ficaram defasados por causa das mudanças do contexto
hospitalar, forçando a retirada do livro do mercado.
Em terceiro lugar na cronologia, vem Psicoterapia
Existencial, cuja quarta edição revisada foi recentemente
lançada. Depois, foi a vez de Suicídio: uma Alternativa à
Vida, que traz atualmente o título Suicídio: Fragmentos de
Psicoterapia Existencial. Como o leitor nota, são livros ainda
atuais, relançados posteriormente por outras editoras.
Seguem-se outros títulos: Crise, Trabalho
e Saúde Mental no Brasil foi outro marco, desta vez na área
da Psicologia Organizacional. Não foi republicado por estar
bastante defasado devido às visíveis mudança no contexto político
nacional, com exceção de dois capítulos que ainda se mantêm
atuais. Em seguida, surge A Psicologia no Hospital que, com
exceção de um capítulo retirado por causa dos avanços tecnológicos
na área da saúde, continua a ser editado.
Migrando para outra editora que, embora mais
nova, já se mostrava maior que a primeira, novos títulos surgiram,
além da republicação de outros anteriormente coroados. Os
novos são: Solidão: A Ausência do Outro; O Doente, a Psicologia
e o Hospital (lançado em 1992, junto com o I Congresso Brasileiro
de Psicologia Hospitalar); Psicologia Hospitalar: Teoria e
Prática (1994); Histórias Psi (1995, a ser republicado como
A Psicoterapia Diante do Suicídio); E a Psicologia Entrou
no Hospital (1996, outro grande marco na área, que contou
com a valiosa colaboração de Ricardo Werner Sebastiani e Heloísa
Benevides Chiattone, levando o livro a ser adotado praticamente
na totalidade dos concursos hospitalares); A Ética na Saúde
(1997, mais um lançamento marcante, adotado inclusive na Europa);
Urgências Psicológicas no Hospital (1998).
Em 1999, Angerami resolve deixar de publicar
em Psicologia Hospitalar por já ter abandonado a atividade
em 1992, quando assumiu uma assessoria na gestão municipal
de Luísa Erundina. As publicações encabeçadas por Angerami
ou de autoria única passam a ser destinadas à Psicoterapia
Existencial e à Psicologia da Saúde. Lança, então, A Prática
da Psicoterapia (com a colaboração de José Paulo Giovanetti,
Roberto Ernesto Schmidlin e Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo),
com um perfil visivelmente existencial.
Na área saúde, os livros provenientes do
CPE caracterizam-se como multiteóricos, incluindo outras abordagens
além da fenomenológico-existencial, evidenciando assim as
características da amizade e do diálogo aqui mencionadas.
Nesse sentido, em 2000 é lançado Psicologia da Saúde, que,
em pouco tempo, revelou-se uma fortíssima referência. Tendo
sido escrito por personalidades brasileiras de renome e questionar
indiretamente outra referência da área no momento, tornou-se
não somente um grande alvo de críticas mas também a maior
referência européia das publicações oriundas do CPE. Mais
dois títulos foram publicados no ano: Psicossomática e a Psicologia
da dor e Depressão e Psicossomática.
Outra característica importante do CPE é
o lançamento de profissionais iniciantes ao lado de nomes
já consagrados, equilibrando o desafio e a novidade com o
aprofundamento reconhecido. Essa característica – importante
lembrar – é bem pouco presente em outras instituições.
Em 2001, conforme já dito anteriormente,
o CPE retomou seus cursos de formação em psicoterapia fenomenológico-existencial
e psicossomática, tendo prosseguido até hoje, no entanto,
apenas o primeiro. Durante essa história, ocorrem também mudanças
de endereço da sede, assimilando no mesmo local a realização
dos cursos e organização dos congressos, união que continua
até hoje.
Continuam as publicações. Eis que vieram,
além dos relançamentos: Atualidades em Psicologia da Saúde;
Novos Rumos em Psicologia da Saúde; Vanguarda em Psicoterapia
Fenomenológico-Existencial; Angústia e Psicoterapia; Psicoterapia
e Subjetivação; Temas Existenciais em Psicoterapia (coletânea
de capítulos anteriores escritos por Angerami); Tendências
em Psicologia Hospitalar (outra coletânea); O Atendimento
Infantil na Ótica Fenomenológico-Existencial; Psicoterapia
Fenomenológico-Existencial; A Psicoterapia Diante da Drogadicção;
Espiritualidade e Prática Clínica; As Várias Faces da Psicologia
Fenomenológico-Existencial e, finalmente, o mais recente As
Relações de Amor em Psicoterapia.
Reconhecido como o autor com mais livros
publicados em Psicologia no Brasil, sejam de autoria própria
ou em parceria com outros autores, Angerami devota ao CPE
o papel de catalisador dos mesmos, que, por sua vez, parecem
agradecer, pelo caminho contrário, a dedicação, a inspiração
e o estímulo de Angerami durante toda a sua história.
O CPE possui e sempre possuiu diálogo aberto
com pessoas de ramos diversos, mesmo não mantendo relação
editorial ou profissional com elas. Um exemplo disso são os
congressos promovidos pela instituição, nos quais não há nenhuma
exclusividade de abordagem, prezando, porém, a consistência
e qualidade dos trabalhos promovidos.
Citar nomes em artigos históricos é sempre
um risco devido às imperfeições da memória humana. No entanto,
esse risco merece ser corrido quando se levantam os nomes
de colaboradores do CPE. O maior exemplo dessa necessidade
é o do professor designado para ministrar as primeiras aulas
sobre a filosofia de Sartre nos primeiros cursos: ninguém
mais ninguém menos que o saudoso, erudito e mundialmente respeitado
Gerd Bornheim.
Outro nome de bastante prestígio é o de João
da Penha, autor do livro O que é Existencialismo, da conhecida
coleção Primeiros Passos. Seguramente pode-se dizer que é
um autor bastante lido. Citando nomes que já integraram ou
integram o CPE, temos Marília Ancona-Lopes, José Carlos Michelazzo,
Gohara Yvette Yehia, Tereza Cristina Saldanha Erthal, Ana
Maria Lopez Calvo de Feijoo, Elizabeth Ranier Martins do Valle,
Juliana Vendrúscolo e Isabel Cristina Carniel.
Merece destaque especial a acadêmica Yolanda
Cintrão Forghieri, que, com seus 83 anos de idade e carisma,
integra ainda hoje o quadro docente, aceitando, inclusive,
expandir seu conhecimento na cidade de Manaus em nome do CPE.
Diante de tantos temas e pessoas aqui citados,
fica evidente não só a capacidade flexível da abordagem teórica,
mas também as possibilidades de diálogo da instituição. Os
cursos continuam crescendo e exigindo novos formatos, sempre
em construção, pois sua procura não se restringe a alunos
recém-formados ou concluintes da graduação, mas freqüentado,
outrossim, por pessoas de alta titularidade acadêmica e em
pleno exercício de suas funções profissionais.
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I Congresso
Brasileiro de Psicoterapia Existencial
Em outubro de 1983 o Centro de Psicoterapia Existencial
realizou no auditório do Instituto Sedes Sapientiae, o I Congresso
Brasileiro de Psicoterapia Existencial. Veja as fotos e os
personagens que contribuíram para o início de nossa história.