Angústia Existencial

 

Aluna: Nívea Regina Simono Salviati

 

2003

Monografia apresentada como trabalho de conclusão do Curso de Especialização em Psicoterapia Existencial do Centro de Psicoterapia Existencial sob a orientação do psicólogo Robson L. Oliveira.

I. Introdução

O interesse para escrever sobre Angústia originou-se de minha própria angústia diante da necessidade de escolher um tema para a monografia de conclusão do Curso de Especialização em Psicoterapia Existencial.

Como foi difícil escolher dentre tantas opções interessantes, apenas uma para estudar. Claro, como diria Sartre (1978), a escolha de uma implicava a negação das outras, ou seja, a não possibilidade de vivenciar as outras escolhas. E isto angustiava-me. Refletindo a respeito, cheguei à conclusão de que existir significa escolher a todo momento, desde a decisão mais simples à mais complexa sobre minhas atitudes, bem como ser responsável por essas escolhas já que atingem não só a mim como à humanidade e, portanto, como já dizia Sartre (1978), estamos condenados à liberdade de escolha em nossa temporalidade. Ter consciência disso é ter angústia (Angerami – Camon, 1998).

A partir disso, sobreveio-me a curiosidade de saber como o Existencialismo compreende essa Angústia? O que diria Sartre? E Heidegger? Por meio de um levantamento bibliográfico, procurei conhecer o que e como alguns filósofos existencialistas pensavam a respeito.

Em seguida, decidi realizar uma análise fenomenológica das angústias vivenciadas pelas personagens Garcin, Estelle e Inês, do teatro de Jean – Paul Sartre, intitulado “Entre Quatro Paredes”, com a finalidade de transpor a teoria para uma experiência.

Espero com estes escritos compreender melhor e poder contribuir para a compreensão da angústia enquanto experiência inerente à condição humana.


II. Angústia Existencial

II.1. O que é Angústia?

O termo “Angústia” tem sua origem do latim “Angustus” que significa “estreito, apertar, afogar”. Conforme Mandruszka (citado por Giovanetti, 2000), esse termo surge a partir de uma vivência corporal de ser no espaço, significando um estreitamento da vivência, de onde provém a expressão clássica de “aperto no peito” ao se definir a angústia, sem se ter clareza sobre o que provoca essa sensação.

Há de se realizar, neste momento, a distinção entre angústia e medo. Kiekegaard (1972), em seu livro “O Conceito de Angústia” afirma que no medo tem-se certa clareza de que é uma emoção que possui um objeto, isto é, sente-se medo de algo possível de ser definido, concreto, ao contrário da angústia que não se tem uma clareza do objeto que a evoca.

Desse modo, descobrindo o objeto do qual sente-se medo, é possível evitar esse objeto e controlar essa sensação. Na angústia, porém, a dificuldade em se ter clareza de seu objeto faz com que o ser permaneça em estado de angústia.

Existem vários tipos de leitura acerca da angústia. Há a leitura psicológica, ou nosológica, que reduz sua compreensão às manifestações clínicas e psicopatológicas; e há a leitura ontológica que considera a angústia enquanto um fenômeno que atinge todo ser enquanto perda do fundamento pessoal da existência e, conseqüentemente, do sentido de vida. A primeira busca atentar para os sintomas que a angústia apresenta, no intuito de encontrar uma cura para o sofrimento causado, através de métodos que controlem os sintomas, removendo totalmente a angústia. A segunda visa compreender a angústia enquanto inerente ao ser e, como tal não há o que se curar porque não há como remover a angústia do ser.

O existencialista difere da filosofia tradicional e do homem comum neste ponto, pois não acredita que possa existir vida sem sofrimento ou a felicidade eterna. Acredita que as agruras existenciais, dentre elas a angústia, a solidão, o tédio etc., são inerentes à existência humana e, sem elas não há realizações humanas.

Segundo Sartre (1978), o homem possui a liberdade para assumir a totalidade dos próprios atos e, diante da obrigação de optar, se angustia, visto que mesmo o não optar já é em si uma opção de delegar o poder decisório a um outro e, como tal, arcar com a responsabilidade do que for escolhido por este.

“O homem é um ser que, livre, decide a própria vida. O homem arca com a responsabilidade de sua escolha, e escolher sua própria vertente, significa lutar pela própria dignidade” (Angerami – Camon, 1998, p. 6).

No pensamento existencialista, portanto, a angústia deixa de ser vista como uma patologia para ser inerente à existência, à condição humana (Angerami – Camon, 2000). É ela que tira o homem do quietismo e o leva à ação, o faz mudar de atitude, seu modo de pensar, de agir etc. pela reflexão e discussão acerca dos valores existenciais que ampliam a compreensão da realidade humana. A angústia não é mais, portanto, um sentimento negativo, mas uma experiência que evidencia-se quando tem-se consciência da condição humana de seres livres e únicos. A natureza essencial do homem é a razão pela qual ele adquire consciência dos seres. O que distingue os homens de outros seres é a consciência.

Dartigues (s/d) aponta que diferentemente do medo, a angústia não tem objeto, isto é, nada que existe pode desempenhar o papel daquilo que angustia a angústia. Sendo assim, a angústia de nada pode se assegurar, nem tampouco se tranqüilizar, o que resta apenas é o ser-no-mundo do modo que se é. Quando o nada se encontra com a angústia lembra o homem de sua verdadeira condição, um ser de possibilidades responsável por suas escolhas.

A angústia existencial é um sentimento elitista e filosófico pois refere-se à totalidade da existência humana e não à experiência pessoal diante do perigo ou aspereza da vida, como é utilizada no senso comum. É através da angústia que o homem direciona seus atos e torna possível agir em busca de novas perspectivas à própria vida (Angerami – Camon, 1998).

Para Sartre e Kierkgaard, a consciência dessa liberdade é a própria angústia pois ao escolher o que quer ser, o homem torna-se ao mesmo tempo um legislador de si próprio e da humanidade inteira, sendo responsável pelas conseqüências de suas escolhas. É uma responsabilidade perante os outros homens (Sartre, 1978).

Sartre afirma ainda que o homem pode tanto escolher ser autêntico consigo mesmo e refletir acerca de sua responsabilidade perante si e a humanidade, quanto utilizar-se da má-fé, disfarçando sua angústia mentindo para si mesmo, justificando-se que seus atos implicam apenas si próprios. Conseguem desta forma, temporariamente, uma falsa sensação de tranqüilidade.

Heidegger acrescenta que a angústia é um sentimento que amedronta a todos diante do “nada” existencial, isto é, da impossibilidade de existir uma explicação para a existência, para o desconhecido (Angerami - Camon, 1998).

Conforme afirma Araújo (2000), a angústia possui um papel central na existência do ser pois coloca-o diante do desconhecido, do risco, da dúvida, da incerteza. Afeta a ambigüidade das possibilidades, confrontando-as sempre diante de suas ambivalências (ser/não ser, criação/destruição, vida/morte, sentido/insignificação).

A angústia surge diante do real estabelecido por uma escolha e do futuro imprevisível das conseqüências. Ela é a ausência da certeza, do conhecimento e do controle sobre o futuro. Ela é expressão da fragilidade dos projetos do ser.

A seguir será discutido com maiores detalhes os diferentes olhares acerca da angústia conforme Sartre, Kierkegaard e Heidegger.


II.2. Tipos de Angústia

Alguns autores (Angerami – Camon, 1998 e Cipullo,2000) referem existir três tipos de angústias existenciais: a angústia de liberdade à qual refere-se Sartre, a angústia do ser considerada por Kierkegaard e a angústia diante do aqui – agora (refletida por Heidegger). Neste momento, as três angústias serão apresentadas separadamente, para fins didáticos, porém elas podem coexistir.

Kierkegaard era um filósofo que acreditava na existência de Deus, mas reconhecia não ser possível saber quais eram Suas reais intenções, dessa forma, não sendo possível ao homem isentar-se da responsabilidade acerca de seus atos, isto é, de suas escolhas. O homem tem o livre arbítrio recebido de Deus. Segundo este filósofo, a angústia vem da consciência do pecado e da liberdade, o homem conhece o bem e pode optar pelo mal, responsabilizando-se por sua escolha e, por isso, angustia-se (Cipullo, 2000).

A consciência do pecado é a consciência de proibição, do que não é permitido realizar. A proibição ( não poder ) desperta no homem, porém, a possibilidade de poder , trazendo-lhe a ambigüidade e a angústia de poder escolher desde que se torne responsável pelas conseqüências (De Feijoo, 2000).

A angústia de ser, abordada por Kierkegaard, aparece quando percebe-se que a possibilidade do nada é tão real quanto a do ser (ambivalência). O homem não sabe de onde tudo se originou e nem como vai acabar, ele não pode ter certeza de nada, muito menos das conseqüências de suas escolhas, e a impossibilidade de prever e explicar os fatos o angustia.

É importante não confundir a angústia de ser com angústia de morte. A morte é apenas uma possibilidade dentre várias outras, que também gera angústia pois explicita a finitude do indivíduo e, consequentemente, o término de suas possibilidades.

Ao contrário de Kierkegaard, Heidegger e Sartre eram filósofos ateus e não atribuíam, portanto, a responsabilidade das escolhas a entidades, e sim ao próprio homem.

Para Heidegger, o homem está-aí, é um ser lançado no mundo. O estranhamento das coisas, a ausência de familiaridade com o mundo, ou como prefere Heidegger, a “pre-sença” é a abertura para ter-se consciência desse mundo. Essa sensação que permeia o cotidiano e que apresenta ao homem sua situação fundamental de ser – para – morte, ou seja, de ser um projeto finito, vem acompanhada de dois sentimentos: a angústia e o temor (De Feijoo, 2000).

O não sentir-se em casa deve ser compreendido existencial e ontologicamente como o fenômeno mais originário. A “pre–sença” clama movida pela angústia por ser si própria, pessoal e autêntica, o que implica em reconhecer-se como um ser – para – morte.

Porém, muitas vezes isso não acontece, e o ser “esquecido” de sua liberdade de escolha justifica sua angústia atribuindo-lhe objetos para tranqüilizar-se novamente, enganando a si mesmo. Esse modo de agir, impessoal e inautêntico lança o ser no mundo das ocupações e preocupações, no imediato e no factual, das tarefas e das regras insentando o homem de ter que pensar, tirando-lhe a responsabilidade de assumir suas escolhas. Quem escolhe é todo mundo e, dessa forma, todo mundo é ninguém. O ser fecha-se em si – mesmo, impossibilitando a abertura para o mundo que lhe é própria.

Reconhecer-se como um ser -para – morte pela de-cisão antecipatória, isto é, escolher com consciência da finitude, permite a abertura do ser para o mundo através da pre-sença e de existir como seu ser mais próprio.

A consciência da finitude das coisas angustia e provoca temor no homem pois coloca-o frente a possibilidade da própria finitude. No entanto, é essa angústia do aqui – agora que remete o homem em seu poder – ser mais próprio, escolhendo o que quer ser e assumindo a responsabilidade de suas escolhas.

Conforme Heidegger, a angústia do aqui – agora parte do princípio de que o homem é um ser temporal, com sua história individual, definida em uma época e espaço historicamente determinados. Isto significa que o homem é um ser único e que apenas ele pode vivenciar suas experiências. Quer dizer que nenhuma pessoa pode vivenciar a vida no lugar de outra, escolher as escolhas do outro, assumir as responsabilidades do outro e, conseqüentemente, não pode morrer no lugar de outra pessoa.

Cipullo (2000) afirma que “mais do que um discurso solipsista, isso mostra que cada um é e faz sua própria história nesse breve período de permanência no seio da Vida” (p.97).

Como tal, o homem é, impossibilitado de identificar-se com a humanidade em geral pois esse “em geral” viveu em outro tempo e lugar e foram influenciados por outras contingências espaço – temporais, obrigado a realizar-se enquanto ser – no – mundo em espaço e tempo limitados (Cipullo, 2000).

A consciência dessa finitude é que angustia o homem.

Também a angústia de liberdade, segundo Sartre, mostra-se a todo o tempo pois o homem é livre para realizar, constantemente, escolhas ao longo de sua existência e, como tal é responsável pelas conseqüências, o que lhe gera a angústia. Ela está intrinsecamente ligada às outras formas de angústia pois a angústia do aqui – agora instiga a necessidade de reconhecer a situação atual como indesejável e uma outra como ideal, levando o ser a realizar escolhas enquanto ser de possibilidades em busca de um sentido de vida, ao mesmo tempo em que implica na não escolha das outras possibilidades, isto é, na angústia de não as ser.

É válido acrescentar que Paul Tillich faz também a distinção entre três tipos de angústia reforçando o que Sartre, Heidegger eKierkegaard já haviam pensado: 1. A angústia do destino e da morte (similar à angústia de ser); 2. A angústia de vacuidade e insignificação (correlata da angústia do aqui – agora); e 3. A angústia de culpa e condenação (correspondente à angústia de liberdade (Araújo, 2000).

Para Paul Tillich a morte não representa apenas a morte do ser em si, mas também a não possibilidade de outras escolhas existirem ao se optar por uma, isto é, o estar – em – débito de Heidegger, enquanto inerente à existência.

No capítulo seguinte, realizar-se-á a análise de uma importante peça teatral de Sartre, procurando ressaltar as angústias vivenciadas pelas personagens como tentativa de perceber o quão presentes elas estão em cada ser.


II.3. Angústia Entre Quatro Paredes

A peça teatral “Entre Quatro Paredes”(1977), escrita por Jean – Paul Sartre, conta a história de três personagens: Inês, Garcin e Estelle. Eles morrem e são condenados ao inferno por não terem assumido a responsabilidade que a liberdade de sua condição humana lhes cabia. Conduzidos por um criado, são obrigados a manter-se enclausurados em uma sala que possui apenas três poltronas, uma faca de cortar papel e uma estátua de bronze sobre a lareira.

A história está dividida em cinco cenas. A primeira, terceira e quarta cena descrevem a chegada de Garcin, Inês e Estelle respectivamente. A segunda cena resume-se a Garcin sozinho na sala. Na quinta, e última, cena é que os motivos pelos quais o trio está no inferno são esclarecidos e o momento em que as angústias ficam explicitadas.

Garcin em vida era um homem que maltratava a esposa, desprezava as mulheres: “Estou aqui porque torturei minha mulher” (Garcin, p. 54), “Eu tinha instalado em casa uma mulata. Que noites! Minha mulher, que dormia no primeiro andar, de certo ouvia tudo. Ela era a primeira a levantar-se e, como nós ficávamos deitados até tarde, ela nos trazia café com leite na cama”(Garcin, p. 55), “Eu entrava em casa bêbado como uma cabra, com cheiro de vinho e de mulher. Ela me havia esperado a noite toda(...)”(Garcin, p. 54).

Crê-se um covarde por ter recusado se alistar para a guerra e tentado fugir da prisão. Sente-se culpado. Morreu fuzilado durante a tentativa de fuga. Preocupa-se com o que os outros pensam e falam a seu respeito: “Alguém, no jornal, está falando de mim e quero ouvir.”(Garcin, p. 50).

Inês intitula-se uma pessoa má, visto que sente prazer com o sofrimento alheio. Em vida, agia propositadamente para provocar o sofrimento no outro. “Eu, sim, sou má, quer dizer que preciso do sofrimento dos outros para existir” (fala de Inês, p. 59). Induziu a morte de um rapaz cuja namorada era sua amante, quis deixá-la culpada pela morte do rapaz e foi morta pela própria namorada por gás de cozinha.

Estelle, vaidosa, antes de “ausentar-se”, como referia-se à morte, gostava de ter os homens a sua volta, não importando seus sentimentos em relação a eles. Desprezava-os e importava-lhe as aparências, o estatus social. Engravidou do amante e este era pobre. Cometeu infanticídio sem o consentimento do rapaz. O pai do bebê suicidou-se após isso. Ela morreu tempos depois de pneumonia.

O fato de estarem as três personagens confinadas na mesma sala no inferno fazem-nas pensar que deve haver um motivo para tal. A imagem que tinham do inferno era de um carrasco que os torturaria fisicamente por meio de estacas, grelhas, funis de couro, chumbo derretido, pinças, garrote, tudo o que queima, tudo o que rasga. Mas o que constatavam era apenas a presença deles mesmos sem perspectiva da chegada de outra pessoa.

Após inúmeros questionamentos a respeito, Inês concluiu: “Fizeram uma economia de pessoal (...).São os próprios fregueses que se servem (...). Cada um de nós é o carrasco para os outros dois.” (p. 42)

Garcin era o carrasco de Estelle pois condenava-a a desejar um homem que não era nada agradável como os homens que ela estava acostumada a esnobar, e mesmo humilhando-se não conseguia atrair sua atenção.

Por sua vez, Estelle era o carrasco de Inês, ignorando-a e desprezando-a em prol de Garcin, um homem. Ao contrário da amante de Inês, Estelle não se deixava manipular e fazia Inês sofrer da mesma maneira que o rapaz morto por sua indução sofreu.

Enfim, Inês era o carrasco de Garcin. Este, que estava acostumado a menosprezar os sentimentos da esposa e tratando as mulheres em sua vida com desrespeito, encontra em Inês a recusa em agradar-lhe, sendo ela grosseira com ele e afirmando a todo instante sua preferência por Estelle, uma mulher!

Cada carrasco explicitava, então, ao outro seus atos e obrigava-o, desta forma, a assumir as conseqüências de suas escolhas.

Perceberam, então, que estarem juntos não era obra do acaso, mas que essa situação estava relacionada com as atitudes de cada um e que eles eram responsáveis pelo que estava acontecendo. Era preciso reconhecê-las e serem autênticos consigo mesmos.

Garcin não estava suportando a convivência com as pessoas acusando-o a todo momento: “(...) quero sofrer de verdade. Prefiro cem dentadas, prefiro a chibata, o vitríolo a este sofrimento cerebral, esse fantasma de sofrimento, que roça, que acaricia e que nunca dói o bastante.” (p. 90)

Eis que nesse momento de desespero, Garcin agarrado ao trinco da porta e sacudindo-o, a porta se abriu. Quem ousou sair? Era a oportunidade de saírem da sala, mas ninguém se propôs a ir primeiro. Estelle tentou arrastar Inês para o corredor, com a intenção de ficar a sós com Garcin, mas ele impediu-a pois precisava de Inês para reconhecer suas escolhas. Concluem, finalmente, que não há o que fazer a não ser aprender a conviver uns com os outros.

Esta peça ficou conhecida pela frase de Garcin: “O inferno são os outros.”, em uma alusão ao fato de que “uma consciência não pode furtar-se a enfrentar outra consciência que a denuncia” (Almeida, G., em Sartre, 1977, p. XXII). Se existe o outro, a existência do homem está relacionada ao julgamento que o outro faz de si. Enquanto ser pensante e pensado, ao mesmo tempo sujeito e objeto, ele desfruta do privilégio difícil e angustiante de assumir suas responsabilidades e escolher livremente seus atos.

O tema em evidência nessa história é que por mais que se tente e não se assuma a responsabilidade sobre os atos, existe sempre um outro que impede o homem de alienar-se de sua condição humana, angustiando-o.

Nesta parte do trabalho, procurarei evidenciar os momentos de angústia vivenciados pelas personagens, identificando-as segundo as angústias diante do aqui – agora, angústia da morte, angústia de ser e angústia de liberdade.

A angústia de liberdade é a que permeia toda a história, pois as personagens angustiam-se ao perceberem que foram livres para realizar suas escolhas em vida e que, portanto, deveriam assumir a responsabilidade das conseqüências de seus atos.

A angústia que as personagens sentem em relação à finitude, isto é, a angústia de morte, é explicitada principalmente por Estelle, que pede para evitarem dizer a palavra “mortos”, referindo-se a si mesmos, substituindo-a pelo eufemismo “ausentes” (pp. 30-31). O medo de não existir é percebido na preocupação das personagens em serem lembradas mesmo após suas mortes pelas pessoas que permaneceram vivas (pp. 66, 73, 74), como se a lembrança as mantivessem vivas também, evitando a idéia da morte presente.

Garcin procura a todo momento encontrar uma razão, um motivo para estarem os três enclausurados em uma sala no inferno. Diz: “Precisa saber” (p. 37), referindo-se ao motivo. Garcin e Estelle oferecem logo suas explicações a respeito: “é o acaso” e “é um equívoco”, respectivamente. Inês não acredita que seja por acaso que estão juntos. Esta seria uma explicação muito ineficaz para acalmar a angústia de todos. Inês procura, então, encontrar outro motivo, tentando verificar se existe algo em comum que os três realizaram em vida que justificasse suas junções.

A angústia de ser aparece nessa necessidade de explicar a origem dos fatos, atribuir uma causalidade para os acontecimentos, na intenção de acabar com a incômoda sensação de não saber a razão do presente. O desconhecimento do que há por vir provoca a necessidade de prever o futuro estabelecendo causalidades. O movimento é de voltar ao que aconteceu (passado) para entender o que está acontecendo (presente) e garantir uma previsibilidade do que é provável acontecer (futuro). Pretendem, desta forma, obter uma garantia de pseudo - controlabilidade sobre as conseqüências de seus atos, conseguindo, efetivamente, apenas uma falsa sensação de segurança para aliviar uma angústia que é inerente ao ser.

A angústia do aqui - agora é evidenciada no final da história quando Garcin conclui que “morreu cedo demais” (p.94) e não teve tempo de realizar o que gostaria, percebendo, então, a finitude da vida e a incontrolabilidade sobre sua morte.


III. Discussão

A liberdade de escolha angustia o homem a todo momento. Como ser lançado no mundo, ao se deparar com todas suas possibilidades, ele encontra-se invariavelmente em débito com a plenitude idealizada da vida. É importante que ele se compreenda enquanto ser em marcha, em constante devir, o que significa vir - a – ser aquilo que nunca se completa.

Todas essas questões não são vivenciadas apenas pelas personagens da peça teatral “Entre Quatro Paredes”, mas todo ser as experimenta. Alguns utilizam-se da má-fé e mentem para si mesmos que tais angústias não existem, misturando-se ao “a gente”, ao impessoal, ao igual a todo mundo, evitando pensar acerca de sua responsabilidade. Outros, porém, encaram as angústias como algo inerente à existência. Estes vivem a autenticidade de suas escolhas, aqueles fingem uma autenticidade.

Essa peça teatral permitiu perceber o quanto a angústia está presente em todas as atitudes que são realizadas e é, portanto, inerente à existência humana.

Faz-se necessário para viver na autenticidade, aprender a lidar com o dé-bito, a incompletude e a angústia evocada por essas condições como algo inerente ao ser, assumindo-se na liberdade de escolha e responsabilizando-se pelas conseqüências no futuro.

“Negar a angústia é negar nossa condição de seres temporais. Negar o tempo é querer parar seu impulso destruidor, parando também seu impulso criador. Isso é desejar a eternidade, mas a ‘eternidade do presente'. Um presente em que desaparece a perspectiva do ‘porvir' e a memória do que ‘somos' no passado de nossa história. Afinal, existir é coexistir com o passar do tempo, mesmo que isso signifique correr um risco constante. Ou coexistir com uma angústia que nunca cessa” (Araújo, 2000, p.171).


IV. Considerações Finais

O objetivo desta monografia era compreender melhor as angústias existenciais e poder contribuir para sua compreensão enquanto experiência inerente à condição humana.

Espero ter conseguido contribuir para aproximar as angústias existenciais da consciência, ampliando sua compreensão a respeito de não ser um conceito patológico, mas algo inerente à existência e, portanto, algo à qual se deve entregar-se. Entregar-se não no sentido de abandonar-se, deixar-se levar pela angústia, mas reconhecê-la enquanto natural ao ser.

Minha intenção era através desse levantamento bibliográfico atentar a sociedade para aprender a conviver com essas angústias, atentar ao tipo de cuidado que se tem durante a vida, enfatizando que muitas vezes a escolha de unir-se ao impessoal é uma vã tentativa de evitar erroneamente a angústia. A escolha deve ser outra, a da autenticidade, compreender que se é finito e que, portanto, não há tempo para viver enganosamente. É preciso agir. E já.

Apenas dessa maneira é que ocorrem progressos reais e se encontram sentidos para a vida. A origem não importa mais, o que interessa é o que é possível realizar a partir do momento que se está lançado no mundo. Isto depende das escolhas que são realizadas e a admissão das responsabilidades sobre suas conseqüências.


V. Referências Bibliográficas

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Dartigues, A. (s/d). O que é a fenomenologia? São Paulo: Centauro Editora.

De Araújo, J.N.G. (2000). Angústia e temporalidade. Em: Angerami – Camon, V.A. (Org.), Angústia e psicoterapia (pp. 143 - 173). São Paulo: Casa do Psicólogo.

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