O CUIDADO COM O CUIDADOR

Monzani, E. E.


SÃO PAULO - SP
2005

"Eu vou cuidar de mim
Cuidando de você
Pra gente ser feliz
Vamos deixar pra lá
O que não for pro nosso bem"
Marcelo Manga e Galego


SUMÁRIO


1. Considerações Iniciais 04
2. Revisão Bibliográfica 06
3. Discussão 10
3.1. Cuidar 10
3.2. Cuidador 13
3.3. Porque cuidar do cuidador 17
3.4. O desafio de aprender a cuidar de quem cuida 20
4. Considerações Finais 22
5. Bibliografia 25

 

1 - Considerações Iniciais

Para iniciar este trabalho, faz-se relevante uma breve apresentação para que o leitor possa se inteirar do contexto de onde proponho suscitar a importância de se cuidar do profissional da saúde. Realizei minha formação acadêmica em psicologia, tendo, somente nos dois últimos anos o contato com a abordagem fenomenológico-existencial, o que gerou um significativo interesse pelas questões enfocadas por essa abordagem.
O primeiro contato com a abordagem foi através da Profª Juliana Vendruscolo, minha orientadora no estágio de API (Apoio Psicológico Infantil), que foi muito interessante e enriquecedor tanto em relação à prática como à apresentação de tal abordagem.
Mas foi no último ano de faculdade, quando fiz estágio na área de psicologia hospitalar, no Hospital do Câncer de Ribeirão Preto - SOBECCan, tendo como orientadora a Profª Lea C. de L. Bessa, que emergiram algumas inquietações que deram origem a esse trabalho.
Neste estágio tive a oportunidade de ter um contato efetivo com os profissionais da área da saúde, foi este contato que me fez pensar sobre os cuidados que esses profissionais poderiam ter e o quanto isso os ajudaria em seu trabalho, ou melhor ainda, em sua qualidade de vida.
Além do estágio, hoje sou professora de psicologia do curso Técnico Profissionalizante em Enfermagem, onde as minhas inquietações sobre tal assunto foram aguçadas mais ainda frente à necessidade de acompanhamento e cuidado que vem sendo demonstrada pelos alunos em fase de estágio e pelos profissionais recém-formados, o que também não exclui a necessidade de cuidado aos profissionais mais experientes
No entanto, a intenção desse trabalho não é analisar esses profissionais, mas mostrar a importância de se cuidar deles, da mesma forma e com a mesma dedicação que eles cuidam dos pacientes.
Sendo assim, esse projeto se propõe a estudar de um modo geral todos aqueles que, de uma forma ou de outra, são cuidadores, levando em consideração que, segundo Heidegger, todo ser humano traz como algo próprio de si, o cuidar.


2 - Revisão Bibliográfica

Fenomenologia é um método filosófico que estuda os fenômenos1. Ela surge como sendo uma tentativa de análise do fenômeno enquanto único e singular, ou seja as generalizações para entendimento do homem são deixadas de lado e a singularidade é considerada. Sua proposta culmina na indissociação entre o sentido de ser e o do fenômeno.
A Fenomenologia (do grego phainesthai, aquilo que se apresenta ou que se mostra, e logos, explicação, estudo) afirma a importância dos fenômenos da consciência que devem ser estudados do modo como se apresentam - tudo que podemos saber do mundo resume-se a esses fenômenos, a esses objetos ideais que existem na consciência, cada um designado por uma palavra que representa a sua essência, seu "sentido".
O interesse, para a Fenomenologia, não é o mundo objetivo, mas sim o modo como o conhecimento do mundo se dá, como se realiza, para cada pessoa.
Para Heidegger, a filosofia deve se preocupar com o Ser, com o ser-no-mundo, ou seja, o ser não estaria fora do pensar, mas pensar já é um modo do ser, um modo de estar em relação às coisas. Assim, uma coisa é sempre em ligação à outra, mergulhada num horizonte de totalidade e unidade.
Afirma ele que o homem é lançado no mundo de significados de maneira passiva, e pode tomar iniciativa de descobrir o sentido da existência, o que se chama transcendência. Assim supera a facticidade de estar no mundo e atinge o estágio de Existenz, a pura existência do dasein2.
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1- Fenômeno, originalmente é tudo o que aparece, que se manifesta ou se revela. É, segundo Kant, o que aparece como objeto de nossa experiência.
2- Dasein é uma expressão alemã que significa "ser-aí", ou seja, o ser do homem, o ser-no-mundo.
De uma maneira mais clara pode-se dizer que o homem sempre está entrando em contato, no seu dia-a-dia, com coisas ou situações, que lhe são
significativas, de maneira a despertar interesse ou demonstrar alguma utilidade a esse homem. (Michelazzo, 1999, p.128)
O Existencialismo, enquanto uma corrente filosófica, se preocupa com o sentido ou o objetivo das vidas humanas mais que com hipóteses científicas ou metafísicas sobre o universo. Assim, a experiência interior ou subjetiva - e aí está a influência da fenomenologia - é considerada mais importante do que a verdade "objetiva", um fundamento igual ao da filosofia oriental a corrente existencialista assimilou uma influência da fenomenologia cuja figura principal, Husserl, propõe a descrição dos fenômenos tais como eles parecem ser, sem nenhum pressuposto de como eles sejam na verdade. Para o existencialismo, a fenomenologia de Husserl significou um interesse novo no fenômeno da consciência.
Seguindo esse pressuposto, pode-se dizer que as questões primordiais para o existencialismo são:
* O homem não foi planejado por alguém para uma finalidade, como os objetos que o próprio homem cria, mediante um projeto. O homem se faz em sua própria existência.
* O mundo, como nós o conhecemos, é irracional e absurdo, ou pelo menos está além de nossa total compreensão; nenhuma explicação final pode ser dada para o fato de ele ser da maneira que é;
* A falta de sentido, a liberdade conseqüente da indeterminação, a ameaça permanente de sofrimento, da origem à ansiedade, à descrença em si mesmo e ao desespero; há uma ênfase na liberdade dos indivíduos como a sua propriedade humana distintiva mais importante, da qual não pode fugir.
Para Heidegger, a "existência" do homem é algo temporário, paira entre o seu nascimento e a morte que ele não pode evitar. Sua vida está entre o passado (em suas experiências) e o futuro, sobre o qual ele não tem controle, e onde seu projeto será sempre incompleto diante da morte inevitável.
Heidegger divide a existência em três "estruturas existenciais": afetividade, fala e entendimento. São três fenômenos existenciais que caracterizam como as coisas do passado, do presente e do futuro se manifestam para o homem e a unidade desses três fenômenos constitui a estrutura temporal que faz a existência inteligível, compreensível.
1) a afetividade: as coisas do passado chegam ao homem como valores, afetando-lhe os sentimentos, que podem ser públicos, compartilhados, e transmissíveis;
2) a fala: no presente, as coisas se traduzem em palavras da linguagem na articulação dos seus significados;
3) o entendimento: as coisas do futuro, onde o projeto que define o homem encontrará a morte, são as coisas não garantidas, que lhe são devolvidas para gerar nele o sentimento de que não está em casa neste mundo, mesmo estando entre as coisas que lhe são mais familiares.
Como uma filosofia do tempo, o existencialismo exorta o homem a existir inteiramente "aqui" e "agora", para aceitar sua intensa "realidade humana" do momento presente. No passado, ocorreram experiências significativas que se fazem "vivas" no presente, mas não como foram vividas realmente no passado e sim como se apresenta agora, com todas as alterações de visão do presente, de acordo com o que nossa senso-percepção consegue alcançar. O futuro, por sua vez, não é outra coisa que visões e ilusões para dar ao nosso presente direção e propósito, ou melhor explicando, são nossas perspectivas sobre as coisas, o que muitas vezes nos gera sofrimento e angústia por estarmos frente ao incerto, ao obscuro.
A temporalidade não seria algo dividido entre passado, presente e futuro mas fundidos em um só entendimento. Na obra de Angerami (2004), quando cita Merleau-Ponty em relação à temporalidade, ele explica essa fusão da seguinte forma: "com o meu passado imediato tenho também o horizonte de futuro que o envolvia, tenho portanto, o meu presente efetivo visto como futuro desse passado. Com o futuro iminente tenho o horizonte do passado que envolvera, tenho, portanto, meu presente efetivo como passado desse futuro."
Como esse trabalho trata do cuidado com o cuidador, essa questão do tempo se faz muito presente na medida em que o cuidado é visto muitas vezes como uma ação presente em relação à "atitudes" do passado (no sentido em que os pacientes sempre procuram uma causa passada para justificar a doença), visando uma melhor qualidade de vida para o futuro.
No entanto, não se pode deixar de lado a auto-estima desses profissionais, que se mostra como um quesito fundamental no constitutivo da personalidade humana, e que exatamente por isso, ele se modifica ao longo dos tempos adquirindo novas configurações no seu modo de ser.
Sendo assim o trabalho com o "aqui e agora" é de fundamental importância, como vimos anteriormente, os três tempos (passado, presente e futuro), se interligam em um só, onde algumas influências do passado e perspectivas de futuro influenciam no presente do indivíduo.

3 - Discussão

3.1. Cuidar
Para começarmos a falar de cuidadores, precisamos primeiro entender o que é o cuidar, e para isso será destinado este breve capítulo.
O verbo cuidar em português denota atenção, cautela, desvelo, zelo. Assume ainda características de sinônimo de palavras como imaginar, meditar, empregar atenção ou prevenir-se. Porém, representa mais que um momento de atenção. É, na realidade, uma atitude de preocupação, ocupação, responsabilização e envolvimento afetivo com o ser cuidado (Remen, 1993; Boff, 1999; Waldow, 1998; Silva, 2001).
Como uma atitude e característica primeira do ser humano, o cuidado revela a natureza humana e a maneira mais concreta de ser humano. (Boff, 1999).
Segundo o mesmo autor, o cuidado apenas aparece quando a existência de alguém adquire significado para nós. Nesse sentido, passamos a cuidar, participar do destino do outro, de suas buscas, sofrimentos e sucessos.
O cuidado por sua própria natureza possui dois significados que se inter-relacionam, por ser uma atitude de atenção e solicitude para com o outro, ao mesmo tempo em que representa preocupação e inquietação, pois o cuidador se sente envolvido afetivamente e ligado ao outro.
Para Heidegger, o cuidar é inerente ao homem, é uma das características do ser do homem, seria o que ele explica como "O ser-com", "O ser-em-relação". (Rée, J, 1999)
Em análise a uma fábula intitulada cura, Heidegger vê o fato do cuidado possuir o homem enquanto ele vive. Vê também que este privilégio a ele concedido aparece dentro da concepção de homem constituído de corpo e alma. Sendo assim, o "ente humano" possui sua origem no cuidado, de tal modo que enquanto ele "for e estiver no mundo" (Heidegger, 1988 - p.264), é mantido e dominado pelo cuidado.
Para ele, é impossível pensar o cuidado sem a temporalidade, nem este se mostra fora do cuidado, como se ambos formassem uma unidade. O cuidado portanto, recebe sua origem da temporalidade e é o que lhe possibilita apreender o Dasein como totalidade: lançado, decaído e ser projetado (Michelazzo, 1999).
Percebemos, em Steiner (1978) que a ontologia heideggeriana salienta a importância do cuidado enquanto "zelo", "preocupação" que possibilitaria a existência autêntica do ser humano, já que comprometida com seu ser-no-mundo. Entretanto, tal cuidado, estaria mais ligado às possibilidades mais próximas do ser humano em realizar coisas e ocupar-se de seu cotidiano, preocupar-se com os seus pertences e atividades.
Uma segunda forma de cuidado, de acordo com Heidegger, se refere à solicitude, que seria o relacionar-se com alguém, com um outro, de maneira envolvente e significativa, tendo como pressupostos a consideração e a paciência para com o existir do outro. A solicitude ainda se expressaria de duas maneiras: aquela que é caracterizada por um precipitar-se por sobre o outro, fazer tudo por ele, mimá-lo, manipulá-lo ainda que de forma sutil, e aquela que possibilita ao outro assumir seus próprios caminhos, ainda que com o amparo desse alguém que lhe é solícito.
Mas, para que a atmosfera de cuidado ocorra de forma verdadeira e acolhedora, é essencial que a intenção do cuidador fique clara, ou melhor, seja demonstrada genuinamente por palavras e ações. Esta ação é repleta de sensibilidade, delicadeza, solidariedade e profissionalismo, pois deve excluir preconceitos de qualquer ordem e utilizar a relação interpessoal como base entre seres humanos.
Para nos envolvermos dessa maneira, é necessário um preparo emocional do profissional que irá se expor e se colocar como ferramenta de trabalho. Outro aspecto fundamental nesse processo é a disponibilidade desse profissional para entender e lidar com a "pessoa inteira", uma vez que para isso ele se coloca diante da sua própria existência (Esperidião & Munari, 2000; Esperidião, 2002; Shiratori, 2003).

3.2. O cuidador
Para entendermos "o cuidador", partiremos de Heidegger, referindo-se ao "ser-no-mundo". "Ser-no-mundo" diz respeito à maneira pela qual o homem encontra-se com suas coisas e com as pessoas, preocupa-se com elas, num mundo que lhe é familiar, remetendo também ao modo como o ser-no-mundo se aproxima das pessoas ou coisas e/ou se afasta delas. Dessa forma, a fenomenologia se preocupa com o aspecto social do ser, passando a pensar em como ele vive o seu ser-com-os-outros, como ele se relaciona, atua, sente e vive com seus semelhantes.
Faz parte da natureza do homem a busca por contato, envolvimento com outros homens, outras existências. Diante disso, os profissionais de saúde são aqueles que têm a incumbência de zelar pelo cuidado da saúde do homem, através desse contato.
Na perspectiva ontológica de Heidegger, o profissional de saúde tem o seu ser-aí envolvido com o ser-que-está-doente, e a partir do momento que assume o cuidado do paciente, passa a ser-com-o-outro e essa relação sempre afeta, de alguma maneira, a sua existência.
O trabalho em saúde é vivido com prazer e angústia. Prazer referente à valorização social que esse cuidado tem em nossa cultura ocidental e, por conseqüência, os profissionais também são igualmente valorizados por serem pessoas destinadas ao cuidar de quem está sofrendo. Além disso também é prazeroso, levando em consideração as experiências desse profissional, onde qualquer reconhecimento ou melhora do paciente o incentiva ainda mais. Angústia, por sua vez, por trazer ao profissional o inevitável contato com sua impotência frente à morte, além de estar sempre de frente com as suas limitações como ser humano, o que pode ser fonte de estresse e sofrimento para esses trabalhadores.
Essa angústia e esse prazer podem ser vistos nitidamente nos estagiários e residentes. Em minhas aulas no curso técnico em enfermagem, presencio com freqüência esses sentimentos nos alunos, principalmente a angústia em não saber como lidar com suas impotências, com o medo de "não conseguir dar conta" das tarefas de cuidador e, principalmente, do envolvimento com o paciente, mas também é visível a satisfação de estar ajudando as pessoas e sendo reconhecidos como tais.
Para Heidegger, a angústia resulta da falta de base da existência humana e a "existência" é uma suspensão temporária entre o nascimento e a morte. A angústia funciona para revelar o ser autêntico, e a liberdade como uma potencialidade. Ela enseja o homem a escolher a si mesmo e governar a si mesmo, a encontrar a potencialidade de ser de modo autêntico. (Rée, 1999)
Embora, segundo o próprio Heidegger, seja impossível manter apenas relações de autenticidade nas situações de cuidado, é preciso que se busque a relação mais próxima possível com o paciente de quem se cuida de modo que ele possa ser percebido em sua dimensão existencial. Um cuidado em que o profissional se precipita sobre aquele que é cuidado, acreditando que está fazendo o melhor, pode trazer inúmeros prejuízos para a pessoa em tratamento, já que não vai haver uma co-existência entre o ser-cuidador e ser-cuidado, mas sim uma relação desprovida de significado real a ser acrescentado para ambas as partes envolvidas no ato de cuidar.
A humanização desses cuidadores se faz muito importante, pois estes foram treinados para cuidar e, assim, é muito difícil que eles aceitem serem "cuidados". Isso faz com que se perca muito no tratamento, pois se os cuidadores não têm a dimensão do que é ser cuidado, o contato com o paciente pode ficar muito superficial e empobrecido.
O que se percebe é que nessa forma de existir enquanto cuidador, os profissionais da área da saúde se importam com o paciente e se "esquecem" do cuidado de si, e é a partir daí que se desenvolvem as questões negligenciadas nesses cuidadores.
O grande problema é que, desde a sua formação, o profissional da área da saúde aprende que, para ser um bom profissional, não pode se envolver com a dor do paciente e, quando depara com a realidade, vê que isso é completamente impossível.
Resgatar a condição humana desses profissionais é de extrema importância. Condição essa que os coloca frente às suas possibilidades enquanto seres humanos que exigem respeito e dignidade, sem deixarem de ser profissionais e nem deixarem de expor suas fragilidades enquanto ser-no-mundo e em-relação-com.
Outro ponto a ser discutido é a individualidade desses cuidadores, o que é bem exemplificado por Angerami (2003), quando comparando o profissional da saúde a uma orquestra diz:
"O profissional da saúde é assim, como um solista de orquestra, que embora faz parte da mesma precisa ter cor própria para se sobressair e mostrar o esplendor de sua temática melódica".(Angerami, V. Temas existenciais em psicoterapia)
Eu diria que essa marca da individualidade é importante, assim como, conforme afirma Angerami, se dar conta que não trabalham sozinhos e que engajar essas marcas individuais a uma equipe, faz sua prática ser muito mais rica e eficaz.
Todos esses aspectos do cuidador apontados acima devem ser considerados de extrema importância, pois de uma forma ou de outra tudo aquilo que ele sente e manifesta (cansaço, angústia, etc) repercute em sua atuação como profissional e em sua vida.

3.3. Porque cuidar do cuidador?
É comum ouvirmos que para cuidar, antes de mais nada é necessário se cuidar, pois o cuidador é aquela pessoa que, inspira confiança, acaba com o desespero, luta contra o medo, inicia ações positivas e produtivas, e sendo assim todos esses valores teriam que fazer parte das práticas desses profissionais.
Porém, o trabalho em saúde impõe aos profissionais da área uma rotina carregada de alto grau de tensão que envolve toda a equipe. Pessoas transitando e conversando, sons agudos, intermitentes e variados, queixas constantes, ansiedade, tristeza, dor, morte e longas jornadas de trabalho constituem o cotidiano da maioria desses profissionais e, em particular, a do enfermeiro. Segundo Remen (1993, p.180):
"Um profissional de saúde é uma pessoa que sofreu profundas modificações como resultado de treinamento especializado, do conhecimento e da experiência; são pessoas diariamente expostas à dor, à doença e à morte, para quem essas experiências não são mais conceitos abstratos, mas sim, realidades comuns. De muitas maneiras, é como estar sentado na poltrona da primeira fila no teatro da vida, uma oportunidade inigualável para adquirir um profundo conhecimento e maior compreensão da natureza humana".
Tudo isso estimula esse profissional a renunciar seus sentimentos e vontade própria para poder atender à pessoa que necessita de cuidados. Todavia, vale lembrar que o ser humano não foi "configurado" como uma máquina, podendo despir-se de suas vontades e necessidades, e é a partir daí que o cuidado com esses profissionais se faz necessário.
Na atividade diária pela salvação de vidas e restituição do bem-estar dos doentes, muitos profissionais da saúde tombam e acabam produzindo os maiores índices de depressão ou suicídio da sociedade. Aos poucos é que se tem disseminado a preocupação com a necessidade de cuidar de quem cuida.
As pessoas que estão há mais tempo na profissão também são mais suscetíveis, porque costumam estar com um acúmulo de decepções e conflitos no trabalho. Paralelamente ao cuidado com o indivíduo, pode haver um trabalho preventivo no próprio ambiente, trabalhando o sofrimento, no sentido de evitar esse tipo de desgaste a esses profissionais.
Um estudo realizado na Unifesp pela psicóloga Cristina Sueko Obara apontou que a depressão atinge 9,3% dos indivíduos no primeiro ano de residência médica. Em outros países, estudos sugerem uma incidência de até 30%, um número próximo do verificado pela pesquisadora quando ela adaptou seus dados às metodologias estrangeiras (Obara, 2002).
A mentalidade de que é preciso cuidar do cuidador é uma ação preventiva. O comum é que se treinem as pessoas para cuidar dos outros. Mas e a necessidade do cuidador? Se ele não for assistido nas suas necessidades, isso vai interferir no atendimento que prestará.
Seria essencial que se agregasse à prática técnica e científica o respeito à singularidade das necessidades do paciente e do cuidador, acolhendo o desconhecido e o imprevisível, e aceitando os limites de cada situação.
Tendo um respaldo, e algo em que se possa ter como âncora, o cuidador realizará seu trabalho com muito mais empenho e responsabilidade, além de trabalhar com muito mais satisfação por saber que, assim como ele tem que cuidar de seus pacientes, há também quem cuide deles.
Além disso, o cuidado com o cuidador pode proporcionar ao profissional da saúde a oportunidade de resgatar o verdadeiro sentido de sua prática, sentido e valor de se trabalhar numa organização de saúde, pois resgata sua própria auto-estima.
As pessoas que cuidam acabam por sofrer um grande desgaste emocional. Porém passam a idéia de que cuidam também de si mesmas (Fernandes, Batista e Leite, 2003).
Mas é exatamente esse cuidado que o falta. Assim como precisamos e devemos nos preocupar conosco e dar lugar à necessidade de nos sentirmos amparados por alguém, o profissional que cuida também necessita desse amparo.
Ninguém pode dar ao outro o que não tem, diz um antigo provérbio. É fato, por conseguinte, que seremos mais eficazes na nobre tarefa de cuidar se nos dispusermos a promover o bem estar do outro sem esquecermos do nosso próprio (Martins, 2003).

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3.4. O desafio de cuidar de quem cuida
Para que se tenha sucesso no processo de cuidar de quem cuida e para aprender a construir um ambiente de trabalho mais digno, consideraria necessário ter, ainda durante a graduação, abordagens que nos mobilizem nessa direção.
Esperidião (2001) mostrou, através do seu estudo, a importância para o fato das instituições que formam profissionais da área da saúde repensarem a questão da formação do profissional dentro de uma perspectiva que possibilite ao aluno o cuidado à sua pessoa como base para a estruturação de um bom profissional. Esse aspecto, propiciaria o desenvolvimento de uma visão diferenciada em direção ao cuidador, permitindo entendê-lo como um profissional que requer cuidados para cuidar com qualidade.
Seria importante também que o aluno tivesse a oportunidade de aprender e desenvolver habilidades que contribuem para sua autopercepção e autoconscientização. Esse enfoque permitiria ao aluno lidar com suas limitações e conflitos de forma mais saudável, cooperando para a formação de um profissional que conhece e respeita seus próprios valores e concepções.
Além da formação seria necessário também que esses profissionais tomassem consciência de que sua condição humana não precisa ser negada na sua prática profissional, nem ser uma coisa pautada em sua razão, deixando as emoções de lado, mas que ao contrário, quanto mais humano e aberto a possibilidades ele for, melhor desenvolverá seu trabalho e melhor se sentirá com isso.
Mas para que isso ocorra é importante e indispensável, ter em mente que cuidar do cuidador significa também medidas preventivas.

Acredito que cuidar do cuidador dentro da organização, implica, antes de tudo, em um levantamento das necessidades da equipe, para conhecer melhor a natureza da atividade desempenhada por cada profissional, pensando inclusive no ambiente físico. O levantamento das necessidades tem como objetivo conhecer melhor as situações que geram frustrações, conflitos, cansaços físico e mental, situações que os trabalhos científicos apontam como sendo potencialmente geradoras de doenças psicossomáticas no exercício da atividade profissional.
Porém, para que essas medidas sejam realmente eficazes elas devem adaptar-se ao ser, levar em consideração as necessidades de reconhecimento e de valorização que sente todo profissional no exercício de suas atividades.
Para que um programa preventivo atinja seus objetivos ele deve levar em consideração que as situações geradoras de estresse, conflitos e doenças psicossomáticas podem ter múltiplas causas, e que todas essas causas não devem ser vista sem importância de maneira nenhuma.


4 - Considerações Finais

A partir das minhas experiências com profissionais e alunos da área da saúde pude perceber que a necessidade de cuidado é muito grande, não só no sentido de promoção de saúde desses profissionais, mas como forma de reelaboração de seus conceitos enquanto seres cuidadores que podem receber cuidado, e também a reorganização de suas tarefas e de suas vidas.
É certo que a responsabilidade desses profissionais é muito mais cobrada do que em outras profissões - cobrança essa que vem tanto da equipe em que ele se insere, como a sua própria - visto que eles estão o tempo todo trabalhando com a vida dos pacientes, mas isso não quer dizer que eles têm que esquecer de suas próprias vidas, muito pelo contrário, é exatamente por isso que o cuidado com esses profissionais deve ser redobrado.
A pressão e a falta de atenção com esse profissional só faz diminuir a qualidade de seu trabalho e da sua vida. Isso foi bem exemplificado quando menciono ao longo deste trabalho que o índice de profissionais dessa área que apresentam depressão é muito alto.
Além disso há o agravante de que a maioria desses profissionais, e principalmente os mais antigos não sabem receber cuidados, foram "treinados para cuidar" e se abrirem guarda para receber cuidados não serão mais bons profissionais.
Isso tudo porque em sua formação o que receberam como base era exatamente a noção de que o bom profissional é aquele que cuida e que não se envolve com o paciente sendo profissional acima de tudo. Por isso mesmo se torna muito difícil mostrar a essas pessoas o quanto se faz necessário esses cuidados.
Acontece que, enquanto ser-em-relação, não há como esses profissionais não se envolverem com o paciente. A relação cuidado-cuidador acontece por si só, não há como não se envolver.
Se retormarmos a fala de Heidegger, quando ele diz que o cuidado é algo próprio do ser humano, fica muito mais fácil de se entender. O que eu entendo por isso é que como o cuidado é condição humana do ser, assim como prestar o cuidado, receber cuidado também deveria ser uma prática do dia-a-dia, como se fosse uma via de mão dupla, uma troca nessa relação cuidado-cuidador.
Angerami (2003, p. 49) define muito bem essa troca que deveria haver entre o cuidado e o cuidador com o seguinte trecho:
"Podemos até não lembrar de quem partilhou nossa alegria, mas jamais esquecemos quem chorou diante de nossa dor..."
Isso mostra o quão importante para o paciente é o cuidado que o profissional da saúde deve ter mostrando com isso que esse profissional é tão humano e está muito mais perto dele do que ele próprio imagina.
Em minhas experiências o que pude notar é que os profissionais até tem essa noção de relação com o paciente mas não sabem como reagir frente a esse envolvimento com ele, ou porque não aprenderam a se envolver (que é o caso dos profissionais mais antigos) ou porque têm medo de não ser profissionais (que é o caso dos profissionais mais novos).
A meu ver seria extremamente benéfico tanto para o paciente, como para o profissional que houvesse essa troca na relação-com, pois para o paciente o profissional deixaria de ser a pessoa que cuida da doença como um ser superior a ele e para o profissional além do ganho no desenrolar do tratamento e na melhora do paciente, também a "carga da responsabilidade" ficaria mais leve, visto que antes de ser o profissional ele é um ser humano com as mesmas possibilidades que seu paciente.
Diante de tudo isso, seria necessário ensinar a esses profissionais a se cuidar e principalmente mostra que isso é totalmente possível sem deixar de ser um bom profissional.
Com tudo isso, minha preocupação maior nesse trabalho foi mostra que existe a possibilidade real de se cuidar do cuidador, além de salientar a grande importância que essa prática tem dentro e fora da instituição e o quanto isso humaniza essas pessoas. Porém essa prática é muito rara, visto que a cultura e os valores destes profissionais limita-os a cuidar e não receber cuidado.
O trabalho é grande mas acredito que ensinando esses profissionais que tão importante quanto cuidar de um paciente é cuidar de si, é que conseguiremos mudar a sua visão de cuidado.


5 - Bibliografia

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