Liliane Borges: Formas de Existir

Apresentação

 

“Você chama de violentas as águas de um rio que tudo arrastam, mas não chama de violentas as margens que o oprimem.”[1]

Ao partir em busca de uma abordagem terapêutica onde o profissional de psicologia possa encontrar para além de uma teoria que vai ou vem de encontro com seus próprios anseios talvez seja preciso mais que subsídios teóricos ou mais que o dito cientificismo behaviorista, a busca que começa em si mesmo perpassa pela própria existência e transcende nela mesma o ser humano que emerge de si para si.

Tendo a abordagem psicológica fenomenológica existencial como substrato essencial a própria condição humana e tudo que advém dessa mesma condição, faz-se necessário que a existência ganhe seu contorno e a essência que preenche essa forma tão abstrata e somente humana é que vai trazer para dentro do setting terapêutico a profundeza refletida na própria superfície, as possibilidades da vida e as escolhas diante da mesma.

Falar de uma abordagem que alcance esse ser tão imenso, intangível, restrito, abstrato, concreto, inteligível, finito, possível, inatingível e todo paradoxo que traduz esse ser pode parecer pretensioso e inalcançável em qualquer dimensão psicológica. Mas é a partir dessa condição tão humana que a abordagem existencialista se coloca enquanto desbravadora das possibilidades de ser e das inevitáveis possibilidades do homem de vir a ser.

Como ilustra Angerami (2007) a filosofia existencialista se abrange permitindo uma abertura de possibilidades para a irreversibilidade da existência enquanto fenômeno único e isolado, concluindo assim que cada ser é responsável pelas atitudes e ações enredando assim o auto enfeixamento das possibilidades existenciais. E é diante das diversidades existenciais que o profissional de psicologia, tendo como constructo a abordagem fenomenológico existencial, irá se nortear na edificação da psicoterapia.

Ao considerarmos possibilidades e probabilidades desse ser em atendimento psicológico, Rainer (2001) complementa que a própria existência é como um extenso e espantoso tecido em que mãos de infinita ternura regem cada fio, colocando-o entre os demais fixando-o a intermináveis outros que o sustentam, o que de alguma forma explicita a psicoterapia enquanto a arte de tecer a existência a partir de ser consigo e com os outros.

O encantamento por essa filosofia que dimensiona a existência e o ser humano numa direção múltipla e ao mesmo tempo única na essência das possibilidades, da liberdade da escolha e responsabilidade pela mesma e ainda na tentativa do abarcamento da angústia que essa certeza tão incerta possibilita é que esse trabalho,  cujo objetivo é ir de encontro com temas existenciais dentro do setting terapêutico, se construirá tendo como ponto de partida os conceitos fundamentais que norteiam a prática clínica da arte da psicoterapia.

Ao partir desses conceitos encontrados amiúdemente dentro do setting terapêutico e diante da inevitável angústia que cada conceito imerso em seu significado pode traduzir, não se pretende neste trabalho elucidar alguns temas existenciais, mas sim possibilitar um reconhecimento diante de situações rotineiras mas que frequentemente subtende-se nas mais variadas manifestações de dor.

 

 

Liberdade

 

Noite à fora que me cobre
Negra como um breu de ponta a ponta,
Eu agradeço, a quem forem os deuses
Por minha alma incansável.

Nas cruéis garras da circunstância
Eu não fiz cara feia ou sequer gritei.
Sob as pauladas da sorte
Minha cabeça está sangrenta, mas não rebaixada.

Além deste lugar de raiva e lágrimas
É iminente o horror da escuridão,
E ainda o avançar dos anos
Encontra, e me encontrará, sem medo.

Não importa o quão estreito seja o portão,
O quão carregado com castigos esteja o pergaminho,
Eu sou o mestre de meu destino;
Eu sou o capitão de minha alma
[2]

William Ernest Henley

Mas o que é a liberdade? O que é realmente ser livre?

Quando se fala nessa possibilidade talvez a metáfora das asas que possibilitam o vôo seja uma boa ilustração de algo para ser alcançado, iniciando-se no desejo do impulso, do jogar-se na incerteza de que o ar seja capaz de segurar ou manter todo o peso do corpo e o elevar para o desconhecido; para o gesto de se deixar decidindo que o vento e não as asas poderão escolher a melhor direção; para fechar os olhos e se jogar em ímpeto ou matematicamente calcular cada onda de ar em que se deixará levar; para mutilar as próprias asas e escolher não voar e assim decidir criar pernas para o movimento da vida que é ir independente de qual método utilizará para isso; ou talvez continuar rastejando enquanto a imaginação se joga nos ares e assim enquanto caminha se escolhe a sensação da possibilidade do vôo.

As metáforas que poderiam ilustrar a liberdade são infinitas e perpassam pela responsabilidade de ser e tudo que advém desse “alvedrio de ser”.  Mas falar metaforicamente sobre liberdade ou ser livre pode sugerir apenas a beleza de voar e deixar de lado o peso do que significa o quanto se é livre ou não para alçar vôo.

A liberdade e a responsabilidade por ela estão intimamente ligadas à maioria das demandas e dilemas, e trazem de forma quase imperceptível angústia, medo e responsabilidades que insuportavelmente nos coloca na condição de autoria do próprio existir.

Como afirma Yalon (2007) o ser livre, sob uma perspectiva existencial, está vinculado à angústia ao afirmar que, contrariamente à experiência cotidiana, não entramos para um universo concreto, seguro, imutável com um grandioso desígnio eterno para finalmente o deixarmos. A liberdade significa a pessoa ser responsável por suas próprias escolhas, ações e condição de vida. E assim na idéia de autoconstrução é que reside a angústia: somos seres que desejam estrutura segura, e ficamos amedrontados ante um conceito de liberdade que afirma que embaixo de nós não existe nada, apenas pura falta de fundamento.

E assim, diante dessa complexidade, faz-se necessário que o cliente em psicoterapia assuma sua condição de ser responsável por si mesmo e autor de sua história, aquela que o estruturará enquanto ser humano e o fará se projetar para além dele mesmo estando cônscio de que não há nenhuma força externa ou superior no comando de sua existência e que ele, somente ele, é responsável pela força propulsora que modificará seu modo de se fazer existir.

O homem é um ser que, livre, decide a própria vida. O homem arca com a responsabilidade de sua escolha. E escolher sua própria vertente significa lutar pela própria dignidade. O homem é absolutamente livre ou não é. A alternativa é radical: Ou determinismo absoluto ou liberdade absoluta. (Angerami,2007) ou ainda “é determinismo sim. Mas seguindo o próprio determinismo é que se é livre. Prisão seria seguir um destino que não fosse o próprio. Há uma grande liberdade em se ter um destino. Este é o nosso livre arbítrio” (Clarice Lispector).

E é diante das afirmações acima que o “acaso” do que nos acontece perde a validade diante da grandeza dessa responsabilidade que, ao ser assumida, gera automaticamente a angústia por não ter alguém para ser responsável pelas agruras do existir de si mesmo e assim quando suas atitudes são assumidas plenamente o fator mudança ganha também um novo contorno que pressupõe que a transformação se inicia  pela ação interna que tem como arcabouço a vontade de mudar e culmina com a ação que na liberdade de executá-la se permite a plenitude de ser livre.

A liberdade é fato, mas escolher ser livre é opção.

Ao colocar a liberdade nessa magnitude é necessário, no entanto, que não nos esqueçamos que é exatamente nessa grandiosidade que reside a renúncia, nos mais variados aspectos e onde os contrários se encontram e se desencontraram é que a consciência de ter que optar, e que isso elimina todas as outras opções, e que surge como decorrências desse ser livre a angústia da escolha.

Kundera (2008) esboça essa constatação ao dizer que o homem por ter apenas uma vida, não tem nenhuma possibilidade de verificar a hipótese por meio de experimentos, por isso não saberá nunca se errou ou acertou ao obedecer a seu sentimento e assim quando não existe meio de verificar qual é a decisão acertada, pela impossibilidade do termo de comparação tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação e ainda afirma que poder viver apenas uma vida é como não viver nunca.

Enfim ao trazer o tema liberdade e possibilidades desse ser livre no contexto da terapia o profissional de psicologia se coloca também na condição de possibilitador, onde a psicoterapia será o processo capaz de levá-lo ao autoconhecimento na medida em que irá promover uma reflexão sobre aquilo que possa estar sendo considerado decisivo e também as razões que estejam aprisionando seu desenvolvimento pessoal e suas possibilidades. (Angerami,2003)

 

Que a mentira não engane a verdade

Que a força não ensine a ternura

Que o grito não silencie o sussurro

Que as amarras não iludam a liberdade.

 

Solidão

 

Sentimento intrínseco à condição humana, tema exaustivo na literatura, música, pintura, cinema e nas mais variadas manifestações de arte.

A solidão ou o medo da mesma ganha proporção gigantescas também dentro do setting terapêutico como se fosse um monstro guardado em um lugar central de si mesmo e que a todo instante arranha os infinitos vãos e aberturas com gemidos suplicantes e agarras que volta e meia acariciam de forma pegajosa o medo de em algum momento se ver nessa condição.

“Tenho medo de ficar sozinho” é uma frase que sussurrada não deixa transparecer a carga de dor e desespero que na maioria das vezes culmina com tentativas absurdas de permanecer em uma situação que muitas vezes camufla esse estar sozinho.

A solidão, também fato da condição humana, trazida enquanto demanda psíquica retrata o desespero de não ter alguém que nos reconheça enquanto pessoa e está diretamente ligada à ansiedade e desespero de ser único nessa situação, como se ao estar com o Outro o Si Mesmo se tornasse A gente e nessa fusão a angústia de ser terrivelmente só perdesse a força e assim se pudesse preencher as lacunas que nos separam dos outros e de nós mesmos.

Não há vida em grupo que nos livre do peso de nós mesmos, que nos dispense de ter uma opinião; e não existe vida interior que não seja como uma primeira experiência de nossas relações com o outro. (Merleau-Ponty,2004)

A solidão ou o medo de estar sozinho, no entanto, se entendido como possibilidade de estar em contato consigo mesmo possibilita o homem à procura de alternativas existenciais muitas vezes contrárias às formas desesperadoras e fechadas, pois sua compreensão na constatação que cada um é único em sua própria historicidade, trajetória, biografia e maneira própria de buscar sentido para a vida também se percebe que ela demonstra a grandeza e a beleza da condição humana (Angerami,2007).

É inevitável ser só, pois inúmeros caminhos são trilhados na solidão e na imensidão de si mesmo, culminados muitas vezes na inadequação das interações exigidas pelo meio em que o ser humano transita e principalmente por nascer e morrer enquanto experiência única e intransponível.

Rilke (2001) evidencia essa gravidade enquanto experiência pessoal sugerindo ao discípulo em Cartas a um Jovem Poeta:

(…)ame a sua solidão e carregue com queixas harmoniosas a dor que ela lhe causa. Diz que os sentem próximos estão longe. Isso mostra que começa a fazer espaço em redor de si. Se o próximo lhe parece longe, os seus longes alcançam as estrelas, são imensos. Alegre-se com essa imensidade, para a qual não pode carregar ninguém consigo. E ainda (…)é precisamente nas coisas mais profundas e importantes que estamos indizivelmente só(p.45)

 

A relevância dessa percepção nos autoriza a mais uma vez estarmos cônscios da dimensão existencial que nos rodeia e impulsiona para a constatação de que cada ser é único em si e não poderá delegar para outro a execução de suas potencialidades e intimidades relacionadas a estar sozinho consigo e assim dependente de si mesmo.

A essa solidão que muitas vezes vem vestida com a simplicidade do medo, não pode ser desconsiderada do contexto psicoterápico até mesmo porque as demandas envolvendo os “fracassos” dos relacionamentos interpessoais é que em grande parte possibilita a procura pelo trabalho da terapia.

E a alma dança

Na inconstância de si

Procura…

E o corpo vibra

Na concretude de si

Partilha…

Estão sós

E não existem sozinhos…

 

Angústia

 

Assim, o Menino, entre dia, no acabrunho, pelejava

com o que não queria querer em si.

Não suportava atentar,

a cru, nas coisas como são,

e como vão ficando: mais pesadas,

mais-coisas – quando olhadas sem precauções.[3]

 

Tanta dor.

Um vômito provocado no âmago sem nunca chegar a expelir os restos excessivos da falta. Um querer inerte sem pretensões de movimento. De repente e tão continuamente desesperador que impulsiona o vôo para o abismo que totalmente anti-gravitacional nos expulsa para o espaço.

É nesse imenso paradoxo embora totalmente direcionado para a dor abstrata e tão concreta que a angústia toma forma dentro do setting terapêutico, trazida das mais variadas formas tem em seu cerne a dor confusa de algo inexplicável que começa não se sabe onde e perpassa por todos os estímulos de dor possível, identificáveis  e não identificáveis.

Algumas vezes apenas está lá latejando, exigindo, questionando, procurando. Outras vezes é apenas a continuidade do nada, da impossibilidade de transitar nesse vazio que busca ser preenchido nos resquícios das inumeráveis tentativas de atribuição de sentido e impossibilidade do mesmo. Outras vezes é o estreitamento diante da liberdade obrigatória de ser e o que advém dessa escolha. Outras vezes se revela no momento em que se confina nas limitações impostas pela temporalidade que trazida em tenuidade e acasos provoca, explicita, questiona, sugere e se perde. Outras vezes é apenas estar diante da fragilidade exposta do desamparo da vida e das possibilidades imensuráveis do que isto significa. Outras vezes é o inexplicável pura e simplesmente.

Mas em todos os momentos é o homem diante do espelho da sua condição de homem.

A angústia na vertente existencialista pode ser considerada como um sentimento determinante para o emergir da condição humana e tem como estrutura essencial a liberdade.

Feijoo (2000) explica que a angústia é um anseio que expõe a abertura do homem perante o futuro, uma vez que é ele mesmo que o opta. O homem quer caminhar para o futuro, seguir em frente e não paralisar; no entanto, teme o que esta porvir, o desconhecido e o inesperado. Esse dilema humano é a angústia.

Em sua definição de angústia Angerami (2007)  reconhece três formas de manifestação deste sentimento sendo a angústia de ser que seria a cogitação que o nada é tão possível quanto ser e a nossa incapacidade de explicitar o fenômeno e o mistério de existir nessa vida. A angústia do aqui-agora onde o homem se torna cônscio da efemeridade da sua existência e impossibilidade de uma participação efetiva na posterioridade e a angústia da liberdade que o homem experimenta ao ser lançado ao mundo sendo consciente de que cada um é responsável por si mesmo e também de cada ato.

Angerami(2007) ainda coloca que é através da angústia que a existência adquire plenitude e contornos específicos de condição libertária.

Assim sendo, não é necessário que se explique o quanto a angústia pode ser considerada uma mola propulsora dentro do processo terapêutico já que ela por si mesma exige uma reflexão ou até mesmo uma postura perante as situações em que a angústia se torna insuportavelmente presente.

E assim frases do tipo “eu não agüento continuar nessa situação angustiante, preciso mudar”, ou “é sufocante continuar desse jeito” ou ainda “preciso fazer alguma coisa para melhorar” podem ser o iniciar de um processo onde o cliente se recuse à paralisia da permanência.

 

O que dói não é a partida

Não é a ausência

E nem o beijo na despedida

O que dói é não entender o porque

E como você me tirou da sua vida.

 

 

O sentido da vida

 

Se não existir algum sentido para seu viver, uma pessoa tende a tirar-se a vida e está pronta para fazê-lo mesmo que todas as suas necessidades sob qualquer aspecto estejam satisfeitas (Frankl,2005)

De repente um vazio imensurável se revela tão imenso, tão impossível, tão despretensiosamente pretensioso que a pequenez de ser se torna incrivelmente gigante e ainda assim se camufla em algum lugar maior que nós mesmos.

Longe de querer questionar o sentido da vida, se pretendeu aqui neste contexto reafirmar a necessidade intrínseca de cada um de si entender para além de um mero acaso ou uma conjunção incrível de múltiplas causalidades na magnitude do por que da existência.

Essa condição humana reflexiva que busca um sentido profundo ou não, mas que traga resposta às perguntas que lançamos a esmo e a todo instante diante da incerteza que é viver.

Somos seres que inevitavelmente se colocam enquanto inquisidores da improbabilidade da vida, da incerteza que a todo momento bate à porta trajando vestidos de efemeridade e adornos do finito e ainda mais, somos pessoas que se projetam, se constroem, se programam como se tudo que realmente importa é o pra quê e não necessariamente apenas o porque.

Yalon (2008) entende que temos a necessidade de compreender o sentido da vida, pois cada um lida com o inconveniente de ser lançado em um universo que intrinsecamente não tem sentido nenhum e para evitar o niilismo as pessoas embarcam na invenção de um projeto que dê sentido à vida e que seja vigoroso o bastante para sustentá-la ao mesmo tempo em cada um se convence que não inventou, mas sim que o descobriu.

O sentido da vida ao ganhar contornos abstratos e querer ser entendido em alguns momentos como algo universal, grandioso ou como uma saga messiânica pode se confrontar com a realidade concreta do que realmente temos: uma total falta de sentido ainda que teorias científicas e religiosas se esmerem na tentativa de nos explicar o absurdo que é viver.

A busca por esse sentido, no entanto, é parte constitutiva do homem. Cada ser busca a significância de si em relação ao sentido que dá diante da existência, das coisas e das crenças referente a estas.

Angerami (2007) cita o ensinamento de Frankl que afirma que a existência não se trata de uma imputação de sentido, mas de uma descoberta de sentido, o que não faz dar um sentido, mas encontrá-lo, já que o sentido da vida não pode ser arquitetado, antes tem que ser encontrado.

É basicamente assim que o sentido da vida ganha proporções únicas para cada um em si mesmo e nas suas significações em relação à existência, já que ao se projetar de acordo com o significado desse sentido é que as realizações alcançadas serão ou não correspondentes aos projetos existências propostos a si mesmo.

Assim o sentido da vida também sugere que nesta proposta esse sentido poderá ser uma faca de dois gumes, pois, o homem estando em contínuo movimento na dinâmica propulsora da existência é extremamente necessário que ele decida de maneira adequada seu projeto de vida, pois poderá ter que se adequar a inúmeras frustrações e até mesmo a uma existência permeada pelos parâmetros impostos pelas asperezas do caminho ao mesmo tempo em que a realização de projetos quase inalcançáveis, alcança patamares muito superiores aos impostos pela própria existência (Angerami,2008).

Sentido não só precisa, mas também pode ser encontrado, e na busca pelo mesmo é a consciência que orienta a pessoa (Frankl,2007).

A infinidade de perguntas e multiplicidade das respostas descobertas ou inventadas em relação ao sentido que cada um encontra ainda que como justificativa, imposição ou sentido é que vai balizar a muitas significações e posturas em relação a vida e o que se faz dela.

A procura desse sentido é encontrado de inúmeras maneiras dentro do setting terapêutico seja de forma patológica quando esse sentido torna-se vazio demais e insuportavelmente desesperador seja ainda como tentativa de se encontrar nesse universo onde o mistério da vida representa também o incoerência do que representa o que é viver.

 

Morte

 

Fechar os olhos abruptamente

ou o consentimento para que as pálpebras descansem?

Negar-se a respirar

 ou entregar-se ao sufocamento?

Viver pela vida

ou pela certeza da morte?

 

A morte como condição sine qua non para a vida reflete em seu cerne a condição necessariamente humana de se saber mortal, de experenciar sua mortalidade na liquidez da própria vivência e se transcender para além dela.

A vela que se consome pela própria chama é capaz de iluminar a si mesma e é assim que a finitude pode ganhar proporções que eleve, possibilite, constrói, estruture, angustie, estanque, ecoa e tudo o que de alguma forma nos coloca frente à absurdidade do fim tanto quanto o mistério desse fim.

Nesse contexto pretendeu aqui trazer essa temática não o homem enquanto projeto para o fim ou para a vida, mas sim o homem enquanto consciência dessa finitude. E ainda enquanto angústia e temor que a morte traz para o contexto terapêutico.

De uma forma simplista, por entender a profundidade deste tema e por estar cônscio das reverberações do mesmo dentro do setting terapêutico, podemos destacar a finitude de si e daqueles que nos rodeiam como algo interdependente a todos os temas existenciais já abordados. Mesmo porque é a existência que possibilita as próprias significações do viver.

A morte como uma idéia de perda tão característico em nossa cultura, na maioria das vezes nos faz cegos para os benefícios e crescimentos trazidos através dessa idéia.

Yalon (2008) entende que nosso viver está sempre permeado pela certeza inevitável de que crescemos, nos desenvolvemos, nos degradamos e morremos e que o medo de tudo isso se manifesta, seja como sintoma patológico, seja como fluxo explicito e consciente da angústia em relação a morte ou ainda como terror que anula qualquer possibilidade de felicidade e realização.

A certeza da morte, ainda que pareça uma idéia longínqua, nos espreita não apenas como um ladrão silencioso disposto a nos tirar tudo que temos de mais precioso, mas também e principalmente como um álibi que pode nos salvar da inércia poderosa que muitas vezes nos impulsiona para o quietismo seguro da permanência das coisas e pessoas.

Assim a colocação de Yalon (2008) que o medo da morte muitas vezes esta intimamente ligado com a sensação de uma vida mal vivida e que ambas se correlacionam em proporção quantitativa e que ao viver em autenticidade esse medo também em proporção quantitativa diminuirá, ou seja, quanto mais a vida não é vivida ou seu potencial não é realizado, maior será a angústia da morte, nos remete na valorização do que temos de mais precioso no comprometimento de vivermos no ápice de nossas possibilidades.

Para Kehl (2008) citando Octavio Paz o valor da finitude não é tributário da aceleração que precipita o sujeito rumo ao futuro, mas sim que a finitude adquire valor na medida em que o sujeito desiste de se tornar senhor do tempo uma vez que faz da vivência temporal experiência, pois do contrário a vida perde o sentido.

E é assim que a vida, paradoxalmente, traz em seu cerne também seu iminente fim, dá margem para que a morte seja em sua essência a consciência da nossa condição efêmera de sermos totalmente humanos e sozinhos já que ninguém poderá morrer senão na sua própria morte.

A idéia da finitude, correlacionada às perdas ao longo da vida é encontrado no contexto psicoterápico das mais diversas formas seja nos confrontando com a nossa realidade mais humana, seja negando, seja se impedindo da concretização de projetos para serem realizados ou ainda no desespero da possibilidade certa da perda.

A profundidade dessa dor vai ganhando contornos subjetivos para o ser e não raro se ouve frases do tipo “essa é a pior dor que alguém pode passar”, “não suportaria a morte daquele que tanto amo”, “depois que o perdi, perdi também a mim mesma” e tantas frases que ilustram a angústia da perda.

 

Foi no último acorde e não no princípio

Quando o silêncio rompeu

A intensidade da canção

É que confirmei

Que todo fim tem um início

 

E sofri.

 

Considerações finais

 

Ao tentar adentrar nesses temas não havia nenhuma pretensão teórica de explicar o que não pode ser explicado e muito menos encontrar respostas que nos permitissem uma forma mais simples de lidar com nossa condição humana.

No entanto, foi usando esses conceitos como um norte no alcance dos objetivos ou como um leito onde pudesse deitar minhas dúvidas é que encontrei partes únicas minhas no sentido universal de todos os atendimentos já feitos por mim até agora.

Então, paradoxalmente, pude compreender que algumas dúvidas que busquei sanar não me pediam esclarecimento apenas compreensão diante dos inúmeros e inomináveis sentimentos diante do existir, me pediam apenas um posicionamento diante de dores que também eram minhas, pediam não apenas identificação com o humano e sim capacidade para estar em seu lugar, me pediam respeito por escolhas cujos resultados extrapolaram os motivos inicialmente buscados, me pediam que me distanciasse apenas para uma visão mais completa e não enquanto hierarquia de conhecimentos, me pediam conforto mas não consolo, me pediam que se fosse necessário reabrisse feridas mas estive perto o suficiente no auxilio para estancar o sangue, enfim minhas dúvidas se tornaram constatações e não respostas.

Com um tempo mínimo de profissão já me deparei com cada um dos temas trazidos acima e a angústia de cada um deles, poderia ainda dentro desse contexto trazer muitos outros temas existenciais que volta e meia nos sacode dentro do setting terapêutico, no entanto, esses conceitos não foram trazidos de forma aleatória, pois foram os primeiros que saltaram por esta pequena fresta de janela quando me vi abraçando essa abordagem tão minha, tão nossa, tão humana.

Nesse contexto entendo que me permiti estar em contato com minhas próprias indagações e transformar minhas perguntas em bagagem terapêutica, pois antes tive que lidar com a liberdade da minha escolha e excluir infinitas possibilidades, lidei e ainda lido com a falta que não é apenas de sentido, com a solidão tão existencial que nos acompanha nessa trilha, com a angústia de lidar com o desespero de também estar lançada e com as perdas que sem categoria de dor estão presentes, pois estamos vivos.

Assim ao lidar com cada um desses temas dentro do universo infinito do ser humano conheci o peso da liberdade que resulta no que escolhemos para nós mesmos e no resultado muitas vezes inconcebível dessas escolhas; conheci a angústia que se transforma em tsunami e arrasta para um abismo desconhecido as essências cultivadas e ao mesmo tempo tão incognoscíveis que não sabemos nomear; conheci a solidão que não é apenas a busca por outro corpo mas também a solidão de ser sozinho; e conheci a morte das mais variadas maneiras aquela que bate a porta, aquela que entra sem bater, aquela que rouba de maneira silente a vida e a que escancara.

Enfim é essa abordagem que me permite acreditar que o profissional de psicologia pode ser antes de tudo um ser humano e reconhecer o outro também nessa condição, praticar a arte de apontar caminhos, acolher dores, encontrar beleza ainda que triste, leveza no peso da vida e se permitir simplesmente ser.

E o alcance disso tudo não é um fim nem um começo é apenas um processo que consente a fragilidade exposta nos subterfúgios cuja metamorfose não é transformação, mas sim o sentido que damos a ela.

Quando me tornei borboleta

Aprendi sobre evolução

Quando me vi voando

Ainda lagarta

 

Aprendi sobre transcendência.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Refêrencia:

 

A condição humana. Organizador Adaulto Novaes.Rio de Janeiro: Agir,2009.

Angústia e Psicoterapia; Organizador Valdemar Augusto Angerami-Camon. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2000.

Angerami, Valdemar Augusto, Psicoterapia Existencial;4.ed, São Paulo: Thomson Learning Brasil, 2007.

Frankl,Viktor E, A presença ignorada de Deus; tradução Walter O.Schlupp e Helga H. Reinhol. 10 ed.rev São Leopoldo: Sinodal; Petrópolis:: Vozes, 2007.

Frankl,Viktor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração; tradução Walter O.Schlupp e Carlos C. Aveline.25. Ed.;São Leopoldo: Sinodal; Petrópolis:Vozes, 2008.

 

Frankl,Viktor E. Um sentido para a vida: psicoterapia e humanismo; tradução Victor Hugo Silveira Lapenta, 11 ed. Aparecida, SP: Idéias e Letras,2005

 

Yalom, Irvin D., De Frente para o sol: como superar o terror da morte;tradução Daniel Lembo Schiller.-Rio de Janeiro: Agir, 2008.

 

Yalon, Irvin D. Mamãe e o Sentido da Vida: histórias de psicoterapia; tradução Lúcia Ribeiro da Silva. Rio de Janeiro: Agir, 2008.

 

Yalom, Irvin D., O Carrasco do Amor; tradução Maria Adriana Verissimo Veronese,-Rio de Janeiro: Ediouro,2007.

 

Kundera, Milan. A insustentável leveza do ser; tradução Teresa bulhões Carvalho da Fonseca. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

 

Lispector, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

Merleau-Ponty,Maurice.Conversas,1948. Organização e notas Stéphanie Ménasé; tradução Fabio Landa, EvaLanda.São Paulo: Martins Fontes,2004.

 

Rilke,Rainer Maria.Cartas a um jovem poeta; tradução Paulo Rónai e Cecilia Meireles. São Paulo: Globo, 2001.

 

 

 

 

[1]  Bertolt Brecht (citação de Angerami-2007)

[2]  Poema citado no filme Invictus

[3]  João Guimarães Rosa – Primeiras Estórias