A arte de ser solitário

Cresce o coro dos descontentes, de pessoas queixando-se 
da solidão. Esquecem que esta é uma condição primária 
do ser humano e que, ainda assim, é possível ser feliz

A idéia que a maioria das pessoas faz da solidão é de um sentimento doloroso que nos acomete em determinados momentos. Aquela sensação de mal-estar que nos invade na sexta-feira à noite ou no domingo à tarde quando estamos sozinhos em casa, sem programa. Ou é o estado em que um amigo se encontra porque está passando por um período difícil, depois de uma separação. 
Na verdade, a solidão é uma condição imanente ao homem, faz parte da vida. Só que, em certos momentos, a percebemos mais agudamente e não sabemos como lidar com ela. A solidão parece estar longe quando mantemos um relacionamento muito estreito, muito íntimo, com alguém que amamos, com quem temos bastante afinidade e pontos de contato. Ou durante uma relação sexual, em que dois são um e sentimos que é possível uma união total. Mas, cedo ou tarde, chega a hora de encarar a conclusão inevitável: cada um é um. 
Muitas vezes nos percebemos como parte de um todo – de uma família, de um grupo de amigos, de uma comunidade. Mas chegará o ponto em que tomaremos consciência de que a realização pessoal depende das próprias possibilidades. Em suma, por mais que se viva junto de quem se ama, por mais que se interaja socialmente, não será possível evitar, lá no fundo, a certeza de ser só. 
Entender o que é um ser ajuda a compreender a solidão. Ser é tudo aquilo que tem vida. Ao contrário de um objeto inanimado, o homem tem consciência desse ser. Uma pedra pode sofrer solidão? Não pode, porque não tem consciência de que existe outra pedra. 
Com o outro ou em grupo, procuramos suprir as carências e a necessidade de nos sentirmos amados, desejados. Mas por estarmos com o outro ou com outros não deixamos de ser fundamentalmente sós. Às vezes nos perguntamos como a solidão nos apanhou. O que aconteceu foi que, nessas circunstâncias, entramos em confronto com a solidão. Não que ela não tenha existido pela manhã, no escritório, ou na véspera, numa festa. Sempre esteve ali. O curioso é que as pessoas que se queixam de viver muito sós falam como se fosse um problema pessoal, e não uma característica de todos nós. Só quando o outro nos vê e nos reconhece, sentimos amenizar o peso da solidão, em função da convivência e da integração. 
Uma criança pode brincar numa sala enquanto a mãe, no outro canto, faz tricô. Cada uma nas suas tarefas, concentrada nas suas coisas. Mas se a mãe sai, a criança inquieta-se, quer que ela volte, segue-a, precisa dela para lhe aliviar o peso da solidão. O mesmo acontece já com o bebê. Mesmo alimentado, limpo, confortável, ao ficar sozinho, chora, quer a interação com outras pessoas, não agüenta a solidão. O próprio adulto com freqüência não agüenta o peso da solidão. Há momentos em que se torna premente procurar o outro, mesmo que o outro seja representado por uma voz desconhecida ao telefone, por uma carta, uma lembrança… 
Quem é que não sentiu essa espécie de vazio alguma vez, sozinho em casa? A televisão não distrai, a música, em vez de consolar, lembra situações em que havia pessoas queridas por perto, torna-se impossível concentrar-se na leitura de um livro. Mas basta telefonar para alguém e falar uns minutos para que mude esse panorama sombrio. 

Última opção – Se a solidão se transforma num processo contínuo e doloroso, pode mesmo culminar em suicídio, um ato de desespero quando não se vê nenhuma outra saída para uma situação insuportável. Então, a morte apresenta-se como única alternativa para o sofrimento, para a sensação de não agüentar o peso da própria vida e da condição humana. No suicídio, em geral, entram muitas variáveis, desde problemas pessoais, conjugais, com os filhos, até o desemprego e outras situações provocadas pelas oscilações sociais. Mas a solidão é uma causa sempre presente. 
Aparentemente, algumas pessoas convivem sempre muito bem com a solidão. Mas, também neste caso, as aparências podem enganar. Como uma mulher cujo marido não se cansava de cobri-la de carinho e atenção e, para surpresa de todos, antes de suicidar-se, deixou um bilhete dizendo que não agüentava mais a solidão. Ou os muitos religiosos que, segundo se costuma pensar, vivem só e muito felizes, quando nem sempre é assim. Há pouco tempo, ao entrar em contato com os membros de uma ordem religiosa, ouvi um padre descrevendo como se sentia aos domingos. Depois de rezar a missa para a comunidade e receber cumprimentos e elogios, toda a gente ia embora. E ele? Ia almoçar, também, mas sozinho. 
No outro extremo, posso citar o exemplo de alguém no auge da popularidade, do sucesso, com uma intensa atuação social. A cantora Janis Joplin dizia que, quando cantava no palco, tinha a impressão de estar fazendo amor com os milhares de espectadores da platéia. Só que o show acabava e ela ia dormir sozinha. Não era um problema só dela, mas algo que diz respeito à condição humana. Chega sempre o momento de ir dormir sozinho, de ficar cara a cara com o próprio sofrimento, a própria angústia, a própria ansiedade. 
Entrar em contato com a solidão não é fácil. Mas após compreendê-la, ao constatar que cada um é único, com sua própria história, percurso, biografia, sua maneira pessoal de procurar sentido para a sua vida, também se percebe estar aí a grandeza e a beleza da condição humana. 
Há momentos em que as perspectivas da condição humana se perdem e o sofrimento vence. São períodos críticos, de perdas reais ou aparentes. Um exemplo comum é a terceira idade, em que se deixa de contar com muitos papéis e atividades. 

Ressaca moral – Nem sempre são felizes ou bem-sucedidas as tentativas de aliviar a solidão a qualquer custo. Hoje, muitas pessoas dispostas a procurar companhia encontram alguém num bar, saem, conversam e vão fazer amor. E depois? E a ressaca moral que isso deixa? Se essa pessoa tiver alguma lucidez perceberá que, para suprir uma carência, procurou alguém que não tinha nada a ver consigo. Resultado: uma carência ainda mais sentida, a sensação de solidão crescendo e o vazio à volta ficando maior. Ela pode justificar-se argumentando que só queria mesmo prazer, satisfazer a excitação física. Mas se fosse só pelo prazer físico, o outro seria até dispensável, a masturbação bastaria. Mais correto é pensar que essa pessoa procurou outra para sentir, nem que fosse por breves momentos, que tinha significado para alguém. Tanto isso é verdade que nem uma prostituta vai direto ao ato sexual. Ela faz o possível para que o sujeito que a procura passe a sentir-se desejado e viril. Porque, de alguma forma, ela sabe que aquele indivíduo não busca só satisfação física. 
Quando o sentimento de solidão ameaça torna-se aniquilador, quando se transforma numa sensação que aprisiona o coração e a alma, o remédio é ir intensamente encontrar pessoas e situações, mergulhar por inteiro num novo projeto, numa empreitada. Pode ser desde pintar um quadro a assumir uma atuação política duradoura. É preciso sair, de alguma forma, de si. 
É bom ter sempre claro que solidão (ser só) é diferente de isolamento (estar só). Mas situações de isolamento social podem contribuir para tornar penosa a sensação de ser só. Se nos encontramos numa cidade onde não conhecemos ninguém a não ser o garçom do restaurante ou o cobrador do ônibus, ficamos sem contatos sociais. Aí, pode ser mesmo muito forte a consciência de ser só. Exemplos de sofrimento pelo isolamento social podem estar ao nosso lado e passar despercebidos. Como o da empregada doméstica, proibida de freqüentar o ambiente social da própria casa onde mora. 
As várias saídas de si mesmo mostram ao indivíduo que ele não é apenas um ser com sofrimentos, mas também com significado. É o sentido da própria existência que se procura quando se quer chegar a uma realização cada vez maior, quando se quer crescer afetivamente e emocionalmente, contrapondo esses ganhos aos sofrimentos que a vida traz. E nessa busca não há receitas nem modelos bons para todos. Até porque a saída muda em cada fase da vida. Quando um adolescente anda por aí fazendo um enorme barulho com a sua moto, está dizendo: “vejam, eu existo, tenho um significado”. Mas essa significação será muito diferente para o empresário que já tem dez empresas e luta para chegar às vinte ou para o político cuja meta é ser presidente da República. 
É isso que esse sofrimento inerente ao ser humano tem de positivo. Ele é a mola que nos impulsiona no rumo de outras possibilidades e realizações, ou da construção de novas saídas e alternativas que gerem transformações, não só pessoais, como no mundo. 
Não é desprezível o fato de um número cada vez maior de pessoas se queixar da solidão. Pelo menos em parte, deve ser devido ao empobrecimento pelo qual passam as relações interpessoais, talvez pelas condições da própria vida moderna, que aglomera indivíduos sem a menor afinidade entre si. Ao mesmo tempo, o crescimento da tecnologia não trabalha exatamente a favor de relações. Nas cidades do interior, toda a gente ainda se conhece. Nas grandes cidades, quem mora num prédio não sabe quem são os vizinhos de porta; cada um conserva-se insensível às alegrias e ao sofrimento do outro. Cada um se fecha em seu próprio sofrimento e ali fica. Com isso, alimenta-se a sensação de que todos estão ótimos, só eu é que sofro. 
E se vamos ao encontro do sofrimento do outro e ele bate com a porta na minha cara, me rejeita? Parece que ninguém quer nada com ninguém. Essa aparente hostilidade pode ser o estímulo para fazer alguma coisa a favor da transformação das relações, de maneira a quebrar as barreiras da solidão. O que pode ser um ótimo começo para quem dá a sua contribuição pessoal ao mundo e, assim, faz com que a sua própria vida ganhe um sentido maior.

Angústia Existencial

Aluna: Nívea Regina Simono Salviati

2003

Monografia apresentada como trabalho de conclusão do Curso de Especialização em Psicoterapia Existencial do Centro de Psicoterapia Existencial sob a orientação do psicólogo Robson L. Oliveira.

I. Introdução

O interesse para escrever sobre Angústia originou-se de minha própria angústia diante da necessidade de escolher um tema para a monografia de conclusão do Curso de Especialização em Psicoterapia Existencial.

Como foi difícil escolher dentre tantas opções interessantes, apenas uma para estudar. Claro, como diria Sartre (1978), a escolha de uma implicava a negação das outras, ou seja, a não possibilidade de vivenciar as outras escolhas. E isto angustiava-me. Refletindo a respeito, cheguei à conclusão de que existir significa escolher a todo momento, desde a decisão mais simples à mais complexa sobre minhas atitudes, bem como ser responsável por essas escolhas já que atingem não só a mim como à humanidade e, portanto, como já dizia Sartre (1978), estamos condenados à liberdade de escolha em nossa temporalidade. Ter consciência disso é ter angústia (Angerami – Camon, 1998).

A partir disso, sobreveio-me a curiosidade de saber como o Existencialismo compreende essa Angústia? O que diria Sartre? E Heidegger? Por meio de um levantamento bibliográfico, procurei conhecer o que e como alguns filósofos existencialistas pensavam a respeito.

Em seguida, decidi realizar uma análise fenomenológica das angústias vivenciadas pelas personagens Garcin, Estelle e Inês, do teatro de Jean – Paul Sartre, intitulado “Entre Quatro Paredes”, com a finalidade de transpor a teoria para uma experiência.

Espero com estes escritos compreender melhor e poder contribuir para a compreensão da angústia enquanto experiência inerente à condição humana.

II. Angústia Existencial

II.1. O que é Angústia?

O termo “Angústia” tem sua origem do latim “Angustus” que significa “estreito, apertar, afogar”. Conforme Mandruszka (citado por Giovanetti, 2000), esse termo surge a partir de uma vivência corporal de ser no espaço, significando um estreitamento da vivência, de onde provém a expressão clássica de “aperto no peito” ao se definir a angústia, sem se ter clareza sobre o que provoca essa sensação.

Há de se realizar, neste momento, a distinção entre angústia e medo. Kiekegaard (1972), em seu livro “O Conceito de Angústia” afirma que no medo tem-se certa clareza de que é uma emoção que possui um objeto, isto é, sente-se medo de algo possível de ser definido, concreto, ao contrário da angústia que não se tem uma clareza do objeto que a evoca.

Desse modo, descobrindo o objeto do qual sente-se medo, é possível evitar esse objeto e controlar essa sensação. Na angústia, porém, a dificuldade em se ter clareza de seu objeto faz com que o ser permaneça em estado de angústia.

Existem vários tipos de leitura acerca da angústia. Há a leitura psicológica, ou nosológica, que reduz sua compreensão às manifestações clínicas e psicopatológicas; e há a leitura ontológica que considera a angústia enquanto um fenômeno que atinge todo ser enquanto perda do fundamento pessoal da existência e, conseqüentemente, do sentido de vida. A primeira busca atentar para os sintomas que a angústia apresenta, no intuito de encontrar uma cura para o sofrimento causado, através de métodos que controlem os sintomas, removendo totalmente a angústia. A segunda visa compreender a angústia enquanto inerente ao ser e, como tal não há o que se curar porque não há como remover a angústia do ser.

O existencialista difere da filosofia tradicional e do homem comum neste ponto, pois não acredita que possa existir vida sem sofrimento ou a felicidade eterna. Acredita que as agruras existenciais, dentre elas a angústia, a solidão, o tédio etc., são inerentes à existência humana e, sem elas não há realizações humanas.

Segundo Sartre (1978), o homem possui a liberdade para assumir a totalidade dos próprios atos e, diante da obrigação de optar, se angustia, visto que mesmo o não optar já é em si uma opção de delegar o poder decisório a um outro e, como tal, arcar com a responsabilidade do que for escolhido por este.

“O homem é um ser que, livre, decide a própria vida. O homem arca com a responsabilidade de sua escolha, e escolher sua própria vertente, significa lutar pela própria dignidade” (Angerami – Camon, 1998, p. 6).

No pensamento existencialista, portanto, a angústia deixa de ser vista como uma patologia para ser inerente à existência, à condição humana (Angerami – Camon, 2000). É ela que tira o homem do quietismo e o leva à ação, o faz mudar de atitude, seu modo de pensar, de agir etc. pela reflexão e discussão acerca dos valores existenciais que ampliam a compreensão da realidade humana. A angústia não é mais, portanto, um sentimento negativo, mas uma experiência que evidencia-se quando tem-se consciência da condição humana de seres livres e únicos. A natureza essencial do homem é a razão pela qual ele adquire consciência dos seres. O que distingue os homens de outros seres é a consciência.

Dartigues (s/d) aponta que diferentemente do medo, a angústia não tem objeto, isto é, nada que existe pode desempenhar o papel daquilo que angustia a angústia. Sendo assim, a angústia de nada pode se assegurar, nem tampouco se tranqüilizar, o que resta apenas é o ser-no-mundo do modo que se é. Quando o nada se encontra com a angústia lembra o homem de sua verdadeira condição, um ser de possibilidades responsável por suas escolhas.

A angústia existencial é um sentimento elitista e filosófico pois refere-se à totalidade da existência humana e não à experiência pessoal diante do perigo ou aspereza da vida, como é utilizada no senso comum. É através da angústia que o homem direciona seus atos e torna possível agir em busca de novas perspectivas à própria vida (Angerami – Camon, 1998).

Para Sartre e Kierkgaard, a consciência dessa liberdade é a própria angústia pois ao escolher o que quer ser, o homem torna-se ao mesmo tempo um legislador de si próprio e da humanidade inteira, sendo responsável pelas conseqüências de suas escolhas. É uma responsabilidade perante os outros homens (Sartre, 1978).

Sartre afirma ainda que o homem pode tanto escolher ser autêntico consigo mesmo e refletir acerca de sua responsabilidade perante si e a humanidade, quanto utilizar-se da má-fé, disfarçando sua angústia mentindo para si mesmo, justificando-se que seus atos implicam apenas si próprios. Conseguem desta forma, temporariamente, uma falsa sensação de tranqüilidade.

Heidegger acrescenta que a angústia é um sentimento que amedronta a todos diante do “nada” existencial, isto é, da impossibilidade de existir uma explicação para a existência, para o desconhecido (Angerami – Camon, 1998).

Conforme afirma Araújo (2000), a angústia possui um papel central na existência do ser pois coloca-o diante do desconhecido, do risco, da dúvida, da incerteza. Afeta a ambigüidade das possibilidades, confrontando-as sempre diante de suas ambivalências (ser/não ser, criação/destruição, vida/morte, sentido/insignificação).

A angústia surge diante do real estabelecido por uma escolha e do futuro imprevisível das conseqüências. Ela é a ausência da certeza, do conhecimento e do controle sobre o futuro. Ela é expressão da fragilidade dos projetos do ser.

A seguir será discutido com maiores detalhes os diferentes olhares acerca da angústia conforme Sartre, Kierkegaard e Heidegger.

II.2. Tipos de Angústia

Alguns autores (Angerami – Camon, 1998 e Cipullo,2000) referem existir três tipos de angústias existenciais: a angústia de liberdade à qual refere-se Sartre, a angústia do ser considerada por Kierkegaard e a angústia diante do aqui – agora (refletida por Heidegger). Neste momento, as três angústias serão apresentadas separadamente, para fins didáticos, porém elas podem coexistir.

Kierkegaard era um filósofo que acreditava na existência de Deus, mas reconhecia não ser possível saber quais eram Suas reais intenções, dessa forma, não sendo possível ao homem isentar-se da responsabilidade acerca de seus atos, isto é, de suas escolhas. O homem tem o livre arbítrio recebido de Deus. Segundo este filósofo, a angústia vem da consciência do pecado e da liberdade, o homem conhece o bem e pode optar pelo mal, responsabilizando-se por sua escolha e, por isso, angustia-se (Cipullo, 2000).

A consciência do pecado é a consciência de proibição, do que não é permitido realizar. A proibição ( não poder ) desperta no homem, porém, a possibilidade de poder , trazendo-lhe a ambigüidade e a angústia de poder escolher desde que se torne responsável pelas conseqüências (De Feijoo, 2000).

A angústia de ser, abordada por Kierkegaard, aparece quando percebe-se que a possibilidade do nada é tão real quanto a do ser (ambivalência). O homem não sabe de onde tudo se originou e nem como vai acabar, ele não pode ter certeza de nada, muito menos das conseqüências de suas escolhas, e a impossibilidade de prever e explicar os fatos o angustia.

É importante não confundir a angústia de ser com angústia de morte. A morte é apenas uma possibilidade dentre várias outras, que também gera angústia pois explicita a finitude do indivíduo e, consequentemente, o término de suas possibilidades.

Ao contrário de Kierkegaard, Heidegger e Sartre eram filósofos ateus e não atribuíam, portanto, a responsabilidade das escolhas a entidades, e sim ao próprio homem.

Para Heidegger, o homem está-aí, é um ser lançado no mundo. O estranhamento das coisas, a ausência de familiaridade com o mundo, ou como prefere Heidegger, a “pre-sença” é a abertura para ter-se consciência desse mundo. Essa sensação que permeia o cotidiano e que apresenta ao homem sua situação fundamental de ser – para – morte, ou seja, de ser um projeto finito, vem acompanhada de dois sentimentos: a angústia e o temor (De Feijoo, 2000).

O não sentir-se em casa deve ser compreendido existencial e ontologicamente como o fenômeno mais originário. A “pre–sença” clama movida pela angústia por ser si própria, pessoal e autêntica, o que implica em reconhecer-se como um ser – para – morte.

Porém, muitas vezes isso não acontece, e o ser “esquecido” de sua liberdade de escolha justifica sua angústia atribuindo-lhe objetos para tranqüilizar-se novamente, enganando a si mesmo. Esse modo de agir, impessoal e inautêntico lança o ser no mundo das ocupações e preocupações, no imediato e no factual, das tarefas e das regras insentando o homem de ter que pensar, tirando-lhe a responsabilidade de assumir suas escolhas. Quem escolhe é todo mundo e, dessa forma, todo mundo é ninguém. O ser fecha-se em si – mesmo, impossibilitando a abertura para o mundo que lhe é própria.

Reconhecer-se como um ser -para – morte pela de-cisão antecipatória, isto é, escolher com consciência da finitude, permite a abertura do ser para o mundo através da pre-sença e de existir como seu ser mais próprio.

A consciência da finitude das coisas angustia e provoca temor no homem pois coloca-o frente a possibilidade da própria finitude. No entanto, é essa angústia do aqui – agora que remete o homem em seu poder – ser mais próprio, escolhendo o que quer ser e assumindo a responsabilidade de suas escolhas.

Conforme Heidegger, a angústia do aqui – agora parte do princípio de que o homem é um ser temporal, com sua história individual, definida em uma época e espaço historicamente determinados. Isto significa que o homem é um ser único e que apenas ele pode vivenciar suas experiências. Quer dizer que nenhuma pessoa pode vivenciar a vida no lugar de outra, escolher as escolhas do outro, assumir as responsabilidades do outro e, conseqüentemente, não pode morrer no lugar de outra pessoa.

Cipullo (2000) afirma que “mais do que um discurso solipsista, isso mostra que cada um é e faz sua própria história nesse breve período de permanência no seio da Vida” (p.97).

Como tal, o homem é, impossibilitado de identificar-se com a humanidade em geral pois esse “em geral” viveu em outro tempo e lugar e foram influenciados por outras contingências espaço – temporais, obrigado a realizar-se enquanto ser – no – mundo em espaço e tempo limitados (Cipullo, 2000).

A consciência dessa finitude é que angustia o homem.

Também a angústia de liberdade, segundo Sartre, mostra-se a todo o tempo pois o homem é livre para realizar, constantemente, escolhas ao longo de sua existência e, como tal é responsável pelas conseqüências, o que lhe gera a angústia. Ela está intrinsecamente ligada às outras formas de angústia pois a angústia do aqui – agora instiga a necessidade de reconhecer a situação atual como indesejável e uma outra como ideal, levando o ser a realizar escolhas enquanto ser de possibilidades em busca de um sentido de vida, ao mesmo tempo em que implica na não escolha das outras possibilidades, isto é, na angústia de não as ser.

É válido acrescentar que Paul Tillich faz também a distinção entre três tipos de angústia reforçando o que Sartre, Heidegger eKierkegaard já haviam pensado: 1. A angústia do destino e da morte (similar à angústia de ser); 2. A angústia de vacuidade e insignificação (correlata da angústia do aqui – agora); e 3. A angústia de culpa e condenação (correspondente à angústia de liberdade (Araújo, 2000).

Para Paul Tillich a morte não representa apenas a morte do ser em si, mas também a não possibilidade de outras escolhas existirem ao se optar por uma, isto é, o estar – em – débito de Heidegger, enquanto inerente à existência.

No capítulo seguinte, realizar-se-á a análise de uma importante peça teatral de Sartre, procurando ressaltar as angústias vivenciadas pelas personagens como tentativa de perceber o quão presentes elas estão em cada ser.

II.3. Angústia Entre Quatro Paredes

A peça teatral “Entre Quatro Paredes”(1977), escrita por Jean – Paul Sartre, conta a história de três personagens: Inês, Garcin e Estelle. Eles morrem e são condenados ao inferno por não terem assumido a responsabilidade que a liberdade de sua condição humana lhes cabia. Conduzidos por um criado, são obrigados a manter-se enclausurados em uma sala que possui apenas três poltronas, uma faca de cortar papel e uma estátua de bronze sobre a lareira.

A história está dividida em cinco cenas. A primeira, terceira e quarta cena descrevem a chegada de Garcin, Inês e Estelle respectivamente. A segunda cena resume-se a Garcin sozinho na sala. Na quinta, e última, cena é que os motivos pelos quais o trio está no inferno são esclarecidos e o momento em que as angústias ficam explicitadas.

Garcin em vida era um homem que maltratava a esposa, desprezava as mulheres: “Estou aqui porque torturei minha mulher” (Garcin, p. 54), “Eu tinha instalado em casa uma mulata. Que noites! Minha mulher, que dormia no primeiro andar, de certo ouvia tudo. Ela era a primeira a levantar-se e, como nós ficávamos deitados até tarde, ela nos trazia café com leite na cama”(Garcin, p. 55), “Eu entrava em casa bêbado como uma cabra, com cheiro de vinho e de mulher. Ela me havia esperado a noite toda(…)”(Garcin, p. 54).

Crê-se um covarde por ter recusado se alistar para a guerra e tentado fugir da prisão. Sente-se culpado. Morreu fuzilado durante a tentativa de fuga. Preocupa-se com o que os outros pensam e falam a seu respeito: “Alguém, no jornal, está falando de mim e quero ouvir.”(Garcin, p. 50).

Inês intitula-se uma pessoa má, visto que sente prazer com o sofrimento alheio. Em vida, agia propositadamente para provocar o sofrimento no outro. “Eu, sim, sou má, quer dizer que preciso do sofrimento dos outros para existir” (fala de Inês, p. 59). Induziu a morte de um rapaz cuja namorada era sua amante, quis deixá-la culpada pela morte do rapaz e foi morta pela própria namorada por gás de cozinha.

Estelle, vaidosa, antes de “ausentar-se”, como referia-se à morte, gostava de ter os homens a sua volta, não importando seus sentimentos em relação a eles. Desprezava-os e importava-lhe as aparências, o estatus social. Engravidou do amante e este era pobre. Cometeu infanticídio sem o consentimento do rapaz. O pai do bebê suicidou-se após isso. Ela morreu tempos depois de pneumonia.

O fato de estarem as três personagens confinadas na mesma sala no inferno fazem-nas pensar que deve haver um motivo para tal. A imagem que tinham do inferno era de um carrasco que os torturaria fisicamente por meio de estacas, grelhas, funis de couro, chumbo derretido, pinças, garrote, tudo o que queima, tudo o que rasga. Mas o que constatavam era apenas a presença deles mesmos sem perspectiva da chegada de outra pessoa.

Após inúmeros questionamentos a respeito, Inês concluiu: “Fizeram uma economia de pessoal (…).São os próprios fregueses que se servem (…). Cada um de nós é o carrasco para os outros dois.” (p. 42)

Garcin era o carrasco de Estelle pois condenava-a a desejar um homem que não era nada agradável como os homens que ela estava acostumada a esnobar, e mesmo humilhando-se não conseguia atrair sua atenção.

Por sua vez, Estelle era o carrasco de Inês, ignorando-a e desprezando-a em prol de Garcin, um homem. Ao contrário da amante de Inês, Estelle não se deixava manipular e fazia Inês sofrer da mesma maneira que o rapaz morto por sua indução sofreu.

Enfim, Inês era o carrasco de Garcin. Este, que estava acostumado a menosprezar os sentimentos da esposa e tratando as mulheres em sua vida com desrespeito, encontra em Inês a recusa em agradar-lhe, sendo ela grosseira com ele e afirmando a todo instante sua preferência por Estelle, uma mulher!

Cada carrasco explicitava, então, ao outro seus atos e obrigava-o, desta forma, a assumir as conseqüências de suas escolhas.

Perceberam, então, que estarem juntos não era obra do acaso, mas que essa situação estava relacionada com as atitudes de cada um e que eles eram responsáveis pelo que estava acontecendo. Era preciso reconhecê-las e serem autênticos consigo mesmos.

Garcin não estava suportando a convivência com as pessoas acusando-o a todo momento: “(…) quero sofrer de verdade. Prefiro cem dentadas, prefiro a chibata, o vitríolo a este sofrimento cerebral, esse fantasma de sofrimento, que roça, que acaricia e que nunca dói o bastante.” (p. 90)

Eis que nesse momento de desespero, Garcin agarrado ao trinco da porta e sacudindo-o, a porta se abriu. Quem ousou sair? Era a oportunidade de saírem da sala, mas ninguém se propôs a ir primeiro. Estelle tentou arrastar Inês para o corredor, com a intenção de ficar a sós com Garcin, mas ele impediu-a pois precisava de Inês para reconhecer suas escolhas. Concluem, finalmente, que não há o que fazer a não ser aprender a conviver uns com os outros.

Esta peça ficou conhecida pela frase de Garcin: “O inferno são os outros.”, em uma alusão ao fato de que “uma consciência não pode furtar-se a enfrentar outra consciência que a denuncia” (Almeida, G., em Sartre, 1977, p. XXII). Se existe o outro, a existência do homem está relacionada ao julgamento que o outro faz de si. Enquanto ser pensante e pensado, ao mesmo tempo sujeito e objeto, ele desfruta do privilégio difícil e angustiante de assumir suas responsabilidades e escolher livremente seus atos.

O tema em evidência nessa história é que por mais que se tente e não se assuma a responsabilidade sobre os atos, existe sempre um outro que impede o homem de alienar-se de sua condição humana, angustiando-o.

Nesta parte do trabalho, procurarei evidenciar os momentos de angústia vivenciados pelas personagens, identificando-as segundo as angústias diante do aqui – agora, angústia da morte, angústia de ser e angústia de liberdade.

A angústia de liberdade é a que permeia toda a história, pois as personagens angustiam-se ao perceberem que foram livres para realizar suas escolhas em vida e que, portanto, deveriam assumir a responsabilidade das conseqüências de seus atos.

A angústia que as personagens sentem em relação à finitude, isto é, a angústia de morte, é explicitada principalmente por Estelle, que pede para evitarem dizer a palavra “mortos”, referindo-se a si mesmos, substituindo-a pelo eufemismo “ausentes” (pp. 30-31). O medo de não existir é percebido na preocupação das personagens em serem lembradas mesmo após suas mortes pelas pessoas que permaneceram vivas (pp. 66, 73, 74), como se a lembrança as mantivessem vivas também, evitando a idéia da morte presente.

Garcin procura a todo momento encontrar uma razão, um motivo para estarem os três enclausurados em uma sala no inferno. Diz: “Precisa saber” (p. 37), referindo-se ao motivo. Garcin e Estelle oferecem logo suas explicações a respeito: “é o acaso” e “é um equívoco”, respectivamente. Inês não acredita que seja por acaso que estão juntos. Esta seria uma explicação muito ineficaz para acalmar a angústia de todos. Inês procura, então, encontrar outro motivo, tentando verificar se existe algo em comum que os três realizaram em vida que justificasse suas junções.

A angústia de ser aparece nessa necessidade de explicar a origem dos fatos, atribuir uma causalidade para os acontecimentos, na intenção de acabar com a incômoda sensação de não saber a razão do presente. O desconhecimento do que há por vir provoca a necessidade de prever o futuro estabelecendo causalidades. O movimento é de voltar ao que aconteceu (passado) para entender o que está acontecendo (presente) e garantir uma previsibilidade do que é provável acontecer (futuro). Pretendem, desta forma, obter uma garantia de pseudo – controlabilidade sobre as conseqüências de seus atos, conseguindo, efetivamente, apenas uma falsa sensação de segurança para aliviar uma angústia que é inerente ao ser.

A angústia do aqui – agora é evidenciada no final da história quando Garcin conclui que “morreu cedo demais” (p.94) e não teve tempo de realizar o que gostaria, percebendo, então, a finitude da vida e a incontrolabilidade sobre sua morte.

III. Discussão

A liberdade de escolha angustia o homem a todo momento. Como ser lançado no mundo, ao se deparar com todas suas possibilidades, ele encontra-se invariavelmente em débito com a plenitude idealizada da vida. É importante que ele se compreenda enquanto ser em marcha, em constante devir, o que significa vir – a – ser aquilo que nunca se completa.

Todas essas questões não são vivenciadas apenas pelas personagens da peça teatral “Entre Quatro Paredes”, mas todo ser as experimenta. Alguns utilizam-se da má-fé e mentem para si mesmos que tais angústias não existem, misturando-se ao “a gente”, ao impessoal, ao igual a todo mundo, evitando pensar acerca de sua responsabilidade. Outros, porém, encaram as angústias como algo inerente à existência. Estes vivem a autenticidade de suas escolhas, aqueles fingem uma autenticidade.

Essa peça teatral permitiu perceber o quanto a angústia está presente em todas as atitudes que são realizadas e é, portanto, inerente à existência humana.

Faz-se necessário para viver na autenticidade, aprender a lidar com o dé-bito, a incompletude e a angústia evocada por essas condições como algo inerente ao ser, assumindo-se na liberdade de escolha e responsabilizando-se pelas conseqüências no futuro.

“Negar a angústia é negar nossa condição de seres temporais. Negar o tempo é querer parar seu impulso destruidor, parando também seu impulso criador. Isso é desejar a eternidade, mas a ‘eternidade do presente’. Um presente em que desaparece a perspectiva do ‘porvir’ e a memória do que ‘somos’ no passado de nossa história. Afinal, existir é coexistir com o passar do tempo, mesmo que isso signifique correr um risco constante. Ou coexistir com uma angústia que nunca cessa” (Araújo, 2000, p.171).

IV. Considerações Finais

O objetivo desta monografia era compreender melhor as angústias existenciais e poder contribuir para sua compreensão enquanto experiência inerente à condição humana.

Espero ter conseguido contribuir para aproximar as angústias existenciais da consciência, ampliando sua compreensão a respeito de não ser um conceito patológico, mas algo inerente à existência e, portanto, algo à qual se deve entregar-se. Entregar-se não no sentido de abandonar-se, deixar-se levar pela angústia, mas reconhecê-la enquanto natural ao ser.

Minha intenção era através desse levantamento bibliográfico atentar a sociedade para aprender a conviver com essas angústias, atentar ao tipo de cuidado que se tem durante a vida, enfatizando que muitas vezes a escolha de unir-se ao impessoal é uma vã tentativa de evitar erroneamente a angústia. A escolha deve ser outra, a da autenticidade, compreender que se é finito e que, portanto, não há tempo para viver enganosamente. É preciso agir. E já.

Apenas dessa maneira é que ocorrem progressos reais e se encontram sentidos para a vida. A origem não importa mais, o que interessa é o que é possível realizar a partir do momento que se está lançado no mundo. Isto depende das escolhas que são realizadas e a admissão das responsabilidades sobre suas conseqüências.

V. Referências Bibliográficas

Angerami – Camon, V.A. (1998). Psicoterapia existencial. São Paulo: Editora Pioneira.

Angerami – Camon, V.A. (2000). Paradoxo, angústia e psicoterapia. Em: Angerami – Camon, V.A. (Org.) , Angústia e psicoterapia (pp. 13 – 60). São Paulo: Casa do Psicólogo.

Cipullo, M.A.T. (2000). O modelo existencial e o pulsional na compreensão da angústia (ou… A escolha de Ubiratan s.). Em: Angerami – Camon, V.A. (Org.), Angústia e psicoterapia (pp. 85 – 113). São Paulo: Casa do Psicólogo.

Dartigues, A. (s/d). O que é a fenomenologia? São Paulo: Centauro Editora.

De Araújo, J.N.G. (2000). Angústia e temporalidade. Em: Angerami – Camon, V.A. (Org.), Angústia e psicoterapia (pp. 143 – 173). São Paulo: Casa do Psicólogo.

De Feijoo, A.M.L.C. (2000). A angústia: das reflexões de Kierkegaard e Heidegger à Psicoterapia. Em: Angerami – Camon, V.A. (Org.), Angústia e psicoterapia (pp. 65 – 84). São Paulo: Casa do Psicólogo.

Giovanetti, J.P. (2000). Angústia existencial nos tempos atuais. Em: Angerami – Camon, V.A. (Org.), Angústia e psicoterapia (pp. 119 – 142). São Paulo: Casa do Psicólogo.

Kierkegaard, S. (1972). O conceito de angústia. Lisboa: Editorial Presença.

Penha, J. (1998). O que é existencialismo. São Paulo: Editora Brasiliense.

Sartre, J.P. (1977). Entre quatro paredes. São Paulo: Editora Abril Cultural.

Sartre, J.P. (1978). O existencialismo é um humanismo. São Paulo: Editora Abril Cultural.

Sasdelli, E.N. & Miranda, E.M.F. (2001). Ser: o sentido a dor na urgência e na emergência. Em Angerami – Camon, V.A. (Org.), Psicossomática e a psicologia da dor (pp.93-112). São Paulo: Editora Pioneira.

O Amor Virtual

O homem é um ser único e em transformação constante. Na verdade seria um eterno
constituir-se. Não estamos prontos e nossa essência é formada a cada dia, por nossa
historia de vida e pelos acontecimentos do mundo e dentro de mim. Mundo este em que
estou jogado e onde estou frente às possibilidades que a vida me apresenta, tendo
que fazer escolhas a todo o momento. Escolhas que conseqüentemente excluem
possibilidades outras. Sou responsável por isso e assumir esta responsabilidade é
minha forma de ser autentico no mundo.  Muitas pessoas até passam pela vida sem
compreender que são autores de seus próprios enredos, talvez por não permitir um
encontro consigo mesmo. O ser humano é um ser de possibilidades e vive no mundo e o
percebe de acordo com seu campo perceptório. O que faz com que cada homem de acordo
com suas vivências veja as coisas de maneiras diferentes. Por isso existe um grande
questionamento quando vai se classificar o humano, ou generalizá-los. Não podemos
dizer portanto que “ as mulheres buscam isso”, “ os homens fazem isso por que”.
Porque na verdade, cada ser humano é único e toma atitudes de acordo com sua
vivência. 
A Internet, com certeza apresenta uma nova forma do ser humano se relacionar. E é
claro ocorre esta questão do anonimato como você bem disse. Agora, para que um
encontro ocorra de verdade, é necessário haver o frente a frente. É necessário que
duas pessoas estejam ali, de frente, se olhando nos olhos, ambas com suas
subjetividades para que o intersubjetivo aconteça. Nesse momento não existe
obstáculo , nem tempo e nem é necessário a linguagem.  
Quando o ser humano busca um contato pela Internet pode estar interessado em várias
coisas. É importante frisar que nem sempre tem a intenção de se relacionar
amorosamente e amizades a distancia podem se manter pelo uso do MSN ou até mesmo do
orkut. Acho que nesse caso, isso se manteria como uma amizade comum, pois com a
agilidade com que as coisas acontecem no mundo hoje, a Internet pode ser para alguns
a única forma de se relacionar com aquelas pessoas queridas. 
Bem, como disse, o ser humano é um ser de percepções. Se você olha um objeto por
exemplo, o observa e depois fecha os olhos e tenta descreve-lo, com certeza você não
o fará de acordo com o que ele é na realidade. 
Colocando nesse contexto virtual, o individuo que está do lado de cá do computador e
começa a conversar, recebe as informações vindas do outro lado e isso começa a fazer
relação com o que ele é. Suas histórias, o que espera de uma relação. Quando se fala
a Internet, geralmente os contatos são esporádicos e não uma ocorrência cotidiana e
rotineira como as relações reais ocorrem. Se você discute com a pessoa por exemplo,
basta um simples apertar da tecla delete para que aquela pessoa suma da sua vida de
uma vez. 
Assim, a tendência é que, sempre lembrando que cada individuo age de uma forma, a
pessoa comece a enxergar a outra da maneira como ela quer, ou seja idealizar o
outro. E por outro lado, a pessoa que está do lado de lá pode muito bem dizer apenas
o que quer, pois a tela do computador impede qualquer contato maior. Assim fica um
jogo de máscaras. E é claro isso pode criar dentro de cada um uma espécie de
príncipe ou princesa encantado. Um ser que na realidade não existe. 
Agora, pode ocorrer de relações virtuais darem certo, depois de um encontro real,
podem ocorrer grandes amizades e grandes conquistas, desde que de alguma forma, a
pessoa perceba que os dois mundos são diferentes. Que a pessoa que está lá do outro
lado, vem carregada de histórias e de uma vida própria. Vida com tristezas e
alegrias, qualidades e defeitos, como a dele próprio. Criar expectativas pode ser o
primeiro passo para a desilusão. Pois aquilo não é real é uma ilusão criada. A
ilusão de uma grande virtude pode se tornar um grande defeito. 
Quanto a questão da traição on-line. É tudo muito relativo. Primeiro depende do que
cada pessoa considera ser traição. As vezes o que é para mim ou para você não é para
o casal. E-mails, conversas em Chat, MSN podem ser vistas de várias formas,
dependendo dos olhos do observador. Existem pessoas que não vêem problemas e outras
que n ao suportam nem pensar em ver seu parceiro tendo esse tipo de relação. Muitas
vezes não conseguem ver que a Internet pode ter um outro lado sem ser o de
relacionamentos de pessoas que levariam a infidelidade. 
As vezes um e-mail é apenas um e-mail, ou um scrap é apenas um scrap.
Para muitas pessoas o  computador acaba sendo
uma verdadeira realidade pessoal, por isso a única forma que elas encontram de ser
no mundo é através dele. Só que pessoas que tem sua realidade no computador, tem
grande dificuldade de se relacionar com o mundo real e passam a se relacionar apenas
pelo micro. O caso mais normal são aquelas pessoas que tem as duas realidades de
vida e cada uma delas relaciona esta realidade da sua forma. Tem pessoas que se dão
bem com isso, outras se prendem tanto ao virtual que o real então se torna aquela
situação.
Por exemplo, várias pessoas se conectam com outras em lugares distantes do mundo de
tal forma que apenas aquela relação importa, a ponto de deixarem coisas importantes
do seu mundo real para viver aquilo. Essa nova relação passa a ser o seu novo
sentido de vida. 
Falando um pouco agora de pessoas que estão em relações estáveis e buscam a Internet. 
Bem, pessoas com relações estáveis podem ter amizades na Internet. Pessoas com
relações estáveis podem trocar e-mails. Se isso causa problema o relacionamento
real, a situação problemática não estaria na Internet e sim na vida dos dois
parceiros. Inseguranças, medos e outras coisas. Dependendo de cada caso.
Se uma pessoas de relação estável busca uma relação virtual, talvez a sua relação
não esteja tão estável assim, ou se estiver, ela deve ter os seus motivos para isso.
Pode ser um problema de relacionamento com o parceiro. Como falta de compreensão,
desconfianças, problemas de ordem sexual, vergonha ou até mesmo alguma pessoa com a
qual ele possa simplesmente falar coisas que não consegue dizer a pessoa com quem
está junto. 
Acredito que a paixão que surja pela Internet seja uma paixão por alguém que trás
aquilo que você quer no momento. E ela fica ali na imaginação. Paixão pela Internet
não necessita de tomada de decisões, escolhas e sim vivenciar aquilo ali, com hora
marcada, como um momento do dia, onde sento na frente do pc, da maneira como quiser
e saio do meu mundo real. Quando essas pessoas resolvem se encontrar, a situação
muda de nome. Aí é necessário tomar decisões buscar sentidos novos. Nenhuma relação
dura eternamente no virtual. Ou acontece o encontro no real ou ela vira um
relacionamento secundário onde as pessoas tem suas vidas reais e mantém contatos com
pessoas pela net. 
Sentir o virtual como alguém real em sua vida depende da importância que cada um
dará para isso. Mas ainda acredito que mesmo surgindo um sentimento no virtual, ele
não ocasionará em nada se não houver um encontro real. 
Um encontro virtual quando a pessoa já tem um outro parceiro passa a ser traição a
partir do momento em que essa pessoa dá sentido para isso dessa forma. Se ela der
sentido para a traição será uma traição. Isso se torna uma questão complicada pois
envolve subjetividades diversas. A maneira como a pessoa chamada “traída” vê essa
relação é de forma diferente do que aquela pessoa chamada “traidora”. Não se pode
estabelecer um limite de intimidades a estes relacionamentos a não ser pelo que se
pode chamar de a verdade de cada um. 
A pessoa saber que tem alguém, e saber que rumo ela dá para esses relacionamentos
virtuais. Lembrando se da responsabilidade para com suas escolhas e para com o
outro. 
E cabe também à pessoa que está com esse parceiro que mantém relações virtuais,
saber qual o seu limite, saber o que é aceitável para ela e tomar sua decisão frente
a isso. 
Cada um sabe exatamente o que faz bem, é preciso que cada parte reflita e veja o que
realmente quer para si e faça  sua escolha, ficando juntos ou não. 
Na Internet é possível ocorrer a busca por ajuda de amigos, conselhos. Essa relação
se torna até mais duradoura do que a relação com fins amorosos. Mas é importante
ressaltar a diferença entre a ajuda de amigos e a ajuda de um profissional. 
Geralmente um amigo escutará o que o outro tem a dizer e lhe dirá o que fazer ou a
opinião sempre embasada em vivencia anteriores e concepções próprias de vida. Assim
direciona a chamada ajuda. Ou se coloca no lugar do outro, o que é extremamente
difícil pois cada um é único. 
A ajuda profissional é de escuta, compreensão, sem julgamentos. A pessoa constrói
seu próprio caminho e acha suas respostas através de sua reflexão. Aumenta assim seu
campo perceptório para poder enxergar as coisas de outras formas e escolher mudar ou
não. 
Dizer que as pessoas que buscam outras na Internet têm problemas de comunicações com
seus parceiros é generalizar demais uma situação que pode ter várias razões para
ocorrer. A falta de comunicação pode ser uma das causas. Não um determinante, pois
várias pessoas que tem problemas de comunicação com seu parceiro não buscam isso na
Internet. 
A Internet pode ser  também uma forma de buscar coisas que cada um como ser humano
necessita, de forma mais sutil do que seria na vida real. O conversar, o conhecer
pessoas fica mais fácil pela Internet no caso de quem tem essa dificuldade de fazer
frente a frente. Até mesmo o se mostrar fica disfarçado pois eu mostro o que quero
mostrar e não me apresento diretamente como sou quando estou pessoalmente frente ao
outro.
O olhar do outro me mostra muito de mim e muitas vezes me transforma. É responsável
por parte de minha auto estima e esse olhar é importante no meu constituir me. Posso
eu dar valor e significado que eu queira dar para isso. Pelo computador isso se
torna menos possível, palavras digitadas podem ser modificadas, fotos alteradas, mas
nada modifica o conviver pessoal. 
Não acredito na substituição dos relacionamentos reais pelos virtuais, acredito que
os virtuais possam ser uma nova forma para que se inicie um relacionamento virtual.
Mas continuo acreditando que um relacionamento virtual não tem futuro se não houver
um encontro pessoal, ou estão fadados a serem sempre secundários ou paralelos. 
É importante para finalizar repetir que não podemos generalizar as pessoas. Cada ser
humano faz suas escolhas e rege sua vida. Cada qual de seu jeito. A própria traição
se modifica na visão de vários sujeitos. Homens e mulheres são diferentes. 
Não podemos perceber o homem hoje sem relaciona lo também com a tecnologia. Faz
parte de sua história. O mais importante é pensar qual o sentido que cada um dá para
isso. Assim teremos que olhar para dentro de nós e cada um achará a resposta para
estas questões

ALGUNS ASPECTOS SOBRE A PERSONALIDADE

Aluno: Julio Cezar Fernandes Pinto

2004

“A Psicoterapia Existencial é construída de maneira nova a cada momento e em cada encontro terapêutico.” (Angerami,1993, p.98).
“… através do método fenomenológico onde o conhecimento e a compreensão da existência humana se procede de maneira bastante diversa daquelas propostas pelas bases científicas, dista de modo significativo de Psicologia Científica. O conhecimento é um emergir da existência e na verdade se trata de um processo pessoal, individual e único. Todos os fenômenos dessa classe estão dirigidos para o próprio ser, para o seu projeto de ser; trata-se de decisão existencial e não de abstrações teóricas” (Angerami,1993, p.69).

1-Introdução

Na construção de uma teoria da psicoterapia existencial, se faz necessária uma teoria da personalidade, e é este o intuito deste trabalho, falar de uma forma geral sobre a teoria da personalidade, e mostrar como pensar uma teoria da personalidade na ótica fenomenológico-existencial.
Em primeiro lugar mostro uma visão geral das teorias de personalidade, depois apresento o pensamento de Sartre sobre a estruturação do ego e em seguida também apresento a teoria da personalidade na visão fenomenológica pensada pela professora Yolanda Forgheri.
A intenção e ajudar a fundamentar teoricamente a prática psicoterapica existencial, sabendo ser uma tarefa muito longa. Como na metáfora de construção de uma casa, apresentada pelo professor Giovanette em aulas ministradas no Centro de Psicoterapia Existencial, fala-se da necessidade de uma fundamentação filosófica e das teorias psicológicas. E em seu alicerce e fundamento está em primeiro lugar a concepção de homem.

2- Uma introdução às Teorias da Personalidade.

Em psicologia as concepções filosóficas sobre o homem irão influenciar as teorias da personalidade.
Vários pensadores falaram sobre o homem: Platão, Sócrates, Aristóteles, Tomas de Aquino, Maquiavel, Kierkegaard, Nietsche, Heidegger, Sartre; estes últimos inspiraram a psicoterapia existencial.
Na psicologia, segundo os autores Hall-Lindzey pode-se falar do estudo da personalidade a partir de observações clínicas.
Charcot, Janet, Freud, Yung e McDougall são personagens importantes na psicologia, que interessavam pela maneira global de como se comportavam os seus pacientes. Buscavam compreender a sua maneira pela qual os homens concebiam a si mesmo e percebiam as coisas ao seu redor, o que desejavam e quais conflitos o atormentavam. As observações clinicas contribuíram para o desenvolvimento das teorias da personalidade e a aplicação prática em psicoterapia.
Pode-se dizer de uma Tradição personalista: Impressionados com a unidade do comportamento, neste ponto de vista , discordam do estudo exclusivamente segmentar de processos isolados e interessam-se sobre tudo pela integração na unidade dinâmica de uma conduta global, por isso o estudo fragmentado não seria de grande valor.
O que constitui essa unidade é a motivação e pela influencia da motivação em cada uma das funções, tais como a percepção, a aprendizagem e os processo cognitivos em geral. Seus representantes estão mais na linha gestáltica.
O impacto da psicologia experimental e em particular da teoria da aprendizagem, tem como suas as bases de construção teórica a preocupação de como modificar o comportamento humano; e dessa forma isolavam um processo para examinar a ação que o comportamento sofria em decorrência de tal ou qual fator.
Na tradição psicométrica o que interessa é sobre tudo aquilo que indivíduo está apto a fazer, e a sua capacidade de desempenho e adaptação comparados com os demais indivíduos. A personalidade teria relação com as habilidades social, as reações positivas em diferentes situações e as impressões causadas em outra pessoa.
Allport divide a personalidade e apresenta as características e funções para poder classificar melhor a personalidade :
Biossocial: reações produzidas nos outros que irão definir a personalidade.
Biofísica: características ou qualidade do próprio individuo.
Globalizante: tudo quanto diz respeito ao indivíduo. Para ele cada teórico terá seu próprio conceito e isto, dificultará uma unidade nas teorias.
Função integradora: a personalidade e a organização dada aos vários comportamentos é uma força ativa.
Função de ajustamento: esforços para ajustar-se.
Aspecto único: o que distingue dos demais.
Essência: que é mais representativo mais do que o distingue do outro e sim o que ele é.
“É impossível definir personalidade sem a aceitação de uma linha teórica de referência dentro da qual a personalidade será pesquisada” (Hall-Lindzey,1984,p.7).

4- A estrutura ego-mundo

Como exemplo de concepção de personalidade, ainda pensando de forma tradicional. O professor Joseph Nuttin, propõe uma teoria relacional da personalidade, que ele chama de estrutura ego-mundo.

(…) o tipo de funcionamento psíquico a que chamamos personalidade consiste numa potencialidade ativa de interação ou de comunicação com o mundo dos objetos. Essa “abertura para o mundo” é uma dimensão fundamental de sua estrutura funcional, dimensão essa que destacamos ao falar numa estrutura Ego-Mundo. É uma forma especial do esquema bipolar de interação “organismo-meio”, que caracteriza, em diferentes níveis de organização, qualquer núcleo de atividade vital. Ao nível da personalidade, trata-se aqui de uma “abertura para o mundo” ou de uma orientação ativa para o objeto, que tem como efeito introduzir o mundo dos outros e dos objetos no próprio interior do psiquismo personalizado. (Nuttin,1982,p.176)

Uma personalidade, para ele, é um modo de funcionamento que engloba, essencialmente dois pólos: o ego e o mundo. Entende ele como ego o conjunto das funções e das potencialidades psíquicas do individuo; o mundo é seu objeto intrínseco.
O mundo é parte integrante da personalidade, e a personalidade não é um modo de funcionamento “no vazio”. Nuttin fala do desenvolvimento da personalidade no tempo, por uma inserção progressiva no mundo com a ajuda do comportamento. Essa estrutura bipolar é um processo de interação na qual a personalidade e o mundo coexistem como resultante.

5- A estrutura do ego em Sartre

A constituição do ego na reflexão filosófica sartreana, como mostra Irene Ehrlich no seu capítulo do livro Fenomenologia e Análise do Existir: o ego está no mundo, na realidade transcendente queiramos ou não, a sua unidade é o fluxo da consciência que se constitui como unidade dele mesmo, e é uma unidade transcendente, e a sua constituição é os estados e as ações e facultativamente as qualidades.

5.1-Os estados.

De acordo com Sartre, apreendo o meu sentimento por meio da reflexão, isto é, o meu estado é objeto para minha consciência reflexiva.
Sartre compara a experiência de repulsão com a experiência reflexiva de ódio, dizendo que na experiência de repulsão é a consciência imediata do objeto e o ódio transcende aquela situação, ou seja, traz um passado e um futuro e neste sentido escapa a instantaneidade de uma consciência.
O estado dá-se exatamente na relação com o objeto, ele se põe como mediação entre o eu e o objeto , e a cada vez que o vê se impõem novamente.
Quando o objeto se torna o objeto da consciência, o estado se impõe por inteiro.
O estado foi constituído por um processo histórico; a partir das reflexões das experiências de consciência imediata..
Podemos resumir que os estados se constituem através da existência, nas relações com as coisas, com os outros, implicando um passado e um futuro.

5.2- As ações.

O que Sartre nos mostra de importante é que as ações são constitutivas do eu e são vividas concretamente como sendo atuação minha no mundo.
As ações não são só escrever, trabalhar, fazer algo, “existem as ações puramente psíquicas como duvidar, raciocinar, meditar, pôr uma hipótese, devem, elas também ser concebidas como transcendências”. (Sartre,1994,p.63).
Estas ações que em princípio eram consciências irrefletidas precisarão ser tomadas como objeto de uma consciência reflexiva para serem unificadas e apropriadas por mim, se tornando minhas ações.

5.3- As qualidades.

As qualidades são totalizações dos estados e das ações, ou melhor, como a própria pessoa unifica e totaliza os estado e as ações dela no mundo. Sou estudioso, sou antipático, sou tímido, sou gentil todas estas são totalizações, mas uma pessoa não precisa ser estudiosa para estudar, porque para ela a qualidade estudiosa não é constitutiva do seu ser.
As qualidades são elementos que podem existir, isto é, são facultativas na constituição do ego, são vividas de forma concreta como mediação na relação dos estados e as ações.

5.4- Como se articulam esses elementos?

O ego é um objeto transcendente a consciência reflexiva, que é constituída por estados, ações e qualidades. Sartre compara o ego uma melodia e desse modo não vê necessidade de pensar que exista algum suporte para as notas musicais como não há suporte para que organize os estados e as ações e as qualidades. Seguindo o pensamento de Sartre “a unidade vem aqui da indissolubilidade absoluta dos elementos, que não podem ser concebidos em separados, salvo por abstração” (Sartre,1994,p.66).
O que Sartre nos ensina é que somos integralmente cada um desses aspectos e que o ego “(…) não é nunca indiferente aos seus estados, ele está comprometido com eles (…) o ego nada é fora da totalidade concreta dos estados e das ações que ele suporta. (Sartre,1994,p.66).
Compreendemos, portanto que o ego é unidade dos estados e das ações, e ele é também transcendente. Passivo à consciência que constantemente religa as consciências passadas e presente na realização do movimento reflexivo de unificação das consciências irrefletidas.

6- A personalidade na visão da Psicologia Fenomenológica.

Como vimos anteriormente a psicoterapia existencial pressupõe uma visão de personalidade. Os pressupostos básicos de personalidade que serão apresentados, foram retirados da obra de Yolanda Forgheri (1997,pp.26-51).

O termo personalidade é aqui tomado como o conjunto de características do existir humano, consideradas e descritas de acordo com o modo como são percebidas e compreendidas, pela pessoa, no decorrer da vivência cotidiana imediata tendo como fundamento os seus aspectos fenomenológicos primordiais. Tais características constituem uma totalidade;a sua organização em itens separados tem, apenas, o intuito de descrevê-las de modo minucioso, para facilitar a sua compreensão. (FORGHERI,1997,p.25)

Ser-no-mundo: o homem é essencialmente um ser-no-mundo. A experiência cotidiana imediata é o cenário dentro do qual decorre a vida; ser-no-mundo é a sua estrutura fundamental. É a partir e dentro dessa vivência diária que o homem desenvolve todas as suas atividades e que determina os seus objetivos e ideais. Precisa-se do “mundo” para saber onde se encontra e quem é.

Ser-no-mundo é uma estrutura originária e sempre total, não podendo ser decomposta em elementos isolados. Entretanto, tal estrutura primordial pode ser visualizada e descria em seus vários momentos constitutivos, mantendo a sua unidade. É desse modo que podemos considerar os vários aspectos do mundo e as diferentes maneiras do homem existi no mundo. (FORGHERI, 1997, p.28).
“Mundo” é o conjunto de relações significativas dentro do qual a pessoa existe; embora seja vivenciado como uma totalidade, apresenta-se ao homem sob três aspectos simultâneos, porém, diferentes: o circundante, o humano e o próprio. (BINSWANGER, apud FORGHERI, 1997, p.29).

Pode-se falar de 3 mundos: mundo circundante, humano e próprio.
O mundo circundante consiste no relacionamento da pessoa com o ambiente. Abarca tudo aquilo que se encontra concretamente presente nas situações vividas pela pessoa, em seu contato com o mundo. Abrangem as coisas, as plantas e os animais, as leis da natureza e seus ciclos, como o dia e a noite, as estações do ano, o calor e o frio. Dele faz parte, também, o corpo, suas necessidades e atividades, tais como o alimentar, o defecar, a vigília e o sono, a atuação e o repouso, o viver e o morrer. Caracteriza-se pelo determinismo e por isso a adaptação é o modo mais apropriado do homem relacionar-se a ele. É preciso adaptar-se ao clima frio ou quente, e assim ajustar-se às suas necessidades de comer e de dormir, pois nada pode fazer para modificar o próprio clima e as necessidades biológicas.
Portanto, do mundo circundante fazem parte às condições externas e o corpo, e é este que proporciona os primeiros contatos com aquelas. São as sensações que propiciam ver, ouvir, cheirar tocar e degustar as coisas e as perceber com alguma significação.
O mundo humano é aquele que diz respeito ao encontro e convivência da pessoa com os seus semelhantes.
A relação do homem com outros seres humanos é fundamental em sua existência; desde o nascimento ele encontra-se em situações que incluem a presença de alguém.
O existir é originariamente ser-com o outro. Os seres humanos fazem parte da existência do homem, mas não são como os animais, coisas e instrumentos pois, que a ele se apresentam de outra forma.

São e estão no mundo em que vêm ao encontro, segundo o modo de ser-no-mundo… O mundo é sempre um mundo compartilhado com os outros. (HEIDEGGER, 1988, pp. 169-170).

Os homens possuem a capacidade de compreender-se mútua e imediatamente, por serem fundamentalmente semelhantes, embora na concretude de seu existir cada um apresente algumas peculiaridades em seu perceber e em compreender as situações.
Diferentemente do relacionamento com o mundo circundante, no qual o ser humano costuma utilizar-se dos objetos ou adaptar-se à materialidade do ambiente sem deles receber uma resposta, no encontro com seu semelhante ocorre uma relação de reciprocidade, na qual ambos influenciam-se mutuamente. O homem só pode saber quem é como ser humano, convivendo com meus semelhantes.
A relação e a comunicação entre as pessoas são propiciadas, pelo seu próprio corpo, por meio de contatos e expressões corporais, gestos, atitudes e pela linguagem.
O fundamento da linguagem e de todas as formas de comunicação entre os seres humanos é, originariamente, o seu ser-com, ou, em outras palavras, a sua característica essencial de sempre existir em relação a algo e a alguém.
O mundo próprio consiste na relação que o indivíduo estabelece consigo, ou, de outra forma, no seu ser-si-mesmo, na consciência de si e no autoconhecimento. Mas o si mesmo não consiste num ensimesmamento, pois o homem é um ser-no-mundo, ou seja sempre é uma pessoa com características próprias, em relação a algo ou a alguém. São situações nas quais o homem vai vivendo, relacionando-se com o mundo circundante e com as pessoas, que lhe vão possibilitando atualizar as suas potencialidades, oferecendo-lhe as condições necessárias para ir descobrindo e reconhecendo quem é.
O mundo próprio caracteriza-se pela significação que as experiências têm para a pessoa, e pelo conhecimento de si e do mundo; sua função peculiar é o pensamento. O pensamento considerado de um modo amplo que abrange todas as funções mentais como o entendimento, o raciocínio, a memória, a imaginação, a reflexão, a intuição e a linguagem.

Falar só é um falar no pleno sentido da palavra, quando eu mesma entendo aquilo de que estou falando e sobre o que quero ser ouvida, compreendida e confirmada, ou contestada verbalmente, por outra pessoa, ou mental e silenciosamente por mim mesma.(FORGHERI,1997,p33 )
Ao refletir sobre algo, dialogo comigo mesma acerca de conceitos, idéias e significações, procurando relacioná-los e compreendê-los mas é também se decidir a emitir juízos, dirigir o raciocínio de um modo metódico e resolvê-los em diálogos.
A existência humana deve ser compreendida levando em conta os três aspectos simultâneos do “mundo”: o circundante, que requer adaptação e ajustamento; o humano, que se concretiza na relação ou nas influências recíprocas entre as pessoas; o próprio, que se caracteriza pelo pensamento e transcendência da situação imediata. (FORGHERI,1997,p.34 )

A vivência cotidiana imediata é o modo primordial de existir; ela é global e tem intuitivamente, um sentimento e uma compreensão pré-reflexiva do existir no mundo.
Não se trata de um conhecimento racional acompanhado de emoção, nem apenas de um estado interior ou de uma reação a algo, mas de um experienciar imediato e global que abrange, numa totalidade, o homem e às situações, ou as suas lembranças, ações e expectativas, antes que estas venham a ser elaboradas racionalmente.
Na vida cotidiana imediata não se compreendem os objetos como se existissem em si mesmos, independentemente do homem, assim como o homem não se compreende como um sujeito independente do mundo.
A preocupação e a sintonia são maneiras básicas de existir que se alternam continuamente, no decorrer da existência e elas podem passar pela reflexão e analise, sendo o modo racional outra maneira de existir.
A maneira preocupada de existir consiste em sentimento global de preocupação, que varia desde uma vaga sensação de intranqüilidade, por cuidar de algo, até uma profunda sensação de angústia, que chega a dominar o homem por completo.
Ela ocorre tanto em situações concretamente presentes na vida, como naquelas em que apenas se faz lembrar de coisas já acontecidas, ou que tem receio de que venham a acontecer, podendo surgir, também, sem que se perceba as razões de seu aparecimento.
O desejar, o recear, o amedrontar-se, o afligir-se se fundamentam, no cuidado, ou preocupação por algo, que é inerente ao existir no mundo. A raiva e a agressividade ou a depressão que se costuma vivenciar quando se sente frustrado e contrariado também são manifestações da maneira preocupada de existir.
A angustia é o modo mais originário e profundo do existir preocupado. Quando está angustiado, fica-se muito aflito, sentindo impotente para se livrar da aflição, pois a angústia não tem um objeto definido em relação ao qual seja possível se envolver e agir, para superar. A angústia é a negação de todo objeto, ou, em outras palavras, seu único objeto é a própria ameaça cuja fonte é o “nada”.
Por este motivo procura-se transformar a angústia em medo, identificando-a em objetos mais fáceis de serem vencidos.
Porém, tais objetos não são os responsáveis pela angústia, mas a própria situação humana como tal, que nos revela, intuitivamente, a certeza de nossa própria morte; esta é o fundamento de todas as ameaças que se tenta objetivar no decorrer da existência.
A maneira sintonizada de existir, embora a preocupação e a angústia sejam básicas da existência, paradoxalmente, podendo vivenciar momentos de sintonia e tranqüilidade, quando se encontra agradavelmente envolvido em algo ou com alguém.
A manifestação mais profunda da maneira sintonizada de existir consiste numa vivência de completa harmonia de nosso existir no mundo.
Tal vivência de completa sintonia dura apenas alguns instantes, os quais, de certo modo, não têm duração objetiva, pois neles se fundem, paradoxalmente, o espaço e o tempo, o finito e o infinito, o momento concreto e a eternidade, e todas as particularidades do ser humano e do mundo. Mas, além de acontecer algumas vezes, e apenas por alguns instantes, de forma tão ampla e profunda, a maneira sintonizada de existir ocorre, mais freqüentemente, de modo menos intenso, consistindo apenas num tênue e agradável sentimento de bem-estar e tranqüilidade.

Na maneira racional de existir, tanto a maneira sintonizada como a preocupada — das quais se tem compreensão e sentimento pré-reflexivos na vivência cotidiana imediata — costumam ser submetidas à reflexão e análise para que delas possa ter um conhecimento racional.
Como seres racionais, o homem tem necessidade de analisar a sua vivência cotidiana imediata para conceituá-la e estabelecer relação entre suas experiências, elaborando desse modo um conjunto de conceitos, relacionados por princípios coerentes, que se permitam explicá-las. Isto fornece elementos, de certo modo objetivos, para conhecer o seu existir no mundo, e elaborar uma “teoria” sobre o mesmo, que se possa oferecer alguma segurança, tanto para explicar as situações que já se viveu ou está vivendo, como para planejar as ações futuras.
Temporalizar consiste em experienciar o tempo, sendo esta a vivência que mais próxima se encontra de seu próprio existir: o fundamento básico da existência humana e esta se constituem o sentido originário do existir.
Existir e transcender possuem o mesmo significado que é o de lançar-se para fora, ultrapassar a situação imediata, que também quer dizer temporalizar.
A existência humana consiste em estar continuamente saindo de si mesma, transcendendo situação imediata, em direção a algo que ainda poderá ser para completar-se, ou totalizar-se. Por isso, o ser humano, como existente, nunca poderá completar-se, ou totalizar-se durante a sua existência, embora a morte seja a sua maior e mais profunda certeza. A morte faz parte da vida, apenas no modo como se pensa e se relaciona com as idéias de ser ela o derradeiro fim, e é apenas incluindo-a em reflexões que se terá condições de encontrar o verdadeiro sentido da existência própria.
Existir implica, para o ser humano, em prosseguir em direção ao futuro, cuja abertura de possibilidades não se limita a uma projeção do passado; tal prosseguimento requer, também, correr o risco de se soltar na fluidez e imprevisibilidade do futuro; e este se soltar só pode ser encontrado na vivência imediata, pré-reflexiva.
Espacializar consiste no modo como se vivencia o espaço na existência. O espacializar em seu sentido mais profundo e originário, não se limita onde está ou o espaço que ocupa fisicamente, pois possui outras qualidades, que se manifestam em nossa vivência cotidiana pré-reflexiva.
O ser humano, além de se encontrar concretamente num determinado lugar, tem compreensão de seu próprio existir no mundo, relativo tanto ao local e instante atuais como a outros vividos anteriormente, e também àqueles que deseja ou receia vir a experienciar. O seu espacializar não se limita ao “estar aqui”, pois inclui o “ter estado lá” e o poder vir a “estar acolá”, reunidos numa compreensão global. Isto significa que o espacializar é passível de tal “expansividade” que ultrapassa os limites do próprio corpo e do ambiente concreto que o circunda; essa “expansividade” pode ser mais ampla ou mais restritiva, de acordo com a compreensão e o modo como se sente em seu existir no mundo.
Escolher: A existência é uma abertura à percepção e compreensão de tudo o que a ela se apresenta. Tal abertura é a condição da liberdade humana, pois é ela que proporciona a amplitude das possibilidades de escolha, no decorrer da existência.
Pode considerar que a liberdade de escolher é tanto maior quanto mais ampla for a abertura do ser humano à percepção e compreensão de sua vivência no mundo. Essa abertura requer, também, que a compreensão esteja de acordo com a realidade; a compreensão deve ser verdadeira para que a escolha não venha a ser apenas uma quimera, ou uma ilusão. Entretanto, não há uma verdade existente por si mesma, que proporcione ao ser humano nela fundamentar-se para efetuar as suas escolhas; existem apenas possibilidades que são confirmadas, ou não, em situações particulares, nas quais ele se comporta de um ou outro modo.
É tudo isto que confere à decisão da escolha o seu caráter de liberdade e de responsabilidade, pois se o ser humano soubesse tudo com certeza, antes de se decidir, não estaria sendo livre, mas determinado pela objetividade de seus conhecimentos, que lhe indicariam uma única escolha: a verdadeira, ou a mais acertada.
A própria necessidade de ter de efetuar uma escolha entre várias possibilidades já contém o fundamento de limitação como ser humano: indicando que não se pode escolher e concretizar, simultaneamente, todas as potencialidades.

Todas as considerações que teci a respeito da necessidade que temos de fazer escolhas, e agir no sentido de concretizá-las, não têm o intuito de reduzir a existência apenas ao nível da ação, pois o ser humano não se encontra restringido àquilo que faz, ou está fazendo, mas também tem possibilidades futuras, que podem vir a transformar a sua vida. A abertura para as minhas possibilidades e os meus projetos faz parte integrante do meu existir, propiciando-me vivenciar a liberdade tanto para mantê-lo na mesma direção, como para mudá-lo completamente. Mas, para isto, é necessário que eu não me mantenha, apenas, nas conjecturas e nos projetos, mas que aja no sentido de concretizá-los. Sob outro aspecto, os projetos, as conjecturas e até mesmo as ilusões e os sonhos fazem parte de nossa vida, estimulando-nos a seguir em frente e, de certo modo, fortalecendo-nos para enfrentar a “dureza” dos infortúnios e as limitações da realidade; entretanto, se permanecermos apenas neles, não chegaremos a dar conta da realização de nossa própria existência. Às vezes conseguimos até transformar os sonhos em realidade, o que acontece quando nos empenhamos nesse sentido, conseguindo encontrar as possíveis relações existentes entre ambos. Portanto, o sonhar, o conjecturar e o escolher, o planejar e o agir fazem parte de nossa vida, complementando-se mutuamente, no decorrer da mesma. (FORGHERI, 1997, p.50).

Ao fazer uma escolha estará realizando um projeto, e desta forma serão obrigados a renunciar a muitos outros, entre os quais, alguns jamais poderão ser retomados, e ao surgir à culpa, será ele inerente ao próprio existir humano, pois nunca se encontrará condição de realizar todas as nossas possibilidades.

7- Conclusão
Apresentei de um modo geral três formas diferentes de compreender o homem no seu aspecto psicológico. Não é fácil e não acredito ser possível fazer uma síntese desses pensamentos, por apresentarem concepções muito diferentes de homem.
O que eu apreendi deste trabalho, foi no sentido que as preocupações dos temas existenciais: liberdade, responsabilidade, ser-no-mundo e a impossibilidade da construção do homem sem o mundo, são vista até nas teorias psicológicas da personalidade mais tradicionais.
Acredito que este trabalho possa possibilitar a outros, reflexões sobre essas questões que estão em aberto.

8- Referência bibliografia:
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